Ilha de Ar - Os Quatro Elementos, Volume 3

Josy Stoque · Capítulo 26 de 31

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Ilha de Ar - Os Quatro Elementos, Volume 3

Deserto

 

Não sabia como, mas havia corrido até o deserto. Um calor escaldante tomou conta de meu corpo. Transpirava. Minha cabeça fervia. Até podia ouvir o som das bolhas em ebulição, uma sonora constante e hipnótica. A areia sob meus pés – quando havia tirado os sapatos? – salpicava a cada passada. Suor escorria sobre meu corpo seminu. Também não sabia onde havia largado a camiseta.

Tentei me recordar o que aconteceu. Qual seria o último acontecimento de que me lembrava? Forcei o cérebro fervente ao máximo até que uma lembrança meio distorcida emergiu. Estava dirigindo. Aonde ia? A pontada de dor que me enlouqueceu me fez perder o equilíbrio e caí de joelhos, as mãos sustentando o tórax suspenso no ar. Fechei os dedos como se pudesse moer mais a areia fina.

A dor era a única coisa que conhecia agora. Como era meu nome? Dor. Onde estava? No deserto. Ou era o inferno? Para onde ia? Morrer. Era a única coisa clara ali e como desejava. Olhei ao redor. O reflexo da luz na areia branca me cegava. Tudo era branco e brilhante. Pareceu-me, por um segundo, um cenário conhecido, mas de onde? Não lembrava.

Virei o rosto para o alto. Era escuro e abafado como um forno, mas não totalmente. Em algum ponto uma luz teimava em incidir sobre mim. O som das bolhas em minha cabeça não parava. Era de enlouquecer. Tentei me movimentar. Meus músculos demoraram a me obedecer também acorrentados pela dor. Sem outra opção, me arrastei sobre a areia. Cada mínimo movimento fazia a onda de dor palpitar forte.

Minhas forças eram um resquício, um fio, um pavio que se consumia rapidamente enquanto lutava contra o desmaio. Por que continuar lutando?, pensei. A morte não era inevitável? Desanimado, me rendi ao cansaço. Meu corpo estatelou na areia que me feriu o peito nu, os braços e a face esquerda. Aquela era uma dor nula comparada a que me rendia.

O horizonte daquele lado era engraçado, estava cortado por dois tons distintos de azul. Gostava do azul. Por que me lembrei disso? O que importava meu gosto por cores que não veria mais? Estava morrendo! Por que importava quem eu era ou de onde vinha se meu destino já estava traçado? Meu fim se aproximava em câmera lenta, deixando a dor e a ansiedade cada vez mais intensas.

Aquela areia infinita, tão clara que reluzia, parecia saída de algum filme, ou de alguma lembrança que guardei, mas que não me recordava agora. Já estivera no deserto antes? Por que aquele cenário me era tão familiar?

Lágrimas escorreram de meus olhos e morreram entre meu rosto e o solo arenoso. De onde vinha aquela nova dor que não era física, mas era tão intensa quanto a primeira? O que minha mente vazia precisava se lembrar, que meu coração já reconhecia pela emoção? Por que a dor é a primeira lembrança humana? Seria também a última?

Eu me encolhi feito uma bola para esperar pelo fim. O fim da dor, o fim do sufocamento no peito, o fim do meu sofrimento. Haveria ou só a morte aliviaria meu coração e mente? Não tinha por que viver. Mas também não sabia por que morria. A ausência de um pensamento limpo e eloquente não me ajudava. Não conseguia pensar direito. Não conseguia entender.

Foi uma nova dor que apagou as dúvidas e questionamentos de minha mente perturbada. Em uma velocidade espantosa, a dor física cresceu horrivelmente, causando espasmos musculares. Como um verme sedento por meu sangue, a dor caminhou por meu corpo machucando, ferindo, destruindo partes minúsculas, porém deixando uma mancha de destruição por onde passava.

Era como se fosse devorado por dentro. Contive o ímpeto de gritar e o desabafo travou em minha língua. O que me serviria clamar agora? Quem viria em meu socorro? Ninguém. Meu sangue ferveu. Ouvia as bolhas, outrora em minha cabeça, estourarem e se multiplicarem com rapidez por minhas veias. Buscavam uma morada fixa e encontraram.

No interior de minha coxa esquerda, a sensação se acentuou enquanto todo o restante de meu corpo passava para inércia, torpor e embriaguez. Estava perdendo meu corpo. A anestesia era bem-vinda. Alguém tinha piedade de mim.

Antes que pudesse comemorar, a dor e as bolhas permaneceram naquela região de meu corpo, crescendo como se multiplicassem por mil. Só tive tempo de colocar minhas mãos sobre o ferimento antes que não existisse mais nada.

