Ilha de Ar - Os Quatro Elementos, Volume 3

Josy Stoque · Capítulo 23 de 31

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Ilha de Ar - Os Quatro Elementos, Volume 3

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Já anoitecia quando Tam ires do Valle chegou ao hotel. Pensava que seria a prim eira quando sentiu a presença de outra pessoa e seu coração bateu m ais rápido. Droga! Vou me sentir assim toda vez que chegar perto dele agora? Cam inhou até o restaurante devagar.

Alexandre estava sentado no balcão do bar e não pareceu notá-la tão focado estava em algum obj eto que ainda não podia ver. Aproxim ou-se devagar m esm o sabendo que não o surpreenderia. Talvez não quisesse chocar a si m esm a com um a atitude afoita. Controlou cada m ovim ento.

Sentou-se no banco ao seu lado e o garçom lhe ofereceu um a bebida. Pediu apenas água. Virou-se em silêncio para o m oreno que a encarou de volta do m esm o m odo, m as seus olhos estavam transtornados. Sua alm a era um m isto de revolta, noj o e desprezo.

– Muito ruim ? – perguntou a ruiva.

– Sim – sussurrou. – Não suportei vigiá-los por m ais tem po. Tam bém não há perigo. Talvez aquela m oça m al-hum orada, Michele, que está ressentida por ter sido trocada por Lara – riu com deboche.

– Outra? – levantou as sobrancelhas a ruiva. – A m ãe dele, Celeste, tam bém . É um a m ulher am arga e rancorosa. Só não consegui descobrir exatam ente porque, m as tenho certeza de que tem a ver com o m arido que m orreu e Nicolas.

– Mas você acha que representa algum perigo real? – brincava com o copo de uísque entre os dedos.

– Não e você?

– Tam bém não. Não com o estam os esperando.

Tam ires assentiu e tom ou um gole de sua água. Ao alcançar seu estôm ago vazio, o líquido gorgolej ou alto.

– Acho que estou com fom e – riu.

– Estão servindo o j antar.

– Vou lá.

– Eu te acom panho.

O casal se sentou à m esa e escolheu seus pratos. Enquanto esperavam , Alexandre olhou para Tam ires de inúm eras form as. Ela leu em seus olhos todos os sentim entos. Dúvida. Desejo. Insegurança. Desespero. Teve com paixão por aquele hom em sem pre tão seguro de si e agora com o coração atorm entado.

– Alexandre, eu... – com eçou a dizer, m as engasgou com as próxim as palavras.

– Não, Tam ires – não deu tem po para se recuperar. – Não diga nada ainda. Apenas m e escute – aproveitou a deixa.

Tam ires se arrependeu de ter com eçado aquela conversa, m as não havia com o fugir. Teria que encarar a situação de frente, m esm o não estando pronta. Suas m ãos transpiraram e retorceram de ansiedade em baixo da m esa.

– Não sei o que sentiu na noite passada, m as quero que você saiba que aquele beij o significou m uito para m im . Muito m ais do que encenação.

Ela sabia. Sentiu seu rosto queim ar, m as sua língua travou, incapacitando-a de responder. Não era um a conversa que desej ava, m as se viu obrigada a perm iti-la. Culpa de sua língua com prida.

– Não tenha m edo, não m e iludi. Sei que não se apaixonará por m im da noite para o dia. Não sou um adolescente. Porém , m uita coisa aconteceu nos últim os m eses na sua vida, quer dizer, em nossas vidas, e por isso eu m e perm ito te pedir apenas um a coisa em troca da m inha am izade incondicional e im utável. Se você tem algum a consideração por m im , m e diga apenas, com sinceridade, se eu tenho algum a chance.

A língua de Tam ires se m oveu sozinha dentro de sua boca que m anteve lacrada. A vontade dela era gritar que tam bém o desej ava com ardor, m as sua m ente a conteve. Sua dúvida e indecisão só confirm aram seu estado. Não estava m esm o pronta para aquela conversa. Não tinha ideia do que responder.

