Ilha de Ar - Os Quatro Elementos, Volume 3

Josy Stoque · Capítulo 15 de 31

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Ilha de Ar - Os Quatro Elementos, Volume 3

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Em um lance rápido, os olhares de Lucca e Tam ires se cruzaram quando os dois grupos se uniram no saguão do aeroporto. A ruiva chegara m inutos depois, com os olhos inchados, am parada pelo braço forte e firm e de Alexandre.

Fora breve, m as o suficiente para ler toda a angústia de sua alm a. O rapaz sentiu um aperto no peito em com paixão pelo sofrim ento da irm ã. Lucca a viu adorm ecer nos braços de Alexandre depois de lutar por m ais um tem po contra o sono.

Racionalm ente, não aceitava o descontrole de Gustavo. Não concebia tanta loucura e falta de consideração. Desej ava que ele aprendesse, perdendo Tam ires e Sofia para sem pre, que afinal não valia tudo para satisfazer suas vontades.

Colocando-se no lugar da ruiva, o pantaneiro se im aginou passando pelo m esm o que ela. Não fazia ideia de com o reagiria, j á que nunca fora um a pessoa em otiva. Porém , depois que descobriu a felicidade, não saberia viver m ais sem .

Tam ires conhecera essa felicidade plena. Vivera um lindo conto de fadas e fora terrivelm ente enganada e decepcionada. Lucca a adm irava por ainda suportar seguir em frente, m esm o com o coração dilacerado – partido seria pouco para defini-lo.

Mais do que nunca, ela precisaria dele, de seu am or e com panheirism o, para esquecer os m om entos de dor que vivia. Decidiu que ficaria ao seu lado e a apoiaria m ais. Tam bém não deixaria Gustavo se aproxim ar novam ente.

Caiu em um a com paração estranha. Tam ires e ele haviam vivido histórias com pletam ente opostas. Em seu caso, não sabia o que era perder a felicidade, porque nunca a tivera. Não antes de conhecer Mainá.

Sentia-se quase com rem orso por estar vivendo algo tão especial com um a m ulher m aravilhosa e predestinada enquanto assistia o sofrim ento de Tam ires. Seu olhar rapidam ente buscou o da índia.

Também sinto tanto por ela. O que podemos fazer?

Os pensam entos de Mainá estavam em sintonia com os seus e a pergunta que fez, ficou m artelando em sua cabeça. O que m ais poderia fazer além de lhe proporcionar apoio e m anter afastado o m aluco de seu m arido?

Não conseguia pensar em nada. Ansiou pelo dia do alinham ento para que, enfim , fossem em bora deste m undo infeliz e vivessem em um m elhor. Talvez por lá, Tam ires finalm ente esquecesse.

Mas ainda havia Sofia. E aí estivesse sua resposta. Se pudesse fazer algum a coisa para trazer sua sobrinha, que ainda não conhecia pessoalm ente, para os braços da m ãe. Então poderiia devolver parte da felicidade de Tam ires.

Mainá fez m enção de se levantar e travou o braço protetor ao seu redor.

– O que foi? Está sentindo algum a coisa? – perguntou ansioso.

A indígena riu m atreira.

– Não, só preciso ir ao banheiro.

– Vou com você – disse se erguendo m ais rápido do que ela a fim de aj udá-la.

Ela revirou os olhos.

– Estou bem , m eu am or. Não estou passando m al.

Ele a encarou com um olhar pesaroso.

– Por favor, m e deixe acom panhá-la até a porta.

A índia sentiu rem orso por perder a paciência com o rapaz. Estava tão acostum ada a ser independente que aquele m im o toda a frustrava às vezes. Porém , controlou esse sentim ento e com preendeu a preocupação do ruivo. Tam bém devia ser frustrante para ele participar tão pouco da gravidez. Só ela podia sentir o bebê dentro de si. Sorriu.

Eu te amo.

O pensam ento carinhoso de Mainá fez Lucca se distrair de suas preocupações anteriores. Beij á-la fê-lo se esquecer inclusive de onde estava.

Durante o segundo voo, o rem édio fizera efeito e a índia não passara m al novam ente. Ficara aliviado. Ainda assim , não queria perdê-la de vista. Seria um a tortura aguardá-la do lado de fora do banheiro fem inino.

Ficou tam bém contente com a longa espera da conexão. Quase três horas. Seria um tem po despreocupado e m enos ansioso. Quando subia no avião, prim eiro ficava em alerta por Mainá. Em segundo lugar, tem ia o que encontrariam em Vitória.

