Ilha de Ar - Os Quatro Elementos, Volume 3
Carnaval
Mal chegou ao cam ping na Vila Itaúnas – em Conceição da Barra, Espírito Santo – e Nicolas Bertoldi j á estava a cam inho do Parque Estadual de Itaúnas preparado para um de seus passeios preferidos. Todo ano, durante o carnaval, era a m esm a cerim ônia, porém o cenário m utável das dunas sem pre lhe garantia um a paisagem diferente para observar.
Com cerca de trinta m etros de altura, a areia proporcionava um m irante natural para a contem plação do lugar. À frente, o m ar infinito e agitado se encontrava com o céu, pintando a paisagem de azul. Atrás e ao redor das dunas, rem anescente da Mata Atlântica em oldurava o cenário paradisíaco, recortado pelas águas escuras do rio Itaúnas.
Parado diante da exuberância daquela reserva natural de fauna e flora da costa brasileira, Nicolas era um a m iragem no deserto, um oásis nas areias infinitas. O cabelo negro agitado pelo vento, os olhos azul-turquesa fixos no horizonte além das dunas, o rosto sem expressão, de traços angulosos e bonitos, coberto por um a barba curta e bem aparada. A boca verm elha em destaque.
O corpo m usculoso, forte e alto, vestia um a cam iseta cavada branca e um a berm uda bege. Seus pés calçavam um a sandália confortável e leve. Sua pele era m uito clara apesar de frequentar praias com regularidade. Era um hom em bonito dem ais para passar sem ser notado.
Além da beleza do cenário, Nicolas olhava para dentro de si m esm o. Foi naquele lugar que sua vida com eçou, há trinta anos quando Ângelo Bertoldi, em presário do setor m etalúrgico que possuía um a casa de praia na badalada Conceição da Barra, o adotou. Tudo levava a crer que fora abandonado pelos verdadeiros pais.
Aos cinquenta e seis anos, Ângelo ainda não tinha herdeiros. Sua m ulher, Celeste, de apenas vinte e oito, depois de tentativas naturais, se subm etera a um tratam ento de fertilidade infrutífero que revelara sua esterilidade, causada por um a doença incurável no útero. Era j ovem , m as infeliz porque não poderia realizar o m aior sonho de seu m arido.
A adoção de Nicolas era um a benção para Ângelo e um pesadelo para Celeste. O casam ento se deteriorara a partir daí. A atenção e o am or do em presário se voltaram exclusivam ente para Nicolas e a m ulher vivera longos e solitários treze anos. Ela, apenas um bibelô que o m arido exibira em festas e eventos sociais.
Nicolas não sabia o que era ter um a m ãe am orosa. Apenas o pai – que o am ara e m im ara dem ais –, adorara. Fizera todas as suas vontades e desej os. Tentara im itá-lo em tudo e prom etera seguir seus passos quando adulto. Ângelo buscara no filho a vontade de herdar a fábrica de aço inox, sediada em Vitória, capital do estado, onde residiam .
O que m ais atorm entava Celeste era perceber o quanto seria fácil am ar Nicolas. Desde o prim eiro dia, notara a am abilidade e o carism a próprios de sua personalidade m arcante. Fazia am iguinhos com facilidade e conquistava os adultos com sua doçura, alegria e curiosidade. Mas isso só a fazia se irritar m ais com ele.
O teto desabara na casa dos Bertoldi quando o patriarca m orrera de um a doença degenerativa. Nicolas, com apenas quatorze anos, perdera sua referência e seu exem plo e Celeste se vira entre a burocracia e a falta do m arido. Com raiva, descontara toda sua frustração no filho. Culpara Nicolas de ter roubado o am or de Ângelo e m uitos anos de felicidade. Fora a pior discussão entre eles.
– Tam bém o am ava, m ãe! – respondera Nicolas. – Ele era m eu pai!
– Para de repetir isso, m oleque! – retrucara Celeste. – Você não é nosso filho!
Chorando, a m ãe contara sobre a adoção. Daquele dia em diante, Nicolas se transform ara. Sua personalidade revolucionária tom ara as rédeas da vida do adolescente. Foram longos quatro anos de m udanças radicais, em relação ao visual e aos ideais. Rock, Greenpeace e m úsica eletrônica, onde finalm ente se encontrou.
