Ilha de Ar - Os Quatro Elementos, Volume 3
Força
Sábado e dom ingo foram dias tum ultuados no grupo reunido a quilôm etros de distância do Espírito Santo. Em m eio às brigas, m uitas dúvidas e em oções à flor da pele. O m otivo foi o relato de Marcel sobre a pedra em Conceição da Barra e a estranha fam ília de Lara, a tal nam orada de Nicolas.
Os prim eiros a ouvirem as inform ações do rastreador foram Tam ires e Alexandre, que treinavam novos golpes de muay thai na praia, sob um a grande som bra. A ruiva ficara im ediatam ente inquieta, disposta a pegar o prim eiro avião para Vitória e a fim de planej ar a viagem , sentou-se no com putador e pesquisou com panhias aéreas.
Já o cunhado m oreno, tam bém assustado, ponderou sobre os perigos que cercavam a água-m arinha. Pelos nom es que o loiro lhe apresentou, não fez ligação com nenhum a história antiga que conhecia e não ter ideia de quem era aquele idoso o deixou extrem am ente preocupado.
Ainda assim , Marcel e Alexandre foram m ais cautelosos sobre a viagem . Concordavam que estava m uito próxim a, porém devia ser organizada e não desenfreada com o Tam ires propusera. Chegaram ao consenso de que teriam que fazer um reconhecim ento do lugar e das energias que cercavam Nicolas e a pedra.
A discussão na sala estava acalorada quando Lucca e Mainá chegaram do m édico felizes com a com provada gravidez de cinco sem anas da índia. Logo ficaram a par do ocorrido durante sua ausência e um novo tópico foi incluído na discussão: a presença da indígena, totalm ente dispensável em seu estado.
Lucca concordava com Tam ires, porém não queria que seu filho e sua m ulher corressem o perigo que essa viagem prom etia, porém era im possível excluí-la. Ao m esm o tem po em que ficaria preocupado com sua participação, tam bém ficaria angustiado com o que estaria acontecendo com ela do outro lado do país. Afinal, Suzane não tinha forças para socorrê-la em caso de necessidade.
Havia a tia, com o todos a cham avam – a m ãe de Marcel – que cuidava da m oça na ausência do filho e que poderia cuidar de Mainá tam bém , m as Lucca era preocupado por natureza e não suportaria desviar seus olhos de sua am ada por um m inuto sequer.
Por fim , Alexandre lançou um argum ento indiscutível. Não considerava o grupo pronto para um a luta contra inim igos reais e no m esm o nível de poder – ou quem sabe ainda m aior. Reconhecia que haviam m elhorado, m as ainda não m ostraram sinal efetivo de sucesso nos treinam entos.
Tam ires e Lucca ficaram tão ofendidos e m otivados que partiram para o treinam ento sobre o pentagram a de im ediato, sem a supervisão de Alexandre. Marcel os viu fazer várias tentativas, no calor da em oção e não obterem nenhum resultado, com o anteriorm ente.
Mainá os incentivava, m as tam bém percebeu que seu estado de espírito estava atrapalhando. Moviam terra, água, fogo e ar e, no entanto, não os produziam . O quintal ficou um a bagunça ao térm ino do dia e foram obrigados a adm itir que a orientação do m oreno e a ausência de tranquilidade fizeram falta.
Mesm o com os anéis nos dedos, am bos não conseguiram alcançar a paz com pleta para se concentrarem no exercício. Matreiro, Marcel riu deles inúm eras vezes – assim com o tam bém foi lançado pelos ares pela ousadia, coisa que provocou um grito de Suzane de seu quarto. Alexandre, por outro lado, fez um a lista dos erros que com eteram para lhes m ostrar onde falharam .
O treino do dia seguinte foi diferente. Com as passagens com pradas – m esm o sem data definida para o em barque –, os ruivos ficaram m ais tranquilos. E sob os ensinam entos do m oreno, conseguiram alcançar pequenos feitos com o o surgim ento de um a cham a de fogo sobre a pedra e um torrão de terra na gram a.
Porém , em poucos segundos, a cham a – que m ais parecia com um isqueiro aceso – se apagava e o torrão se dissolvia com o carregado pela chuva. Era tão rápido que, se algum espectador se distraísse ou piscasse, perderia a realização do truque. Faltava agora aprenderem a sustentar a m ágica.
Motivado, o casal continuou tentando. Conseguiu, volta e m eia, m anter os elem entos por alguns m inutos. Sentiam a força – que nasceu dentro deles desde quando a m agia entrou em suas vidas – crescendo alucinadam ente, com o se desse saltos à frente a cada evolução bem -sucedida.
Devido ao curto tem po que lhes restava, Alexandre estava m ais exigente do que nunca e m aquinava form as de incentivá-los a evoluir m ais depressa. Na segunda-feira, fez um a proposta para que Mainá os aj udasse e ela aceitou im ediatam ente, deixando Lucca nervoso.
– O que você pretende colocando-a no treino? – perguntou tenso.
– Andei pensando em form as de m otivá-los e pensei que um pouco de realism o poderia aj udar.
– Realism o?– exclam ou. – Não gostei disso.
– Alexandre – interveio Tam ires –, você não está exagerando? Mainá está grávida.
– Sei e por isso m esm o confio que vocês a protegerão com toda a garra.
– Lucca – disse a índia sorrindo –, confio em você.
Alexandre levou-a para um canto isolado do quintal, deixando um grande espaço entre ela e o pentagram a. Atrás e do lado direito da indígena havia o m uro que lim itava o terreno.
– Marcel, por favor, você poderia participar? – cham ou Alexandre.
O loiro sorriu antes de responder com certa satisfação.
– Com certeza.
O m oreno indicou para que Marcel ficasse do lado esquerdo da índia, im possibilitando sua fuga, e ele m esm o se postou entre Mainá e os dois ruivos tensos no centro do sím bolo. A indígena não parecia nervosa.
– Alexandre... – sussurrou enraivecido o m arido.
– Vam os, Lucca – provocou o m oreno. – Marcel e eu som os inim igos e cercam os Mainá. O que você vai fazer para protegê-la antes que a alcancem os?
Tam ires e Lucca estavam atônitos, sem saber o que pensar, m uito m enos com o agir.
– Pensem e aj am rápido! – exclam ou Alexandre aproxim ando-se perigosam ente da índia, porém em câm era lenta. – Estam os m ais perto dela do que vocês!
