Ilha de Ar - Os Quatro Elementos, Volume 3
Dúvida
Fazia quase vinte dias que Lucca Gonçalves Tosquini havia fugido de Corum bá, no Mato Grosso do Sul, com um a índia princesa a tira-colo. Deixara para trás sua fam ília adotiva e seu em prego com o arqueólogo para seguir a verdadeira irm ã rum o a um destino incerto, reservado para eles, no retorno para casa. Mainá Kadiwéu largara sua herança e sua tribo para segui-lo com o prom etida do filho da terra.
Am eaçado de m orte pelo coronel José Cruz – fazendeiro rico e influente na capital do Pantanal – pela hum ilhação pública de sua única filha, Vitória, ao abandoná-la no altar, Lucca não tivera escolha. Forçado a um casam ento rápido sem am or, não haveria argum entos que convenceriam o velho a desistir do com prom isso depois do longo nam oro de sete anos.
Não se sentia satisfeito com a decisão que tom ara, porém fora preciso. Prático e racional com o era, não percebera o engano que estava com etendo até conhecer Mainá. A sensibilidade da indígena conseguira rom per a barreira que envolvia seus sentim entos e aj udá-lo a com preendê-los e externá-los. Essa experiência despertou nele o verdadeiro am or que nutria exclusivam ente a ela.
O m istério do ônix, que a índia Kadiwéu carregava em seu colo, foi solucionado com a chegada providencial de sua irm ã legítim a, tão sem elhante a ele – ruiva, branca, olhos verdes –, à aldeia onde estava escondido com Mainá. Tam ires Tosquini do Valle chegara em um helicóptero acom panhada dos dois cunhados: o m oreno Alexandre do Valle e o loiro Marcel Vieira.
Desde então, só falara com a m ãe adotiva, Isabel Gonçalves, apenas um a única vez. Não era seguro, visto que o fazendeiro sanguinário não desistiria tão facilm ente de encontrá-lo e cum prir sua am eaça. Não podia nem pensar em escrever um a carta contando direito para sua fam ília o que acontecera. Saíra apenas com a roupa do corpo e os docum entos.
Largar o em prego no auge da carreira, a m aior loucura que fizera. Geria um grande grupo de arqueólogos e historiadores em Corum bá. Trabalhavam em um sítio no Parque Marina Gatass, onde encontraram artefatos com o lanças, cerâm ica e representações religiosas indígenas. Com seu trabalho aj udava a contar a história da própria origem do povo pantaneiro.
Às vésperas de seu casam ento e de sua fuga, Lucca e sua equipe acabaram de escavar e identificar um grande obj eto que os colocaram na m ídia nacional. Com inscrições em relevo, o pedestal contava a origem do povo Guaikuru – ancestrais dos Kadiwéus – segundo suas lendas religiosas. Esse povo fora historicam ente im portante à época da colonização do Brasil por participar da Guerra do Paraguai.
Nas últim as duas sem anas, ouvira com calm a toda a história de sua verdadeira fam ília, de onde vieram , por que foram separados, com o foram encontrados, todos os detalhes e as versões om itidas anteriorm ente pela pressa da situação. Conhecera sua irm ã caçula, Suzane Vieira, e ficara com ovido com sua fragilidade. Tão pequena e debilitada. Desde quando chegara ali, nunca a vira se levantar da cam a.
A casa de veraneio era grande com o as antigas construções do arquipélago. De frente para a praia, possuía vários quartos, um a vasta cozinha e inúm eras salas. Era aconchegante com o coração de m ãe. Fora fácil acom odá-los ali com o se tivesse sido escolhida para recebê-los. Enquanto não fizeram com pras, Alexandre e Tam ires lhes em prestaram algum as roupas.
Aos trinta e dois anos, Lucca considerava a oportunidade que a vida lhe dera um recom eço. Nova fam ília, novo am or, novos am igos, nova casa, novo estado. Adorou o clim a seco da nova cidade. Apesar de quente, com o o Pantanal, ali ventava m uito m ais. Ao invés da terra alagada, seus pés tocavam areia fofa. E o m ar, im enso e bravio, era tão diferente da calm aria do Rio Paraguai.