Tocar era um a terapia, além dos esportes radicais que o faziam literalm ente flutuar. Am ava a sensação de liberdade que vivia nesses m om entos e quanto m ais livre se sentia, m ais Celeste tentava aprisioná-lo; e quanto m ais ela tentava, m ais longe ficava de conseguir. Fora no verão depois de sua form atura de segundo grau que a tênue linha que ligava m ãe e filho com eçou a se rom per. Nicolas se apaixonara por um a m enina de Conceição da Barra e lhe dera um a j oia que pertencia a Celeste.
Irritada, a m ãe exigira que o filho voltasse com ela im ediatam ente para Vitória, se inscrevesse na faculdade de adm inistração e estagiasse na siderúrgica. A faculdade se tornara um a longa parte de sua vida, quase um a extensão de sua casa desde então. Apesar de sua inteligência e perspicácia, Nicolas era inquieto e criativo. Tinha m ilhões de ideias. Por isso, o curso de adm inistração durara apenas um sem estre, m as lhe dera um grande e inseparável am igo, Giovani Pagotto.
Depois de se m atricular em m ais quatro cursos diferentes, voltados m ais para à ciência, e não se form ar em nenhum deles, Celeste deu um ultim ato ao rapaz, agora um adulto de vinte e seis anos: ou ele virava um hom em ou que se virasse sozinho. Isso fez com que saísse de casa e dividisse um apartam ento com o am igo.
Enquanto o filho não se decidia por qual cam inho seguir, Celeste Bertoldi se via diante de acionistas, burocracia e relatórios que não entendia da fábrica de aço. Depois de m uito teim ar e quebrar a cabeça, a m ulher resolveu assum ir a presidência da em presa com os cinquenta por cento herdados do m arido.
No início, Nicolas colaborara e apoiara a m ãe – na m edida do possível – com ideias e com suas próprias ações que perm itiram a ela controle acionário da fábrica. Com o tem po, Celeste aprendera a lidar com as dificuldades do cargo e passou a ser um a grande conhecedora do m ercado m etalúrgico. Depois do rom pim ento definitivo, Celeste cham ara o filho à em presa. Fria com o um a m ulher de negócios, fora direto ao ponto.
– Com o acionista desta em presa você tem o direito de participar das reuniões do conselho e de receber o valor referente à sua porcentagem nos lucros. Porém , agora que assum i a em presa e você é m aior de idade, gostaria de lhe propor que m e venda suas ações para que fique livre das obrigações nesta em presa. Com o dinheiro, poderá viver por m uitos anos m antendo o nível de vida ao qual está acostum ado.
Nicolas não precisara pensar m uito para responder.
– Obrigado, m as não gostaria de m e desfazer das ações.
Pensou que eram a única coisa que sobrara de seu pai, por m ais que até o m om ento não fizera nada do que prom etera a ele, nem se descobrira na vida ainda.
– No entanto, gostaria de m antê-las sob sua custódia provisória. Assim poderá perm anecer na presidência. – Não perderei o patrim ônio que m eu pai m e deixou, concluíra em pensam ento.
O rosto bronzeado e com m arcas de idade da elegante m ulher do outro lado da m esa se contraíra. Os olhos da cor da terra se estreitaram . Os lábios finos se apertaram , tornando a linha ainda m ais rígida e dura. Com o um a m ulher tão pequena consegue parecer tão assustadora?, refletira o filho.
– Bem , se é assim que desej a – respondera finalm ente. – Mas terá que com parecer às reuniões quando convocado.
O tom era m ais com o um aviso do que um a observação.
– Faço questão de acom panhar o andam ento da em presa de nossa fam ília.
Celeste Bertoldi tentara, em ocasiões posteriores a essa, convencê-lo a vender as ações. Mas continuara irredutível na decisão e no pouco interesse tanto pela presidência quanto pela fábrica. No início, ela tem era que ele reivindicasse seus direitos com o um dos m aiores acionistas, m as nunca o fizera.
