Ilha de Ar - Os Quatro Elementos, Volume 3
Responsável
O celular pré-pago tocou no segundo em que Lucca Gonçalves avistou Giovani Pagotto saindo do prédio de Nicolas Bertoldi. Deu partida no carro ao m esm o tem po em que atendia a ligação, sobressaltando um a sonolenta Mainá. Alexandre o instruiu a seguir o veículo do capixaba.
Atento, o acom panhou durante todo o traj eto até o distrito industrial da cidade prestando atenção ao que ocorria. O rapaz não fez nenhum a pausa, a não ser as obrigatórias. Falou ao celular com a noiva por alguns m inutos. Em seguida atendeu a outros telefonem as enquanto dirigia sem pressa. Em um deles, notou que falava com o pai.
O ruivo parou em frente à grande em presa enquanto acom panhava o cam inho, depois os passos e a voz de Giovani Pagotto no interior do prédio. O arom a doce e saboroso de cacau invadiu seu organism o m uitas quadras antes de chegar ali, onde era m ais acentuado. Mainá só o reconheceu quando estacionaram .
– Ai, Lucca, que vontade de com er chocolate!
Com o não podia deixar de acontecer, a índia sentiu desej o por aquele alim ento doce. Era a prim eira vez que ela pedia algo para saciar sua vontade. Por isso, o m arido se apressou em satisfazê-la. Deixou-a no carro e resolveu fazer um a tentativa ousada. Parou em frente à guarita da fábrica e cham ou a atenção do guarda de plantão.
– Boa tarde – cum prim entou sorrindo sem j eito.
– Boa tarde, senhor – respondeu o hom em do outro lado do vidro.
– O senhor trabalha aqui há m uito tem po? – puxou conversa.
Procurou ser o m ais sim pático possível. Os olhos do hom em lhe responderam antes de sua boca. Vixi! Que pergunta mais estranha. O que esse moço quer?
– Há m uito tem po, desde quando a fábrica abriu as portas nos fundos de um a área bem m enor que essa.
– Ah, que legal! – Não sabia bem o que responder, por isso apressou-se em ser m ais direto, não era bom em enrolar. – Sabe o que é, m inha m ulher está grávida, ali naquele carro prata, e está m orrendo de vontade de com er chocolate. – Riu nervoso – E sabe com o é desej o de grávida, não é? Tem que ser esse chocolate, não pode ser de outra m arca. Será que o senhor não consegue arrum ar um pedaço para m im ?
O hom em sorriu am istoso. Ah, sei bem como é isso, pensou ele e respondeu em voz alta.
– Claro, m eu rapaz. Desej o de grávida não pode ser ignorado.
Pegou o telefone e tirou do gancho apertando um dos inúm eros botões do aparelho PABX. Lucca ouviu um a voz m acia e cordial atender do outro lado. Que gente bem-humorada, pensou. A conversa não durou m uito e term inou com a garantia de que o outro traria à guarita o desej ado alim ento em alguns m inutos. O ruivo não tinha m uito tem po.
– Então, o senhor deve conhecer bem os proprietários – questionou ao desligar a linha.
– Ah, sim – respondeu orgulhoso. – O senhor Pagotto trabalhou m uito até que a em presa decolou. Agora seu filho, Giovani, está tocando o negócio. Tem m uita com petência, m eu patrãozinho. É bastante responsável. Não tem cabeça avoada com o a m aioria dos j ovens.
Lucca achou contraditório j á que o vira na balada até o am anhecer no m eio da sem ana, m as não discutiu com o hom em .
– Ele é m uito j ovem ? – continuou cutucando o assunto.
– Pouco m ais de trinta anos. Está noivo de Milene Agostini e deve se casar m uito em breve. Não se desgrudam – riu o porteiro.
Sem saber m ais o que perguntar, Lucca ficou em silêncio. O porteiro tam bém não falou m ais nada, pensando que j á tinha dito dem ais. Um rapaz se aproxim ou com um a em balagem térm ica nas m ãos.
– Aqui o chocolate que m e pediu – disse entregando ao porteiro.
O guarda o tom ou para depois entregá-lo ao ruivo que agradeceu tím ido com um enorm e sorriso. Ao voltar para o autom óvel, Mainá dorm ia toda torta. Teve pena do m au j eito em que estava, m as tam bém não queria acordá-la. Entrou o m ais silencioso que pode e deu um a volta no quarteirão para enganar o porteiro. Ao voltar, conseguiu um a som bra que os m anteve ocultos.