Inseparável, Mainá o acom panhava na contem plação da beleza natural do lugar. Sentados sobre um a rocha de m ãos dadas, pés descalços, roupas leves e claras, assistiam ao pôr do sol no horizonte azul. Aves m arinhas cortavam o céu, golfinhos saltitavam nas ondas, pássaros piavam na m ata atrás. Lucca se virou para a índia e adm irou sua beleza acariciada pela m aresia.
Sentiu o olhar dele sobre ela e se voltou sorrindo tim idam ente. Ainda não se acostum ara ao m odo com o a olhava. Em outra situação, com o nas escolas dos brancos, por exem plo, sabia que ficavam surpresos quando percebiam que era indígena. Mas agora era diferente. Ele a olhava com adoração, apreciando um a beleza que ela m esm a não acreditava que possuía.
Ele era tão lindo. Ainda não acreditava que aquele deus realm ente estava apaixonado por ela, um a sim ples índia, com nenhum atrativo real. Mainá tinha a pele averm elhada, cabelos pretos lisos, olhos oblíquos castanho-chocolate, boca m arcante e corpo firm e e bem torneado. Era um a pessoa de atitude, tem peram ento forte e destem ido, e altam ente espiritualizada.
Quando ficara ciente de seu destino, com o prom etida do filho da m ãe Terra e de Tupã, j am ais im aginara que poderia realm ente ser feliz. Aceitara esse cam inho por não estar em suas m ãos decidir, apenas cum prir. Som ente depois, quando pousara os olhos sobre ele, percebeu o quanto aquela prom essa poderia lhe custar. Se fosse rej eitada, seria am aldiçoada e infeliz.
Porém , seus olhos verde-oliva lhe diziam que isso j am ais aconteceria. Por m ais que ele tivesse lutado contra esse am or por ser com prom etido – e acim a de tudo um hom em correto –, estava ali agora, sob o reflexo do sol que se despedia daquele recanto do planeta para nascer em outro lugar.Havia sido criada para acom panhá-lo, aonde quer que ele fosse. Seu lugar era ao lado do filho da terra.
Sabia quatro línguas diferentes e, no entanto, nenhum a delas era m ais profunda e verdadeira do que aquela conexão visual que falava por ela. Mainá se sentia vivendo um a extensa lua de m el naquele paraíso da natureza. Foram as duas m elhores sem anas de sua vida. Apesar da som bra do m edo e da insegurança do am anhã pairar constantem ente sobre suas cabeças.
Tentava afastar esses pensam entos angustiantes o m áxim o que podia para que Lucca não os lesse. Ele não falava de suas inquietações sobre a m issão que lhe fora proposta e aceita de prontidão, m as que era tão obscura e incerta quanto um túnel longo, som brio e desconhecido. Para ela, não im portava qual seria o desfecho dessa história. Se m orresse, que fosse ao lado de quem am ava.
Piscando os olhos de um chocolate derretido, a índia desanuviou os pensam entos velozm ente e se aconchegou ainda m ais nos braços daquele hom em forte e m usculoso. Desviou o olhar a tem po de ver a últim a porção do sol se esconder na linha longa e escura do m ar. O céu, m uito claro, ilum inado pela lua cheia, sem nuvens e pontilhado de estrelas brilhantes, era um tapete azul-m arinho infinito.
Fechou os olhos e seus pensam entos se voltaram para sua atual situação. O últim o elem ento que faltava e as pedras roubadas – tanto a am etista de Tam ires quanto o ônix de Lucca – eram necessários quando o alinham ento finalm ente chegasse para que pudessem abrir o portal para o novo e velho m undo para o qual estavam indo. Novo para eles, porém tão antigo quanto a form ação do planeta.
Pensou que aquela era agora sua nova fam ília e sentiu saudades de seu pai, o cacique Piatã, seu irm ão m ais velho Apuã, e até do paj é da tribo, Unaí. Sabia que estariam pedindo aos espíritos que os protegessem nesse cam inho sem volta. Lucca puxou seu rosto para que pudesse m ergulhar em seus olhar novam ente e antes que pudesse ler suas angústias, Mainá o beij ou.