Estava nervoso com a perspectiva de encontrar m ais um m em bro de sua fam ília. Era totalm ente diferente de com o conheceu Tam ires. Levara um susto ao ver alguém tão parecido consigo m esm o. Percebeu im ediatam ente que sua fam ília viera ao seu encontro.

Com Suzane, fora estranho. Ela era um a m ulher m agra e pequena, a fragilidade estam pada em seu rosto quando entrou em seu quarto. Não era tão parecida com eles. A irm ã havia dito que ela lem brava m uito a m ãe que vira em sonho.

Marcel havia confirm ado que Nicolas tinha tam bém as características de Suzane. Lucca ficou curioso para saber de quem , ele e Tam ires herdaram os cabelos de fogo. O astrônom o Pedro Tosquini, pai deles, tam bém era m oreno. Provavelm ente da avó, Rosa.

Divagar sobre bobagens sem pre o aj udava a afastar as preocupações e a ansiedade. Quando viu que Mainá voltava para perto, seu corpo relaxou e sua m ente se concentrou outra vez em seu obj eto de desej o, sonho e felicidade.

Ao sentarem , passou um braço ao redor de seu om bro e pousou a m ão livre sobre a barriga reta da índia. Perguntou-se quando poderia sentir o bebê se m exer. Ficava angustiado sem saber se estava tudo bem com ele ali dentro.Um a visão de raio-x aj udaria bastante, m as não era um poder que possuía. Riu sozinho ao pensam ento tolo.A índia sorriu contagiada por sua espontaneidade.

Sozinho em um canto esquecido, Marcel sentiu saudades de Suzane. Fazia várias horas que não falava com ela. Com o estaria? Teclou o núm ero conhecido no celular. A voz que atendeu do outro lado, depois de vários toques, era fraca e quebrada.

– Oi, te acordei? – perguntou o loiro.

– Tudo bem – sussurrou. – Com o foi a viagem ?

– Ainda não chegam os.

– Não? Que horas são?

– Mais ou m enos oito horas.

– Ah! – abriu um bocej o barulhento. – Dorm i pouco então.

– Você esteve vigiando, Suzane? – repreendeu. – Já disse para deixar com igo a partir de agora.

– Hum ...

Suzane ressonou baixinho do outro lado da linha, m al escutara a repreensão.Ele ouviu o telefone escorregar e cair no chão. Com um suspiro, o loiro desligou o aparelho. Apesar de estar bravo com ela, a deixaria descansar. Com o podia ser tão teim osa?

Prom eteu para si m esm o que se desdobraria nessa m issão sozinho, para que Suzane não precisasse se esforçar tanto. Teve m edo de perdê-la em prol de um bem m aior. Não permitirei que isso aconteça nunca, pensou ferozm ente.

***

Era a natureza que me chamava. Meu corpo, ao entrar na cidade – por mais que Vitória conservasse boa parte de suas belezas naturais intactas – implorara por um contato direto. Algo acontecera comigo enquanto voava ao sabor do vento em Castelo. Alguma conexão havia se estabelecido entre mim e ela.

Sempre fora um homem da cidade, por mais que gostasse de Conceição da Barra, de Itaúnas e até mesmo dos parques de Vitória.Eu me divertia com o que me propiciavam e depois corria de volta para meu apartamento de luxo com meu carro ou moto confortáveis e potentes.

Pisei descalço na areia branca e fofa, cercada por mata natural, da baía. Atirei a camiseta para o lado e esperei a água roçar minha pele. A temperatura era amena e agradável. Dei mais uns passos contra a maré até ficar com as pernas submersas. Mergulhei de uma só vez.

A água salgada e pesada levou consigo todo o resquício de impurezas de meu corpo. A pressão me fazia finalmente surdo, assim como quando estava no ar. A sensação era boa. Estava cansado de ouvir as conversas alheias. Queria voltar a ser normal.

Enquanto que no ar uma canção embalava meu voo livre, sob o mar uma certeza me invadiu e preencheu. Ficaria tudo bem. A calma se fortaleceu dentro de mim. Eu me senti como parte de um todo, muito maior que meu próprio ser. Sozinho, era limitado. Em meio à natureza, era parte importante e essencial.

Emergi a fim de buscar por ar. Ele entrou em meus pulmões, inflando-os. Meu coração bateu depressa e minha mente renovou sua clareza de pensamento. O estado de euforia voltara ao normal.

