Ilha de Ar - Os Quatro Elementos, Volume 3

Josy Stoque · Capítulo 18 de 31

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Ilha de Ar - Os Quatro Elementos, Volume 3

Estratégia

ESTRATÉG IA

 

Ainda cam baleante, afetado pelo que acabara de acontecer, Alexandre tom ou m ais um a decisão. Poderia parecer im pulsiva, m as não havia tem po a perder.

– Lucca, Marcel. – cham ou baixo.

Em alguns segundos, os convocados se aproxim aram sem dizer palavra, aguardando as instruções. Seus olhos ainda buscavam os de Tam ires que estava absorta em algum pensam ento bem longe dali.

– Marcel, siga Nicolas e Lara – falou o m oreno voltando-se para o loiro. – Descubra onde m oram . – Virou-se para Lucca e Mainá antes de acrescentar. – Vam os esperar os am igos de Nicolas irem em bora para fazerm os o m esm o. Vocês ficam de olho no casal e vão quando sair. Tam ires e eu ficam os com os outros quatro.

Estavam tão concentrados que nem perceberam quando Marcel partiu. O loiro não teve dificuldades em cum prir sua tarefa. Pegou o casal entrando no autom óvel perto do bar. Tom ou um táxi que passava na rua m ovim entada e os seguiu.

O cam inho era bastante fam iliar apesar do rapaz nunca tê-lo feito pessoalm ente. Mas nos últim os dias j á perdera as contas de quantas vezes seguira Nicolas por aquele traj eto. As baladas ficavam em pontos sem elhantes da cidade litorânea.

Marcel podia se locom over sem dificuldade tanto na escuridão quanto no cenário m ontanhoso. Sentado ao lado do m otorista do táxi, m antinha seus olhos vívidos no carro de Nicolas que Lara dirigia com prudência.

A orla estava m ovim entada apesar da noite avançada. Muitos j ovens curtiam a m adrugada com o o casal que seguia agora e seus am igos. O lugar tam bém estava bastante ilum inado.

Por pura precaução, ou até m esm o exercício, Marcel rastreou a energia de Nicolas. Lá estava ela, flutuante e presente, apesar de levem ente vaga, m as o loiro não esperava encontrar aquela força estranha tão perto e firm e.

Era com o um m anto dourado poderoso cobrindo Nicolas por inteiro. Se o poder de Marcel precisasse tocá-lo, com certeza não conseguiria. Aquela proteção, com o avaliou, atrapalhava um pouco seu dom , m as não o anulava totalm ente.

Estreitou os olhos em busca de um a explicação plausível. Será que estiveram olhando para aquela energia de form a equivocada? Será que o obj etivo dela não seria proteger Nicolas invés de atacá-lo?

Mas se fosse alguém tão preocupado com sua proteção, por que não se aproxim ava deles? Será que tam bém os via com o inim igos? Ignorou os questionam entos inúteis e tentou buscar novam ente o foco daquela força.

De repente, a luz da água-m arinha toldou seus olhos de rastreador, cegando-o. Quem quer que estivesse por trás daquela m agia, tinha a pedra com o aliada. Isso o preocupou de novo. Alguém poderoso estava m uito próxim o de Nicolas.

Talvez não fisicam ente, com o esperavam , m as através de algum a entidade ou ser m ágico e invisível, que o estaria envolvendo em sua rede de sedução. Só um ser m uito grandioso poderia im pedi-los assim de reconhecê-lo.

Tem eu pelo pior outra vez. Não adiantava se iludir com suposições sem fundam ento. O m ais provável era que existissem m ais seres do lado do m ago negro do que do lado do bem , afinal. Depois de tantos anos de m anipulação e m agia, o m al estava enraizado na natureza, congelando seu coração.

O carro que seguiam sum iu em um a esquina à direita e Marcel sabia que haviam chegado. Viu quando Lara entrou com o carro na garagem do prédio de Nicolas. Sua intuição dizia que ela não sairia de lá tão cedo. Ainda assim , resolveu esperar até o am anhecer.