Sentada na varanda da antiga casa, a vários m etros de distância da rocha onde o casal protagonizava um encontro rom ântico, Tam ires observava o irm ão e a índia cunhada, com o a apelidara. Encontrá-lo havia lhe proporcionado um a alegria im ensa, porém assistir diariam ente, com breves intervalos, a felicidade do novo casal, lhe causava um a dor aguda.
Era um a m ulher sensível e dedicada ao am or. Prim eiro pela fam ília que nunca conheceu – em Foz do Iguaçu, Paraná, viveu em um orfanato dos três anos até a m aioridade. Em seguida, pela m elhor am iga Carolina Silva, com quem dividiu um m inúsculo apartam ento depois que saíram do abrigo. Gustavo do Valle entrou em sua vida pouco depois e lhe deu de presente seu m aior tesouro, a filha Sofia.
Sentia m uita falta deles. Tinha que se lem brar todo dia que aquela distância fora provocada por ela m esm a. O próprio Gustavo usara seu livre arbítrio e não a seguira no cam inho de volta ao lar. E era essa separação que lhe doía. Enquanto o tem po passava, m ais irreversível a situação se tornava. Sua única esperança era rever a filha antes que fosse definitivam ente em bora.
Enquanto Suzane tinha Marcel, e Lucca, Mainá, Tam ires suspirava por seu único am or sabendo que ele acabara há quase dois m eses, quando ela escolhera sua origem a m anter sua felicidade intacta. Muitas palavras foram ditas no calor da em oção. Muitas atitudes erradas foram confrontadas durante a decisão e em nenhum m om ento se arrependia do cam inho que escolhera.
Ao seu lado estava sua verdadeira fam ília, m aior do que poderia ter im aginado e não podia se esquecer do apoio incondicional do irm ão de seu m arido, Alexandre. Ele sim fora capaz de largar sua vida em Foz e segui-la até o outro lado do país a fim de lutar por sua causa. Desde lá a protegera dos perigos que a assom braram enquanto era m arcada a fogo.
Aquele hom em alto, forte, m oreno, com olhos tão escuros e profundos quanto a noite, lindo e irresistível para qualquer m ulher, estava ali por um único m otivo: ele a am ava e escolhera ficar ao lado dela sem pedir nada em troca, m esm o sabendo que am ava outro hom em – fisicam ente m uito parecido – e que não estava aberta para um a nova relação, por m ais deteriorada que a sua com Gustavo estivesse.
Apesar de saber racionalm ente de tudo isso, não conseguia explicar a forte atração que o cunhado exercia sobre ela. Dem orou seis anos para reparar nele, m as agora não conseguia pensar direito quando estava por perto, o que acontecia o tem po todo. Só não dorm iam j untos, do resto, estavam sem pre dividindo seu tem po, lem branças e pensam entos.
As duas sem anas passaram lentas e arrastadas para Tam ires. Se tivesse apenas Marcel para conversar, com o antes, estaria se descabelando, m as com Alexandre era sem pre m ais calm o. Se queria conversar, ele estava disponível. Pensar, ele não a im portunava. Preocupar-se, ele estava lá para acalm á-la.
Tam bém sabia que a tranquilidade se dava ao fato de Marcel e Suzane ainda não terem encontrado o últim o m em bro de sua fam ília perdida. Algo lhe dizia que não dem oraria m uito agora e todos estariam reunidos. Faltava m uito pouco para o verão term inar. Algum as sem anas e o outono chegaria e traria o sinal que esperavam . Só ansiava por um m ilagre que trouxesse de volta as pedras perdidas. Sem elas, com o abririam o portal para que pudessem voltar para casa?
Desviou a atenção do casal a distância e procurou o olhar sereno do m oço ao seu lado, sentado em um a cadeira de varanda. O rapaz correspondeu im ediatam ente e lhe deu um sorriso discreto. O da m oça foi tão sem graça que o cunhado esticou o braço e apertou sua m ão.
Com um suspiro, ela a agarrou com força e se debruçou na cadeira, aproxim ando seu corpo do calor dele, m esm o distante alguns centím etros. O vento que vinha do m ar, depois do anoitecer, passou a soprar gelado. A roupa curta de verão que usava não a protegia m ais.