Lucca foi o prim eiro a reagir, seu instinto de proteção falando m ais alto. Concentrou-se no espaço entre Mainá e Alexandre e estendeu a m ão direita naquela direção. O que aconteceu em seguida foi extraordinário. Com o se o ar se solidificasse e as partículas se transm utaram em terra. Em segundos, um a parede de barro surgiu entre Alexandre e Mainá im pedindo que ele prosseguisse. O m oreno estacou o passo im pressionado com o tam anho do obstáculo construído em tão pouco tem po. Sorriu percebendo que seu m étodo fora eficaz.
– Muito bem , Lucca – elogiou. – Estou surpreso com o que fez. Porém , sinto dizer que não foi suficiente.
Alexandre se posicionou a fim de realizar um golpe e no segundo seguinte lançou com força o punho direito contra o m uro de terra. Foi só aí que percebeu o quanto a parede era fina. Com o soco, o barro se desfez em m ilhões de pedaços que espirraram para todos os lados, principalm ente na direção de Mainá.
Marcel saltou à frente e cobriu com seu corpanzil a índia. Am bos se chocaram contra o m uro enquanto a chuva de terra caía nas costas do loiro. Em um segundo, Lucca estava sobre eles enquanto apertava seu punho cerrado com força e fazia o barro desaparecer no ar.
– Mainá, você está bem ? – exclam ou puxando Marcel de cim a da m ulher.
– Estou– respondeu apressadam ente a indígena. – Não se preocupe.
– Não m e preocupar? – vociferou. – Chega dessa ideia absurda, Alexandre! Se não fosse o Marcel, Mainá poderia estar ferida agora.
– Desculpe, Lucca – envergonhou-se o m oreno. – Não havia percebido que o m uro era m uito fino. Acabei golpeando forte dem ais. Não queria que ela se m achucasse. Sinto m uito.
– Ei, está tudo bem , Lucca – interveio o loiro. – Pelo m enos a experiência serviu para que você evoluísse m ais.
– A que custo, Marcel? – retrucou o ruivo. – Se você não se im porta com os m eios, então coloque Suzane com o alvo.
Enfure c ido, Lucca enlaçou Mainá e voltou para dentro da casa encerrando sua participação no treino do dia. Marcel pretendia brigar com Lucca quando foi im pedido por Alexandre que lhe fez um sinal para relevar. Tam ires tam bém se aproxim ou dos dois assustada.
– Acho que não foi um a boa ideia – disse.
– Acho que foi um a ótim a ideia – retrucou aos sussurros Alexandre. – Depois que o susto passar, Lucca vai reconhecer que foi um bom m étodo. Agora, Tam ires, é sua vez. – Pensativo e brincalhão continuou. – O que posso fazer com você?
A ruiva deu um passo para trás, afastando-se instintivam ente.
– Muito bom – sorriu o m oreno. – Pressentiu o perigo. Que tal um pouco de ilusão?
O m oreno deu um passo na direção da m oça com o braço estendido. Ela lhe voltou as costas e correu para o pentagram a. Enquanto se aproxim ava, lenta e am eaçadoram ente, se concentrou na barreira que precisava construir para que ele não pudesse alcançá-la. Sabia que o cunhado só conseguiria iludi-la se a tocasse.
De repente, abriu os olhos verdes e encarou seu adversário com desafio. O rapaz sorria m aliciosam ente, cam inhando com o se contasse os passos. Um m isto de tensão e de excitação envolvia a am bos. Marcel continuou parado no m esm o lugar assistindo ansioso para ver o desfecho daquele episódio divertido.
Com um gesto rápido e preciso, Tam ires ergueu as duas m ãos para o alto. Acom panhando seu gesto, um círculo de fogo subiu das pedras que form avam o lado de fora do pentagram a. As labaredas a envolveram com pletam ente, im pedindo que qualquer um se aproxim asse dela por qualquer direção.
Alexandre parou, espantado e adm irado. A cena era aterradora, m as tinha seu encanto. Com a dança das cham as, o m oreno vislum brava partes do rosto e do corpo da ruiva. A força do fogo não oscilou um m inuto sequer.
O paredão que a ruiva construiu tinha um a cor distinta. Era parecido com labaredas com uns, porém possuía cores diferentes. Estritam ente verm elhas, sem tonalidades para o am arelo ou para o azul, a cor provava que nada consum ia para existir e que só estava ali pela vontade dela.
Seu tom o tornava m ais aterrorizante, com o se estivesse m uito m ais fam into, pronto para engolir qualquer m atéria que o tocasse. Aparentava m uito m ais fúria e desej o por destruição. Os olhos dela flam ej aram sorridentes, satisfeitos com o resultado de sua m ágica.
O fogo tinha algo poderoso pela form a com o se m anifestava e pelo longo, cruel e extenso alcance de sua língua. Era o único poder na terra capaz de preservar a vida com seu calor ou destruí-la da m esm a m aneira. E esse poder não via lim ites. Podia destruir qualquer coisa que tocasse – pessoa, natureza ou criações hum anas. Era um poder que necessitava de um grande controle e devia ser usado com cautela e sabedoria.
– Meus parabéns – falou por fim Alexandre com certo tem or nos olhos. – Você tem um senso de preservação m uito forte.
As cham as se apagaram a um gesto ligeiro da ruiva com as m ãos para baixo. Sorria quando o m oreno pode vê-la com pletam ente. Sua beleza cintilava, talvez sobre o efeito m ágico do fogo.
– Obrigada – respondeu com orgulho. – Mas não pensei em m im quando criei esse obstáculo. – Seu olhar cintilou. – Existem pessoas que dependem de m im .
Alexandre se sentiu com ovido com as palavras da m oça e se aproxim ou dela pronto para tom á-la nos braços. Marcel se fez notado antes que o rapaz alcançasse seu obj etivo.
– Ei, cunhada – exclam ou. – Isso foi dem ais!
***
O final de semana fora no mínimo estranho. Nada do que previra acontecera. O programa de sexta-feira à noite com os amigos se transformara em um encontro com Lara. Porém, o sábado fora o dia mais esquisito. Acordar ao lado da mulata mexera com tantas emoções diferentes dentro de mim. E o café da manhã acompanhado por ela fora no mínimo diferente, para não dizer especial.
Nunca me abrira como naquela conversa. Não que tivesse me escondendo, mas também nunca falei tanto sobre mim mesmo para outra pessoa em um período tão curto de tempo. E o pior de tudo era que estava me sentindo muito bem com isso. A sensação de dividir minha vida com outra pessoa me fizera recordar do relacionamento com meu falecido pai e me despertara tanta saudade.
A tarde fora solitária. Ver Lara partir dividira meu coração ao meio. Metade ficara palpitando no meu peito e a outra fora com ela para Conceição da Barra. Tentei ocupar a mente com as atividades relaxantes nas horas seguintes.
