Ilha de Ar - Os Quatro Elementos, Volume 3

Josy Stoque · Capítulo 5 de 31

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Ilha de Ar - Os Quatro Elementos, Volume 3

Suspeita

 

Do outro lado do país, o feriado prolongado fora bastante apreensivo e sem novidades. Im paciente e ativa que era, Tam ires m anteve seu tem peram ento forte e decidido no com ando de seus sentim entos oscilantes. A ansiedade provocada pela espera não a deixava ficar quieta.

Dividiu suas inquietações com Lucca, contando-lhe com detalhes o m otivo de sua briga com o m arido, Gustavo. O em presário havia sequestrado a própria filha a fim de obrigá-la a sair do Brasil antes que Tam ires pudesse descobrir a verdade sobre si m esm a. Sua pedra desapareceu e ele lhe deu de presente um a cópia falsificada.

Contou que, depois que a am etista – sua am ada gem a lilás – se acendeu, a m aneira com o via as pessoas m udara e, consequentem ente, pode perceber o quanto Gustavo estava apreensivo e se sentia culpado por algo que não assum ia. Antes de se separarem , o m arido confessou seu m aior erro para a m ulher.

Com água nos olhos, narrou ao irm ão a últim a conversa que teve com Gustavo e a verdade de seus sentim entos quando lhe confessava sua participação, bem lá atrás, na separação de sua verdadeira fam ília. Disse com o aquilo a havia ferido, e tam bém no perdão que entalara em sua garganta durante a despedida.

Lucca ficou inquieto com o relato da ruiva. Honesto e introspectivo que era, rum inou suas próprias ideias. Não pode esconder sua ansiedade de Tam ires, assim com o ela não pode encobrir seus pensam entos dele e por prudência, não externou suas conclusões a respeito.

A história da irm ã o com oveu bastante e am bos choraram um nos braços do outro. Dois sentim entos antagônicos cresceram nele. Prim eiro, um a grande aversão por Gustavo e seus m eios de construir a felicidade a qualquer custo. E segundo, um a grande em patia por Alexandre exatam ente por agir contrário ao irm ão.

Tam bém era preocupado com os outros, m as era um hom em de concretizar com as próprias m ãos, ao invés de esperar que a vida lhe desse algo de presente. Ficar parado esperando não era bem de seu feitio e por isso era com pletam ente solícito a Tam ires.

Mainá ponderava com cautela os pontos positivos para tentar tranquilizá-los. Sua força e praticidade nada puderam fazer para aj udá-los. Com sua característica generosidade, perm itiu que os irm ãos com partilhassem suas histórias, alegrias e sofrim entos.

Fora obrigada a passar algum tem po com os outros. Não foi um sacrifício. Fazer am izades era bom , m as tinha um espírito diferenciado e não gostava de tom ar partido. Quando conversava com Marcel, ele ficava reclam ando de Tam ires. Por isso, gostava m ais de ficar com Alexandre.

O m oreno tinha um tem peram ento m ais parecido com o seu. Media as palavras antes de pronunciá-las, era equilibrado e realista. Gostava m ais de ouvir do que de falar, principalm ente quando o assunto era ele m esm o. E a diferença entre eles era a espiritualidade que na índia era um a característica acentuada.

Alexandre deixou os irm ãos se curtirem m ais, porém m anteve vigilância. Onde os dois estavam , tam bém perm anecia, m antendo um a distância confortável, que sustentasse seu coração sereno. E m uitas vezes, a índia fora um a boa com panhia, tam bém deixando-os a sós. Afinal, Lucca e Tam ires tinham m uito para conversar e com partilhar. Foram trinta anos distantes um do outro.

A preocupação de todos era Nicolas. Foi o único assunto durante os últim os dias. Mesm o dividido, o grupo se concentrara nele. Só as visões eram diferentes. Lucca e Tam ires pensavam nas dificuldades que ele enfrentaria em breve, com o – ou diferentem ente – do que acontecera com eles há pouco tem po.

