Ilha de Ar - Os Quatro Elementos, Volume 3

Josy Stoque · Capítulo 4 de 31

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Ilha de Ar - Os Quatro Elementos, Volume 3

Cinzas

 

Quarta-feira de cinzas, um bom termo. Era exatamente assim que me sentia. Uma fogueira consumida até o fim. Cinzas. Pó. Nada. Não era bem exaustão física, mas um esgotamento psíquico. Estava cansado de lembrar aquele primeiro dia. Repassar cada momento em minha mente, buscando cada vez um detalhe a mais. Nenhuma distração fora o bastante para apagar as lembranças. Amigos, bebidas e mulheres não foram capazes de me desconectar. Pulei atrás do trio arrastado pela turba a minha volta.

Mesmo agora, deitado em minha cama, apenas duas coisas não saíam de minha cabeça. Lara Costa e a água-marinha. Eu me lembrava muito bem de cada detalhe daquele fim de tarde, no Riacho Doce.

A beleza da mulata sob a luz do entardecer, seu corpo esbanjando elegância e curvas sensuais. Seus olhos dourados brilhando ao me verem. Sua boca sexy, de sorriso franco, me convidando para beijá-la. Não pude resistir. Sem perceber, já estávamos sobre o chão, escondidos pela mata, nos beijando enlouquecidos. Não tivemos nem o que dizer um ao outro. Era isso que nossos corpos e nossas mentes desejavam.

A pele de Lara quase tinha gosto de chocolate. Saborosa e viciante. Sempre era bom demais prová-la. Mas como na sexta-feira, nunca havia sido. Como se algo nela tivesse mudado para melhor. Minha língua ainda guardava a lembrança de seu sabor, meus olhos de sua beleza, minhas mãos do calor de seu corpo, meu nariz o aroma de seu cabelo e cada parte de mim sentia falta, como se tivesse se partido em dois.

Eu a beijei e a enlacei como se quisesse me fundir a ela e Lara correspondeu com o mesmo desejo.Nunca me senti tão bem em ser correspondido como naquele momento.Aquela mulher despertava em mim uma ânsia diferente. Um fogo contínuo e impressionante. Uma chama que ardia e corroía por dentro. Hoje só sobrava o buraco vazio onde queimara.

Seu corpo se encaixava junto ao meu como um quebra-cabeça. Eu a apertei, meus braços saciando a ânsia que meus dedos tinham de tocá-la, descobri-la e apreciá-la. Sentados sob a sombra de uma árvore, escondidos pelo início da noite, beijava-a enquanto minhas mãos lhe despiam o corpo palpitante.Suas mãos também tiraram minhas roupas.

– Nicolas... – seus lábios arfantes sussurraram em meu ouvido.

Minha resposta foi encaixar seu corpo no meu finalmente e amá-la com paixão. Meus lábios sempre buscando os dela, minhas mãos sempre em contato com seu corpo.

E, como mágica, uma luz se acendeu entre nós como o sol. Ofuscou a minha visão. Por um segundo fiquei cego, meus olhos enfim se acostumaram com a claridade e vi, entre os seios jovens e firmes de Lara, a água-marinha cintilando.

Uma onda de sensações me inundou ao mesmo tempo, enquanto o desejo ardia em minhas veias. Primeiro, a tranquilidade, depois o bem-estar e, finalmente, a felicidade. Minha mente clareou naquele momento. Meu espírito estava ligado ao de Lara.

Aquele breve fenômeno perdeu sua importância assim que a luz se extinguiu e o fogo voltou a ditar o ritmo de nossos corpos em movimento. A urgência foi tamanha que não pude lutar contra nem mais um minuto sequer. Em meus braços, senti-a estremecer e perder o fôlego enquanto se aproximava do clímax. Aquilo me motivou ainda mais a alcançá-lo com ela e me movi mais depressa. Ela me acompanhou e chegamos ao ápice da paixão juntos, ofegantes e exaustos e ainda assim não queria deixá-la.

Perdi a noção do tempo enquanto a possuía.