***

O beij o ainda era um a lem brança viva para Alexandre que lutava para m anter o foco. Tam ires não disse nada o deixando m ais nervoso. O que ela estaria pensando? O que teria sentido? Mover-se e seguir aj udaria a distraí-lo. Não queria com eter um a loucura consciente.

Colocou na cabeça que não passara de um gesto desesperado, a única opção que tinham naquele m om ento. Duvidou que tivesse acontecido em outra ocasião. Quantas vezes estivera a centím etros de beij á-la antes daquele dia?

Agora que havia conseguido, não tinha garantias de que Tam ires estivesse aberta para um a possível relação. O m om ento fragilizado pode ter aberto um a fresta, m as sabia que não passaria a am á-lo da noite para o dia.

Foco, Alexandre. Foco! Foco! Foco! Gritou consigo m esm o em pensam ento. Fixou seu olhar no grupo confuso e preocupado que Nicolas abandonara. Para ele pareceu que som ente naquela hora aquela j ovem em burrada voltava a sorrir.

Tam ires não sabia o que pensar. Por que fora tão natural tom ar um a decisão com o aquela? Tão im pulsiva e, no entanto, o susto m aior só viera depois, quando seus lábios se deleitavam com aquele beij o e seu corpo queim ava de desej o.

Nunca tivera m edo daquilo antes. Apesar de todos os sinais apontarem para aquele acontecim ento, Tam ires os ignorara. Preferira focar em seu próprio sofrim ento a adm itir que Alexandre m exia de um a m aneira forte e incontestável com seu corpo e sua m ente.

A ruiva se via confusa diante do óbvio. Sua dúvida se baseava em um a palavra. Estaria atraída? Fascinada? Apaixonada? Qual definiria seus sentim entos nada novos, porém m ais intensos pelo cunhado? Não, ele não era m ais seu cunhado!

Ao seu lado estava um hom em bonito, alto, m oreno bronzeado, às vezes taciturno – m as capaz de dem onstrar carinho verdadeiro –, inteligente, perspicaz, disposto a tudo para vê-la feliz. Um hom em que, podia afirm ar com certeza, seria capaz de am ar.

E por que não? Para essa pergunta, Tam ires não tinha resposta. Seus lábios ainda form igavam exigindo um a nova dose daquele beij o. Ignorou a sensação e voltou seu olhar para os am igos de Nicolas. Essa era sua m issão. Vigiá-los.

Mainá precisava se sentar. Seus pés doíam e o m al estar subia por suas pernas, deixando-as dorm entes. Suspeitou que estariam inchados. Precisava erguê-los, porém ali não seria possível. Tentou esconder seu desconforto o m áxim o que pode.

Ma s Lucca era capaz de vigiar o outro casal e ela ao m esm o tem po com a m esm a atenção. Achava um a droga ser tão hum ana ao lado de um deus. E para piorar um pouco a situação, era um a hum ana grávida. Torceu o nariz.

Em seguida se censurou. Aquele era um m om ento m ágico e único em sua vida. Fora criada para gerar o filho de um deus. Um privilégio concedido pelos deuses. Sentia-se abençoada. Pousou as m ãos sobre o ventre com o para se desculpar.

Am ava profundam ente aquele pequeno ser, fruto da união com seu predestinado. Era a serva de um a causa m uito m aior. Seria responsável pela continuidade de pessoas especiais com o seu Lucca. De dois m undos distintos, nasceria um novo e único.

Olhou o rosto pálido e sardento de Lucca e viu nele a esperança. Reunia paz, verde e fogo em um conj unto harm onioso. As sardas associou à terra por sua cor bronzeada. Era a personificação dos quatro elem entos. Divagar a aj udou a se esquecer das dores.

Lucca estava duas vezes ansioso. Via nitidam ente o cansaço de Mainá e ao m esm o tem po não desgrudava seus olhos do casal. Queria partir em seu encalço, porém eram os m enos preocupados com o sum iço de Nicolas e Lara, tão focados estavam um no outro.