Porém, nada surtiu o efeito desejado. Fui para academia, me refresquei no mar e terminei o dia com uma corrida por um dos maiores e belos parques da cidade, mas nem isso me impressionou como sempre fazia. Quando voltei para o apartamento, parecia ainda mais vazio do que antes. Frio, solitário e nada acolhedor. Não tinha cor nem vida. Era a imagem do desalento.
Faltava o dourado dos olhos de Lara, o vermelho de seus lábios e o chocolate de sua pele. Faltava o som de sua risada e o calor de sua presença. Todos os ambientes me lembravam de sua ausência.
As horas se arrastaram até que chegasse o momento da festa na qual tocaria. Seria em uma boate alugada por uma grã-fina que fazia aniversário de vinte e um anos. Uma festa com cerca de quinhentos convidados.
Amava o clima. Seria revigorante tocar para eles enquanto seus corpos jovens se moviam animados na pista de dança. Para um DJ, mantê-la alta sempre é um desafio.
Cheguei ao local com uma hora de antecedência para equalizar o som e organizar o repertório que escolhera para a noite. Os últimos preparativos transformaram o lugar em uma corrida contra o tempo. Faltando quinze minutos para que as portas fossem abertas aos convidados quando a aniversariante chegou e caminhou na minha direção assim que me viu.
– Olá, Nicolas – cumprimentou.
Dei a volta na mesa de som para abraçá-la.
– Parabéns, Paola! – cumprimentei. – Feliz aniversário!
– Obrigada – respondeu a jovem. – Você sabe se a Milene vem?
– Vem sim – respondi – Giovani vai trazê-la. Devem estar chegando.
Paola se recostou no balcão sem vontade de se afastar.
– Então, como estão as músicas? – puxou assunto.
– Muito boas – respondi vagamente. – Escolhi as últimas paradas.
Voltei para trás do balcão e separei o primeiro disco que tocaria. Paola me seguiu e se aproximou tanto que meu braço roçava em seu seio jovem e firme. Eu a encarei surpreso e vislumbrei sua beleza e fogosa juventude.
– Adoraria fazer companhia para você durante a festa – disse de forma sedutora. – Deve ser triste ficar aqui sozinho o tempo todo.
Sabia exatamente aonde a aniversariante queria chegar, porém meu corpo não reagiu como deveria. Ao invés de queimar com o desejo que a expectativa de ter aquela pele junto a minha, não senti nada. Uma vergonha imensa pela atitude ousada da jovem quase me fez corar. O que estava acontecendo comigo?
De repente, me senti velho e inapropriado para aquele ambiente, muito menos para aquela moça que mal saíra da adolescência. Não vi atrativos sensuais nela a ponto de mexer comigo de alguma forma, apesar de enxergar com nitidez sua beleza. Porém me pareceu muito mais ingênua do que se mostrava.
– Já estou acostumado – respondi com um sorriso simpático. – Você tem muitos convidados para dividir sua atenção. Não precisa se preocupar comigo.
Vi o quanto minhas palavras a ofenderam. Paola se afastou de mim pisando duro e encontrou a primeira amiga que atravessou a porta de entrada. Seu espírito jovem e despreocupado melhorou durante a festa. Porém, toda vez que olhava em minha direção, enxergava o ressentimento estampado em seu rosto.
Pobre menina rica? Talvez. Mas não estava para babá àquela noite. Não me senti nem um pouco atraído para aquela cilada. Não me preocupei mais com ela e me concentrei em tocar e vigiar a pista e o efeito do repertório que escolhi sobre os convidados.
Percebi, durante o tempo que permaneci ali que, além de minha visão estar bem melhor mesmo no escuro, meus ouvidos podiam escutar perfeitamente os instrumentos da música, os gritos dos convidados e as conversas em qualquer ponto da boate. O enxame me incomodou em um primeiro momento até que consegui focalizar minha audição na música.
Ao final a festa fora o maior sucesso. Recebi outros convites para tocar e terminei voltando sozinho para casa, satisfeito comigo mesmo, porém ainda sentindo um oco no peito.
O domingo fora mais vazio. Venci o tédio e a preguiça a fim de mexer o corpo em atividades esportivas. Aproveitei a ociosidade para analisar melhor os sons que podia ouvir e a que distâncias meus ouvidos os alcançavam. Que estranho! Porém, não menos encantador. Os barulhos me diziam que tudo tinha vida. Mesmo na mata, enganosamente silenciosa. Até o mar me revelou seu som quase inaudível anteriormente sob a balbúrdia da cidade.
Ao mesmo tempo, me senti diferente. O que estaria acontecendo comigo? Estava mudando sem que quisesse ou alguma força externa estaria me alterando? Enumerei os acontecimentos da última semana.
Primeiro, o encontro com Lara no parque em Itaúnas e as sensações novas próximo daquela pedra que estava praticamente esquecida na minha memória. Depois a irresistível atração e falta que ambas me trouxeram.
Em seguida, a visão aguçada, a noite tornando-se clara como se a lua ganhasse o brilho do sol todo para ela. Aliado ao meu gosto pelo período noturno, quase podia dizer que virara um vampiro, mas ainda amava o sol e o dia.
E agora, a audição também melhorada. O destino, Deus ou o demônio estavam brincando comigo ou aquelas sensações eram ilusórias e estavam apenas na clausura de minha mente? Estaria ficando mentalmente doente?
Não era a primeira vez que questionava minha sanidade em um período tão curto. E o que me levava a me enganar e seguir o ritmo constante de minha vida até agora? O apego à realidade. A rotina era a única que podia me dizer que era normal.
Mas o que poderia ser considerado normal? Uma vida solitária como a minha? O afastamento da única mãe que conhecia? A rejeição de minha verdadeira e desaparecida família? O apego às coisas materiais?
Tinha amigos, muitos amigos, era verdade. E um trabalho digno – mesmo que não se enquadrasse nos moldes impostos pela sociedade – onde conseguia meu próprio sustento e até mesmo dinheiro suficiente para esbanjar com noitadas.
Mas com quem contava na realidade? Apenas comigo mesmo. O esforço que fazia para provar ao mundo que podia e conseguia algo era ilusório e patético. Ninguém estava vendo porque ninguém se importava.
Estava sendo injusto com Giovani. Ele era como um irmão para mim. Sabia que se importava e se preocupava. Porém, tinha a própria vida, emprego, família e, inclusive, uma noiva com quem compartilhar tudo.