Os minutos seguintes se passaram sem que eu percebesse, estava totalmente sintonizado com a mulher em meus braços. Permaneceu em silêncio, muito quieta, o braço pousado sobre meu peito. A cabeça descansando despreocupada em meu ombro. Adormeci.

Quando despertei, ela não estava mais lá e não a vi de novo. O vazio nasceu no meu peito e cresceu durante todo o feriado. Agora, sobre minha confortável e espaçosa cama, ele era o centro do meu pensamento. Em segundo plano, a água-marinha. Questionei se não havia imaginado aquela luz. Talvez fosse o reflexo de alguma lâmpada que bateu na pedra quando Lara moveu o corpo. Só podia ser. Foi dessa maneira que encerrei a dúvida.

Depois de repassar esse momento em minha memória pela milésima vez, tentei afastá-lo enfrentando o novo dia. Estava na hora de lavar as cinzas que restavam em mim.

Levantei só de cueca boxer preta e saí da minha suíte. Cruzei um curto corredor até a sala e entrei em uma porta lateral que levava à cozinha. Abri a geladeira e peguei uma garrafa de suco e geleia. Sobre a mesa, uma fatia de pão integral e uma maçã.

Depois de comer, voltei para o quarto e me vesti com um short de corrida e uma camiseta cavada. No banheiro, escovei os dentes, lavei o rosto e penteei o cabelo. Desci os oito andares até o térreo pelo elevador do condomínio.

– Bom dia, Paulo – cumprimentei o porteiro.

– Bom dia, Nicolas – respondeu cordial. – Como foi o feriado?

– Muito bem, obrigado. E para você?

– Passei com a família. Fazia tempo que não levava meus filhos à praia.

Na calçada, vi do outro lado da rua a conhecida Praça do Papa e seus símbolos. A Cruz Reverente, de aço curvilínea com uma pomba representando o Espírito Santo no alto e a Rosa dos Ventos que coincidia com a posição geográfica da ilha como o norte da navegação trazendo uma esfera de inox ao centro, formavam o monumental principal.

Ao fundo, depois da Baía de Vitória, o Convento da Penha no alto do morro e a cidade de Vila Velha fechavam a vista. Adjacente à praça, uma trilha levava à Reserva Ecológica Ilha do Papagaio para onde caminhei.

Ao alcançá-la, acelerei o passo para uma corrida leve. Era íngreme e estreita, cercada pela Mata Atlântica preservada. Levava para o pico da ilha onde havia um mirante com vista privilegiada para o azul plácido da baía. Árvores altas e tão antigas quanto o próprio lugar limitavam o caminho serpenteado, recortando o céu aqui e ali.

Com os pensamentos e sentimentos tumultuados, corri em busca de uma calmaria. Enquanto subia, a maresia batia contra meu corpo. Inspirei fundo e apreciei o aroma salgado. Meu peito aquietou e minha mente clareou. Senti que podia ser dono de mim mesmo novamente para alcançar o entendimento do que acontecia comigo e a harmonia de meu coração e de minha razão.

Quanto mais subia, melhor me sentia. O ar ficava mais agitado e meu cabelo balançava ao seu sabor. Meus músculos se contraíam e se estendiam conforme movimentava minhas pernas. Correr sempre me fazia bem. Tanto física quanto psiquicamente. Meu coração batia compassado em um ritmo acelerado. Meus pulmões se enchiam com vontade. Eu me sentia cada vez mais forte e revigorado.

A corrida aqueceu meu corpo e comecei a transpirar. Aspirei o ar limpo. Podia quase sentir o aroma do oxigênio, se infiltrando em minhas células, limpando meu organismo e alcançando meu cérebro.

Minha mente estava flutuando no nada. O calmo e plácido ar. Sempre quando precisava espairecer, não havia forma ou lugar melhor para encontrar paz mental. O verde se erguia majestoso ao meu redor como um abraço aconchegante. O céu ensolarado me cobria. Corria, cada passo mais largo, porém mais íngreme e difícil. A dificuldade só me impulsionou a prosseguir. O topo estava a cada passada mais próximo.