Uma via de comunicação se abriu entre mim e a natureza. Eu o percebia claramente. Mais do que um gosto pelo esporte, agora precisava estar em contato constante com ela.

Ao voltar para a praia, um desejo forte de ir para Itaúnas me atormentou durante todo o trajeto até o apartamento. Aliviado, pensei que o final de semana estava próximo para que pudéssemos voltar para lá.Sorri ao perceber que estava incluindo Lara em minha vida sem sofrimento ou relutância. Era natural como se ela sempre estivesse ao meu lado.

Pensar em Lara e em Itaúnas me fez lembrar da estranha conversa entre o pai e o avô da mulata. Será que o senhor me abordaria como fora sua intenção naquele dia? Ao mesmo tempo em que estava curioso para ouvir, também tive receio. Ainda assim, não fugiria do lugar, ainda mais agora que Lara voltara, em definitivo, para minha vida.

No corredor do prédio, percebi que Giovani estava em casa. Entrei já sorrindo. Há um tempo não o via. Resisti à brincadeira de abraçá-lo quando cruzei a entrada.

– Por que não atende nem retorna minhas ligações? – inquiriu sério ao me ver. – Você simplesmente desaparece como em um passe de mágica.

Giovani estalou os dedos para ilustrar o truque. Sorri zombeteiro. Meu melhor amigo estava agindo como uma mulher mal-humorada. Só faltava estar parado com as mãos na cintura e batendo o pé irritado.

Mas apesar do cenho franzido, estava preguiçosamente esparramado no grande sofá com os pés repousados sobre a mesinha central. O controle da TV em uma mão e na outra, uma garrafa long neck de cerveja.

– Oi para você também – respondi brincalhão.

– Agf, Nicolas, não espere que te paparique. Estou bravo de verdade. O porteiro falou que saiu com a moto.

Suspirei. Giovani me conhecia muito bem. Sabia que usava a moto quando precisava de liberdade para pensar.

– Então, agora que você sabe, por que continua bravo? – questionei.

– Porque você sumiu! – exclamou.– Como não atendia ao telefone, pensei que talvez algo grave tivesse acontecido. Onde, afinal, esteve?

Fui até a cozinha e peguei uma garrafa de cerveja para mim e me sentei ao seu lado antes de responder. Porém, ele não me deu tempo.

– Pelo amor de Deus, Nicolas, o que está acontecendo com você?

Seus olhos estavam esbugalhados e fixos na bebida em minha mão. Ele sabia que, por ser adepto da alimentação saudável, só ingeria álcool socialmente, apenas quando não tocava. Mas hoje era um dia excepcional, será que ele não podia entender?

Contei resumidamente o que fizera e Giovani ficou me olhando desconfiado durante todo o relato. Ele percebeu que omitira muita coisa.

– Agora que já sabe de tudo – perguntei mudando de assunto –,o que queria comigo?

– Ia te convidar para almoçar e jogar conversa fora.

Deu de ombros. Então estendi o convite para a balada e ele aceitou imediatamente com uma cara mais leve. Ligou para Milene a fim de chamá-la também.

– A gente passa aí... – dizia ele ao telefone e se interrompeu voltando-se para mim – Nicolas, que horas?

– Às nove, mas vou com meu carro.

Giovani entendeu o que estava subtendido e ergueu as sobrancelhas. Concluiu a ligação.

– Lara? – perguntou apenas.

Balancei a cabeça e sorvi mais um gole da cerveja. Não havia comido nada o dia todo e por isso ouvi o líquido percorrer com facilidade meu esôfago e cair barulhento em meu estômago. Não tinha fome. Talvez aquela bebida amarga abrisse meu apetite.

Terminei a cerveja enquanto conversávamos amenidades e conferi a hora. Eu me levantei dizendo que ia tomar banho e me arrumar. Giovani me lançou um olhar zombeteiro, mas não disse o que estava pensando.E não precisava. Tinha certeza de que ele avaliava minhas mudanças como influência de Lara. Ele não estava completamente errado, mas não fazia ideia dos outros motivos. E jamais diria.

Enquanto estava no chuveiro, ouvi um telefone tocando. Em seguida, a voz de Giovani atendendo o aparelho com entusiasmo. Era nosso amigo Augusto. Giovani foi logo o convidando e aos outros para nos encontrar no bar.

Fiquei satisfeito. Adorava meus amigos e fazia um tempo que não saíamos juntos. Seria um encontro para colocar o papo em dia e tornar mais oficial meu relacionamento com Lara.