Fora em um a conversa com Giovani que Nicolas finalm ente descobriu o que fazer da vida. Com o filho do m aior fabricante de chocolate do país, o m elhor am igo tinha um sentido nato de em preendedor e finalizara o curso de adm inistração, o MBA em Marketing e agora cursava MBA Executivo e Inteligência em Negócios, m ódulo presidencial, em um a das instituições m ais conceituadas de Vitória.
Giovani era sensível à habilidade enrustida de Nicolas. Com o idealizador, tinha m uitas ideias e pouca prática. No entanto, várias que trocaram deram certo e por isso, o am igo passara a consultá-lo m ais vezes. Em outras oportunidades, levara questões de outros ram os e de colegas.
– Por que você não se torna um consultor de ideias? – perguntara Giovani no m eio do papo durante um alm oço.
Prim eiro, rira da sugestão. Rira bastante, m as o am igo perm anecera im passível, absorto na própria ideia. O rapaz tinha a m esm a idade de Nicolas, porém , com o era bem bronzeado – am ante de praia e surf – parecia m ais velho. Os olhos castanhos eram descontraídos e francos. Tam bém usava barba aparada, o que deixava seu rosto de queixo pontudo m enos alongado. Apesar de ser pouca coisa m ais baixo que o am igo, tinha om bros e peitoral m ais largos. Nicolas engolira em seco antes de responder.
– Você está falando sério, não está? – Giovani confirm ara com um aceno.
– Bem , nunca ouvi falar de um a profissão assim , m as algum a coisa m e diz que pode dar certo.
– Tenho certeza que vai, apesar de que é você que sem pre tem essa certeza – retrucara sorrindo, aum entando ainda m ais as m açãs salientes do rosto. – Mas pelo que conheço dessa sua capacidade de dizer se um a ideia vai dar certo ou não, posso apostar que será um sucesso entre os executivos.
A partir desse dia, Giovani passara a conseguir os clientes e Nicolas a atendê-los. Com o em presários ricos e renom ados, a clientela do rapaz exigia um tratam ento vip. Não precisava de um escritório. Com o era um negócio pouco convencional, norm alm ente acontecia em um am biente descontraído, durante um alm oço ou um j antar.
A vida de Nicolas ficara tão agitada quanto sua personalidade inquieta exigia. Acordava por volta das dez horas, tom ava um café da m anhã leve e saía para correr na praia a um quarteirão de seu apartam ento ou na Ilha do Papagaio, um a reserva ecológica situada em um pico à beira-m ar na Enseada do Suá, bairro nobre de Vitória, onde m orava. Ao m eio-dia, alm oçava com algum cliente em um restaurante luxuoso. Aproxim adam ente às quatro horas da tarde, ia para a academ ia treinar m usculação. Às dezessete ou vinte horas, depois de um banho revigorante, j antava com outro cliente. Depois disso, encontrava-se com os am igos em algum a balada ou cum pria sua agenda social em um a festa. Aos finais de sem ana, curtia a praia, o voo livre nas m ontanhas, passeios para outras cidades em turm a, aproveitando shows, baladas e, claro, tocava em boates ou festas privadas.
Giovani tentava acom panhá-lo na m aioria das noites. Porém , desde que com eçara a nam orar, se dividia entre um e outro. Era grato por Milene Agostini tam bém ser anim ada e festeira, com o eles, e por isso se enturm ara m uito rápido. Mas sem pre havia m om entos que não dava para dividir com os am igos e com a nam orada ao m esm o tem po.
Nicolas era um a pessoa totalm ente provida de am igos. Seu j eito com unicativo facilitava fazer am izades em qualquer nível ou com qualquer tipo personalidade, era im pressionante. Havia quatro que estavam em qualquer lugar no qual estivesse.
Daniela, Michele, Leonardo e Augusto tam bém eram filhos de pais ricos e se conheceram na faculdade. Eram alguns anos m ais novos que Nicolas. Os quatro haviam se form ado nos cursos de Ciências Biológicas, Engenharia Am biental, Oceanografia e Zootecnia respectivam ente, dando vazão ao idealism o desenfreado da j uventude, assim com o o próprio Nicolas o fizera. No final, nenhum exercia as profissões e viviam à custa da m esada dos pais.
