Ilha de Ar - Os Quatro Elementos, Volume 3

Josy Stoque · Capítulo 19 de 31

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Ilha de Ar - Os Quatro Elementos, Volume 3

Ressentida

 

Aquele dia não começava bem para mim. Primeiro, despertei assustado com o som de uma porta se abrindo. E a maior decepção veio ao constatar que Lara tentava sair para o trabalho. Conferi a hora desnorteado e vi que eram dez da manhã. Sem sucesso na tentativa de persuadi-la a ficar, voltei para a cama – quer dizer, finalmente me joguei nela – para continuar dormindo. Não estava nem um pouco disposto a enfrentar o novo dia.

Estava de ressaca. Era raro, por mais boêmio que eu fosse, voltar para casa naquele estado lamentável. Havia perdido completamente o controle sobre mim mesmo em todos os aspectos e isso me assustava mais do que qualquer outra coisa. Nesse mundo, só sabia o que conhecia sobre mim mesmo. Meus limites, meus talentos, meus relacionamentos. Eu era um conjunto de tudo aquilo e feliz me sentia em conhecê-los muito bem.

Aqueles estranhos fenômenos – ou seriam impressões de minha mente doente? – estavam tornando minha vida um inferno astral, se é que isso realmente existia. Mas, naquele momento, podia acreditar em qualquer coisa. Que diferença faria uma loucura a mais ou outra a menos? Nenhuma. O que sofria era irreversível e se agravava a cada dia. O desânimo tomou conta de mim. Não me reconhecia mais. Quem era aquele Nicolas? Não gostava dele!

Na hora do almoço, Giovani apareceu em meu quarto, invadindo sem pedir licença. Meu amigo não conseguiu me convencer a me levantar, então, almoçou qualquer bobagem – adorava hambúrguer e refrigerante – e foi trabalhar.

Voltei ao meu marasmo preguiçoso e doloroso. Além de minha cabeça, meu corpo inteiro doía como se eu tivesse corrido uma maratona. Ai! Mudar de posição na cama era desconfortável, mas ainda assim não estava pronto para deixá-la.

Cochilava quando o telefone da sala começou a tocar. Eu o ignorei. Não levantaria nem se um incêndio ameaçasse o prédio, muito menos por causa daquele toque. Porém, o som mudou para a música da banda Capital Inicial no meu celular. Estiquei o braço sem nem mesmo abrir os olhos e tateei até encontrar o aparelho. Levei-o a orelha sem conferir a bina. Resmunguei um ‘alô’ baixo e mal-humorado.

– Nicolas? – perguntou a voz do outro lado da linha.

Dei um pulo, despertei e sentei na cama. Algo raríssimo acabara de acontecer. Minha mãe estava me ligando.

– Preciso te perguntar uma coisa – acrescentou depois que confirmei minha identidade meio alarmado.

Celeste Bertoldi me procurando? Aquilo era muito estranho. Estaria precisando de um conselho na fábrica? Bem, saberia agora.

– Pode fazer – respondi firme.

– É verdade que está saindo de novo com Lara Costa?

Odiava o tom profissional de minha mãe – até mesmo o jeito esnobe com que pronunciava o nome da mulata – quando tratava de um assunto totalmente pessoal. Seria para não dar a entender que se importava? Mas só o fato de questionar a denunciava.

– Pelo amor de Deus, Celeste – retruquei –, estamos em pleno século vinte e um. Não acha que faz tempo demais que a escravidão foi abolida?

– Está insinuando que sou racista? – explodiu ela.

– Não, não estou insinuando nada. Estou afirmando com todas as letras.

– Ela não serve para você!

– A senhora já me disse isso uma vez.

– E você me deu razão.

– Naquela época ainda não sabia o que queria da vida – respondi com rapidez.

– E agora você sabe?

Minha mãe estava mudando de tática. Saiu do conselho profissional para o descontrole emocional e agora tentava me humilhar com seu cinismo. Ela não acreditava em mim. Suspirei.

– Posso perguntar por que isso é da sua conta? – questionei com um falso respeito.

A linha ficou muda por apenas dois segundos.

– Porque sou sua representante legal.

Que termo bonito para mãe! O que ela estaria insinuando? Que Lara só queria meu dinheiro? Que eu não era capaz de fazer minhas próprias escolhas? Que dependeria para sempre dela? Com uma tristeza verdadeira, falei em voz alta.

– Sinto muito, mas preciso desligar agora. A gente se vê na próxima reunião do conselho.