E o que eu tinha? Tinha dinheiro, tempo e um vazio enorme no peito. De repente correr, tocar e sair para a balada não faziam mais sentido nenhum para mim. Até trabalhar era um esforço vão. Para quê e para quem me vestia? Para que me esforçava tanto em manter o idealismo? Por que insistia em cuidar do corpo e manter a ridícula fachada de minha vida?
Esses questionamentos me levaram a um único pensamento. Lara. Mas não podia aceitar que uma mulher fosse as respostas para todas as perguntas importantes de minha vida. Era simplista demais. E não tinha nada de básico. Era complexo. E por mais que me aceitasse exatamente como era – sem problemas de identidade – gostava do jeito que seguia minha vida porque me sentia segurando suas rédeas.
Isso de que o futuro era incerto e duvidoso não era para mim. Por mais que não tivesse grandes planejamentos na vida, escolhia exatamente o rumo que tomava. O futuro era certo para mim porque o construía a cada dia.
Andando de um lado para o outro do apartamento, me sentia angustiado e deprimido. Nem meu raciocínio parecia ter mais sentido para mim. Sentindo-me tão solitário quanto nunca, cedi ao anseio de ouvir uma voz.
Lara atendeu o celular no primeiro toque, o que me fez sorrir. Talvez estivesse esperando meu telefonema com a mesma ansiedade que estava em falar com ela.
– Nicolas.
A surpresa que acompanhou o suspiro com o qual sua boca pronunciou meu nome me causou um calafrio imediato. Estremeci ao som de sua tão desejada voz.
– Lara – o tom de minha resposta foi guiada completamente pela emoção que emanava de mim.
– Que bom que você ligou. – disse voltando a ter controle sobre si mesma. – Como está sendo seu dia?
– Bom. Obrigado por perguntar – respondi depois de respirar fundo e sentir meu corpo voltar ao normal. – E o seu final de semana com a família?
– Muito bom. Mas já estou ansiosa para voltar para Vitória.
– Você volta ainda hoje?
– Sim. Tenho uma reunião importante muito cedo amanhã.
– Ah – me segurei para não convidá-la para sair comigo. Provavelmente chegaria cansada da viagem longa e não estaria disposta. – O que acha da gente se ver amanhã no final do expediente?
– Ah – sussurrou, pareceu surpresa. – Tudo bem.
– Lara, minha filha, onde você está? – uma voz envelhecida e rouca chamou do outro lado da linha nos interrompendo.
– Preciso ir – apressou-se em se despedir a mulata e sufoquei um gemido. – A gente se vê amanhã então.
– Sim, nos vemos amanhã – murmurei. – Boa noite.
– Tchau.
O vazio voltou mais doloroso quando o eco de sua voz sumiu no som da linha do telefone e aquela noite demorou muito para passar. Fiquei a maior parte dela insone.
Acordei na segunda-feira disposto a manter a rotina e tentar esquecer minhas inquietações. Mais uma vez. Respirei fundo e parti para minha corrida matinal junto à natureza após o desjejum.
Meu almoço solitário nunca me pareceu tão insípido. Nem o dia ensolarado conseguiu melhorar meu baixo-astral. Não estava disposto a ficar olhando as paredes por mais um dia, então parti mais cedo para a siderúrgica.
O caminho era longo e dirigi sem pressa. Ainda tinha muito tempo para a reunião começar. E estava angustiado por ficar tão sozinho, me arrependi de não ter saído na noite anterior com Giovani.
Nem prestei atenção ao trajeto. Estacionei o carro na vaga exclusiva da empresa. Fui para a recepção e me apresentei. A recepcionista, que já me conhecia, ligou para a secretária de minha mãe para avisar que havia chegado e ela mandou me colocarem na sala de espera vip com atendimento personalizado.
Eu me recusei a me isolar na sala, por mais conforto que tivesse. Não queria ficar sozinho e já que a presidente da empresa – que ainda era minha mãe – não queria me ver, ficaria ali na recepção junto com os office-boys e subalternos. Pelo menos estariam dispostos a conversar comigo se puxasse assunto. Não demorou muito para realizar meu feito. A própria recepcionista não sabia se me dava atenção ou atendia quem chegava. Também não queria atrapalhá-la, portanto, passei a ajudá-la com o atendimento.
Meu jeito carismático logo conquistou a abarrotada recepção e todos queriam trocar uma ideia comigo. Fiquei feliz por ter conquistado novos amigos e ocupar meu tempo de espera. Sair da rotina naquele momento foi muito prazeroso. Agir por impulso, muitas vezes, era bom.
A reunião começou em ponto, como de costume, e só encontrei o restante dos acionistas na sala. Minha mãe me cumprimentou como se fosse um deles, não seu filho. Não fingi surpresa nem tentei maior aproximação.
Fazia um bom tempo que não a via. Acho que mais de um mês. Devido ao feriado, a reunião daquele mês demorara mais do que o normal para acontecer. Percebi me media de alto a baixo com seu olhar crítico e superior. Talvez fosse seu modo de verse estava bem, como andava minha alimentação, se estava me cuidando direito, se estava bem-vestido. Eu me iludi com esses pensamentos enquanto seus olhos frios permaneceram sobre mim por algum tempo.
Por outro lado, logo percebi que ela não podia estar melhor. No auge de seus cinquenta e oito anos, continuava esbelta apesar de um pouco flácida. O bronzeado havia lhe dado uma expressão mais dura além de envelhecê-la um pouco mais. Seus olhos castanhos da cor da terra ainda eram vazios e seus lábios finos permaneciam comprimidos um contra o outro em uma linha rígida.
Do grupo era a mulher mais baixa e a mais velha. Havia outras, porém a maioria eram homens. Jovens, havia menos ainda. Além de mim, somente outro se juntara aos acionistas. Ainda assim, era mais velho do que eu, estando muito mais perto dos quarenta.
Depois dos cumprimentos secos, a reunião começou com a apresentação dos lucros e gastos da empresa no último mês. Os cochichos me distraíam, pois se faziam ouvir tão claros que me pegava olhando na direção das pessoas.
Com a persistência do acontecimento, comecei a prestar mais atenção a eles e ignorei as palavras do diretor financeiro. Realmente eram sussurros inaudíveis para os outros, menos para mim. Então me lembrei de meu novo tormento, a audição aguçada. Fiquei tenso.
Não tinha percebido que conseguia ouvir tanto até aquele momento. A sala estava silenciosa, porém havia outros sons. A voz do diretor, as pessoas do lado de fora, os carros na rua embaixo do prédio. Dispersei completamente minha atenção para esses pormenores.
