Ilha de Ar - Os Quatro Elementos, Volume 3
Livre
O caminho de volta para Vitória foi silencioso. Não estava tão quieto assim. Podia ouvir o sussurro do vento, o motor do carro, a borracha deslizando sobre o asfalto, outros veículos, matas, animais, rios. E podia ouvir o coração de Lara batendo, sua respiração natural e tranquila. Suas palavras rodavam em minha cabeça. O que não daria por seus pensamentos!
Porém, me mantive calado, me corroendo de curiosidade, mordendo o lábio inferior para não fazer a pergunta que confirmaria minha loucura. Não sabia se havia imaginado suas palavras ou simplesmente interpretado errado. Então, por que ela não falava mais nada? No que estaria pensando? Essa dúvida, sim, era de enlouquecer.
De volta ao meu apartamento, Lara me abraçou e beijou com uma urgência e desespero que fez meu corpo doer. A ânsia que sentia por ela ultrapassava os limites físicos e se forçava para fora, rasgando e despedaçando meus órgãos, minha pele, meus ossos. Eu me tornei uma marionete do desejo. Um desejo tão insano e descontrolado quanto a própria loucura.
Havia medo em meus lábios. Um medo que não pude nominar. Medo de me apegar a alguém depois da perda de meu pai? Medo de perder? Medo de enlouquecer? Medo de ficar sozinho? Medo do que não entendia? Medo de meus próprios questionamentos? Medo do que Lara estaria pensando?
Pela primeira vez desde a adolescência – quando minha mãe me obrigou a realizar seus planos – me sentia prisioneiro. Mesmo sem entender a quê estava acorrentado, sabia que lutava para me libertar. A força que fazia para arrastar a pesada e desconhecida corrente de ferro era sobre-humana. E de onde aquela força surgia?
Apertei o botão apagar de meu cérebro. Não era hora de me preocupar com aquilo que não compreendia. O momento me dizia apenas para sentir. Eu me libertei dos pensamentos, afinal, e me deleitei na pele chocolate de Lara. Seus olhos deslumbrantemente vivos e brilhantes aqueceram meu coração, que palpitou diferente por um segundo. Após o esforço físico, dormir foi mais fácil do que imaginara.
Acordar foi muito mais difícil. A realidade me atingiu em cheio ao abrir os olhos no final da manhã. Estava sozinho. Lara e sua presença reconfortante saíra de fininho sem me despertar. A dor em meu peito foi maior do que ontem porque ainda pude impedir o golpe fatal. Agora sentia a ferida abrir, chafurdar meu coração, retalhá-lo em milhares de pedaços sangrentos.
Também foi difícil encontrar forças para me levantar da cama. Parecia que não havia para quê. Saí do móvel cambaleante, como se os grandes e salientes músculos de minhas pernas tivessem definhado durante a noite. Porém, me arrastar até o banheiro estava fora de cogitação. E foi essa força de vontade – muito próxima do orgulho – que me ajudou a alcançar meu objetivo. Eu me joguei sob as águas ferventes e dolorosas do chuveiro.
Depois de uma hora imóvel sob o jato, sentindo meus músculos reagirem, ora relaxando ora se contraindo, minha mente pareceu desanuviar um pouco. Um desejo súbito de ar fez meus pulmões tremerem e me vi asfixiando como se pudesse me afogar no chuveiro. Aquele cômodo me pareceu claustrofóbico demais para que suportasse permanecer envolto em vapor, vidro e azulejo por mais tempo.
Saí pingando e ofegante do banheiro e sem forças caí de cara no colchão. Passou mais um tempo antes que tentasse me mexer novamente. As paredes do quarto também pareciam se projetar sobre mim. Eu me sentia prisioneiro em meu próprio apartamento. Ou estaria prisioneiro em minha mente?
Antes que a loucura me fizesse abandonar de vez o resquício de lucidez que ainda existia em mim, me levantei e vesti a primeira roupa que encontrei, sem nem mesmo notar qual era – ou se combinava. Calcei um tênis e parti para a garagem. Senti necessidade de me mover, mas não lentamente. Queria fugir, me libertar, e teria que ser em alta velocidade.
Peguei meu brinquedinho para momentos de relaxamento sozinho – como precisava agora. A super-moto, com mais de mil cilindradas e cento e dez cavalos de potência, me fazia voar. O som e o toque do vento no meu corpo eram mágicos. Agora ainda mais significativo e perceptivo do que antes.