Sentia-se a m ais cruel do m undo apenas por ficar em dúvida. Não estava sendo j usta com ele – m uito m enos consigo m esm a. Nunca passara por algo assim na vida. Querer alguém e não querer ao m esm o tem po. Era tão antagônico, tão sufocante, que sentiu o desej o de gritar só para extravasar o estresse que lhe causava.

Viu os olhos de Alexandre revirarem de ansiedade e incerteza. Estava m uito angustiado à espera de sua resposta, era nítido, m as não a apressou. Outra pontada a cutucou no peito. Aquele hom em não m erecia sofrer daquele j eito. Ele a am ava incondicionalm ente, de um a form a que Tam ires não com preendia, m as podia aceitar.

– Se disser que não posso responder agora, você acreditaria em m im ? – Finalm ente conseguiu desem buchar um a frase. – Ainda não tenho certeza de m eus sentim entos, m as sei que te considero m uito m ais do que im aginava. Estou confusa dem ais. Seria m uito inj usto te pedir para não desistir de m im ainda?

Um sorriso sedutor coloriu o rosto de Alexandre e deixou Tam ires verm elha e desorientada. O que havia feito? Havia dado esperança a um hom em que não m erecia sofrer. Mas não estaria apenas adiando o inevitável? Chacoalhou a cabeça em desaprovação a si m esm a.

Alexandre esticou a m ão sobre a m esa e pousou-a sobre a de Tam ires. Estava quente. Fervendo. Queim ava sobre sua pele. Um arrepio percorreu seu corpo com o eletricidade transm itindo aquele calor por onde passava. Sabia bem a diferença. Desej o. Um desej o que a consum ia e tragava por dentro, em cham as.

– Vou esperar o tem po que for preciso. Já estou aqui, não? E nunca, j uro, farei nada que não queira.

Tam ires quase congelou em contraste com a sensação de fogo em seu corpo. Fora com o se água gelada se arrastasse por suas veias com dificuldade, dolorosam ente. Seu corpo reclam ava. Não adm itia abstinência do beij o de Alexandre. Queria m ais. Muito m ais.

Com o se lesse o torm ento de sua alm a, Alexandre apertou sua m ão indeciso. Tam ires desej ou tanto que ele se levantasse e a tom asse nos braços ferozm ente. Porém , apenas se inclinou e beij ou a m ão que segurava. Um gesto tão delicado e cavalheiresco que a com oveu, m as fez seu corpo rugir – m udo – de desgosto.

Por que queria tanto dizer que sim , que aceitava seu am or e esquecia de todo o resto? Por que estava sendo tão egoísta a ponto de só pensar naquele desej o insistente e im perativo que a incom odava tanto? Ainda assim , sua m ente estava no controle daquele corpo insano e im pulsivo. Tam ires nunca havia se sentido assim antes nem m esm o com Gustavo, o hom em que considerara seu verdadeiro am or.

Essa constatação lhe causou um baque. O que significava? Que não o am ara verdadeiram ente ou que sentia apenas um a forte atração por Alexandre? Não sabia e quanto m ais pensava, m enos se descortinava diante de seus olhos. O que o futuro lhe reservava?

A presença constante e im utável de Alexandre a tocara com o um a gota em um a estalactite. Pingara, pingara, pingara até que solidificara com o um a rocha, firm e, dura e perm anente. Não conseguia m ais se im aginar sem ele por perto, a consolando sem palavras, a ouvindo com preensivam ente, a apoiando com seus talentos e esperteza.

Tam bém sabia que essa m esm a constante a levaria de volta para àqueles braços, m ais cedo ou m ais tarde, estando certa do que fazia ou não. O que sentia se tornara forte dem ais para ser ignorado ou totalm ente controlado. Quantas vezes quase perm itira que a beij asse antes?

Agora que havia acontecido, sabia que algo havia m udado para sem pre. Era um ponto sem volta. E agora, Tam ires era um a m ulher de dois hom ens. Dois irm ãos. Am bos com passados obscuros, porém divididos por cam inhos diferentes. Racionalm ente com eçava a se convencer de que Alexandre poderia ser a escolha acertada.