Tive medo que percebessem o que podia ouvir. Alguns acionistas estavam insatisfeitos com os lucros obtidos, mas não tinham coragem de abrir a boca. Outros achavam que Celeste Bertoldi era uma megera amargurada. Ainda outros disseram que eu não deveria estar ali porque nunca me interessei pela empresa.
Era constrangedor ouvir tudo aquilo. Desejei desligar as vozes da minha cabeça e isso só foi possível quando alguns tiveram coragem de expressar suas opiniões – mais delicadas pelo que pude constatar – em voz alta para que todos ouvissem. Quando a reunião acabou, me levantei rapidamente e fui embora sem falar com ninguém.
Meu ostracismo seria necessário por mais um tempo.
AQUÁRIO
Estou tão orgulhosa!
– Não, por favor! – suplicou Lucca Gonçalves desviando os seus dos doces olhos de Mainá Kadiwéu. Sua voz denotando um a pontada de decepção e raiva.
– Olhe para m im – pediu com doçura a índia. Sua m ão calorosa tocando suavem ente sua face o fez ceder
Nós estamos bem.
– Se algum a coisa tivesse acontecido...
– Shhhh! – pousou os dedos sobre os lábios rosados do m arido.
Não se martirize. Por que não consegue apenas reconhecer seu sucesso?
Contrariando o clim a, Lucca riu sarcástica e am argam ente antes de responder.
– Sucesso? Criei um a piada! – explodiu o arqueólogo. – Você prestou atenção no relato de Marcel sobre o que Tam ires fez?
A ênfase na palavra era totalm ente desnecessária, porém Mainá relevou. Entendia a frustração do m arido e tentava reanim á-lo.
– Não se desm ereça, foi façanha, por favor. Cada um tem seu próprio tem po.
– Tam ires é m uito m elhor do que eu em tudo! – desabafou Lucca. – Você ouviu a história dela. Desde o início ela acreditou em seu destino e seguiu o cam inho direto para a verdade, m esm o tendo que deixar para trás as pessoas que am a.
A índia apertou a m ão dele entre as suas.
– Sei que você tem m uitos m otivos para adm irá-la, porém tam bém tenho m uitos m otivos para ter orgulho de você. Não se frustre, afinal, você tam bém está aqui.
Os olhos dele cintilaram quando encontraram os da indígena novam ente. Dem orou alguns segundos para que conseguisse falar.
– Senão fosse por você, nunca estaria aqui, agora.
Lucca...
– É verdade! Fui um grande covarde! Até a escolha de vir para cá foi feita sobre pressão.
Você estava unindo a preservação de sua vida ao futuro dela.
– Por favor, Mainá!
Estava m uito difícil convencê-lo. A esposa passara dois dias conversando com o m arido sobre o assunto e só conseguia deixá-lo ainda m ais para baixo. Com eçava a pensar que teria que dar um a sacudida das fortes.
– Já chega, Lucca! – falou com firm eza erguendo-se para se afastar dele. – O que você está querendo? Que nosso filho nasça e tenha pena do pai que escolhi para ele? – O arqueólogo piscou violentam ente os olhos espantado. – Espero que não! Porque essa pessoa que está desenhando não tem nada a ver com o hom em por quem m e apaixonei.
Aj oelhando-se aos seus pés, sobre a areia branca da praia, Mainá sorriu a fim de am enizar a tensão.
– Você adm ira Tam ires? – perguntou com a voz m ais carinhosa. – Ótim o! Então pare de choram ingar e vá treinar para alcançá-la, afinal, ela tem um m ês de vantagem sobre você.
– Mainá...
– É isso m esm o! – interrom peu tom ando o rosto de Lucca entre as m ãos quentes. – Você tam bém pode fazer m uito m ais, querido!
Acredito em você.
– Mas o que ela fez foi tão m ais im pressionante! – ainda se recusava.
Com um suspiro, Mainá se sentou no chão e o encarou novam ente.
O fogo é impressionante.
– Sim , é exatam ente o que estou dizendo, não é?
Não. Seus dons são diferentes, mas não de importâncias desiguais.
– Não entendo com o. O fogo é m uito m ais poderoso do que a terra. O que posso fazer além de um m uro? O fogo pode destruir qualquer coisa.
Também pode sair do controle e se tornar muito perigoso.
– Não havia pensado nisso.
Vocês foram escolhidos conforme a personalidade de cada um. Todos são únicos.
Houve um longo silêncio enquanto Lucca parecia refletir sobre as últim as palavras pensadas por Mainá. Am bos ergueram os olhos para o céu. Um tapete extenso de estrelas se estendia pelo horizonte infinito e em um ponto, um a constelação se destacava das outras com um brilho m ais intenso.
– E Nicolas? – quebrou o silêncio o ruivo. – Com o reagirá quando chegar a hora?
Mainá não tinha resposta para aquilo, m as sorriu diante do tom do m arido. Parecia m ais conform ado. Havia alcançado seu intuito. Deixou seus pensam entos buscarem seus parcos conhecim entos de astronom ia para que pudesse identificar as constelações. Dem orou m ais tem po do que um profissional para reconhecer a que brilhava m ais.
– Aquário – balbuciou cham ando im ediatam ente a atenção de Lucca. – E a Nebulosa da Hélice.
***
Era um caco de ansiedade e desespero quando fui ao encontro de Lara no início da noite. Transtornado, com os pensamentos revoltos sobre as últimas mudanças, tinha certeza de que ficar sozinho por tanto tempo pensando demais piorara minha situação psíquica. Precisava muito da mulata e não sabia por quê.
Quando finalmente cruzou a porta de entrada, fiquei em pé em um pulo rápido demais para ser considerado normal e a esperei se aproximar para tomá-la em meus braços. Seu cheiro, seu gosto e a textura de sua pele foram como bálsamo em meu coração. De imediato me tranquilizei.
Sem fôlego, Lara se afastou de mim ao final do beijo com um misto de espanto e prazer no rosto.
– Oi – sussurrou.
O riso brincou em seus lábios e não resisti a abrir um largo sorriso.
– Muito diferente minha recepção? – perguntei enquanto a ajudava a se sentar.
Estava realmente mudado. Virara um cavalheiro por um lado e um canalha por outro.
– Uma surpresa, sem dúvida – respondeu.
Tomei sua mão sobre a mesa, acariciando-a enquanto a fitava.
– Contraditório, eu diria.
Lara riu mais abertamente agora. Sua educação e receio de como agir comigo a travara. Realmente estivera fazendo tudo errado, mas tinha ciência de que precisava dela e não a deixaria facilmente. A menos que desistisse de mim. Sua mão apertou a minha enquanto nossos olhares eram trocados.
– Desculpe – respondi sério. – Não lido bem com aquilo que não entendo.