Naquela sexta-feira de carnaval, após o alm oço, estacionaram a cam inhonete Hilux cabine dupla na entrada do prédio de Nicolas fazendo a m aior algazarra. Ele descera e colocara suas coisas na caçam ba, j unto com pranchas de surf e barracas para cam ping e colchonetes.
Sentara na frente com Augusto enquanto Leonardo se acom odara atrás entre Daniela e Michele, e passava os braços ao redor de seus om bros. Eram pouco m ais de duzentos e cinquenta quilôm etros de Vitória até Conceição da Barra, litoral norte do estado, próxim o à divisa com a Bahia.
Atravessaram a ilha, a partir da Baía Vitória, cruzando a ponte que ligava a ilha principal ao continente, depois o aeroporto até chegarem ao m unicípio de Serra. Seguiram por Fundão, Ibiraçu, João Neiva, Linhares, Sooretam a e São Mateus até Conceição da Barra.
Passaram direto pela cidade e seguiram m ais vinte e nove quilôm etros por um a estrada de terra até a Vila Itaúnas, distrito da cidade litorânea e sede do parque m ais im portante do estado. Nicolas observara e aspirara profundam ente o arom a dos paredões de eucalipto às m argens da estrada.
A pacata vila se reerguera depois de um soterram ento histórico pelas dunas do parque, que tam bém afetou o rio Itaúnas, transform ando-o em um im enso alagado entre a cidadela e o parque.
Os turistas, j á habituados aos m odos daquele povo sim ples m ovido pela pesca e pelo turism o, encam inharam -se direto ao cam ping, desocuparam a caçam ba da cam inhonete e partiram novam ente, dessa vez, direto para o Parque Estadual de Itaúnas.
Já tinham planej ado ocupar as próxim as horas com atividades que am avam naquele paraíso. Deixaram a cam inhonete no estacionam ento e partiram a pé até os quiosques de atendim ento aos turistas. Os quatro j ovens se decidiram pelo passeio que descia o rio Itaúnas até o rio Angelim em caiaques.
Nicolas os viu partir, dizendo que não queria água e que faria algum a coisa m ais seca. Sozinho, cam inhara despreocupadam ente pelas dunas e passarelas de m adeira até alcançar o ponto m ais alto da colina de areia. Lá de cim a, pudera ver os parcos turistas na praia e contem plar a im ensidão do oceano. Inspirar fundo o ar úm ido que vinha do Atlântico e caíra em suas próprias lem branças.
Aquele lugar m arcara os eventos m ais im portantes de sua vida. Recom posto, voltou sem nenhum a pressa para os quiosques. Estava pronto para com prar seu passeio quando um a voz o cham ou. Voltando-se, viu um rapaz m oreno e franzino, de cabelos bem curtos e encaracolados, correr em sua direção com um sorriso enorm e e brilhante. Usava cam isa e calça social, algo parecido com um uniform e.
– Luis Dalbosco! – exclam ou quando o rapaz estava a três passos.
– Nicolas Bertoldi! – riu o j ovem . – Quanto tem po, cara!
Cum prim entaram -se. Eram am igos de infância desde quando fora adotado por Ângelo. Nos feriados, finais de sem ana e férias, sem pre que Nicolas ia a Conceição da Barra, eles brincavam j untos. Na adolescência, badalaram e azararam m uito.
– Tem razão – respondeu. – Deve fazer um ano desde a últim a vez que nos vim os.
– Com certeza, um ano, cara – concordou Luis. – No carnaval do ano passado. E então, o que m udou em sua vida nesse tem po? Casou?
Nicolas riu faceiro.
– Não, não m e casei – respondeu.
– Você não estava nam orando aquela m oça, com o ela cham a m esm o? – pensou um pouco antes de se lem brar – Michele!
– Ah, não, Michele é só um a am iga – riu Nicolas. – Nunca nam oram os.
– Cara, sinceram ente não te entendo. Vi você pegando aquela gata. Bem , tudo bem , não im porta. Era carnaval, não é?
Nicolas apenas balançou a cabeça positivam ente.
– Mas e Lara, você a tem visto?
O sorriso sum iu do rosto de Nicolas. Por que foi lem brar dessa m ulher agora?, pensou.
– Faz um tem po que a vi em um evento social em Vitória – respondeu friam ente.