Antes que pudesse retrucar, desliguei o aparelho. Eu me levantei da cama sem pensar muito na conversa insípida e inacreditável que tivera com aquela que deveria me oferecer amor incondicional. Fui direto para o banheiro tomar uma ducha revigorante. Estava na hora de começar o dia com o pé direito.

***

Duas horas haviam se passado quando Tam ires despertou com a voz de Alexandre sussurrando no corredor do hotel.

– Já avisei para você não m e ligar! – pausa – Não interessa o m otivo, se vira! É para isso que te pago um a boa grana!

A ruiva refletiu. Nunca soube quais eram os negócios de Alexandre, nem quanto ganhava com eles, m as nunca lhe faltava dinheiro, m esm o de férias por tem po indeterm inado. Essas viagens pelo Brasil eram boa parte financiadas por ele.

– Não m e ligue m ais – continuou o m oreno. – Quando puder, eu te ligo!

A ligação foi interrom pida. Olhou para o lado. Mainá e Lucca dorm iam profundam ente abraçados. Podia ouvir Marcel roncando no quarto ao lado. Alexandre voltou para lá, m as inquieto foi para o chuveiro. Tam ires ouviu o som da água sobre seu corpo e o pensam ento de sua nudez fez seu próprio corpo arrepiar.

Suada, tam bém resolveu ir para o banho. Um a ducha de água gelada seria capaz de apagar aquele fogo ousado que teim ava em ressurgir. Queria entender o que era aquele sentim ento, m as ainda não conseguia.

Trinta m inutos depois, encontrou o m oreno na recepção do hotel providenciando, via telefone, aluguel de carros. Em m enos de dez m inutos estava tudo resolvido. Adm irava dem ais sua agilidade em solucionar e até antever problem as.

– Bom dia – cum prim entou. – Já tom ou café?

– Bom dia – respondeu sorrindo. – Desacostum ei a tom ar sozinho. Ainda bem que você acordou para m e fazer com panhia.

Tam ires se sentiu ruborizar, m as desviou o rosto para que o m oreno não visse. Nos últim os m eses, o ato de tom ar café da m anhã com Alexandre fora natural e despreocupado. Mas não hoj e. Aquele seria no m ínim o um dia estranho.

Foram em silêncio para o restaurante, passaram pela m esa central enchendo pratos e copos e se sentaram em um canto isolado do lugar quase vazio àquela hora da m anhã. O sol forte invadia o recinto fazendo Tam ires pensar em seu óculos de sol.

– Com quem estava falando ao celular? – puxou conversa a ruiva.

Alexandre parou de levar um a colherada de salada de frutas a boca para responder.

– Era do trabalho. Contratei um cara para fazer representação no m eu lugar. Estam os dividindo a com issão.

Com o sem pre, sua voz era de um a tranquilidade sem par. E com o o esperado, fora breve e direto, m as Tam ires percebeu um pouco m ais. Havia um toque sensual e sedutor que antes não a tocara. Hoj e era outro dia. Não, não um com o outro qualquer. Porém , o dia seguinte àquele beij o inesquecível.

– Vam os de carro alugado vigiá-los? – perguntou de novo.

Não queria ficar em silêncio novam ente e tam bém não queria perder a norm alidade com Alexandre. Mas era óbvio que forçava a situação.

– Sim – respondeu depois de term inar de engolir. – Acho m ais prático. Terem os m ais liberdade para segui-los. Fora o custo que é m enor.

– Hum – resm ungou concordando.

Era difícil se concentrar no que ele dizia enquanto seu corpo ansiava por outro tipo de contato. Não conseguiu pensar em m ais nada para dizer nem perguntar. Alexandre tam bém não fez nenhum esforço, m as isso j á era característico dele. O silêncio preencheu a conversa até o final do café da m anhã.

Seus olhos se cruzavam de quando em quando. A alm a de Alexandre estava agitada e ansiosa, m as seu rosto era plácido. Tanto que Tam ires dem orou a detectar seu nervosism o. Ao final da refeição, ele com eçou a dizer inseguro.

– Tam ires, sobre o que aconteceu...

A ruiva ia interrom pê-lo quando ouviu Lucca, Mainá e Marcel saindo do elevador. O m oreno percebeu e parou de falar im ediatam ente, m eio sem graça. Parecia decepcionado com a introm issão.

O casal teve que esperar que os outros tom assem o desj ej um . Enquanto com iam , Alexandre falava sobre seus planos m atinais para a vigilância do dia, ou até dos próxim os. O ponto de partida seria o apartam ento de Nicolas.

