Ilha de Ar - Os Quatro Elementos, Volume 3
Guardiã
G UARDIÃ
A maldita vida não era um conto de fadas. Minha audição aguçada e intrometida me lembrava disso enquanto espreitava a conversa alheia. Que ódio! Nunca mais teria sossego nem para ficar sozinho com meus próprios pensamentos?
Identifiquei as vozes enquanto ouvia a discussão acalorada, porém baixa suficiente para que outros – pessoas comuns, não malucos como eu – não pudessem ouvir. Mas podia entender cada palavra e não pude evitar o interesse quando meu nome escapou.
– Precisamos conversar com ele, Eugênio. Chega de teimosia. Ele está sendo vigiado. Se não fosse por mim, sabe-se lá o que teria acontecido.
– Pai, por favor, deixe Nicolas em paz. E se ele não quiser essa vida?
– Ele não tem escolha, filho. É seu destino. Todo o planeta depende disso.
– É claro que ele tem escolha, pai. Fiz a minha também, apesar de sua insistência em tentar incutir essa história maluca na cabeça de meus filhos.
– Mais respeito, Eugênio. Não renegue sua origem. Isso lhe será cobrado em algum momento da vida, assim como foi a mim.
– Que história é essa, vovô?
Lara? Como ela ouvira a conversa? Estaria atrás da porta vigiando os dois? Parecia mesmo se alteravam toda vez que eu aparecia. Seria melhor ir embora? Não queria causar briga em uma família tão unida.
– O que está fazendo aqui, filha?
– Chega de enrolação, papai. Quero saber o que está acontecendo agora.
– Não é nada, minha filha. Só as velhas histórias de seu avô.
– Vocês falaram de Nicolas, eu ouvi. O que tem meu namorado?
– Também ouvi.
Lorenzo! Ai, meu Deus! Agora eram dois inimigos contra dois aliados meus. Isso não ia prestar. E agora, o que fazer, Nicolas? Pense, pense. Mas nenhuma ideia me ocorreu a tempo de salvar o dia. O tempo fechou.
– Ah, não, você também? Já disse que não é nada. Voltem para seus afazeres. Lara, seu namorado não está precisando de nada?
– Cala a boca, Eugênio! – gritou Francisco. – Chega de enganar seus filhos e menosprezar a capacidade mental de seu pai. Isso é um abuso! Vou contar tudo, queridos, sentem-se.
Eugênio bufou e saiu do quarto com pisadas duras. Não concordava, mas não impediria.
Seu pai não havia deixado escolha. A curiosidade me queimava por dentro. O que ele contaria?
– Há muitos anos, muitos mesmo, antes de sonhar viver deste lado e ser pai, vivia em um lugar mágico, repleto de seres elementais, de uma natureza viva e constante, de feiticeiras, magos e portais encantados. Era uma criança feliz até descobrir, na adolescência, qual era a minha missão.
Eu me lembrava de alguma coisa dessa história. Lara já havia me contado uma vez. Era o início de um conto que ele narrava antes deles dormirem quando crianças. Espantou-me a semelhança com a narrativa de mais cedo, daqueles estranhos. Ah, quer saber? Quantos contos de fadas não começam iguais? Lorota!
– Era filho de um primeiro-guardião. Um ser elevado entre os humanos dotados daquela terra especial. O comandante, o líder, o guerreiro, o capitão. Como entrara na adolescência, começaria a ser treinado especificamente para substituir meu pai no futuro nessa função de grande responsabilidade. Até então tudo bem para um jovem buscando aventura.
O silêncio na sala e na casa era aterrador. Podia ouvir apenas o som dos corações batendo cadenciado como uma trilha sonora para a história que o avô de minha namorada contava. Também estava encantado com a narrativa, apesar do absurdo. Francisco era um ótimo contador de histórias.
– O que me fez temer foi a profecia. A profetisa mais antiga do lugar previu que algo muito ruim iria acontecer àquela terra, lugar que eu amava. Muitos morreriam tentando proteger os alvos do mago poderoso e sem escrúpulos que se ergueria. Estava sendo treinado para liderar os guardiões durante a posse do mago e proteger quantos pudesse, principalmente os escolhidos.
Meu coração bateu descompassado quando ouvi as últimas palavras. A tal da profecia estava sendo repetida para mim em menos de duas horas. Não merecia aquilo. Ainda assim, não consegui me conter e continuei escutando atentamente.
– Os escolhidos seriam os salvadores, pessoas poderosas ligadas aos quatro elementos, com suas respectivas pedras, que seriam os únicos capazes de derrotar o tal mago. Tinha muito medo de magos. Eles eram velhos e ranzinzas, com rugas infinitas e cabelos brancos longos e pontudos que lhe davam um ar etéreo. E conseguiam mesmo a façanha. Possuíam um conhecimento de magia como poucos e podiam fazer o que quisessem com ela caso resolvessem usá-la a seu bel prazer.