– Eu a vej o quase todo o final de sem ana. Ela sem pre vem para Conceição da Barra ver os pais e os avós.
– Hum – resm ungou Nicolas.
Percebendo a distância do am igo, Luis resolveu cutucá-lo.
– Ei, cara, desculpa aí, não sabia que ia ficar tão perturbado em falar de um a ex-nam orada.
– Não estou perturbado – retrucou com pressa. – Só não tenho nada a dizer sobre ela. Já era. Acabou há m uito tem po.
Luis preferiu deixá-lo em paz e m udou de assunto.
– Que passeio você vai fazer?
– Vou de buggy até a praia do Riacho Doce – respondeu m ais descontraído.
– Ótim a escolha.
Um cham ado, m eio distante, os interrom peu. Luis acenou em resposta.
– Bem , hora de voltar para o trabalho – se despediu. – Essa vida de carregar turista não é fácil. Ainda bem que o ônibus tem ar condicionado. A gente se vê.
Nicolas o viu correr em direção a um grupo de pessoas que subiam no veículo e outras que grudavam o rosto nas j anelas lacradas. Voltou para o quiosque e fechou seu passeio. Acom panhou o m otorista e m ais dois turistas até o autom óvel que os transportaria através das areias de Itaúnas.
***
As maravilhas daquele cenário totalmente natural, feito pela mão de Deus e conservado pelo homem, tinha o poder de curar minhas feridas. Ao mesmo tempo em que as dunas me feriam – com lembranças dolorosas – também me curavam e me davam fé no amanhã.
Apreciei a brisa provocada pela velocidade em que o buggy corria pela areia. Protegi meus olhos com óculos de sol e deixei que o resto de meu corpo fosse chicoteado pelos grãos. Estava em paz, livre e exatamente onde gostaria.
Apesar de afirmar isso para mim mesmo, não sabia para onde estava indo. Aquela fora uma manhã estranha, cheia de inquietações, mas não sabia o que era. Apenas tinha certeza de que ir para Conceição da Barra e visitar o Parque Estadual de Itaúnas ainda era uma boa ideia.
Minha inquietude não era motivo para cancelar nossos planos. Ao contrário. Era o que devia fazer. Sem ciência de para onde estava sendo levado – nem pelo o quê – insisti em ficar sozinho. Sabia que meu instinto estava sempre certo. Já o havia seguido muitas vezes.
Por isso estava tranquilo. Não que a agitação tivesse desaparecido. Apenas esperava encontrar a resposta ao fim do caminho. Afinal, apreciava aquele lugar, um santuário de vida, e amava festas, estar com meus amigos e fazer novas amizades. Não era nenhum sacrifício estar ali agora.
Meu pai havia me ensinado a amar a natureza. Desviara-me tanto do caminho que trançara para mim, mas não conseguia me arrepender. Tinha certeza de que, se estivesse vivo, entenderia minhas escolhas e me deixaria fazê-las livremente.
Além de meu pai, nunca vi uma pessoa que me entendesse mais do que Giovani, meu melhor amigo. Compreendia a minha necessidade de ser livre, de vida social, de realização profissional e pessoal. Era uma unidade complexa de tudo isso funcionando junto.
Às vezes era difícil para eu mesmo me entender. Ideias contraditórias me impulsionavam vez ou outra e me confundia frequentemente com lados opostos de um mesmo caminho. Como andar por dois caminhos contrários e permanecer o mesmo?
Também tinha mania de teorizar. Minha mente funcionava há um milhão por hora, sem descanso. Mas no fim, sempre conseguia conciliar razão e emoção. A maior prova disso era estar no parque naquele momento e frequentá-lo com assiduidade sempre que possível.
Não tinha o hábito de fugir de um desafio, me reinventava ou antecipava o que aconteceria. Não costumava caminhar às cegas. Sempre tinha alguma ideia do que me esperava do outro lado. Era um ótimo observador.
Mas não dessa vez. Algo me chamava. Algo que desconhecia. Quando Luis tocou no nome de Lara, não foi ela que me perturbou, mas sim aquela sensação inquietante se acentuando, quase gritando comigo. Afinal, o assunto ‘Lara Costa’ não era incógnito para mim, mas a sensação, sim, era nova.