Refleti no segundo seguinte no quanto aquelas palavras eram verdadeiras. Muito mais do que havia acreditado antes de pronunciá-las. Eram aplicáveis ao momento de minha vida. Perdi o controle sobre meu destino, pensei. Pela resposta de Lara, meus sentimentos foram imediatamente percebidos.
– A vida nos apresenta surpresas maiores do que esperamos, não é?
Percebi que se incluía naquela frase e ficamos nos encarando em uma conversa silenciosa na qual somente nossos próprios pensamentos povoaram nossas mentes. Eu me perdi na languidez daquele olhar dourado como o sol. Derretido, me fundi a ela de uma maneira única e imutável.
Preenchemos o restante da hora com uma conversa sobre o dia. Não ocultei nada, a não ser meus pensamentos confusos e minhas impressões exageradas – audição, visão e vento – que considerava loucura colocar em algum lugar fora de minha mente. Seria como aceitar o fato de estar doido.
Lara me falou sobre problemas no trabalho – o que justificava seu atraso ao nosso encontro. E não me poupou dos detalhes, o que me permitiu sugerir uma solução. Quando a externei, quase ao mesmo tempo em que a ideia surgia em minha cabeça, uma brisa suave acariciou meu rosto.
Eu me distraí por alguns segundos tentando descobrir de onde aquele vento viera, sem sucesso. Por fim, tinha certeza de que minha sugestão a ajudaria e ela me agradeceu pela consultoria gratuita. Ri muito de sua brincadeira com minha profissão.
Ao final do jantar, Lara fez menção de se despedir e senti um novo aperto no peito.
– O que acha de uma esticada até o meu apartamento? – ofereci antes que ela realmente se despedisse.
Para minha surpresa, apesar de relutar por algum tempo que me pareceu longo demais, porém sem que insistisse verbalmente – o que me fez pensar e me preocupar com a expressão que estaria estampada em meu rosto –, aceitou meu convite com um sorriso sereno e sem nenhuma palavra de objeção.
Partimos assim que a conta foi paga. Sentia uma grande expectativa entre nós, principalmente dentro de mim mesmo. Estava ansioso em tê-la outra vez entre meus braços. Enquanto dirigia, não tirava os olhos do retrovisor para conferir se Lara ainda estava atrás mim.
Mal cruzamos a porta do apartamento, e depois de fazer uma rápida avaliação e perceber que estava vazio – nessas horas ter uma super-audição era muito útil – agarrei a mulata. A impaciência e o desejo tomaram conta de mim. Lara era uma necessidade tão importante quanto respirar.
Não compreendia essa obrigação forte e vívida, mas a sentia desesperadamente e era impossível lhe negar o que tanto almejava. Minha alma era ardor por ela, não pelo ato em si. Percebi enquanto a envolvia que outra jamais acalmaria esse desejo.
Adormecer não era algo que desejava. Queria aproveitar cada segundo ao lado de Lara, porém a deixei em paz, durante a madrugada, quando seus lábios já não balbuciavam coerentemente uma resposta às minhas milhares de perguntas. Velei seu sono até que meus olhos também não suportassem mais continuar abertos.
Dormi pesado e sem sonhos. Parecia que havia acabado de dormir quando um som me fez erguer da cama em um salto rápido e assustado. Ter uma audição sensível tinha suas desvantagens. Porém, quando meus olhos desembaçaram e pude enxergar com clareza, agradeci ao despertar repentino.
Em um movimento apressado demais, estava em frente à porta, meu corpo e membros impediam que Lara saísse. Com suas sandálias nas mãos, o rosto espantado, estacou a tempo de não se chocar contra mim.
– Como...
– Aonde você pensa que vai saindo assim? – perguntei ao mesmo tempo interrompendo-a.
Meu coração saltitava violento em meu peito. O desespero ao pensar que ela fugia de mim de novo me fez cometer esse gesto indelicado. Arfava nervoso, não pelo esforço que havia feito, já que não significara absolutamente nada para meu corpo. Sem raciocinar direito, apenas esperava que fosse honesta comigo.
– São oito horas da manhã, Nicolas – respondeu contrariada. – Preciso trabalhar.
Respirei fundo a fim de acalmar meu inquieto coração. Afinal, não estava fugindo de mim, apenas sendo responsável. Porém, ao pensar em passar mais um dia solitário, com minhas inquietações, longe de sua plácida presença, uma nova onda de angústia me dominou.
Estiquei os braços em direção a Lara e pousei minhas mãos sobre sua face. Embebi-me do dourado de seus olhos antes de suplicar.
– Por favor, não vá!
Em pensamento, acrescentei: eu preciso de você. Não poderia afirmar com certeza que ela tenha adivinhado meus pensamentos. Ficamos alguns minutos nessa posição, os olhos presos um no outro, enquanto se decidia. Percebi sua luta interna entre o que tinha e o queria fazer.
Por fim, sacou da bolsa o telefone celular. Não prestei atenção a uma palavra que pronunciou. O movimento de seus lábios era hipnótico e me perdi assistindo sua sensualidade. Quando o som de sua voz se dissipou e o aparelho foi fechado, saciei o desejo de provar de novo sua boca.
Enquanto a beijava, suas mãos deixavam escorregar ao chão todos os objetos que segurava para que pudesse me envolver com seus braços morenos. Quando o fez, eu a ergui em meus braços e a levei de volta para a cama sem nem mesmo ver o caminho.
Meu corpo não teve problema nenhum em carregá-la. Na verdade, era como se não tivesse peso algum. Fosse vento, uma pluma, nada. Naquele momento, não foi algo que tenha realmente reparado por mais do que um segundo. Tempo que gastei para repousá-la sobre a cama e amá-la com o ardor de sempre.
Lara correspondeu com a mesma paixão e me vi feliz como nunca antes.
Uma hora depois, estávamos sentados na mesa da cozinha tomando um animado e aconchegante café da manhã. Nunca pensei que me sentiria tão bem convivendo tão intimamente com outra pessoa. Nossa familiaridade ia além da minha amizade fraternal com Giovani e era muito boa.
Enquanto comíamos, minha cabeça buscava algo além de sexo para fazermos durante o dia. Há muito tempo que não acordava tão cedo, ainda mais depois de uma noite muito curta de sono. Porém, sentia minha disposição redobrada. Podia correr, nadar, velejar, passear, exercer qualquer atividade física normalmente.
Uma ideia me acariciou como uma brisa suave.
– Lara, o que acha de passarmos o dia em Conceição da Barra?