Quase ri, mas algo dentro de mim me impediu.
– A ideia de enfrentar um mago poderoso, que seria capaz de destruir uma sacerdotisa também poderosa, com uma adega de ouro e um pequeno exército limitado de poderes não me agradou em nada. Como um covarde e imaturo, decidi que aquela guerra não era minha. Que tinha que sobreviver de alguma forma, mesmo que a terra que tanto amava não suportasse as mudanças forçadas por magia. A natureza é sábia, meus netos, escolhe seu percurso com foco na coletividade, nunca somente em sua sobrevivência.
Não pude evitar um solavanco de riso. O que era aquilo? Teria uma crise toda vez que ouvisse coisas bizarras? Por que não ria agora enquanto ouvia a conversa alheia com capacidades que não deveria ter. Fica quieto, Nicolas, me repreendi.
– Na primavera seguinte, o portal se abriu e parti sorrateiramente do mundo encantado onde vivia e caí nesta selva que é a Terra. Nunca havia saído de lá antes. As primeiras horas foram de grandes descobertas, que vocês considerariam parte de seu cotidiano. Esta terra fértil e agradável me apeteceu de cara e resolvi ficar até me estabelecer completamente. Primeiro me sustentei com bicos, depois empregos fixos, até conseguir comprar este sítio. Demorou muito tempo. Já conhecia sua avó e Eugênio já havia nascido. Porém, me sentia completo com a vida que levava aqui.
A sinceridade de Francisco me comoveu. Era um homem simples, simpático e honesto. Não parecia alguém com a sanidade abalada devido à idade senil. Suas palavras tinham o peso da sabedoria conquistada em muitos e muitos anos.
– Mesmo tentando ignorar minha origem, nunca deixei de pensar naquele lugar fantástico. Por isso, dividia com vocês durante a infância parte dessa história. Parei quando o pai de vocês começou a reclamar muito e a gente mais brigava do que conversava. Também contava tudo para ele desde pequeno, mas cresceu incrédulo, influenciado pela mãe que achava minhas histórias fantasiosas demais, mesmo sem ter noção do quanto eram verdadeiras.
O idoso riu saudoso. Podia imaginar até suas bochechas marcadas pelo sorriso maroto na cara enrugada. A memória de Francisco me impressionava. Depois de tanto tempo e de passar dificuldades humanas, como ainda se lembrava de tudo isso?
– Para mim eram mais lembranças. Nunca pensei que de fato teria um reencontro com esse passado. O primeiro sinal foi o alinhamento planetário. – Engoli em seco, outra coincidência? – Depois, a energia da pedra se manifestou e pude senti-la, mesmo sem querer. Você também sente, não é, Lara? – Imaginei minha namorada apertando a pedra entre as mãos e balançando a cabeça positivamente. – Sim, ela é poderosa e reacendeu em nós uma herança genética impossível de refrear. O segundo sinal foi a aproximação de Nicolas.
Nesse ponto gelei, era a hora da verdade. O que eu tinha a ver com tudo aquilo? Tinha medo de saber, apesar da desconfiança e ao mesmo tempo queria muito ouvir tudo. Que confusão dentro mim!
– Atraído pela pedra..., não me leve a mal, Lara, você é linda e não duvido do sentimento dele por você, mas a primeira coisa que o atraiu de volta foi a pedra..., a energia do elemento ar se manifestou nele e começou a tomar a forma de seu corpo e moldar seu novo ser. Vocês se lembram da nuvem de ontem? Aquela era a manifestação descontrolada da energia dele.
– E a dourada? – sussurrou Lara.
– É a nossa, mas a que estava na tempestade era minha. Criei um escudo para protegê-lo de seus perseguidores. Você também os pressentiu apesar de não conseguir identificá-los ainda. A energia de Nicolas estava descontrolada porque ele vivia uma passagem. Deixava de ser um homem comum para se tornar um protetor em sua essência. Um guardião da natureza com poderes sobre os quatro elementos, principalmente o ar. Existem outros três que não faço ideia de onde estão. Precisamos ajudá-los a se unirem e cumprirem sua missão. O alinhamento se aproxima.
– Vovô, mas o que tem o alinhamento além da energia? O que acontecerá nesse período? – perguntou minha namorada.
Sabia a respostas e meu coração batia descontrolado enquanto aguardava ouvi-la novamente dos lábios do idoso.