Algo me dizia que não era exatamente ela, a pessoa, ex-namorada, que estava ligada a esse chamado. Mas com certeza tinha a ver com ela e era isso o que mais me perturbava. Há muito nos tornamos quase estranhos e ao mesmo tempo, íntimos. Era difícil de explicar e de compreender.
Estranhos no sentido de convivência. Até hoje, o tempo máximo que ficamos juntos fora dois meses. E íntimos no sentido de pele. Ela exercia uma atração tão forte e irresistível sobre mim que muitas vezes tinha que lutar para não agarrá-la quando a via.
Algumas vezes não conseguia me segurar. E era perturbador como ela não negava. Era tão forte que me assustava. Saía com muitas mulheres, mas dificilmente mais de uma vez com a mesma. Talvez estivesse me tornando nostálgico e apenas revivendo meu primeiro amor.
Terminamos o passeio antes que finalizasse meu pensamento. O sol estava pouco acima da linha da areia no horizonte e em pouco tempo tocaria o mar. Observando, perdi o fôlego diante do cenário. Até agora trafegávamos por uma extensa linha de areia cercada de um lado pelo mar e do outro por um paredão de rocha misturado a areia e restinga.
Agora o paredão se abria em uma fenda larga e funda por onde o Riacho Doce serpenteava em busca do oceano. O manguezal e a formação de corais completavam o espetáculo. Crianças brincavam nos alagados rasos e escuros do riacho enquanto casais se protegiam do sol no quiosque coberto por secas folhas de coqueiros.
Um reflexo chamou minha atenção e me fez respirar novamente por um momento muito breve. Meus olhos encontraram a portadora do objeto. Vestida com uma saída de praia laranja sobre o corpo mulato e sexy – os olhos caramelos tão claros como o sol, o cabelo marrom curto e encaracolado coroando o rosto liso, a boca marcante e sorridente com dentes brancos e brilhantes–, Lara vinha em minha direção sem que tivesse notado minha presença.
Estava linda e acompanhada. Do lado direito, o irmão caçula Lorenzo, um mulato forte e troncudo, mas bastante semelhante à irmã, principalmente os traços bonitos do rosto. À esquerda, Pietra, era mais baixa e cheia do que a melhor amiga de infância Lara, e sua cor era mais bronzeada do que natural. Não era feia, mas não tinha nem a metade da atratividade da outra. Eles conversavam animados. Estavam a cavalo, chegavam de um passeio pelas praias.
No pescoço, o objeto que me chamava. Um cordão de ouro contínuo e trabalhado, de onde pendia um pingente de água-marinha, uma pedra verde-azulada translúcida. Não estava lapidada e eu não precisava ver mais de perto para reconhecê-la. Aquele era o colar com o qual a havia presenteado no dia em que fizemos amor pela primeira vez.
Fazia tanto tempo e, no entanto, parecia que acontecera ontem. Tinha dezessete anos e estava aproveitando as férias de verão na casa de praia da família com minha mãe. Em uma tarde ensolarada, à beira-mar, avistara aquela menina bonita, de pele sedosa e sorriso genuíno caminhando na praia com a mesma amiga de agora. À época, tinha menos corpo, era mais comprida e magra, e estava com quinze anos. E me vi apaixonado por ela. Lara me notara quase que imediatamente e seus olhos dourados brilharam. Com minha coragem de adolescente, me apresentara e passamos o resto do verão juntos.
Minha mãe fora contra porque me achava muito novo para namorar. Vivia insistindo que devia estudar e estagiar na fábrica de aço antes de pensar em ter um relacionamento sério com alguém. Mas não a ouvira.
Frequentara assiduamente o sítio onde Lara morava com a família e conhecera todos eles. Seus pais, Eugênio e Margarida, foram perfeitos anfitriões e, apesar da filha ser muito nova, não colocaram empecilho em nosso namoro.
Lorenzo era o irmão caçula pentelho que não desgrudava da gente, quer fosse para nos vigiar – a mando dos pais – ou porque gostava muito de mim. Acreditara que era pelos dois motivos.