Fiquei ansioso pelo ar, como uma pessoa sufocada. Como se o que entrasse em meus pulmões agora não servisse para nada. Desejava filtrá-lo, purificá-lo, e assim, sentir-me tão limpo quanto ele. Mas com o que estaria sujo? Não sabia dizer.
Essa necessidade não era somente interna. Precisava sentir a força e a leveza do ar no meu corpo, na minha pele, varrendo o que quer que estivesse no caminho, agitando minhas roupas, bagunçando meu cabelo, fazendo meus olhos se apertarem a fim de se proteger.
Foi nesse momento que decidi o meu destino.
A maresia batia no meu corpo carregada de sal e areia enquanto ia para o sul da cidade pela Avenida Beira Mar. Cruzei a Baía de Vitória pela Segunda Ponte e peguei a BR 262 que cruzava Vila Velha. O ambiente cinza da cidade ficou para trás e o grande verde se abriu a minha volta quando cheguei a Pimenta.
O cenário montanhoso era comum para mim. Espírito Santo era marcado por picos, que despontavam aqui e ali, recortando o céu azul. Quanto mais seguia para dentro e para baixo no estado, as montanhas se multiplicavam e ficavam mais altas.
Depois de Viana, as curvas da serra tornaram a viagem perigosa para a velocidade em que corria. Mesmo assim, não diminuí. Tinha pressa de chegar. A estrada estava calma, com pouco movimento. Amava o impacto do vento contra meu corpo, apesar de meu rosto estar coberto pelo capacete.
As cidades no caminho se tornaram raras e cada vez menores. Vilarejos no meio do caminho. Em Tapera, saí da rodovia e peguei a estrada 166 pela Avenida Domingos Perim. O caminho trouxe de volta a planície, ainda verde e deslumbrante. Quando um grande morro surgiu no horizonte, soube que faltava muito pouco.
Girei o punho no acelerador forçando ainda mais o potente motor. Só diminui quando a placa indicava a entrada de Castelo a quinhentos metros. Com o movimento de desaceleração, conferi rapidamente o relógio em um bater de olho. Tempo recorde. Cento e quarenta e quatro quilômetros percorridos em menos de uma hora.
Porém, ainda faltavam vinte e sete quilômetros para chegar onde desejava.
Cruzei a pequena cidade que não me chamava atenção. A Serra de Castelo recortou a planície a minha frente quando ganhei novamente a estrada e suspirei aliviado. Os montes e vales lembravam os castelos medievais europeus. Um complexo tão grande de montanhas que pertenciam ao Sistema da Mantiqueira.
Cheguei. A Castelo – englobando a serra – pertenciam dois grandes parques. O primeiro, o Parque Estadual das Flores, reservava remanescentes da Mata Atlântica, mas o que realmente me interessava e para qual me dirigia agora, era o Parque Estadual do Forno Grande.
Com cerca de dois mil e oitenta metros de altura, o Pico do Forno Grande – afloramento rochoso que dá nome ao parque – é o ponto culminante do lugar. Um local famoso por ser propício a prática de esportes radicais como voo livre e montanhismo. Com vários pontos ideais para campeonatos de para-glider.
Das montanhas nasciam dois rios que banhavam a cidade. Fresco, vento constante, altura espantosa. Era exatamente isso que procurava. Ar. Ar. Ar. Por toda a parte. Dentro e fora. Flutuar e esquecer. Peguei a trilha principal, que me levaria até o pico mais alto da montanha. Era extensa e íngreme.
No topo, larguei a moto e o capacete. Inspirei profundamente apertando os olhos. A brisa era acolhedora, mas não o suficiente. Meu corpo sentia necessidade de fluir com ela, a seu bel prazer, se jogar sem rumo ou medo. Abri os olhos para assistir ao maior espetáculo que o lugar permitia.
De um lado, o Pico da Bandeira, com seus quase dois mil metros de altitude, avizinhava-se tentando alcançar o irmão e falhava. As nuvens dançavam um pouco acima de mim como algodão branco e fofo. Do outro lado, o mar se estendia infinitamente até tocar o horizonte. Era possível ver o contorno das cidades litorâneas.
Prendi a respiração durante aquele instante de contemplação, paralisado. Por um momento infinito me esqueci quem era e o que pretendia ao alcançar aquele pico, depois de uma viagem impulsiva e desesperada por estradas longas e repletas de curvas. Meus olhos encontraram o objeto que me permitiria voar livremente.