Não havia mais corpo, apenas aquela ferida aberta que sangrava, queimava, borbulhava, ardia, crescia por dentro, comendo as vísceras que havia em seu caminho. Eu me senti inflar, como se uma bomba de ar estivesse conectada ao meu corpo e o enchesse gradativamente. A anestesia me fazia perder a sensibilidade, mas ainda não anulava a dor.

Estava oco, vazio e, no entanto, cheio. O ar preenchia as entranhas vazadas pela dor mortal. A sensação era contraditória. Cheio e vazio. Torturante e satisfatória. Morte e vida. Os fluídos que compunham meu corpo – ou energia, sei lá que nome dar – ganhavam vida, sentiam-se livres para vagar inclusive para fora do limite físico estabelecido por minha massa corpórea.

Liberdade era algo natural para mim, percebia em algum lugar longínquo de minha mente, porém daquela forma era totalmente nova. Cada célula de meu corpo ganhava vida e uma energia extracorpórea, como se fossem independentes.

Cada parte de mim tinha vida própria. O sangue fluía na direção que bem queria. Meu pulmão borbulhava ao receber e expulsar o ar. Meu coração saltitava descoordenado em meu peito disposto a criar um novo ritmo para meu organismo. Era leve, agradável, inebriante.

A dor, por um instante feliz, se fez esquecida na minha perna. Talvez porque minha mente vagasse além de meu corpo, alheia a todos os sentidos que não estivessem ligados a boa sensação que aquela liberdade quase espiritual me proporcionava.

Podia me imaginar flutuando, cercado pelo ar, tocando as nuvens com as pontas dos meus dedos. O céu como um azul celeste infinito, perfeito para meu voo sem destino. Iria ao paraíso ou ao inferno se pudesse ser livre daquela maneira sempre.

Seria agradável. O pensamento foi tão forte que minha mente vagou pela possibilidade e me levou por uma viagem pelo espaço sem fim. Os pelos de meu corpo arrepiaram a passagem do vento. Ainda tinha um corpo, pensei.

Mantinha meus olhos fechados para preservar a sensação, mas era estranho. Às vezes, era lançado com força maior do que a leveza que ansiava. Mal sentia o ar a minha volta, como se ele se aderisse ao meu DNA e fizesse parte de meu corpo. Não sentia fome nem sede. Eu era o ar, necessitava só dele. Estar nele e ele em mim, sincronizando nossas essências e nossas vontades. Vagar sem rumo ou preocupações pelo firmamento para sempre.

Mas que preocupações tinha fora a dor? O que estava escondido até de mim mesmo? Não fiz nenhum esforço para lembrar. Para quê se aquele era o prelúdio da morte? Nela não podia haver pensamentos. Essa pachorra de um filme passar em sua mente, de se arrepender dos erros que cometera para ser aceito no céu, não importava sinceramente para mim.

Não importava para onde ia depois dali. Se estivesse no limbo, no purgatório, ou o que mais existisse. Importava a sensação de não dor, não sufocamento, não existência. Aquela sim seria uma morte saudável. Uma pontada no peito. Senti que precisava lembrar de algo, mas o quê? Seria quem? Fiquei confuso e a calmaria deu lugar a um novo tormento. Era importante sim saber como havia ido parar ali e por quê.

Meu corpo continuou ausente enquanto forçava minha mente a se recordar. Depois de algum tempo, retrocedi ao momento que dirigia. De onde vinha? Para onde ia? Voltei mais um pouco antes que a lembrança da dor me perdesse.

Aquele exercício maluco estava gastando minhas reservas de energia, mas não podia parar. Se fosse morrer, tinha que saber por que e o que estava deixando para trás. Minha viagem ao tempo me trouxe uma lembrança de mim mesmo muito jovem e um cenário semelhante àquele. O rosto de um homem maduro estava associado àquela imagem. Senti vontade de chorar.

Pulei para a próxima e outras faces surgiram. Uma bronzeada e marcada, uma mulher de cabelos caramelos. Essa me passou mágoa. Porém, um salto na lembrança me levou a uma beldade de pele de ébano e um sentimento violento acendeu em mim. Os rostos que se misturaram na lembrança já não tinham importância. Sabia minha motivação. Estava ali por ela, mas por que me perdera de minha deusa e estava agora à beira da morte?

Olhei ao redor aterrorizado. Em que tipo de pesadelo estava? Uma mistura de cores confundia minha visão. Um abafamento me fazia transpirar abundantemente. A claridade embaixo ardia meus olhos enquanto a escuridão me sombreava.

Parecia uma tempestade, mas era estranha. O tempo continuava claro, porém escuro também. Não compreendia. Quanto mais tentava entender, pior me sentia. Tontura e mal-estar me dominaram. Foi quando olhei e percebi...