Os avós eram os mais divertidos. Contavam histórias antigas sobre a cidade e o país. Amava conversar com eles. Ambos viúvos há muito tempo, mudaram-se para o sítio dos filhos. Dona Teresa Casagrande era mãe de Margarida e o senhor Francisco Costa, pai de Eugênio. Também tinham altas discussões que me faziam rir muito.
Na última semana de férias, Lara e eu entramos em crise. Antecipamos a dor da separação. Quase não falávamos mais. Ficávamos apenas abraçados, nos beijando, nos acariciando, como para prolongar o tempo que nos restava.
Vendo a nossa tristeza, a família nos deixara em paz. Começava a matutar o que lhe dizer, como reconfortá-la, mas não havia palavras que pudesse aliviar a minha dor. Fora nesse momento que decidi lhe dar um presente que personificaria a minha presença em sua vida para sempre.
Ao contrário do que minha mãe pensava, a gema de água-marinha era minha. Eu a encontrara no dia em que fora abandonado nas dunas. Mas o que eu faria com aquela pedra? Por isso, minha mãe mandou fazer um cordão e a manteve junto com suas joias.
Durante a noite, me esgueirei no quarto de minha mãe enquanto estava na sala, distraída com suas revistas de moda ou programas de TV. Procurei a grande caixa, com cadeado, onde sabia que as gemas mais valiosas ficavam.
Estava no maleiro do guarda-roupa. Saí pelas portas dos fundos para que minha mãe não me visse e, de bicicleta, pedalei até o sítio dos pais de Lara. Eu a chamei na janela de seu quarto e ela saiu ao meu encontro. Com medo de sermos vistos, nos escondemos na Gruta do Balão, nas dunas do parque.
Em meio ao desespero, o presente só fez aumentar nossa dor. Ficamos agarrados por tanto tempo que nem saberia dizer. Com medo de perdê-la, acariciei e a beijei intensamente. Lara correspondeu ao meu carinho e no fim estávamos fazendo amor. Uma experiência inesquecível para mim.
Passamos a noite na gruta e fomos encontrados pela manhã por turistas. Acordamos assustados, mas já era tarde demais para que nossos pais não soubessem. Foi a última vez que vi a pedra. Naquela mesma tarde, minha mãe estava me arrastando de volta para Vitória. Não saberia dizer se estava mais brava por ter dormido fora de casa, ou por ter transado com Lara, ou por ter lhe dado o colar. Acho que por fim foi multiplicada por três.
E agora estava diante dela novamente. Havia me esquecido como era bonita. Respirei fundo como se a sensação de tranquilidade invadisse meu corpo pelo ar. Toda a inquietude de antes se fora. Minha mente estava clara. Eu me sentia muito bem-disposto, mais ainda. Sorri.
Sem perceber, minhas pernas me levaram até ela. Minha cabeça, acima do cavalo, que parou provavelmente quando Lara notou minha aproximação. Meus olhos presos na pedra quando me detive ao lado dela. Tive que me segurar para não estender a mão e tocá-la.
O silêncio ao meu redor era perturbador. Demorei algum tempo para perceber que eles esperavam que falasse primeiro. Engoli em seco e encarei Lara. Ela estava séria, seus olhos caramelos brilhantes de ansiedade. Instintivamente, pensei que não fora uma boa ideia me aproximar. Ao mesmo tempo sabia que era exatamente isso que precisava ter feito.
– Olá – cumprimentei com um sorriso simpático.
O trio desmontou para que nossa conversa fosse mais confortável. Responderam meu cumprimento com timidez e hesitação. Talvez estivessem pensando nos motivos que me fizeram me aproximar de modo tão estranho.
– Quanto tempo não nos vemos, não é, Lorenzo, Pietra? – acrescentei me sentindo um idiota. O que estava dizendo? – Como estão?
– Muito bem, obrigada por perguntar. – Somente Pietra foi capaz de responder. – E você?
– Estou bem também – fui cordial. – O passeio a cavalo deve ser melhor que de buggy.
– Sinceramente, não sei dizer-riu. – Mas adorei! Foi Lara quem teve a ideia. – Bateu na testa e acrescentou. – Nossa, perdi a noção do tempo. Está na hora de voltar para a cidade, senão chego atrasada ao meu turno na recepção da pousada.