O parapente, com sua asa inflável colorida – semelhante a um paraquedas – se esticava enquanto um instrutor o manobrava contra o vento para que se abrisse. Agarrado à sua estrutura entrelaçada de linhas capazes de suportar toneladas, um aventureiro aguardava o momento certo para pular da beirada da rampa.
Sorri de nervosismo. Seria um voo duplo. Devia ser iniciante. Impulsionados por uma corrida breve, se lançaram no espaço aberto sob seus pés e voaram horizontalmente, ziguezagueando pelo céu azul. Caminhei para perto do outro instrutor que estava apenas observando o único corajoso do grupo que o acompanhava.
Nossa conversa foi rápida. Não estava muito para isso. Queria apenas me mover. Sempre e ininterruptamente. Primeiro o instrutor me passou os equipamentos de segurança obrigatórios. Paraquedas reserva, óculos de sol, capacete e botas de voo. Em seguida, vesti o selete – cadeira de voo.
O instrutor me ajudou a inflar com segurança o velame que em minutos formou um arco há metros de distância acima de minha cabeça. As linhas se esticaram ao extremo enquanto segurava com firmeza, mas sem grande esforço, os batoques – argolas ligadas aos freios nas quais deveria me segurar e dirigir o parapente.
A rampa se inclinava para a borda do pico. O vento me puxava através da estrutura leve de nylon e poliéster que me faria voar. Ansiava por aquele salto como uma necessidade, assim como respirar era inevitável. O ar passava por cima e por baixo do velame. O parapente estava pronto para partir.
Olhei para frente. O horizonte infinito se assomava sobre o pico. Não havia temor. Apenas um convite silencioso: venha! O vento tocou meu rosto como uma carícia. Pude sentir a mão leve, de dedos longos, pousar em minha pele por apenas um segundo. Tempo suficiente para ter certeza de que o gesto fora real. Era quente e invisível como um sopro. Agradável.
Dei seis passadas largas e saltei. O ar a minha volta me guiava, me contornava, me moldava. Meus pulmões inflavam sobre sua força e presença. Meu coração batia sob o ritmo de minha respiração, bombeando aquele ar puro e fresco pelo meu corpo. Podia senti-lo me invadindo, me completando, me desenhando.
Cada órgão pulsando em reconhecimento, palpitando feliz e o convidando a entrar. Cada célula sorria e se exultava de prazer. Quase podia ouvi-las em coro, gritando: bem-vindo. Meus próprios lábios sorriram e minha mente também saudou o ar. Ele já não estava apenas ao meu redor, também fazia parte de quem eu era, de minha própria essência.
O ar era como eu. Livre. Ora fluindo para o norte, ora para o sul. Ora suave como uma brisa, ora bravio como uma tempestade. Ora confuso como um redemoinho, ora plácido como um dia sem vento. Hoje ele era apenas um escape. Um imenso e infinito caminho. Um caminho para minha sanidade.
***
Não havia com o o grupo passar despercebido. Mesm o parecendo com turistas, essa exposição não era segura. Alexandre não confiava na falsa segurança na qual os outros acreditavam . Só o fato de não estarem viaj ando com pletam ente cientes do que estava acontecendo ao terceiro elem ento, j á era m otivo para alarm e e cautela.
A com oção entre Lucca e Mainá com eçara durante o curto voo do arquipélago ao continente. E não tinha nada de discreta. A índia tivera um ligeiro m al-estar durante o voo, o que fora m otivo suficiente para deixar o pantaneiro louco de preocupação. Afinal, aquela fora um a viagem rápida. A m ais curta até agora.
Marcel, o grandalhão com cara de bebê que por si só j á cham ava atenção, discutia com o casal. Alexandre com prim ia os lábios em um a linha rígida de desgosto.
– Nunca achei um a boa ideia Mainá em barcar nessa viagem em seu atual estado – afirm ou em alto e bom som o loiro.
O arqueólogo franziu o cenho se contendo para não fazer exposição de seus poderes em público. Já não bastava sua preocupação? Ainda era obrigado a ouvir um “eu não disse?”. Nesses m om entos desej ava que Marcel fosse m ais sensível e não um a balança desequilibrada. Ora pendendo para nada ora para tudo.
Lucca com preendia, m ais do que nunca, as brigas do loiro com Tam ires. Realm ente era im possível tolerá-lo às vezes. Respirou fundo, buscando toda a boa educação que tivera de seus pais adotivos para não colocar para fora o que estava pensando de verdade. Fosse pelos horm ônios ou para defendê-lo dos ataques de Marcel, não sabia e não teve tem po de descobrir.