Não!

Uma nova onda de sufocamento acometeu meu corpo. O ar que tanto precisava não entrava em meus pulmões. Agora a morte estava ainda mais iminente. O desespero tomou conta. Aquele seria meu adeus. O ar caçoava de mim. Enquanto lutava para colocá-lo para dentro, ele girava a minha volta, feroz e zombeteiro. Uma raiva insana turvou minhas vistas mais do que o vento já me atrapalhava.

Estreitei as pálpebras e pisquei várias vezes sufocando e tentando enxergar melhor talvez uma saída para aquele inferno. O que havia feito para merecer uma tortura tão intensa e ininterrupta? O deserto sem fim encolhera? Fechava-se sobre mim como um amontoado de areia. Demorei tempo demais – já pronto para me entregar à morte de uma vez – para entender o que acontecia. O espanto foi maior que o horror.

Literalmente flutuava!

Não bastava essa loucura, outras aconteciam ao mesmo tempo, transformando o cenário em um set de filmagem de ficção científica. O vento, um redemoinho medonho e bravo, canalizara-se a minha volta. A areia se agitava como se fosse revirada por uma mão gigante e invisível. Explodia do chão como um gêiser. O azul, no horizonte, ficou todo salpicado com os grãos dourados.

Entre a linha da areia e o céu uma espuma branca começou a avançar. Uma onda turbulenta invadia o deserto e corria ao encontro dos outros elementos da natureza. O que faltava agora? Estremeci ao pensamento. Faltava o mais terrível deles e temi a forma como surgiria. Meus sentidos buscaram freneticamente o possível local. Seria como um vulcão em erupção ou uma bola incandescente caída do espaço?

De repente, uma luz muito branca, que quase me cegava, surgiu na areia parada – milagrosamente estática, diria – e foquei minha atenção nela receoso. Parecia o reflexo de algum objeto. Meus olhos se estreitaram atentos. Vi quando uma fumaça clara e fina começou a subir do ponto luminoso. Eles estavam doloridos pela claridade penetrante, porém não os desviei.

A fumaça subia animada e despreocupada quando uma pequena combustão fez uma chama tremular sobre a areia. O fogo não era maior do que a de um isqueiro, porém se manifestara sozinha, bem diante de mim, e queimava. Queimava, mas não imaginava o quê. Aquela cena inacreditável me distraiu de tal maneira que fui pego totalmente de surpresa. A morte me convocava para seus braços frios. Eu me encolhi enquanto via, como mágica, tudo desaparecer de minhas vistas. Era somente eu e a areia de novo, picando minha pele.

O ar a minha volta tornou-se ausente e esborrachei no chão. Mas aquele tombo não foi nada perto da dor que ousava voltar ao meu corpo com força redobrada. Seria possível? Agora percebia que sim. Convulsionei. Eu me debati semiconsciente buscando algo dentro de mim no qual prender minha sanidade. A dor engrossava minhas veias e sangrava meu organismo de dentro para fora.

Foi uma lembrança que me veio à mente como um raio que me permitiu suportar mais um pouco. Dirigia até a casa do Luis. Acabara de deixar Lara – que nome doce – na casa de sua amiga Pietra. Depois de virar uma esquina, uma dor estranha começou a latejar em minha perna. Eu a ignorei. Apenas passei a mão de leve sobre ela como para acalmá-la. Porém, em alguns minutos, ficou insuportável.

Suor abundante começou a escorrer pelo meu corpo e as primeiras crises de falta de ar me desnortearam. Minha perna não obedecia mais os comandos de meu cérebro para dirigir o automóvel. Mesmo com o ar condicionado do veículo no mais frio possível, a transpiração continuou escorrendo. Abri a porta do carro buscando respirar ar de verdade.

Não adiantou. Em total desespero, arranquei a camiseta e o tênis, e teria arrancado o restante da roupa se uma ideia maluca não se instalasse em minha mente. Precisava me mexer. Talvez a dor passasse. Comecei a correr sem rumo abandonando o carro. Ainda não conseguia me lembrar o ponto exato, já que minha mente estava confusa com as sensações lembradas e vividas. O cenário pouco importava.

Não vi por onde passava nem se existia mais alguém. Sentia uma solidão que me quebrava e o vazio tomou conta de mim até me deparar com o cenário triste do deserto. Ao mesmo tempo em que me acolhia, também redobrava a dor. Uma dor diferente que, associada à física, destruiu minha sanidade por um tempo que nem imagino. Quanto tempo havia passado?

A lembrança de nada me valeu. Continuava só, diante do conhecido cenário dourado, vendo – ou imaginando? – coisas que jamais poderiam existir e estava à beira da morte mais triste que alguém poderia ter.

A tristeza foi a última consciência que tive.