Era necessário que verificassem prim eiro seu despertar e sua rotina antes de partirem para a m issão de encontrar aquela força teim osa e escorregadia. Seria um dia cheio, ainda m ais se a turm a do rapaz inventasse m ais um a noitada.

Em frente ao edifício – de um lado a civilização im ponente e do outro o azul claro e vibrante do m ar no canal longo da baía – presenciaram todos os dilem as m atutinos de Nicolas.

Quando Lara apareceu na entrada, Alexandre j á estava com o celular na orelha.

– Marcel, siga Lara. Não deixe de vigiar Nicolas.

O loiro partiu atrás do táxi da m ulata. Alexandre j á pensava em dispersar o restante do grupo quando Giovani entrou no prédio. Dem orou o tem po de um a refeição e saiu novam ente. Nesse m om ento, ordenou a Lucca que o seguisse.

Foi quando j á achou que estava tudo bem com Nicolas e que m ais nada aconteceria de novidade quando o celular dele tocou. Alexandre e Tam ires ouviram toda a conversa boquiabertos.

– É a m ãe dele? – sussurrou a ruiva desnecessariam ente.

– Ao que tudo indica, sim – respondeu tam bém m urm urando o m oreno. – Não havia previsto isso. Acho m elhor você ir atrás dela e eu fico com os outros quatro. Pegue um táxi – orientou – e peça ao m otorista para levá-la a fábrica de aço Bertoldi.

O m oreno lhe passou um a quantia absurda de dinheiro antes de deixá-la descer do carro. O contato físico fora breve, porém intenso, cheio de significado. O desej o por um beij o de despedida ficou suspenso entre eles quando se afastaram .

Tam ires se sentia de volta a adolescência enquanto cam inhava trêm ula até o táxi. Orientou o m otorista e apenas sentiu o carro sacolej ar, m as não via nada. Nem percebeu quando estacionaram em frente à siderúrgica.

– Moça? Moça! – cham ou várias vezes o taxista – Chegam os.

O tem po havia urgido. Quem lhe havia roubado? Precisava pensar, m as não conseguia. Precisava focar, m as tam bém era difícil. Despertando, a ruiva olhou para o prédio im ponente. Possuía vários andares adm inistrativos e em baixo estava a fábrica, funcionando a todo o vapor. Na frente, um a enorm e e abarrotada recepção.

– Moça? – voltou a perguntar o hom em .

– Deixe o taxím etro rodando, por favor – respondeu Tam ires sem se virar para o m otorista.

Antes de tom ar qualquer decisão, resolveu tirar m ais inform ações do hom em curioso que a espiava pelo retrovisor.

– Qual o nom e do senhor? – perguntou se virando para o espelho central do carro.

O taxista piscou ao perceber que, finalm ente, a linda m ulher sentada no banco de trás de seu carro falava diretam ente com ele.

– João e o seu?

– Denise – m entiu. – João, você sabe algum a coisa sobre essa fábrica e seus proprietários?

O senhor assoviou baixinho antes de responder.

– Se eu sei? Sou um dos poucos que conheceram o velho Bertoldi nos tem pos áureos! – exclam ou com nostalgia. – O hom em não sossegou enquanto não teve tudo que sonhou. Pena que não viveu o suficiente para aproveitar seu sucesso ao m áxim o!

– Esse Bertoldi pensava m uito em dinheiro? – estim ulou ela.

– Não! – respondeu rapidam ente o taxista. – Ele era um visionário nos negócios, m as tam bém se im portava m uito com a fam ília. Pena que se deixou conquistar por um a m egera j ovem , bonita dem ais e seca!

Tam ires sorriu. Será que ele finalizará todas as suas afirmações com parênteses? Esperava que sim para que chegasse o m ais perto da possível verdade sobre a fam ília que adotara Nicolas.

– Seca? – instigou.

– A senhorita não é daqui – desviou-se do assunto. – Logo se vê por seu sotaque e suas dúvidas. – Riu sem graça. – Celeste Bertoldi, apesar de m uito j ovem quando conheceu Ângelo, é estéril. Bertoldi nunca conseguiu realizar o sonho de ter m uitos filhos. Esperou m uito tem po para se casar e quanto o fez, escolheu a m ulher errada de m uitas m aneiras.

Com o se confidenciasse um segredo de estado, o hom em se inclinou no banco e passou a cochichar.

– Dizem que o interesse de Celeste no velho estava apenas nos m ilhões que ele acum ulara durante anos de trabalho. Tanto é que, m esm o com a adoção de Nicolas, Celeste fez de tudo para afastar o filho dos negócios do pai m orto.

P a ra Tam ires estava claro que parte daquela narrativa era exagerada. Parecia um a tram a da novela das nove.