***
Mainá Kadiwéu sonhava. Estava em um cam po aberto e lum inoso com o frescor da m anhã. O horizonte infinito a sua frente. O sol brilhava intenso, m as não a feria, nem seus olhos, nem seu corpo. Era um lugar que não conhecia.
– Parabéns, filha de Tupã!
Um a voz ecoou forte com o um trovão ao seu redor. Não a am edrontou, porém dem orou um pouco para descobrir de onde vinha. Um ser ilum inado, um espírito envolto em luz, falava com ela.
– Você foi escolhida para trazer ao m undo o ser capaz de realizar a m udança necessária.
Mainá pousou a m ão sobre o ventre instintivam ente e tem erosa.
– Não tem a, filha. Sem pre estarei com ele. Seus feitos serão grandiosos e im portantes para a hum anidade e o planeta.
– Quem é você? – perguntou ela.
– Sou o espírito que rege a natureza. Sou eu que lhe dá vida, beleza e força. Eu m e retirei da Terra há trinta anos, porém m eu retorno será em breve. Você precisa ser coraj osa para enfrentar tudo o que virá.
– E o que virá? – am edrontou-se.
– Não se preocupe. Sua coragem nata lhe perm itirá resistir. Você não enfrentará nada que não possa suportar. Por isso foi escolhida.
Mainá estrem eceu. Im aginava que seu filho seria especial, m as nem tanto. Vendo sua dúvida, o espírito voltou a falar.
– Os protetores da natureza abrirão cam inho para m eu retorno e nada m ais j usto do que de um deles nascer aquele que terá o privilégio de m e receber. – Sorriu am istoso. – Mantenha a hum ildade e o foco durante os próxim os m eses, filha de Tupã. Em seu devido tem po, tudo se encaixará.
Um a paz a invadiu quando a luz a tocou. Cresceu tanto que ofuscou suas vistas. Quando se extinguiu, estava novam ente sozinha em m eio a natureza exuberante. Cum priria seu papel com o genitora de um espírito de luz e de vida, pensou.
Quando abriu os olhos, não tinha m edo nem receio algum de seu cham ado. Estava pronta. Seu corpo, outrora cansado, estava revigorado após esse curto sono e um belo sonho. Seu olhar encontrou o de Lucca sentado no banco do m otorista. Estava preocupado.
Não se preocupe, amor, pensou a fim de tranquilizá-lo. Já estou me sentindo nova. Lucca sabia que a índia – e nem ninguém – podia m entir para ele em pensam entos. Im ediatam ente se acalm ou. Estendeu o chocolate para ela.
– Você conseguiu! – exclam ou satisfeita agarrando o doce.
O rosto de Mainá estava ilum inado de alegria. Lucca sorriu com seu gesto infantil.
– Diga para m im . – falou ela entre um a m ordida e outra – O que é que você não consegue?
Encabulado, apenas sorriu para ela. Tratá-lo com o um ser perfeito o deixava sem graça. Não soube o que dizer.
– Com o estão as coisas com Giovani? – perguntou a índia de novo assim que pode.
– Estou acom panhando sua rotina e o rapaz lem bra m uito a m im m esm o. Diretor sério, responsável, realiza o trabalho com com prom etim ento.
– E você acha que ele representa algum perigo para Nicolas?
– Não. Não há nenhum a m anifestação de energia nele ou ao seu redor. Ele é um hum ano com um , cercado por outros com o ele.
– Então o que estam os fazendo aqui ainda? – não estava irritada, apenas curiosa.
– Garantindo que ele não estej a guardando nenhum segredo.
Mainá podia com preender aquilo, m esm o não podendo aj udar. Faria de tudo pelo m enos para não atrapalhá-lo.
Aproveitando que a índia estava acordada, o ruivo passou o resto da tarde narrando os porm enores do cotidiano de Giovani. Saiu do carro m ais duas vezes em busca de com ida e bebida.
Mainá ouviu com interesse o dia a dia de um em presário. Os problem as a solucionar, os telefonem as infindáveis a atender. As pessoas a responder: fornecedores, em pregados, secretários, copeiros.
Achou bonito que, m esm o sendo um rapaz ocupado, não perdia o bom -hum or nem a com postura. Tratava a todos com a m esm a deferência e respeito, fazendo até brincadeiras divertidas e convites para passeios.
Ficou tentada, em vários m om entos, a m udar de assunto e com partilhar com o m arido o estranho sonho que tivera. Por m ais que tivesse fé, Mainá não tinha certeza de que o espírito realm ente tivesse visitado seus sonhos para lhe dar aquela m ensagem .