As horas passaram lentas e angustiantes. A conversa com Alexandre havia term inado há m uito tem po, porém ainda reverberava dentro dela. Seu corpo parecia desej á-lo m ais só porque havia deixado a dica de com o tê-lo novam ente. Bastava querer. E com o aquele corpo o queria!

Ela se sentiu perder-se de si m esm a. Não im portava m ais quem era ou o que precisava fazer. Só im portava o que queria. E desej ava Alexandre de m aneira insana. Seu corpo se inclinou involuntariam ente inúm eras vezes em sua direção. Segurá-lo tornou-se um exercício constante.

Ficou aliviada quando Lucca e Mainá – e em seguida Marcel – chegaram . Já era noite. Encontraram -se no restaurante onde m antiveram um a conversa baixa e sigilosa enquanto os recém -chegados faziam um a refeição de verdade.

P rim e iro Lucca, depois Marcel fizeram um breve relatório sobre seus respectivos seguidos. Tam ires e Alexandre tam bém dividiram suas im pressões. A conversa foi sussurrada e curta para não cham ar a atenção dos dem ais hóspedes presentes.

Ao final, ficou decidido que focariam suas atenções no dia seguinte entre Lara e Michele só para se certificarem de que nenhum a das duas estariam a serviço de forças contrárias à m issão. Marcel om itiu que Lara o havia visto em frente ao prédio dela enquanto a espionava.

***

O sol já havia se posto quando finalmente me arrastei para fora da cama. Aquele havia sido ‘o dia’. Tentara buscar alguma energia em minhas atividades comuns ao ar livre, porém não fora frutífero. Um cansaço enorme se abatia sobre mim. Só o sentia aumentar com o passar das horas.

A dor no corpo me fez levantar. Ficar tanto tempo deitado me deixou um caco, mas ainda não tinha motivação alguma para nada. Não me atraía balada, muito menos outro porre. Fazia muito tempo que não ficava bêbado daquele jeito, apesar de me lembrar perfeitamente de cada detalhe da noite anterior.

A lembrança me trouxe uma nova dor que não era física. Eu me movi lentamente a fim de conter aquele aperto no peito. O gesto não amenizou em nada meu sofrimento. Precisava do único remédio capaz de me tirar daquele sufocamento e angústia. Uma pessoa que trazia consigo...

Estaquei assustado. Eu a estava sentindo, mas como? Que tipo de ligação teríamos? Que loucura era essa? Era diferente das intuições que costumava ter. Tinha certeza palpável, quase física. Era como sentir a presença de alguém se aproximando mesmo antes de vê-la. Simplesmente sabia.

Parei em frente à porta ofegante contando os segundos que faltavam para que a campainha tocasse. Não me assustei quando a previsão se concretizou no exato instante em que a senti. Abri a porta sabendo com quem me depararia, porém não esperava tamanha preocupação.

– Você está bem? – soluçava Lara agarrada a mim tão apertado que deveria doer.

Ao contrário, a dor imediatamente passara. Um desespero diferente a substituiu. Fome. Desejo. Mas havia lágrimas nos olhos sempre dourados e luminosos da mulata. E agora que ela havia salvado meu dia – ou minha noite, o que também se tornava um hábito ou seria uma troca? – era minha vez de confortá-la.

– Agora estou – respondi sorrindo e tocando suas lágrimas com meus lábios. – O que aconteceu?

– Eu que te pergunto! – respondeu angustiada. – Está machucado?

– Não. Por favor, acalme-se, Lara. Por que está tão assustada?

Ela só sossegou depois que se certificou com os próprios dedos e olhos de que eu realmente estava bem fisicamente. Não havia percebido que eu não me referira ao corpo e sim a alma. Um beijo sôfrego foi o carinho que me retribuiu depois de garantir que não havia nada de errado comigo.

– Acho que foi bobagem minha, mas precisava ter certeza. Não conseguiria dormir.

Esperei pacientemente que ela se explicasse melhor. Estávamos sentados no sofá e não conseguia deixá-la livre. Precisava mantê-la em meus braços para ter certeza de que não estava sonhando. Fiquei nas nuvens por ela ter ido me procurar exatamente no momento em que mais precisava dela.