Alexandre e Mainá questionavam a parte prática da descoberta, a viagem e o encontro com o rapaz. Marcel e Suzane vigiavam incansavelm ente, procurando novidades e inform ações m ais concretas, m as passaram o feriado com a visão nebulosa.

A conversa de Tam ires e Lucca se aprofundou bastante.

– Do que você sente m ais falta? – perguntou a ruiva.

Sentados na areia da praia sob um guarda-sol, contem plavam o ir e vir das ondas. O rapaz j ogou um galho seco quando a água se aproxim ou e o observou ser carregado antes de responder.

– Do m eu trabalho. Era um a pessoa m uito ativa em Corum bá. Às vezes, dedicado até dem ais a m inha função.

– Você tinha am igos?

– Sim , m eu m elhor am igo era o Carlos – riu ao se lem brar. – A gente era tão diferente, m as ele m e entendia. – Deu de om bros. – E eu com preendia seu m odo m eio im aturo de encarar responsabilidade. Ele trabalhava com igo no sítio arqueológico. Era m uito com petente, m as no quesito relacionam ento, era um a pessoa sem lim ites nem com prom isso. – Mudou o foco da conversa, não gostava de ser o centro das atenções. – E você? Aposto que sua vida social era bastante agitada em Foz do Iguaçu.

Tam ires o presenteou com um sorriso tím ido, porém tão lindo quanto ela m esm a era. Lucca ficava adm irado com sua beleza toda vez que excedia. Perguntava-se com o era possível que ficasse ainda m ais linda.

– Não. Era obrigada a conviver socialm ente por causa de m eu m arido. Trabalhar, só quando era solteira e antes de conhecer Gustavo. Mas tinha um a am iga inseparável, desde o orfanato. Ainda tenho, na verdade-riu. – Carolina m antém contato com igo sem pre, via carta, e m e envia notícias sobre m inha filha e ele – a voz da ruiva trem ulou. – Sofia é tão pequena ainda. Meu coração se partiu em vários pedaços quando tive que vir em bora.

Sem saber o que dizer, Lucca apenas a abraçou pelos om bros e Tam ires repousou a cabeça em seu corpo.

Assistindo a cena, Alexandre e Mainá se entreolharam tim idam ente. A índia estava inquieta.

– Sei que pode parecer ciúm es – pensou em voz alta a indígena –, m as eu gostaria de saber sobre o que eles estão falando. Queria tanto poder confortá-los.

Suas palavras m orreram e se passaram vários segundos antes que Alexandre quebrasse o silêncio.

– Sei o que quer dizer, m as tudo o que está ao nosso alcance, j á estam os fazendo. Estam os aqui. É de apoio que eles precisam agora.

A índia baixou a cabeça frustrada.

– Odeio vê-lo sofrer – suspirou a fim de se acalm ar. – Quando o vi pela prim eira vez, ele não sofria, m as tam bém não era feliz. Era um hom em bem -sucedido que tinha prazer som ente no trabalho. Sua vida em ocional era vazia. Porém é um hom em tão adm irável e tão fácil de am ar. – Fez nova pausa que não foi preenchida pelo com panheiro. – Ainda tenho m edo do que deixam os para trás.

– Não tem a – finalm ente falou o outro. – Não há a m enor possibilidade de o coronel encontrar vocês.

– O que Lucca fez foi m uito m ais do que fugir de um casam ento, Alexandre – retrucou a indígena. – Ele desafiou a autoridade do fazendeiro e zom bou dela. É um a questão de honra. Lucca abriu um a com porta. Outros podem sentir o m esm o direito de desafiá-lo e aposto que isso ele não tolerará.

– Tem razão – respondeu balançando a cabeça o rapaz. – Mas se todos se unirem contra ele, duvido que consiga vencer.

– Gostaria que Lucca entrasse em contato novam ente com Corum bá para term os certeza. Já se passou m uito tem po.

– Mas não o suficiente nesse caso – apressou-se em dizer o m oreno. – Tenha paciência. Vam os lidar com um problem a de cada vez. Acredito que o coronel não apareça nesse m eio tem po.