Vendo o braço da cunhada se arrepiar de frio, ele se levantou – j á era de casa – e voltou rápido com um a m anta. Ela agradeceu com um sorriso enorm e que o desconcentrou e o hipnotizou, com o sem pre. Sentiu, com prazer, os dedos gelados dela se enroscarem de novo entre os seus.
Antes de se sentar, ele deu um pequeno chute na cadeira para aproxim á-la m ais da outra. Ficaram encostadas. Agora sim podia sentir o calor da pele do braço dela contra o seu. Seu arom a delicioso invadindo seu corpo lhe proporcionava um a torrente de prazer.
Nunca planej ara se apaixonar pela m ulher de seu irm ão m ais velho. Tanto que convivera anos com ela sem nem m esm o notá-la de verdade. Som ente depois que a vida conj ugal de Tam ires e Gustavo virara de pernas para o ar – consequência dos acontecim entos m ísticos que ela presenciara – que finalm ente percebera a m udança ocorrer.
A beleza que irradiava dela era im possível passar despercebida. Qualquer m ortal – ou im ortal – que tivesse olhos a notaria e todas as tentativas de não se envolver com ninguém foram por água abaixo quando pousou os olhos sobre ela naquela noite de réveillon.
Não tivera escolha e agora estava perdidam ente apaixonado por ela a ponto de brigar com o irm ão, enganar Carolina – que nutria um a paixão platônica por ele – e se m udar para o outro lado do país porque não podia viver sem ela. Mesm o sabendo que não sentia o m esm o por ele.
Porém , desde que a reencontrara, percebia que ela se aproxim ava sutilm ente. Talvez por carência ou por solidão. Mas gostava de pensar que era pela atração. Percebia seu olhar perdido quando se encaravam . Muitas vezes ela se deslum brava e isso significava m ais do que am izade.
Não fora atrás dela m endigar seu am or ou perturbar sua paz, m as oferecer o apoio que seu irm ão negara. Não podia conceber a atitude de Gustavo, j á que dizia que a am ava tanto e quase m orrera para salvá-la. Era tão contraditório e egoísta. Era para ele estar ali ao lado dela, incondicionalm ente.
Mas a deixara partir e o coração de Alexandre ficara inquieto. Depois de tudo o que fizera para protegê-la em Foz e depois da briga horrível que tivera com Gustavo, não tinha m ais porque continuar esperando por notícias de Tam ires. Precisava saber com o estava e se precisava de aj uda.
Por fim , exigira o que relutava tanto em dividir. Ela queria saber os detalhes do lugar de onde vieram , e para onde pretendiam voltar, j á que fora o últim o a sair. Sem alternativa, ele lhe contara tudo o que precisava saber para conhecer m elhor o cam po m inado onde pisariam em breve.
Sua atitude descom prom issada ganhou a confiança não só de Tam ires, m as tam bém do restante da fam ília. Na fuga de Lucca, sua perspicácia e ação rápida foram im prescindíveis para que houvesse êxito. Sua opinião agora era solicitada inclusive por Marcel, o prim eiro a organizar os resgastes. Hoj e, tinham um bate-papo franco e aberto, onde todos opinavam . E se orgulhava de ter sido aceito na equipe.
Satisfeito com os resultados de seus esforços, sorriu sozinho e buscou a cum plicidade do olhar de Tam ires. A m oça o encarou de volta, im itando sua expressão. Sem perceber, o rapaz se aproxim ou da cunhada, inclinando a cabeça em direção a sua boca verm elha que o convidava.
A porta de entrada se abriu abrupta e ruidosam ente, assustando o casal na varanda. Marcel irrom peu pela passagem , anunciando, quase aos berros.
– Nós o encontram os!
Tam ires até se esqueceu de ficar brava com o cunhado loiro depois da declaração. Levantou-se im pulsiva, abandonando a m ão de Alexandre e seguiu-o para dentro da casa. O m oreno foi atrás e logo depois Lucca e Mainá cruzavam a porta tam bém .