– O evento permitirá que um grande portal, com um sinal que poderá ser visto por todos os guardiões do planeta, se abra para o mundo de onde vim. Vocês, meus netos, precisam se juntar a eles e ajudar nessa luta. Há trinta anos, podia ter ajudado se tivesse sido treinado antes, mas fugi de minha responsabilidade. Vocês não podem cometer o mesmo erro, por mais que seu pai seja contra. É algo muito maior, cada vida está em jogo. O destino colocou Nicolas no nosso caminho.
Para mim já estava mais do que bom. Aquele papo de novo estava causando contrações fortes no meu estômago. Precisava sair dali imediatamente. Voltar para minha vida, para minha rotina, para a normalidade e esquecer aquele dia, todas as palavras que ouvira, todos os acontecimentos estranhos que me levaram a elas.
Não esperei sair despercebido porque sabia que seria inútil, mas também não me despedi de ninguém. Joguei minha mala mal fechada no banco do passageiro e arranquei com meu carro rumo à Vitória. Seria muito pedir minha vida de volta?
***
Lara não teve tem po de absorver todas as palavras do avô. A saída repentina de Nicolas cantando pneus na terra seca do sítio a arrancou de seus pensam entos violentam ente. Teria ouvido toda a conversa? Parecia que sim . O susto a m anteve no lugar sem saber que decisão tom ar. Deixá-lo ou segui-lo?
– Vá atrás dele, m inha filha – decidiu Francisco pela neta. – Não saia de perto dele. Vai precisar de todo o apoio necessário para entender e seguir seu destino.
A m ulata não pensava m ais em si m esm a e sua própria confusão. Nicolas era m ais im portante e ele estava m uito m ais fragilizado do que ela. Quando pudesse, pensaria sobre as novidades que seu avô lhe contara. Nunca im aginara que ela e o nam orado viessem do m esm o lugar e que de algum a form a, tivessem seus destinos entrelaçados.
Será que esse m esm o destino os unira, com o Francisco dissera? Será que tudo acontecera daquela m aneira para que ela pudesse ser o porto seguro que Nicolas tanto precisava neste m om ento de transição entre um a vida e outra? Aquilo ainda era tão chocante e ao m esm o tem po tão bom .
Enquanto em bolava as roupas na m ala, refletia rapidam ente sobre as sensações que aquela história causara nela. Não era exatam ente novidade, porque a ouvira m uitas vezes na infância. O fato de ser verdadeira tornava o conto de fadas real. Era com o um sonho. Um sonho lindo.
Sou uma guardiã. Não, uma primeira-guardiã, corrigiu-se. Já tinha ouvido inúm eras histórias sobre esses defensores da natureza e seus elem entos e sem pre se im aginara no papel. Saber agora que conseguira realizar um sonho de m enina a deixava nostálgica e contente. O avô entrou no quarto seguido pelo pai que estava m ais carrancudo do que nunca.
– Você não precisa ir, filha – im plorou Eugênio. – Não precisa arriscar sua vida por ele.
Encarou o pai por alguns segundos. Se pudesse ler sua alm a, saberia a im ensidão de dor que habitava em seu coração. O m edo de perdê-la gritava na expressão dolorosa em seu rosto. A m ulata sentiu o coração dar um pulo. Deu alguns passos na direção dele.
– Pai, eu te am o m uito – m urm urou. – O senhor sem pre m e ensinou a fazer o que é certo. Não posso abandoná-lo, prim eiro porque sou responsável por ele. – O pai tentou cortá-la. – Por favor, deixe-m e term inar. E segundo porque eu tam bém o am o. Não suportaria deixá-lo agora sabendo que precisa de m im .
Abraçou e o beij ou com o se despedisse. Eugênio estava quase em prantos. Afastou-se da filha rápido, sem dizer palavra, e se refugiou em algum canto longínquo para não vê-la partir. Francisco se aproxim ou com um obj eto entre as m ãos. Estendeu a ela.
– Leve isso com você.
– O que é?
O tecido era de um m aterial que não conhecia. Parecia artesanal e antigo, m as resistente. Não aparentava desgaste. Estava escurecido, provavelm ente por causa do tem po. Envolvia um obj eto pesado, longo e fino. Ela m ediu tudo isso enquanto o descobria.
O espanto foi a expressão que se fixou em seu rosto ao vê-lo. Todo em ouro, não tinha m ais do que vinte centím etros de com prim ento e havia pedras preciosas incrustadas no cabo em form ato de cruz. Lara se perm itiu analisá-lo com um pouco m ais de cuidado.
– Este punhal de ouro, com rubis e diam antes, é o sím bolo do prim eiro-guardião. Foi forj ado pelas salam andras, elem entais do fogo, e possui m uita m agia. Você precisará dele para onde vai.