Mainá sorriu. Seu tom fora brincalhão dem ais em um assunto tão sério. Resolveu m udá-lo.

– Você consegue ouvir o que eles estão falando, não é? Está tão concentrado.

Alexandre apenas balançou a cabeça em um a afirm ativa quase com vergonha de adm itir que estava bisbilhotando a conversa alheia há vários m etros de distância.

– Não se preocupe. Se eu pudesse, tam bém ouviria – acrescentou.

– Eles estão falando de casa e do que deixaram – dividiu.

– Tam bém sinto falta de m inha tribo. Eu m e adapto m uito fácil, acredito por ter sido criada nos dois m eios, tanto na aldeia quanto entre os brancos. Mas enquanto estava em Corum bá, sabia que era só pegar m eu cavalo e galopar até em casa que em pouco tem po os veria.

– Alguém próxim o que sinta m ais falta?

– Sim – respondeu em um sussurro. – Meu pai, m eu irm ão m ais velho e até o líder espiritual da tribo-riu. – Não sei porque sinto tanta falta do m eu irm ão. Ele sem pre pegou tanto no m eu pé. – Mudou o foco. – E você?

Alexandre ficou em silêncio, m eio engasgado. Engoliu em seco a fim de fazer o bolo na garganta descer.

– É com plicado. Procurei m eu irm ão durante anos. Era a pessoa m ais im portante para m im durante toda a m inha infância. Fiquei obcecado em encontrá-lo e quando eu consegui, nossa harm onia durou um tem po curto dem ais. A m issão tratou de nos colocar em lados opostos novam ente. – Deu de om bros. – Agora só duas pessoas im portam . Minha sobrinha, de quem eu sinto m uita falta, e Tam ires.

A conversa acabou novam ente e os dois j ovens perm aneceram calados, absortos em seus próprios pensam entos, com os olhos presos nas pessoas m ais im portantes de suas vidas.

Alexandre virou a cabeça e olhou na direção da casa, centenas de m etros atrás deles. Mainá seguiu seu gesto consciente apenas do barulho do m ar, m as sabia que o rapaz m oreno tinha ouvido m ais do que isso.

Marcel vinha ao encontro deles. Nos últim os dias, m al o viram . Passara a m aior parte do tem po, inclusive durante as refeições, com Suzane. Ergueram -se esperançosos. Lucca e Tam ires se j untaram a eles rápida e silenciosam ente.

– Novidades, pessoal – anunciou com seu j eito sabichão. – Boas e m ás.

Alexandre im ediatam ente olhou para Tam ires. Seus olhos estavam verm elhos, porém seu cenho franzido indicava que a fúria viria à tona depressa.

– Finalm ente encontram os Nicolas de novo – continuou o loiro grandalhão. – Foi breve e estranho. Não satisfatório, m as suficiente.

Tam ires revirou os olhos im paciente e Lucca riu da ruiva.

– Nicolas está em Vitória, capital do Espírito Santo. Ele é um m auricinho, desculpe, Tam ires, e m ora em um apartam ento m uito luxuoso em frente à praia com um am igo. Acorda tarde, corre em trilhas e se refresca no m ar. Alm oça e j anta em restaurantes chiques. Tem um carro esportivo caro e só anda vestido com roupas de m arca. Não sei se ele vai querer deixar tudo isso para nos acom panhar.

– Sem com entários im becis, Marcel – interrom peu brava Tam ires. – Continue e diga som ente o que interessa.

Estreitou os olhos insatisfeito com o com entário da ruiva.

– Ele é consultor executivo e tem um a vida social bastante anim ada, repleta de festas e eventos. Tam bém é herdeiro de um a siderúrgica de aço inox. Mas hoj e é a m ãe quem adm inistra a em presa e ele apenas participa com o acionista. Parece pouco interessado no negócio que o pai deixou.

– Ah, o pai dele m orreu! – sussurrou m ortificada Tam ires.