***
– Seu nom e é Nicolas – com eçou a contar Marcel quando todos j á estavam sentados ao seu redor na pequena sala de estar. – Ele está em um parque no litoral do Espírito Santo. A pedra está perto dele, m as...
Tam ires j á estava quase roendo as unhas de ansiedade e o cunhado ainda fazia suspense.
– Qual é o problem a? – perguntou. – Fala logo!
O loiro franziu o cenho. Tinha que ser sem pre a m ais apressadinha.
– Não sei ainda o que é. Mesm o estando com Suzane, não consegui identificar a outra força m ística que estava com ele. Era diferente. Nunca senti nada assim antes.
Lucca viu Tam ires corar fortem ente e perguntou à irm ã o m otivo em um m urm úrio discreto. A m oça achou m elhor contar a verdade. Então se aproxim ou do sofá onde o irm ão estava e cochichou em seu ouvido. O rapaz tam bém ficou verm elho e de boca aberta em choque enquanto ela voltava para seu lugar ao lado do cunhado m oreno. Alexandre tentava tirar m ais inform ações sobre a energia nova que Marcel havia sentido.
– Não sei bem . É forte, com o se fosse um a barreira, um a fortaleza. Ao m esm o tem po em que parece transparente e penetrável, é dura com o rocha – suspirou o loiro percebendo que não com preendia suas referências. – Quando sinto qualquer um de vocês, a energia é palpável, detectável e nítida. Por exem plo, Tam ires para m im é um a energia verm elha e intensa. Consigo m edir sua força. Por outro lado, você, Alexandre, para m im , é um a energia branca e brilhante. – Refletiu por um instante antes de acrescentar. – É com o se essa força estivesse preparada contra m eus poderes. Com o se ela conseguisse m e bloquear.
O m oreno paralisou im ediatam ente tenso. A ruiva o acom panhou por instinto. Tam bém não a agradou a últim a frase do cunhado. Lucca achou a conversa intrigante e tentava im aginar o que aquilo significaria para eles. Mainá não sabia o que concluir, m as algo lhe dizia que não era bom .
– Suzane? – sussurrou Tam ires quebrando o silêncio.
– Adorm eceu em seguida – disse tam bém em voz baixa sentindo a pressão no ar. – Nunca a vi se esforçar tanto com o dessa vez. Das outras, bastava a pedra acender que ela j á via. Dessa vez não foi tão sim ples assim . Nem com igo j unto...
– Tudo bem , que ela descanse – cortou com a voz irritada.
– Essa energia pode significar um inim igo? – perguntou Lucca voltando ao assunto.
– Receio que sim – concordou Alexandre.
Marcel tentava absorver as dúvidas levantadas. Precisava de m ais inform ações para poder concluir o raciocínio obj etivam ente.
– O que você sabe sobre essa energia? – questionou.
– Nunca vi nada sem elhante antes – esclareceu o m oreno. – Apesar de que não tenho sua capacidade de rastrear. Apenas sinto a energia quando está próxim a, m as elas são praticam ente iguais para m im , m udando em um ou outro detalhe sutil que m e perm ite distinguir entre as pessoas que conheço.
– Com o acontece com igo – acrescentou Tam ires.
– Então por que m e perguntou com o era essa energia? – tentou entender Marcel.
– Porque eu esperava que você pudesse dizer m ais. Pelo pouco que fala, percebi que a form a que seu dom identifica as energias é diferente da nossa. Você sem pre sabe dizer quem é quem , m as nunca havia explicado m elhor.
– É, Marcel não tem facilidade em falar – riu a ruiva.
Ela sem pre conseguia irritar o loiro m esm o quando não tinha m otivo.
– Pode ser verdade, m as pelo m enos sou um a pessoa que penso antes de agir, não aj o por im pulso.
– Não – retrucou a ruiva com raiva. – Com certeza. Você pensa tanto que não age nunca!
O clim a ficou pesado enquanto os cunhados se encaravam ferozm ente. Que gênio têm esses dois!, pensou Lucca revirando os olhos. Já se habituara com aquelas cenas típicas. Sua irm ã não era um a pessoa que deixava algo passar e sem pre questionava a opinião alheia.