– Cala a boca, Marcel! – gritou repentinam ente a índia.
O ruivo se m ostrou tão surpreso quanto o loiro. Tão logo Marcel se afastou calado e contrariado, Mainá voltou a seu estado de lam úria quanto à proteção exagerada do m arido. Com o se nada tivesse acontecido.
A sua m ala era a m aior. Totalm ente desnecessária, tanto na opinião dela quanto do loiro, que assistia ao desfecho da inquietação a certa distância. Mas com o Lucca era extrem am ente zeloso e não se absteve de carregá-la, nenhum dos dois expressou verbalm ente o que pensavam .
Foi dessa m ala que o arqueólogo tirou um a caixa – que na visão de Marcel era um a m ini farm ácia – onde encontrou o rem édio para o estôm ago frágil da índia. Cada caixinha fora m inuciosam ente prescrita pelo m édico a pedido do pantaneiro. Um a precaução para a viagem .
– Afinal, estava certo, m eu am or – afirm ou sorrindo enquanto passava o rem édio pronto para ser ingerido à índia.
Mainá odiava ser tratada com o criança. Não estava acostum ada a ser cuidada daquela m aneira. Revirando os olhos, aceitou o rem édio que o m arido lhe passou sem reclam ar. Afinal, aceitara as abusivas condições que im pôs para poder participar da m issão ao seu lado.
Seu estôm ago a havia traído e esperava que o rem édio o tranquilizasse para não atrapalhar a concentração do m arido durante essa m issão. Tam bém odiava atrapalhar. Pelo contrário, queria aj udar. Portanto, faria qualquer coisa, por m ais exagerada que fosse, para prosseguirem sem m ais sobressaltos.
Lucca estava quase arrependido de ter cedido ao desej o da índia de acom panhá-lo, m as sabia que ficaria com a cabeça ainda m ais perturbada se ela estivesse longe, a três conexões aéreas de distância. Enj oada ou não, Mainá estava ao seu alcance. Conteve seu nervosism o enquanto a assistia tom ar o rem édio.
Ainda a alguns passos atrás dos três no vasto saguão do aeroporto, Alexandre tam bém revirou os olhos em silêncio. Com um suspiro pensou que não tinha com o im pedi-los de participar dessa busca. Mas no fim sabia que seus dons seriam bastante úteis no caso de um confronto em Vitória. Esperava que lá ficassem m ais focados.
Ao seu lado, Tam ires cam inhava alheia a tudo e a todos. Depois da conversa que tiveram na cozinha, a ruiva falara m uito pouco. Seus olhos estavam estranham ente arregalados, com o se lutasse contra a exaustão. Alexandre sabia que o cansaço era na alm a e não físico. Tam ires estava cansada de lutar por um am or despedaçado.
Durante a curta viagem , sua m ão buscava sem pre a do cunhado m oreno. Sua com unicação corporal dizia m uito. Ela estava sofrendo, apesar de não o desej ar. Sua resolução calculada tinha apenas a intenção de causar a m esm a dor ao m arido e quem sabe assim dim inuir a sua própria.
Um reflexo. A ruiva apertou a m ão de Alexandre a fim de afastar algum pensam ento. O cunhado retribuiu em resposta e seu coração se aquietou. Ele ainda estava do seu lado e não pretendia se afastar. Ela sabia que o m oreno cum priria sua prom essa. Mais que isso, seu j uram ento, no qual ela depositava sua própria felicidade.
Am bos trocaram um breve e significativo olhar um pouco antes de alcançar o restante do grupo nas cadeiras da sala de espera. A alm a de Alexandre estava resoluta e inabalável. O coração de Tam ires bateu descom passado por um segundo. Ela não sorriu. Nem ele. Ela não tinha m ais m otivos. Ele respeitava sua dor.
Para a ruiva era com o estar de luto. Nem quando esteve sozinha nesse m undo se sentira assim . A partir daquela carta, Gustavo estava m orto para ela. Esse sofrim ento, tinha certeza, passaria depois que enterrasse as lem branças no túm ulo do esquecim ento. Então, seu luto teria fim .
Aguardariam quarenta e sete m inutos até o próxim o voo partir. Seria a espera m ais longa de sua vida. Cada m inuto a levava para m ais perto de sua escolha. Cada segundo a afastava ainda m ais de seu passado próxim o. Cada instante à frente deixaria m ais longe a dor dilacerante em seu peito.