– Tive um pressentimento tão forte de que havia algo errado com você, que talvez estivesse precisando de ajuda. Saí correndo do apartamento ansiosa em te encontrar.

Eu me comovi e ao mesmo tempo um sinal de alerta se acendeu. Estaríamos mesmo tão ligados assim que ela pressentiu que não estava bem e que precisava dela de verdade? Que só ela poderia me dar a paz que agora encontrava? Mas como, meu Deus? Será que havia recebido uma descarga de energia cósmica?

– Só por isso ficou assim? – especulei.

Senti que tinha mais alguma coisa. Além do pressentimento, minha mente racional não podia conceber algo tão bizarro. Evidente. Seu corpo tremia nos meus braços. Lara estava muito assustada e havia mais do que uma sensação para que ficasse naquele estado. Algo externo, que pudesse provocar aquele medo físico, e quem sabe até atentar contra sua vida. Ou minha vida. Mas de onde ela tiraria que eu corria risco de morte? O que havia acontecido?

– Não – sua resposta demorou, mas saiu. – Fui seguida o dia todo. – Foi a minha vez de estremecer e estreitá-la nos braços como para protegê-la de suas palavras. – Primeiro foi mais como uma impressão. Depois a confirmei. Ele me seguiu até em casa. Assim que foi embora, vim para cá.

Novas lágrimas escorreram por sua face. Eu a beijei confortando-a. Sussurrei que agora estava tudo bem, que ela ficaria segura. Lara me encarou com os olhos úmidos e ainda mais brilhantes antes de falar novamente.

– Você não está entendendo, não é comigo que estou preocupada! É com você!

– Por que comigo se você foi seguida?

– Não sei! – sua resposta foi quase inaudível.

Eu a sufoquei novamente em um abraço de urso enquanto sua angústia se acalmava. Naquele momento, tomei a decisão mais importante da minha vida e estava fazendo de bom grado, sem temores nem dúvidas. Além de ser a única solução, sabia que desejava ardentemente em meu íntimo.

– Não quero tirar meus olhos de você. Não vou ficar em paz sabendo que está em perigo. Vamos ao seu apartamento agora. Você pode trazer suas coisas para cá e ficar aqui – fiz uma pausa porque a palavra seguinte brincava e caçoava de mim, mas eu tive que pronunciá-la. – comigo.

Minha declaração pegou a mulata de surpresa e ela me encarou. Seus olhos eram pedras de citrino que reluziam à luz fria da sala. Tinham uma profundidade assustadora e quase os ouvi falar comigo. Entendi muito bem os sentimentos que os tumultuaram porque também me revolviam. Eu me inclinei e a beijei.

Aquele foi nosso primeiro beijo como um casal oficialmente comprometido – poxa, foi mesmo difícil admitir que estava assumindo um compromisso maior que um namoro. Estava me comprometendo a viver com outra pessoa, debaixo do mesmo teto, em cima da mesma cama. Acordaria e dormiria com a mesma mulher todas as noites.

E isso não me assustava nenhum pouco, mas me enchia de uma alegria única e intensa. Sabia que não seria passageiro. Além de satisfazer o desejo de meu corpo, estava acalmando minha alma. Seria muito mais feliz perto dela do que longe. Estaria completo.

***

Giovani chegou meia hora depois que voltamos do apartamento de Lara. Foi entrando no quarto sem pedir licença e se espantou ao vê-la arrumando em meu enorme closet seus objetos pessoais. Eu a ajudava liberando espaço e aproveitei para separar roupas que não usava mais para doação.

Percebi que ficou tão perdido que não sabia se devia caçoar ou me dar os parabéns. Eu o conhecia bem o suficiente para saber todas as piadas que estariam povoando sua mente naquele momento, mas agradeci em silêncio por ter escolhido falar sobre si e fingir que não estava vendo nada demais.