Olhou para o irmão da amiga. O rapaz estava com os braços cruzados sobre o peito me analisando. Desviei o olhar.
– Lorenzo, você também vai se atrasar – continuou falando pelos cotovelos.
– Tchau, Lara. A gente se vê depois.
Saiu arrastando Lorenzo com um braço e as rédeas do seu cavalo com o outro. Sozinhos, continuamos calados. Estava ficando nervoso com aquele silêncio. Não era assim, o que estava acontecendo comigo?
– E então, Lara, como você está? – tentei começar a conversa. – Ainda no marketing da Vale?
– Sim – respondeu com sua voz suave. – Fui promovida há alguns meses a gerente do departamento.
– Parabéns!
Senti necessidade de me mover. A agitação só não me consumia porque ainda sentia aquela tranquilidade mística irradiando ao meu redor. Tentei pelo menos parecer mais dono de mim. Dei um passo e Lara me acompanhou como puxada por um ímã.
– E você, ainda longe da empresa de seu pai? – perguntou a moça depois de uns instantes de silêncio e alguns passos.
– Sim – respondi. – O negócio de consultoria está indo muito bem. Estou feliz com este trabalho.
Conversar com Lara era muito fácil. Ela tinha uma inteligência aguçada, era sensível e receptiva. Muito boa para trocar ideias. Apreciava sua companhia de muitas maneiras, percebia agora. Porém, hoje não fluía com a mesma naturalidade.
– Você está hospedado na vila? – perguntou.
– Sim, no camping. À noite vamos para a cidade pular carnaval.
– Acho que já está na hora, então.
Olhei ao redor. Nem havia percebido que o crepúsculo chegara. As parcas luzes artificiais pouco fizeram para amenizar o anoitecer. Nós andávamos sem rumo, mas já estávamos nos afastando do grupo que se dispersava devido à chegada da escuridão. Parei perto do quiosque e me virei para o mar onde o sol se escondia, tingindo a água, antes azul-esverdeada, de laranja. Lara parou ao meu lado contemplando o espetáculo junto comigo.
Enquanto o sol deixava a terra, o calor do corpo de Lara irradiava em minha direção, despertando em mim um fogo interno que conhecia bem. Olhei para ela, seguindo algo dentro de mim mais forte que qualquer vontade própria. Admirei sua pele sedosa. Meus dedos na maior comichão de senti-la.
Seus olhos brilhantes tocaram os meus e arderam em resposta ao encontro. Nossas mãos se uniram. Eu me curvei sobre ela e, com a mão livre, puxei sua boca para a minha com avidez. Não havia mais lusco-fusco para nós. Nossos corpos eram como um dia quente e ensolarado. O aroma de praia, sal e água apimentado com desejo. A textura sedosa de um pêssego, saborosa e irresistível.
Sabia que parar seria impossível. Esgueiramo-nos pela mata a fim de nos afastar do pouco movimento que ainda havia nas margens do riacho. Conhecíamos os lugares mais isolados e seguros. Nossas mãos não se soltavam. Somente as estrelas testemunharam nossa união. Sob o céu salpicado de pontos brilhantes fizemos amor como a primeira vez. Era muito especial e único. Lara sempre seria uma mulher irresistível para mim?
Enquanto nos amávamos, uma luz branca e intensa irrompeu entre nossos corpos. Boquiaberto, notei que a água-marinha cintilava como um astro no colo escuro de Lara. Antes que pudesse questionar minha sanidade ou a causa daquele fenômeno, o brilho se extinguiu.
Fiquei sem coragem de comentar sobre isso depois. O silêncio pairou entre nós enquanto mantinha seu corpo em meus braços. Meus pensamentos viajaram para o setor sentimental de mim mesmo e antes que eu pudesse organizá-los, adormeci.
Acordei no meio da noite ouvindo à distância o som dos blocos de carnaval e dos foliões. Procurei por Lara, mas não estava em parte alguma. Senti-me desolado e abandonado. A inquietação voltou a me atormentar.
Pensei que precisava tomar uma decisão definitiva quanto a Lara naquele momento, mas não sabia se seria capaz. Portanto, resolvi primeiro ir para a festa que não me aguardara para começar.