Marcel desviou o olhar de Mainá e Lucca – quej á faziam as pazes novam ente com os carinhos e cham egos de sem pre – para o casal silencioso e distante, pelo m enos em pensam entos. Estreitou os olhos. Tinha que adm itir que não tinha m uito tato nem m uita sensibilidade, com o os outros pareciam ser e ter, m as será que som ente ele via o que estava acontecendo entre eles?
Guiado por seu espírito volátil, o loiro deu de om bros e resolveu dar um a nova espiada em Nicolas. Estava ansioso em chegar a Vitória para conferir aquele enigm a. Mal fechou os olhos e os abriu novam ente, tom ado por um choque. Seu corpo se agitou levem ente – im perceptível aos olhos com uns – com o baque.
A força de Nicolas, sem pre tão instável, por m ais distinta que fosse, o atingira em cheio quando procurou rastreá-la. Ao m esm o tem po em que a energia parecia pulverizada e enganosam ente frágil, era forte e invisível. A Marcel pareceu que estava em toda parte.
Em vez disso aj udá-lo a encontrar Nicolas, dificultou bastante o processo, enganando sua m ente e sua capacidade. Mas, depois de algum esforço, o descobriu ao sul da capital capixaba, praticando esportes radicais. Sorriu. Aquilo bem que com binava com ele, pelo pouco que pode captar de sua personalidade.
Porém , lhe ocorreu que a estranha energia de Nicolas não deveria ser m ais intensa do que de Tam ires. O que a estaria fortalecendo dessa m aneira? Um era a cham a, o outro o com bustível. O que aconteceria com a união desses dois poderes? Um a explosão nuclear? Dessa vez, riu m ais abertam ente.
– Marcel? – Alexandre o cham ou de volta a realidade. – Você vem ?
***
Mesmo invisível aos olhos, o ar era completamente necessário ao corpo e à mente. E descobri, naquele momento, que era ainda mais essencial para mim. O próprio sussurro do vento nos meus ouvidos era feliz. Ele me recebia de braços abertos e me aninhava em segurança.
Eu me concentrei no acelerador aproveitando as correntes de ar ascendentes. Já com a direção, não me importava. Bastava estar no espaço infinito, à mercê do destino, não ouvindo nada e muito menos pensando. O surdo som do vento era a única coisa audível para mim.
Era confortador saber que não estaria, como um espião, ouvindo conversas alheias, como acontecia constantemente. Ali era somente eu e o ar. Eu o sentia como uma extensão de mim mesmo, uma projeção que me levava para além, para toda parte e, ao mesmo tempo, para lugar nenhum.
A leveza do vento me fazia sentir ainda mais livre, solto, sem rumo, destino ou preocupações. Podia até fechar os olhos e deixar o vento me levar para onde quisesse. Mas queria vê-lo, sem enxergar. Senti-lo, sem saber. Saboreá-lo, sem notar. Apreciá-lo, sem distinguir.
No parapente, guiado ao sabor do vento, era apenas Nicolas. Um nome sem família, sem raízes. Um homem sem presente – já que considerava as atuais circunstâncias loucas demais para serem reais – e, consequentemente, sem futuro. Uma pessoa sozinha, um DNA único, um rosto comum na multidão.
E, como naquele entardecer, ouvi uma doce canção embalar minha viagem pelo ar. Era uma orquestra de vozes sussurradas, porém muito claras, espalhadas ao meu redor, em cada partícula do vento.
A música me acompanhou durante a descida, tão suavemente quanto o parapente flutuava. Ao aterrissar, a sensação que me tomou não tinha nada que ver com o pulsar da adrenalina que o esporte proporcionava. Estava calmo, a mente clara, o corpo tranquilo e irradiando uma alegria irracional.
O tempo, ingrato, passou. Não sei quantas vezes saltei e experimentei essa sensação. Muito menos que não havia comido nada a tarde toda. Meu corpo não reclamou. Estava anestesiado, o ar ao seu redor o preenchendo e sustentando.
O sol já passara há muito para o oeste, inclinando-se a fim de encerrar o dia. Só notei o entardecer quando o instrutor me impediu de saltar novamente por medida de segurança. Aquele não era um horário bom para o salto. Assim como durante o amanhecer.
O bem-estar ultrapassava as barreiras comuns. O esporte me deu uma overdose de endorfina. A sensação que tinha era que nunca mais me sentiria péssimo como quando chegara à rampa naquela tarde.