– Sim , quando ele era adolescente. A relação com a m ãe não era boa e ficou pior. No feriado, ele estava com os am igos no Parque Estadual de Itaúnas, no litoral norte do estado. Foi lá que a pedra acendeu e logo adorm eceu novam ente. Eu a senti de novo agora por um breve período e depois ela sum iu de novo.

– Essa é a notícia ruim ? – perguntou Alexandre.

– Não – respondeu pensativo. – Aquela força diferenciada que senti sexta-feira, tam bém havia desaparecido, m as agora a senti bem perto dele.

Todos ficaram apreensivos.

– Será que está cercando Nicolas? – perguntou Lucca.

– Não sei dizer – respondeu Marcel. – Depois a energia sim plesm ente se afastou. Não consegui ver o que era de novo.

O silêncio que se fez foi necessário para que todos ponderassem sobre as novas inform ações.

– Você ainda consegue encontrar Nicolas? – perguntou de repente Tam ires.

Marcel fechou os olhos. Sua m ente sintonizou o j ovem que pouco conhecia, tentando localizar sua energia particular e distinta. Azul e leve. Era tão sutil que dem orou m ais tem po do que o norm al para encontrá-la, por m ais que estivesse conectado a ele há poucos instantes.

– Sim – respondeu e em seguida acrescentou. –, m as com algum a dificuldade.

– Será que estão tentando escondê-lo de nós? – perguntou Alexandre.

– É possível – refletiu. – A energia dele é m eio nevoenta, espalhada, com o se estivesse flutuando por aí.

Alexandre desatou a rir diante das palavras do j ovem anfitrião. Marcel se sentiu ofendido, m as não tinha coragem de brigar com ele. Sabia que perderia. O cara era durão.

– Desculpe – pediu quando percebeu a cara do rapaz e ficou sério. – Depois dessa descrição, não tenho certeza de que sej a um a força externa.

Percebendo a interrogação nos rostos ao redor, explicou-se m elhor.

– Pensem um pouco nas experiências de Tam ires e Lucca. Verdade que não foram iguais, m as tiveram um m esm o propulsor.

– O zodíaco – respondeu a ruiva.

– Exatam ente – sorriu deslum brantem ente Alexandre. – E o elem ento que rege o signo de Nicolas é ar. Então, se eu entendi bem sua explicação, Marcel, sobre a form a com o você vê ou sente as energias, im agino que só pode ser esse o m odo com o a força dele é vista por você.

– Talvez você tenha razão – não parecia totalm ente convencido. – Ainda assim , tenho m inhas dúvidas. Por m ais que essa sej a a m anifestação da energia de Nicolas, foi difícil encontrá-la com o se ela estivesse fraca.

– Ou você não está fam iliarizado com ela – retrucou ainda Alexandre.

– Ou algum a força ou m agia, talvez essa m esm a que não consigo identificar, estej a atrapalhando propositalm ente.

Alexandre preferiu pensar m elhor antes de continuar discutindo com o teim oso Marcel. O resto perm aneceu em silêncio, trocando olhares aflitos. Lucca e Tam ires se olharam por um curto tem po, porém o rapaz perguntou.

– Qual é o dom dele?

Tam ires encarou o rapaz novam ente em silêncio, o cenho franzido.

– Foi você quem pensou nele prim eiro – continuou falando Lucca.

– Do que é que vocês estão falando? – irritou-se Marcel. Odiava essas conversas privadas e silenciosas. Já virara um m au hábito.

– Não é nada, não é, Lucca? – respondeu suplicante Tam ires.

O ruivo ficou em silêncio olhando a irm ã nos olhos verdes por um tem po que pareceu longo dem ais para o restante da roda.

– Tenho o direito de saber, Tam ires – falou, por fim .

A ruiva baixou os olhos e não respondeu. Lucca se voltou então para Alexandre e repetiu a pergunta anterior.

– Qual é o dom de Gustavo?

Alexandre se virou para Tam ires. A ficha sobre a conversa silente dos dois com eçou a cair.

– Por que isso agora? – questionou em vez de responder.