– Tam bém dizem que o rapaz adotado leva j eito para os negócios e que Celeste o deserdou depois que ele se apaixonou por um a m oça pobre e negra, m as parece que ele vive m uito bem apesar de não ganhar nada da m ãe. Nada do que lhe é devido.

– Com o Nicolas foi adotado? – perguntou a ruiva.

– Ah! O coração do velho Bertoldi se com padeceu do órfão que encontrou sozinho e abandonado no litoral norte. Tenho para m im – confidenciou novam ente – que ele teria enfrentado um a briga j udicial pela guarda do garoto, m esm o se tivessem encontrado seus pais verdadeiros.

– Com o Celeste reagiu à adoção? – essa era a questão m ais im portante para ela no m om ento.

– Ah, nada bem ! Não acho que ela tenha espírito m aternal.

Sua cota de perguntas havia acabado. Ficara satisfeita que o m otorista fora obj etivo e sucinto. Agora precisava ver essa m ulher de perto.

– Com o Celeste é? – lançou m ais um a pergunta repentina.

– Baixinha, m agra, pequena. Corpo bronzeado que acaba envelhecendo seu rosto m ais do que realm ente é. Cabelos castanho-dourados queim ados do sol; olhos castanhos sérios e penetrantes. Um a cara am arrada constante de dar arrepios.

Um clássico sedan entrou no estacionam ento da em presa naquele instante. Tam ires observou atentam ente para ver quem sairia do autom óvel. Um a m ulher com a descrição feita pelo taxista desceu do veículo assim que ele parou em frente à recepção. O carro arrancou novam ente perm itindo que visse seu andar duro e esnobe.

Aquela era a m ulher indiferente que se dizia m ãe de Nicolas. Seu irm ão m ais novo era órfão duas vezes. Sentiu raiva de Celeste por não ser capaz de dar am or para o único filho que teria. Que tipo de sentim entos a m ovia, afinal?

Sentiu gana de sair do táxi e dar um cutucão nas costas da em presária som ente para ter a oportunidade de olhar em sua alm a e saber toda a verdade escondida ali. Mas se segurou. Precisava arm ar a situação adequadam ente.

Ouviu a voz aguda e nada sim pática de Celeste ao cum prim entar a recepcionista de m aneira autom ática. A funcionária respondeu com um m urm úrio distante. A em presária não parecia ter um bom relacionam ento com ninguém , concluiu. Era um a solitária e infeliz m ulher rica e esnobe.

Foi com ansiedade trem enda que acom panhou os passos curtos e cadenciados de Celeste pelos corredores do edifício. Sentiu que a m ulher subia até o últim o andar, onde deveria ser sua sala.

Tinha ânsia de encarar aquela m ulher estranha e distante. Ficou tão concentrada nela, m esm o sem poder vê-la através das j anelas reflexivas, que se esqueceu do m otorista. Por m uito tem po prestou atenção a cada respiração que saía de sua boca.

O toc toc de seu salto ressurgiu m uito pouco. Som ente ao final do expediente aum entou a intensidade j unto com outros. Era tam bém um a m ulher pontual e sistem ática, refletia. Gostava de cum prir horário.

Agindo por im pulso, antes que os passos recom eçassem na recepção assim que o elevador parasse, desceu do carro e entrou sorrateiram ente na em presa pelo estacionam ento principal. Ficou parada do lado de fora da porta, com o se esperasse alguém .

O som do sapato era inconfundível no piso frio e liso. O andar da em presária acom panhava as batidas fortes de seu próprio coração. Quanto m ais ela se aproxim ava, m ais ele bom beava apressado.

Um segundo antes de Celeste cruzar a porta de vidro, se virou para a direção prevista, antecipando o encontro de seus olhares e a revelação de um a verdade im portantíssim a para Nicolas.

Amargura. Ressentimento. Solidão.

Esses foram os sentim entos que em anaram da alm a de Celeste. Um a alm a sem brilho, pálida e sem graça, ferida, m achucada, triturada durante anos a fio. Não pode deixar de sentir pena, apesar da raiva que outrora nutrira. Precisaria de m uito m ais tem po e contato para saber m ais.

Porém , saiu dali satisfeita por não encontrar ódio. Já que Celeste era apenas um a hum ana com um , cheia de defeitos e quase nenhum a qualidade, pelo m enos não nutria sentim entos destrutivos quanto ao filho ou outros. Era apenas um a m ulher infeliz. Portanto, a deixaria curtindo sua própria infelicidade tratada com tanto esm ero.