– Tudo bem , pessoal – interveio Alexandre, o apaziguador. – Essa não é a discussão principal, ok? Vam os voltar ao que interessa.
– Já falei tudo o que sei – concluiu o loiro irritado.
– Acho – retom ou a ruiva – que devem os nos preocupar a partir de j á com Nicolas e nos prepararm os para viaj ar o quanto antes. Precisam os ficar o m ais perto possível dele.
Marcel preferiu nem opinar, porque sabia que ela diria isso. Sem pre desesperada e preocupada. Im paciente dem ais. Será que ela não via que precisavam de m ais inform ações antes de partir? Nem sabiam onde ele m orava.
– Talvez – refletia Alexandre em voz alta. – O que m e preocupa é se essa força tiver algum a coisa a ver com o desaparecim ento das pedras. Se for m esm o um sabotador, terei que concordar com Tam ires.
Com espanto, Marcel encarou o rapaz m oreno e alto. Sentiu-se traído. Em seguida, pensou: O que mais poderia esperar dele? Afinal, está na cara que é caidinho por ela. É claro que faria qualquer coisa para agradá-la, inclusive concordar com suas loucuras. Segurou para não bufar antes de cortar aquela conversa. Odiava exageros.
– Ok, ok. Agora peço a palavra. Ainda não sei onde ele está. Sei apenas que é um parque no litoral do Espírito Santo. Tem dunas enorm es e um rio que deságua no m ar assim que elas acabam . Alguém se habilita a adivinhar?
O silêncio pairou na sala por um tem po longo dem ais. Todas as m entes trabalhavam em busca de um a resposta satisfatória. Estava se sentindo um vencedor quando Lucca quebrou o silêncio.
– Podem os pesquisar na internet.
Bufou dessa vez e se adiantou antes que alguém concordasse com aquilo.
– Tudo bem , podem os. Mas você j á pensou que a descrição pode nos dar m ilhares de resultados? Se quiser aproveitar seu tem po livre, ótim o, pesquise. Mas vou continuar rastreando, que é a m elhor coisa que posso fazer, para encontrar a resposta certa.
– Ei, é carnaval, gente. Pode ser que este lugar nem sej a onde ele m ora – falou pela prim eira vez a índia.
Ninguém foi capaz de falar algum a coisa, porque Mainá estava certa e isso dava m otivo para Marcel se vangloriar j á que sua opinião ainda era a m ais sensata no grupo. Vencida, Tam ires falou.
– Tudo bem . Acho que esperar m ais um pouco pode m esm o ser m elhor.
– É o m elhor – enfatizou o loiro.
– Com o estava dizendo antes de ser interrom pida – fuzilou o cunhado com o olhar –, pode ser m elhor se houver um a garantia de que Nicolas ficará bem até que se descubra m ais sobre ele.
Marcel gargalhou alto antes de responder.
– Ah, posso te garantir que ele está ótim o.
– Com o? – duvidou Tam ires.
– Ele estava acom panhado por um a m ulher. Um a trem enda m ulata.
***
– Um a m ulher – dizia a ruiva para Alexandre de volta a varanda. – Será que Nicolas estava aproveitando a prim eira noite de carnaval?
– Pelo tom de Marcel, acho que sim – respondeu o cunhado.
– Não sei. Não tenho um a boa intuição sobre isso.
Ficaram em silêncio por um tem po que foi quebrado pelo rapaz.
– Não consigo im aginar guardiões negros rondando Nicolas. Com o eles o acharam antes de nós?
– Não sei e não gostei do term o que usou. Até tive um calafrio. – Ele a estreitou nos braços para aquecê-la. – Não vou conseguir ficar parada aqui enquanto Nicolas está em algum lugar desprotegido.
– Eu sei – falou em m eio a um sorriso. – Não ficarem os parados.
– Você tem algo em m ente?
– Para dizer a verdade, ainda não, m as pensarei em algo.
Tam ires apreciou o carinho que lhe fazia no braço, subindo e descendo. O calor acom panhando seu gesto. Era tão bom .
– Ale, m as concorda com igo que tem os que ir m ais cedo atrás dele?
– Sim . Assim que souberm os para onde.