Vendo-se ignorado, se voltou para o loiro. Sabia que dele dificilm ente teria a resposta negada.

– Marcel, por favor?

Engoliu em seco sabendo que estava com prando um a briga das bravas, m as incapaz de se negar a ela.

– Se estou entendendo aonde quer chegar, você quer saber se Gustavo pode estar por trás dessa energia. Estou certo?

Balançou a cabeça afirm ativam ente.

– Bem , o dom dele não é capaz de esconder ninguém , m as sim de enfraquecer.

– Marcel! – exclam ou Tam ires.

– Ei, não m e culpe por seus próprios pensam entos! – defendeu-se o loiro.

A ruiva cruzou os braços e fechou a cara.

– Então – Lucca continuou pensando em voz alta –, é realm ente possível que ele estej a por trás disso. Inclusive do desaparecim ento das pedras.

Desta vez, Tam ires não pode conter sua fúria.

– Deixe Gustavo em paz, Lucca!– vociferou. – Ele está fora dessa guerra.

– Errado, Tam ires – retrucou firm e o irm ão. – Ele não está do nosso lado!

– Com o!? – enfureceu-se ainda m ais.

Seu rosto se tingiu de verm elho e ela sentiu o corpo estrem ecer e esquentar. A energia que circulava em seu corpo desej ando saltar para fora e atingi-lo por sua insolência.

– Tam ires está certa – tentou apaziguar Alexandre. – Não havia com o Gustavo ter acesso a nós e a Nicolas.

Lucca encarou Alexandre. Toda sua m ente voltada para a parte prática e racional daquela conversa.

– Com o você pode m e dizer isso? Não está aqui? Assim com o você conseguiu a inform ação de onde estávam os, ele pode ter conseguido.

– Você está extrapolando os lim ites! – insistiu nervosa Tam ires, tentando segurar a própria fúria.

Mainá ficou alerta e não apreciou o m odo com o a ruiva falou com Lucca. Aproxim ou-se dele e o tocou no braço, pronta para tirá-lo do cam inho caso Tam ires tentasse atacá-lo.

– Você não entende – continuou na defesa Alexandre. – Carol é nossa aliada em Foz. Está vigiando Gustavo e se ele tivesse feito algo fora do norm al, ela teria nos avisado im ediatam ente. Não pode ser ele.

Lucca pôs a m ão sobre o om bro de Alexandre antes de prosseguir seu raciocínio.

– Entendo que vocês dois, com o irm ão e m ulher dele, tentem defendê-lo. Mas ele j á deu provas de ser capaz de qualquer coisa para im pedir nossa m issão.

Tam ires estava verm elho-tom ate. Virou-se e se afastou tão depressa que Mainá perdeu o m ovim ento com pleto, por m ais que estivesse com os olhos presos nela. Alexandre correu para alcançá-la.

– Foi ela quem pensou nele, Marcel – se explicou Lucca vendo-a se afastar furiosa. – Se pensou, é porque tam bém tem dúvida. Ele fez tantas coisas absurdas para im pedi-la de estar aqui. Por que ainda o defende?

Todos olhavam na direção onde, seguida por Alexandre, sum ia no horizonte infinito de areia.

– Porque – respondeu Marcel sem desviar o olhar – ela ainda o am a.

***

Chorando, Tam ires corria de form a inum ana para longe daquela verdade avassaladora sem se preocupar se havia olhos curiosos. Sabia que Alexandre a seguia, m as ainda não estava pronta para se deixar alcançar. Com os olhos turvos, avistou o porto e sem opção – j á que voltar estava fora de cogitação no m om ento – se atirou no m ar da pedra, com o im pulso da corrida.

Alexandre pulou atrás dela sem dim inuir o passo, poucos segundos depois, seguindo as braçadas que Tam ires dava a sua frente contra as ondas. Alcançá-la não foi difícil na água j á que ela perdeu o ritm o, provavelm ente porque estava com dificuldades. Am edrontado, aproxim ou-se e a enlaçou pela cintura com um dos braços.