Empolgado com os trâmites do casamento, queria que o acompanhasse até o cartório no dia seguinte porque estava me convidando para padrinho. Abracei meu melhor amigo emocionado com o convite, mas ainda sem saber bem o que ele pretendia com minha presença no cartório. Afinal, eu só assinaria na cerimônia.

Ele me lançou um olhar cheio de significado na primeira oportunidade. Lara estava quase que dentro do meu guarda-roupa e não podia vê-lo. Respondi com um sorriso firme e cheio de confiança. O fato de meu amigo estar saindo do apartamento em pouco tempo me deixava ainda mais contente com a privacidade que teríamos.

Giovani se casaria e eu estaria o quê, me amasiando? Que palavra horrível! Preferia pensar: vivendo com a mulher que tanto desejava, depois de quinze anos de uma separação desnecessária e tola. Mais do que corrigindo meu erro do passado, estava seguindo um caminho de felicidade.

Será que os sentimentos românticos eram contagiantes? Com esses pensamentos me senti meio tolo, mas nem por isso menos alegre. Desejei toda a felicidade ao casamento de meu amigo e recebi um cochicho rápido ao pé do ouvido enquanto nos abraçávamos.

– Parabéns para você também – apesar do sarcasmo, sabia que era sincero.

Se meu amigo perdesse a oportunidade de caçoar de mim não seria Giovani. Ainda bem que ele também sabia o momento de se retirar. Portanto, não demorou muito para nos deixar a sós. Adormecemos tarde e abraçados naquela noite. Conversamos muito e fizemos planos para um futuro próximo. Era aquilo que eu queria viver.

Na manhã seguinte despertei junto com Lara. Era cedo para mim, mas eu queria estar com ela sempre. Não podia perder um minuto sequer. Ainda não parecia verdade quando entrei na cozinha de mãos dadas com ela. Encontramos Giovani saindo, já que seu horário de expediente era mais cedo.

– Caiu da cama? – meu amigo me cumprimentou.

– Quase isso – sorri. – Vou levar Lara para o trabalho.

– Não precisa, já disse, Nicolas – discutiu.

Mas isso eu já esperava. Peguei seu rosto entre minhas mãos e respondi.

– O que eu te disse ontem?

Seus olhos queimaram. Ela se lembrava de minha promessa, mesmo sem me responder em voz alta, sabia, não pretendia descumpri-la. Giovani pigarreou chamando minha atenção.

– Depois vai me encontrar na fábrica para irmos ao cartório?

Respondi automaticamente, já esquecido daquele compromisso. Estava com medo. Medo por Lara, não por mim. Seu pressentimento quanto a mim era bobagem. Estava muito bem e ficaria melhor ainda a partir de agora. O que me preocupava era saber que um homem a esteve seguindo.

A violência do mundo me assustava, principalmente porque eu sabia que, mesmo sem querer, Lara chamava atenção de qualquer homem. Poderia ser alvo de maníacos ou mesmo concorrentes. Porém sua segurança era o que mais me preocupava no momento. Agora que estava mais calma, era hora de saber.

Enquanto tomávamos café da manhã, fiz mais perguntas a respeito.

– Sobre o perseguidor de ontem, você conseguiu perceber alguma coisa que o identifique?

Senti que ela não queria mais tocar nesse assunto, já o imaginara esquecido por mim.

– Sei exatamente como ele é.

Foi a minha vez de me surpreender. Como ela sabia? Achava que uma pessoa apavorada não conseguiria gravar detalhes de um momento traumatizante. Ouvi espantado a descrição do rapaz com uma riqueza de detalhe assustadora. Enquanto falava, Lara parecia fria e distante, como se não temesse encarar um bandido.

– A que distância ele ficou de você? – perguntei ao fim da narração.

– Ele não se aproximou muito. Não estive em perigo de verdade.

Fiquei ainda mais intrigado, porém resolvi parar de perguntar. Lara falava tão sossegada que resolvi não perturbá-la mais. Deixei-a tomar seu café. Falamos sobre amenidades, em seguida tomamos banho juntos antes de partir para a companhia onde a mulata trabalhava.