Sem perder m ais tem po, Lara envolveu o punhal novam ente e o enfiou na m ala antes de fechá-la. Partiu prom etendo dar notícias em breve. Durante a viagem de carro teria tem po suficiente para pensar sobre tudo aquilo e decidir qual a m elhor atitude tom ar quanto a Nicolas.
Percebera que o rapaz não aceitaria assim tão fácil esse destino, com o ela o fez. Talvez até ela m esm a se arrependesse. Calma, Lara, nada de precipitações. Você tem tempo, pensou. E esse tem po estaria a seu favor.
Dirigia concentrada. Seus sentidos aguçados aj udavam a dividir a atenção em todos os pontos daquela história. Estava aliviada por sentir a presença de Nicolas a algum a distância, porém com nitidez. Não entendia com o, só sabia. Ele avançava rápido. Tinha pressa em sua fuga.
Com preendia seu desespero. Conhecia o rapaz bem suficiente para saber o quanto gostava das coisas com o estavam . Nada de novidades. Pelo m enos nada que não com preendesse. Aquela situação era rara e im previsível. E por m ais que ele próprio fosse assim , não gostava das coisas fora de seu curso natural.
A prim eira decisão foi a m ais fácil de tom ar. Não sairia de perto dele, se resolvesse ficar ou partir. Porém não fingiria que nada aconteceu. No tem po certo, diria o que pensava e até m esm o sobre suas novas habilidades e o prazer de tê-las. Talvez assim se habituasse a elas m ais facilm ente.
Por um instante, tem eu que a rej eitasse por isso. Será que não a am ava o suficiente para com partilhar, por m ais estranho que fosse, qualquer coisa que vivessem ? Nicolas seria tão ignorante a ponto de renegá-la? Ou a obrigaria a nunca m ais tocar no assunto? Por m ais que tivesse algum a influência sobre ela, nunca se perm itiria cabresto.
Pensou no avô e sua tristeza em ter fugido. Talvez o usasse com o exem plo. Nicolas tinha sensibilidade e discernim ento para entender. Um a vida inteira. Era tem po dem ais. Já seu pai, era m elhor nem tocar nessa parte da história. Não era um bom exem plo.
Com preendia tam bém a preocupação do pai, porém não concordava com ele. Jam ais escolheria o cam inho contrário por m edo. Seu pai estava se saindo um belo covarde. Talvez Lara tivesse puxado m ais ao avô do que a avó. Já Eugênio, tinha m ais dela.
Pensou no punhal de ouro em sua m ala no banco traseiro. Que obj eto fantástico. Forj ado com m ágica. Estava encantada. E as pedras? Era sim plesm ente lindo. Duvidava que j á tivesse sido usado com o arm a com um . Seu poder deveria ser m uito m aior do que um furo na carne. Do que seria capaz?
Associou-a im ediatam ente a água-m arinha. A pedra tinha m uito poder, podia sentir, m as o m áxim o que fazia era brilhar. Talvez com o punhal fosse sem elhante. Ergueu a m ão para tocá-la. Cedeu a necessidade de sentir aquela m agia entre os dedos, m esm o sabendo que não precisava disso para pressenti-la.
Pressenti-la? Onde? Os dedos de Lara tocaram a própria pele e não encontraram nem corrente nem j oia. Onde estava? Respirou fundo deixando o desespero de lado e se lem brou de que a deixou sobre o m óvel porque pretendia tom ar banho quando ouviu a briga entre o avô e o pai. Pegou o celular.
A m ãe a atendeu e com paciência pediu que ela conferisse a pedra e a guardasse até a próxim a sem ana. Ainda no telefone, Margarida cam inhou com seus passos sem pressa até o quarto da filha e conferiu todos os m óveis antes de responder na linha silenciosa onde Lara aguardava.
– Não tem nada aqui, filha.
– Procure direito, m am ãe. Deixei em cim a do criado-m udo.
– Tem certeza? Não está em parte algum a deste quarto. Vou olhar no banheiro.
– Não, m ãe, não precisa. Não fui lá com o colar. Não vai encontrá-lo.
Ainda assim , a teim osa foi. Realm ente não encontrou nada. Lara desistiu e desligou. Concentrou-se tanto nela que quase a podia sentir tam anha a lem brança que tinha de sua energia. Mas tinha total consciência de que não era real. Sem querer, sentiu-se na propriedade da fam ília, vasculhando com o um espectro invisível os lugares onde possivelm ente a teria deixado.
Foi estranho, porém valioso.
Mas não havia nada nem rastro. Sua energia sem pre ativa havia desaparecido. Tão ausente que chegava a fazer frio. Era com o se nunca tivesse existido.