– Você está bem ? – perguntou.

– Não! – choram ingou apoiando parte de seu peso contra o corpo m ásculo do rapaz.

Não estava cansada. Seu corpo era forte o bastante para suportar aquele esforço extrem o que, anteriorm ente, j am ais conseguiria executar. Sentindo a raiva passar, tão rápido quanto viera, as lágrim as dim inuindo, Tam ires se sentiu m elhor para falar, enquanto ainda boiavam em alto-m ar, abraçados.

– Sabe o que m e deixou m ais furiosa, Alexandre? – perguntou a ruiva de repente, tranquilizando o rapaz. – Lucca tem razão! Pensei nele porque ele pode ser o culpado! E isso m e tortura!

– É pouco provável que sej a ele, Tam ires – tentou convencê-la. – Não se m achuque à toa.

A ruiva encarou o j ovem por um m om ento antes de prosseguir vendo em seus olhos escuros e profundos toda a preocupação que ela lhe provocava.

– Você disse um a vez que a pessoa que estava sabotando a gente o fazia através de m agia – falou. – E Gustavo foi treinado pelo m aior m ago de nossa terra. Você não acha que ele poderia nos enganar sem que percebêssem os?

Alexandre ficou em silêncio. Não tinha resposta para aquela pergunta. O silêncio era quebrado som ente pelo barulho da água do porto, a certa distância. Um barco os avistou e se aproxim ava a fim de resgatá-los. Tam ires e Alexandre foram içados e levados de volta à terra firm e.

Ensopados, voltaram para casa, cam inhando de m ãos dadas. Não trocaram m ais nenhum a palavra, apreciando som ente a com panhia um do outro. Depois da angústia, Tam ires estava aliviada por ter com quem dividir aqueles sentim entos. Acim a de tudo, alguém que a com preendia.

Já Alexandre, estava controlando a vontade de tom á-la nos braços de novo e beij á-la. Sem pre era difícil dem ais ficar tão perto e não poder tocá-la com o seu corpo desej ava. Seu arom a, m isturado com o sal, era ainda m ais atrativo. Seu cabelo m olhado lhe dava um ar desam parado que só o fazia querê-la m ais perto de si.

Não se contendo, puxou Tam ires m ais próxim o e a apertou contra seu corpo, encaixando a m ão grande e forte na curva de sua cintura. Pensou com o ela se acom odava tão perfeitam ente a ele. Queria tanto tê-la conhecido em outra época e antes de Gustavo. Poderia tê-la feito feliz.

A m ente de Tam ires estava dividida entre sua fidelidade ao m arido e aquele desej o crescente que pulsava em seu corpo quando estava próxim a assim de Alexandre. Às vezes pensava que ser fiel não significava m ais nada j á que estavam separados. Mas, em seguida, o agravante da ligação de sangue entre eles dissipava esse pensam ento.

Não queria e não podia dar um a chance a ele. Mas a cada dia ficava m ais difícil e m ais vulnerável. A m aior prova de sua instabilidade estava naquela cena ridícula com Lucca. Teria que pedir desculpas assim que o alcançasse. Afinal, chegara m uito perto de atacá-lo.

Com os pensam entos divididos entre as várias pessoas que am ava e queria bem , perm aneceu em silêncio, tentando desviar a m ente do contato físico e forte que tinha com o m oreno. Os corpos m olhados e ainda quentes. A m ão firm e que lhe segurava. Ah, com o am ava ser acariciada por ele.

Ao se aproxim arem , Lucca e Mainá vieram correndo ao seu encontro. Engoliu em seco, envergonhada, e Alexandre a apertou em sinal de cum plicidade. Em poucas passadas, o casal estava parado diante deles. Antes que a ruiva pudesse abrir a boca para se desculpar, o pantaneiro falou prim eiro.

– Suzane acaba de ter outra visão – disse sem dem onstrar cansaço pela corrida; j á Mainá, ofegava ao seu lado. – Nicolas vai passar pela prim eira etapa.