No caminho Lara disse que iria para Conceição da Barra na manhã seguinte e me convidou. Respondi que iria onde ela fosse, agora que estávamos juntos para valer. Ela apertou minha coxa. Acompanhei a moça até a entrada do prédio, me contendo para não entrar com ela. Segui seus passos com os olhos até não ser possível vê-la mais.

Meus ouvidos foram meus aliados no momento seguinte. Acompanhei o som de seu andar suave sobre o piso enquanto se dirigia até a sala. Escutei sua rotina de chegada e só parti depois que a percebi concentrada no trabalho. Ainda assim, pretendia retornar o mais breve possível.

Antes de ir ao encontro de meu melhor amigo, conferi todo o quarteirão da empresa a fim de me certificar de que o louco que a estava seguindo não estava por ali. Tinha esperança que ele desistisse e a deixasse em paz. Eu me lembrava de cada detalhe da descrição que ela fizera, mas não vi ninguém sequer parecido.

Menos apreensivo me afastei, estava ansioso para cumprir a obrigação que me comprometera – e quase me arrependi disso por ter que ficar longe de Lara – e voltar depressa. Precisava estar lá quando desse a hora dela sair do trabalho. Minha vida conjugal começava bem animada, ri para mim mesmo.

Giovani me aguardava ansioso. Estava uma pilha de nervos, coitado. Ria de seu entusiasmo. Aproveitando que estávamos sozinhos a caminho da casa de Milene, resolveu me apertar contra a parede.

– Agora me conta tudo, Nicolas. O que está acontecendo?

– Nada demais. Convidei Lara para ficar lá em casa.

– Nossa, eu nem saí e você já colocou uma mulher lá dentro – reclamou. – Tinha certeza de que isso aconteceria, mas não pensei que fosse tão rápido.

– Olha quem fala – retruquei. – Quem está sendo apressado aqui?

– Pelo menos estou fazendo do modo tradicional.

– E eu da maneira mais moderna.

Ambos rimos alto. Não me importava nem me preocupava com a zoação. Sabia bem o que estava fazendo e Giovani me conhecia o suficiente para compreender isso. Não especulou mais e me deixou com meus botões assim que paramos em frente ao emprego de Milene.

No cartório não gastamos muito tempo. Estava amando a ocupação, apesar da minha mente estar sempre ligada a Lara. Queria poder vigiá-la àquela distância. Fiz uma tentativa sem acreditar no sucesso e quase caí para trás quando minha audição foi tão distante que quase tocou mesmo às paredes da construção onde ela estava.

Foi uma conversa sussurrada que chamou minha atenção – tinha certeza de que as pessoas estavam em frente à empresa onde Lara trabalhava.

– Você está sentindo? – perguntou uma voz masculina.

– Sim – respondeu outra feminina.

– Tem algo estranho aqui, mas não consigo identificar.

– São duas energias – respondeu a mulher.

– Sim, são diferentes. Não parecem as mesmas e ao mesmo tempo são iguais.

– Sinto o mesmo. Se Marcel estivesse aqui agora, poderia ajudar, mas acho que parecem mais intensas e ao mesmo tempo difíceis de perceber.

– O que significa isso? – refletiu o homem.

– Magia.

Parei de escutar nesse momento e bem a tempo já que Giovani perguntava minha opinião. Por mais que eu tentasse, não conseguia fugir da loucura de minha mente. Não tinha certeza de ter mesmo ouvido aquela conversa ou imaginado. Há alguns minutos, enquanto ouvia Lara, estava tudo bem para mim.

Agora não podia admitir ouvir daquela distância e ainda por cima uma conversa sem pé nem cabeça onde havia magia inclusa. Impossível! Só podia estar mesmo enlouquecendo. Não havia outra explicação. Fiquei novamente cabisbaixo e desanimado. Aquele seria outro dia daqueles. Infindável.

Era injusto culpar o dia. O problema estava dentro de mim. Haveria ainda escapatória para minha mente? Conseguiria me recuperar da doença que destruía a realidade dentro de mim? Estava fadado à fantasia? Quanto mais me perguntava, menos compreendia.