Estava alerta, pronto para se m over quando se retirassem . Preferiu se afastar m ais um pouco e levar a índia até um a cadeira. Sentou-se em um a posição estratégica a fim de não perdê-los de vista. Seu olhar cruzou com o de Alexandre que se desviou antes que pudesse ler seus pensam entos.

O rapaz soube, naquele instante, que algo perturbava o m oreno. Procurou o olhar de Tam ires e os percebeu sem foco. Havia acontecido algo entre eles. Esperava que não fosse um desentendim ento. Precisavam m uito estar unidos.

Os quatro am igos de Nicolas pareciam não se entender. Metade ainda queria curtir a noite e a outra parte que a dessem com o encerrada. Então alguém propôs que fossem em bora. Im ediatam ente, os m úsculos de Alexandre se contraíram em antecipação. Tam ires se retesou ao seu lado assim que sentiu sua reação à discussão.

Deixaram o casal para trás com um a despedida seca e saíram j untos em silêncio. Pareceu para Alexandre que Nicolas era o centro do grupo. Sem ele, a noite acabava. Não fazia sentido para o m oreno, m as percebia que para eles sim .

Lançou um olhar breve para Lucca antes de se virar e puxar Tam ires pela m ão. Na calçada, viu os quatro passarem dentro de um a cam inhonete cabine dupla brilhante em alta velocidade. Entraram no prim eiro táxi que Alexandre encontrou e pediu ao m otorista para seguir aquele carro sem que fossem vistos.

Tam ires não tentou conversar, com o era de seu feitio. O silêncio o incom odava a ponto de irritar. Aquela situação estava ficando insustentável. Precisava saber o que ela estava pensando, m as não tinha coragem de perguntar. O m edo da resposta o m antinha calado.

Apesar de não se falarem , seus corpos se tocavam e suas m ãos continuavam unidas. Alexandre não a soltara quando a puxou para dentro do táxi. Aquele m ísero contato o alegrava e sobressaltava. Estaria se iludindo? Com certeza, respondeu m entalm ente para si m esm o.

Com o canto do olho espiava Tam ires e com sua atenção principal, seus olhos antecipavam na escuridão o cam inho do autom óvel que perseguiam .O rapaz aj udava o m otorista a não perdê-los de vista, m antendo um a distância segura.

Aquele am or ainda o confundia, frustrava, irritava. Ao m esm o tem po, tornara-o escravo, subm isso, obediente e não m enos feliz. Um a felicidade que nunca concebera antes. O sim ples fato de Tam ires corresponder ao seu carinho, j á o enchia de um a alegria indescritível. Sentia-se bobo e ao m esm o tem po o hom em m ais feliz do universo.

Estar apaixonado era um estado de espírito instável e torturante. Ora um a alegria que extrapolava os lim ites de seu corpo físico, ora um a tristeza inconsolável, que esm agava seu coração contra as costelas. Tudo era m uito intenso. Sentia-se em um a m ontanha russa.

Será que afinal de contas não tinha escolha? Lutara tanto, racionalm ente, para não viver algo assim e agora estava preso por am arras invisíveis e fortes dem ais para que pudesse se soltar. O que faria depois? Depois que tudo aquilo term inasse e Tam ires não o quisesse – ou não precisasse – m ais ele por perto?

O que faria? Para onde iria? Que significado a vida teria depois de seu ‘não’ definitivo? O que faria se não pudesse viver aquele am or? Alexandre se proibiu de continuar tocando o assunto para esse cam inho. Para quê sofrer por antecipação?

Ainda assim , seu corpo inteiro exigia m ais de Tam ires. A pequena am ostra que tivera abrira apenas o apetite voraz que seu corpo sofria pelo dela. Devorá-la, m esm o naquele carro, m esm o no m eio de um a m issão im portante, m esm o com plateia, não tinha a m enor im portância agora.

Faria qualquer coisa para aquela ânsia passar de vez. Cada pequena porção só tornava o desej o m aior, m aior, e m aior. Já não cabia m ais dentro de seu corpo hum ano, apesar de forte e resistente. Ainda assim , tinha lim ites que desconhecia.