Pelo conhecim ento que tinha sobre os espíritos ilum inados e a m aneira com que se com unicavam , aquele não seria o único contato. Ou, no m ínim o, receberia um sinal que confirm aria suas palavras. Com o ele m esm o havia dito, tudo aconteceria a seu tem po.
Por outro lado, Lucca não era tão espiritualizado quanto ela. Não acreditaria em um a só palavra do que diria. Talvez, refletiu, ficaria m ais preocupado com o bebê, principalm ente pelas dificuldades que o filho enfrentaria no futuro, ou m esm o agora, durante a gestação.
Mainá tam bém pesou a responsabilidade de gerar e proteger um ser ilum inado que, provavelm ente, correria riscos de vida para cum prir sua m issão. Enfim , entendeu que os deuses não lhe deram apenas um hom em ideal, m as tam bém um filho abençoado. Lágrim as de alegria e ao m esm o tem po de m edo escorreram por sua face.
Era apenas um a hum ana com o outra qualquer. Por que fora escolhida?P or que Tupã me deu uma missão suicida? O que eu tenho de tão especial para suportar o peso de ser mãe de um espírito iluminado? Sem questionar m ais, calou seu m edo e dúvidas e decidiu que faria tudo que fosse necessário para cum prir sua m issão pessoal: trazer ao m undo aquele que seria o espírito da natureza.
– O que foi, m eu am or? – Xi, Lucca percebeu!, pensou se virando para ele. – Está sentindo algum a dor?
– Não, querido. Não se preocupe. São apenas os horm ônios – e sorriu envergonhada.
Manteve o contato visual e a m ente vazia para provar a Lucca que não escondia nada. Mas sabia que não podia segurar a verdade por tanto tem po, então voltou os olhos para o outro lado e pediu m ais com ida a fim de m udar o foco.
Nesse curto tem po sozinha, tratou de se recom por e encerrou esse assunto em sua m ente. Não havia porque antecipar os acontecim entos. De nada adiantaria ficar ansiosa ou orgulhosa, se na hora em que os fatos se desenrolassem , não estivesse pronta ou atenta. Teria que fazer por m erecer essa grande honra.
Lucca voltou com a com ida e prosseguiu com seu relatório sobre tudo que via e ouvia no prédio. O anoitecer se aproxim ava e, com isso, a m ovim entação com eçou a dim inuir no interior da em presa. Muitos carros saíam do estacionam ento e lotavam a rua que ficava cada vez m ais cheia.
Giovani Pagotto foi um dos últim os a sair depois de se despedir de um a secretária exausta. Ia sorridente, em seu carro de luxo, j á com o fone do celular conectado a orelha. Mesm o sem poder olhar diretam ente em seus olhos, Lucca pode adivinhar para quem o rapaz ligava.
E ele foi direto para a casa da noiva. Tiveram um encontro apaixonado no portão onde Milene o esperava. Depois de um beij o de tirar o fôlego, encostaram as testas e Giovani sussurrou.
– Case com igo!
– Sim – respondeu sorrindo e ofegando.
– Am anhã!
– Am anhã? – afastou-se sorrindo. – Por que não agora?
– É sério, Milene. Não quero esperar m ais!
– Nem eu! Vam os ver qual a data m ais próxim a no cartório.
– Já fiz isso – sorriu m aliciosam ente.
– E?
– Trâm ites legais e tudo m ais, tem os quinze dias.
– E a igrej a?
– Podem os ir à paróquia j á!
O casal voltou para o carro e partiu para a igrej a com Lucca bem atrás. Mainá estava distraída com as guloseim as que o m arido lhe trouxera. O rapaz havia observado todos dentro da casa e na vizinhança de Milene e tam bém não percebera nada anorm al.
O traj eto m ostrou um pouco m ais de Vila Velha para o pantaneiro. Era um a cidade parecida com Vitória, porém m enos glam orosa. Conversaram com o padre som ente por trinta m inutos e voltaram para a casa dela a fim de com unicar a data para os pais.
Som ente após o j antar Pagotto finalm ente voltou ao apartam ento a fim de conversar com o m elhor am igo e descansar para recom eçar tudo no dia seguinte. Lucca tinha certeza de que seria ainda m elhor que hoj e para o j ovem Giovani.
Mainá pescava novam ente quando arrancou de volta ao hotel. Fora um dia longo, entendia o cansaço da m oça apesar de não se sentir nada cansado. A adrenalina ainda pulsava em seu corpo m otivando-o a seguir o plano. Mesm o sendo um dia sem grandes acontecim entos, a im portância daquela investigação o m otivava.