Vi o rosto da mulata modificar do espanto ao rubor. Não imaginava que tipo de pensamento povoara sua mente a ponto de causar tal efeito. Curioso, pensei em perguntar, porém logo se recuperou e respondeu a minha pergunta com a alegria genuína que esperava causar-lhe quando fiz a proposta.
– Seria perfeito! Mas são mais de duzentos quilômetros.
Ri do empecilho que ela punha à nossa ida a sua terra natal.
– Dirijo rápido! – retruquei com uma piscadela.
Por volta das dez da manhã estávamos na estrada estadual que levava ao norte do estado. Conversamos sobre muitas coisas tolas e sem importância. Minha mão grudou na dela durante o percurso. Eu me sentia alegre e leve e então meus olhos se voltaram para o colar azul-esverdeado em destaque no pescoço moreno de Lara.
– Você sempre a usa agora? – perguntei apontando para a pedra.
Envolvendo-a com a mão direita, Lara corou fortemente dessa vez. Seu rosto ficou com uma aparência adorável e sorri diante da indiscrição da pergunta. Na verdade não esperava aquela reação, mas gostaria muito de saber sobre sua relação com aquela pedra.
– Sim, desde uma conversa estranha que tive com meu avô. – A mulata recuperou a cor natural ao responder, que pena. – No feriado de carnaval, minha mãe havia feito uma grande faxina no meu antigo quarto e acabou desencavando a pedra. Não me lembrava mais onde ela estava. Gostei tanto de revê-la que decidi usá-la naquela tarde na qual nos reencontramos.
A sua timidez ao se confessar era quase infantil. Apertei sua mão em sinal de apoio e estava pronto para questioná-la mais quando percebi que não continuaria por conta própria.
– Que tipo de conversa estranha foi essa com seu avô?
A perturbação que se seguiu me surpreendeu. Já que havia citado, não vi mal algum em perguntar. Mas estava errado. Lara demorou tanto tempo para responder que já ia retirar a pergunta quando finalmente ela colocou tudo para fora de uma só vez.
– Meu avô Francisco está muito idoso. Foi até bom que tivéssemos essa conversa antes que você se deparasse com ele novamente. Enfim, não anda muito bem da cabeça. Quando ele viu o colar falou sobre um alinhamento e um portal. Bem, não entendi absolutamente nada. Porém, ele se mostrou bastante aflito e inquieto por causa dela. E senti, você vai achar isso muito estranho, mas senti que devia dar ouvidos a ele e não me separar da pedra em hipótese alguma. Ela realmente tem alguma coisa especial. Não é uma água-marinha comum. – Caiu na risada ao final deixando-me pasmo com os olhos presos na estrada cinza. – Agora você deve estar achando que eu estou louca.
Queria dizer que não achava, mas estava paralisado e emudecido. Afinal, ela estava confirmando que eu não estava enlouquecendo. Será que devia mesmo acreditar nisso? Resolvi mudar o rumo da conversa para um ponto do relato mais real.
– Ouvi falar que um astrônomo previu um alinhamento planetário perfeito.
– Pois então, não é mesmo? – respondeu nervosa. – Talvez meu avô tenha misturado a realidade com a fantasia. Quando eu era criança, ele me contava muitas histórias sobre um lugar escondido em outra dimensão onde havia seres mágicos. Meu pai sempre o repreendia, talvez porque seja mais pé no chão. Meu avô sempre foi um sonhador. Pelo menos agora ele vive nesse mundo encantado e deve estar muito mais feliz.
Senti que era um desabafo e ao mesmo tempo um aviso do que deveria esperar ao chegarmos a casa dela. Mudei de assunto para vê-la novamente esfuziante. Lara era só alegria e me contagiava. Adorava estar de bom humor também e conviver com pessoas de bem com a vida.
Refleti que nunca a havia visto triste de verdade. No mínimo desconfiada, com o pé atrás. Seu espírito era muito agradável e muito difícil de ignorar. Eu me senti um idiota por não tê-la enxergado direito por todos esses anos. Cego. Burro. Estúpido.
Chegamos à Conceição da Barra um pouco antes do almoço. Para fazer surpresa, Lara não avisou ninguém da visita. Entrou na frente, segurando com firmeza a minha mão, e me introduziu na vasta sala que conhecia muito bem. Não mudara absolutamente nada nesses quinze anos.
Os móveis de madeira escura e maciça estavam mais envelhecidos do que antes, mas combinavam perfeitamente com a fazenda devido a sua aparência rústica e sóbria. Os dois idosos, avós de Lara, estavam nesse cômodo resmungando entre si algo inteligível para os outros, mas não para mim.
Depois de ouvir algumas palavras, percebi que estavam se ofendendo mutuamente, porém, por trás de cada ofensa havia preocupação e carinho típicos de parentes próximos. Ri por dentro me divertindo à custa dos velhinhos sentados confortáveis em suas poltronas preferidas.
Por conta dessa animada conversa, demoraram mais do que deviam para notar a nossa presença. Dona Teresa lançou um olhar vago para mim e desviou imediatamente para a neta em uma explosão de alegria. Levantou-se com seu corpanzil para estreitar Lara entre os braços.
Já o senhor Francisco manteve seu olhar cinzento preso em mim o tempo todo. O rosto muito pálido – o contraste perfeito com a mulher que abraçava minha companheira – e enrugado preso em uma expressão que não me dizia absolutamente nada.
Para completar o cenário, os pais de Lara adentraram a sala nesse exato momento.
Era o encontro mais inter-racial que já vira. Eugênio era parecidíssimo com o pai, apenas trinta anos mais jovem. Sua pele, também muito clara, já estava bastante manchada pelo trabalho no cafezal embaixo do sol quente brasileiro. Os olhos tinham a mesma expressão vazia e a mesma cor opaca.
Margarida era uma mulher negra, robusta, de cabelos crespos e olhos negros profundos. Seu sorriso de lábios grandes e dentes muito brancos era acolhedor, diferente da frieza do restante da família. Eu me lembrei de onde vinha o alto-astral de Lara. Tinha da mãe, dona Teresa, apenas os olhos escuros e o tom da pele.
Enquanto a família cercava Lara entusiasmada com a surpresa que a jovem fizera, me mantive um pouco afastado para não atrapalhar e não me senti ofendido pela recepção nada calorosa. No mínimo ainda havia alguma mágoa deixada por meus erros do passado, por mais distante que estivesse.
Depois de alguns minutos, a mulata se separou dos parentes para se aproximar novamente de mim. Tomou minha mão com carinho e me fez dar um passo a frente para permanecer ao seu lado enquanto me reapresentava a família. Com o coração disparado, me ouvi complementando-a.