De repente, o carro parou. Estavam em frente a um prédio alto e luxuoso onde Alexandre viu a cam inhonete entrar. Gravou o nom e da rua e do edifício assim com o o cenário ao redor com o referência de endereço. Em seguida, solicitou ao taxista que fosse ao hotel onde estavam hospedados.

Sua voz soou baixa e rouca e o m otorista teve dificuldade de entender. Alexandre sentiu a tensão e o nervosism o tam bém em Tam ires, pensou satisfeito que, pelo m enos, não sofria sozinho. Aquela verdade lhe deu algum a esperança, bem lá no fundo.

O celular de Alexandre tocou e ele conferiu a bina. Ignorou a cham ada e o recolocou no bolso. Tam ires achou m elhor não perguntar quem era, m as ficou curiosa. Seus dedos flexionaram autom aticam ente e o rapaz se virou para encará-la. A ruiva viu um a luz estranha no fundo escuro de seus olhos.

***

Vendo-se sozinhos e ansiosos por privacidade, o casal tam bém resolveu partir, para alívio de Mainá. Lucca conseguiu com facilidade um táxi que acom panhou o grande carro do casal.

A índia nunca saíra do estado e, m esm o cansada, queria aproveitar ao m áxim o a viagem . Observou o cam inho sem realm ente se atentar ao traj eto. Concentrou-se na arquitetura, ora m oderna ora da época colonial. Um a m istura que sem pre a encantou.

As luzes ao longo do cam inho descortinavam para seus olhos lim itados o belo cenário a sua volta. Ao longe, m ais luzes, em um desenho encantador, cham aram sua atenção. Som ente quando se aproxim aram percebeu que se tratava de um a ponte. Era um a das pontes sul da cidade que Lucca lhe m ostrara no m apa, pela internet. A m agnífica estrutura m etálica ligava a capital a Vila Velha por sobre a larga Baía Vitória.

O cenário era lindo. Mainá se perdeu m aravilhada com as m ontanhas e a cor da água colorida pelas luzes. A estrutura da ponte encantava m ais ainda de perto e ficou seduzida pela harm onia entre a obra divina e a hum ana.

Aquela era a m esm a situação que a sua, pensou. Um a reles hum ana com panheira de um deus. O im perfeito e o divino, unidos harm oniosam ente. A m aior prova de que sua união era válida estava em seu ventre.

O sacolej ar do autom óvel acentuou a preguiça em seu corpo. Estava m ole e entregue. Desej ava m uito fechar os olhos e dorm ir. Ao m esm o tem po, sua m ente estava ligada, m as seu corpo tinha suas próprias lim itações, ainda m ais naquele estado.

Ao chegarem ao final da ponte, entraram na cidade entre duas m ontanhas gigantescas. Seguiram a estrada que virava abrupta para a direita ao pé do m orro e seguia o contorno da form ação rochosa.

Por fim , viram o carro estacionar em frente a um a casa, m as o casal não desceu antes de m eia hora. O sol com eçava a nascer atrás do m orro e j á era um a batalha dura dem ais contra o sono para Mainá lutar.

Foram os trinta m inutos m ais longos da vida da índia. Quando finalm ente entraram na casa, recebidos na porta por um senhor grisalho, voltaram para o hotel em Vitória.

***

Chegaram quase ao m esm o tem po e entraram no quarto m aior para conversar. Fizeram um breve relatório sobre seus vigiados. Alexandre instruiu em seguida.

– Vam os descansar um pouco agora. Mais tarde nos reunim os. Continuarem os a vigiá-los. Precisam os descobrir qual deles pode ser o detentor da m agia que sentim os.

Cansado com o estava, Marcel não falou sobre suas suspeitas. Contaria quando tivesse certeza. Afinal, só os deixaria m ais nervosos. Bocej ou alto enquanto se despediam .

O grupo se dividiu novam ente em dois. Alexandre lançou um últim o olhar para Tam ires que leu em sua alm a o desej o que havia por ela. Seu coração se apertou angustiado. Os próxim os dias seriam difíceis.