– Vocês se lembram do Nicolas, não é?
– Namorado de Lara – eu disse.
Eugênio foi o primeiro a demonstrar seu ressentimento.
– Ex-namorado – salientou a palavra.
– Papai...
– Desculpe, senhor Eugênio, mas estamos namorando novamente. – Troquei um olhar com uma Lara espantada com um sorriso confiante. – E dessa vez é para valer.
Os olhos da mulata se desmancharam de contentamento com minha resposta. Sorrindo, se virou para a família para demonstrar o quanto concordava com minhas palavras. O pai de minha namorada – agora sim, estava assumindo de verdade – não ficou nada satisfeito.
Ele se retirou enquanto o restante me cumprimentava. A impassibilidade de Teresa passou para uma efusão de bons sentimentos com relação ao seu novo neto – como já me denominava. O senhor Francisco também se mostrou bastante feliz, apesar de mais reservado que a sogra de seu filho.
O jovem irmão de Lara, Lorenzo, entrou exatamente nesse instante e estacou na porta com o olhar mais furioso do que seu pai ao dar comigo entre sua feliz família. E pior, ao lado de sua irmã adorada. Na última vez que o vira, também não havia me recebido bem. A surpresa estava estampada em seu rosto.
Dona Teresa tratou de comunicar ao neto sobre a nova aquisição familiar enquanto eu prestava atenção na fuga sorrateira – não para mim que podia ouvir o arrastar dos passos incertos de Francisco enquanto ia para a outra sala, onde sabia – percebia pelos passos constantes e a respiração pesada – que Eugênio estava.
– Filho, o que pensa que está fazendo aqui? – ouvi o idoso perguntar sussurrado.
– Não posso acreditar que Lara tenha caído de novo no papo daquele canalha!
A voz do pai da mulata estava muito mais alta do que a de seu avô. Ainda assim, ninguém parecia perceber a conversa que se desenrolava no cômodo ao lado.
– Pare com isso, Eugênio! Você sabe quem ele é?
A defesa de Francisco foi uma surpresa para mim. Ainda mais sua pergunta na sequência. Será que ele não havia me reconhecido? Continuei prestando atenção.
– Claro que sei, pai. Você se esqueceu? É o garoto riquinho que roubou a pureza dela e depois a deixou quando tinha apenas quinze anos!
Estremeci diante das palavras. As lembranças não eram agradáveis, porém o pai de minha namorada guardava amargura.
– Não, Eugênio. Estou me referindo à outra coisa. – A voz do idoso ficou ainda mais baixa do que antes. – Você não está sentindo?
– Papai, de novo essa história?
– Sim ou não? Não minta para seu velho pai!
Não houve resposta e fiquei me corroendo de curiosidade. Do que estariam falando?
– Precisamos falar com ele – era a voz de Francisco.
– Não, papai, por favor.
– Você sabe que isso é importante demais, Eugênio, para continuar fingindo que você não é quem é.
– Não finjo nada. Construí meu destino assim como o senhor fez no passado.
– Meu filho, se você não fizer nada, eu farei. – Houve uma pausa antes que Francisco continuasse. – Tudo bem, sei que sou velho e não conseguiria. Porém, se você não fizer, vou passar a responsabilidade para o próximo na linhagem.
– Não, papai! Por favor! Não diga nada a ninguém, te peço! – Eugênio suspirou resignadamente. – Tudo bem. Prometo que vou dar um jeito nisso, mas preciso que o senhor me prometa continuar mantendo segredo.
– Você tem minha palavra se cumprir a sua.
O silêncio prosseguiu pesado por um tempo tão grande que me lembrei de que não estava na sala ao lado participando da conversa alheia. Armei um sorriso e me virei para Lara. Seus olhos demonstravam muitas dúvidas e algum receio. Não compreendi o que perdi para deixá-la naquele estado.
O pai de minha namorada voltou à sala com uma aparência mais amistosa, mas ainda distante. Sua entrada quebrou o clima e o silêncio que se fizera no cômodo. Durante a conversa que se seguiu, meus olhos cruzaram com os de Lara muitas vezes e os percebi excessivamente pensativos.
Almoçamos por volta do meio-dia e elogiei abertamente a culinária de dona Margarida, que ficou muito satisfeita. Eugênio também havia se soltado mais, porém continuava me observando contrafeito. Para apoiar o pai, Lorenzo também se manteve calado e taciturno.
Após a refeição, foi servido um aromático café que trouxe de volta muitas lembranças de minha infância e adolescência. Agitado por elas, senti o desejo de rever as dunas, mesmo que não fizesse muito tempo que as vira pela última vez. Decidi que faria a proposta a Lara para que fôssemos ao parque antes de voltarmos para Vitória.
Depois de uma tarde alegre, ao lado da mãe e dos avós de minha namorada – Lorenzo e Eugênio voltaram ao trabalho após o almoço –, nos despedimos e já no carro, estendi o convite a uma jovem linda e muito feliz pelo que pude ver em seus olhos e ela aceitou prontamente.
Lara discorreu sobre seu amor por sua cidade natal, as belezas naturais do lugar, e a importância do parque para a preservação de espécies em extinção e da Mata Atlântica. Falava com tanta paixão, que reacendeu em mim sentimentos semelhantes que sempre me motivaram a continuar visitando aquele lugar.
Foram apenas dez minutos até a Vila Itaúnas. Mais cinco para alcançarmos o topo das dunas. Descalços e de mãos dadas, paralisamos diante da beleza do espetáculo que se emoldurava no horizonte. Era o início do pôr-do-sol. Não havia palavras para expressar o que sentia, muito menos o que via.
Pelo silêncio de Lara, percebi que também deveria estar tão enlevada quanto eu diante da visão que nos fora presenteada. Por isso, vimos a noite cair naquele canto claro do céu. Dei adeus ao sol daquele dia e recebi a noite com a mesma alegria. Ainda podia enxergar os detalhes sobre o prisma de um novo reflexo.
Uma brisa soprou exatamente nesse momento, como em resposta ao meu cumprimento silencioso. O céu, pontilhado de estrelas, parecia piscar para mim alegremente. A lua surgiu mais branca e clara do que nunca, dando início ao seu reinado.
– Você ouviu isso? – perguntou Lara quebrando o silêncio entre nós.
– O quê?
Ouvia tanta coisa que era impossível saber exatamente a que ela se referia. Havia o som do mar, da mata e do rio. Também havia o som dos animais noturnos e a respiração suave de minha companheira. Ainda podia perceber o ritmo agradável e compassado do bater de nossos corações.
– A brisa – respondeu – está soprando uma canção.