Era uma corrida puxada. Meus pulmões forçavam ar para dentro, como se estivesse rarefeito. Meus músculos quiseram fraquejar, mas os motivei com minha mente. Faltava pouco para o fim. Três largas passadas à frente e estava sobre a rocha no topo. O cenário se abriu esplendoroso em um infinito azul recortado pela cidade vizinha Vila Velha, que despontava entre dois morros.

Entre as duas, a Baía de Vitória e seu incrível verde-azulado. Sobre a água, a terceira ponte fazia a ligação entre o arquipélago e o continente. Assisti daquele mirante a beleza do cenário enquanto recuperava o fôlego. A natureza vivia pacificamente ornamentada pelas criações do homem. A Mata Atlântica, o oceano, os arranha-céus e as vigorosas arquiteturas se uniam harmoniosos.

Com sua geografia acidentada, Vitória era limitada em expansão territorial. Isso fazia o valor dos imóveis da cidade subirem vertiginosamente. Por isso, as cidades próximas, como Vila Velha, tornavam-se o subúrbio populoso ao redor do grande centro que era a ilha-capital.

Conhecia muitas pessoas que moravam em Vila Velha e trabalhavam em Vitória. Era o caso da namorada de Giovani, Milene Agostini, secretária pessoal do meu amigo na indústria de chocolate de seu pai, o velho Pagotto.

Pensar em Giovani me fez lembrar que havia prometido almoçar com ele. Não havia clientes agendados, portanto tinha o dia livre. Apreciei o ar puro e invisível que invadia meus pulmões. Meu corpo estava praticamente recuperado da corrida, mas não podia esfriar ainda.

Chegar ao topo da Ilha do Papagaio deixou minha mente livre e não pensava mais em minhas obsessões. A sensação era quase tão tranquilizadora quanto aquela que me sobreveio ao reencontrar a água-marinha.

Amava alturas. Olhar a cidade de cima, a baía de água plácida, a areia muito branca e as pessoas e automóveis sempre fazia com que me sentisse acima das coisas pequenas. Não que me sentisse superior. Ao contrário, quando estava lá, o resto estava tão distante que não podia me atingir. Os problemas como minha mãe, Lara e a água-marinha, por exemplo. Normalmente não tinha com o que me preocupar. Às vezes só precisava de um tempo sozinho e era lá em cima que encontrava sossego.

A manhã estava clara e quente, o que me apressava já que ela chegava ao fim. Corri o caminho de volta. Antes que alcançasse a Praça do Papa, me embrenhei na mata rasteira onde caminhos foram abertos para chegar a curta praia.

Não havia ondas quebrando na areia, apenas uma fina espuma esbranquiçada a tocava quando o mar, calmamente, se movia em sua direção. Poucos banhistas se refrescavam ali.

Sem parar de correr, passei pela estreita faixa de areia fofa enquanto tirava minha camiseta e tênis. Larguei tudo antes que meus pés tocassem a água fria. Depois de alguns passos com o mar até os joelhos, mergulhei. O choque térmico estimulou todos os meus nervos sensitivos e aguçou meus instintos. O toque gelado sobre meu corpo quente lavou minha alma. Emergi limpo e renovado.

Sentei na areia para secar o corpo e a bermuda antes de voltar para casa. Nunca me cansava de admirar aquele cenário. Será que haveria lugar melhor e mais bonito para viver do que Vitória? Tinha uma vida repleta de regalias, morava no melhor bairro da cidade, estava próximo a inúmeras praias e parques preservados. Mesmo no estado, havia lugares tão dignos de louvor quanto aquele arquipélago.

Era realizado. Não queria mudar absolutamente nada do que tinha. Tudo estaria em completa harmonia se não fosse aquela inquietação irritante que me cutucava desde sexta-feira. Seria a causa de minha recaída com Lara? Mas encontrá-la me aquietou. Principalmente depois que vi a água-marinha. Ainda estava muito confuso com esse assunto e odiava ficar assim.

A tranquilidade que sentira por um breve momento, se fora, enfim. E estava só com minhas perturbações. Talvez trabalhar teria me dado pouco tempo para pensar nelas. Seria uma ótima distração agora.

Ainda inconformado, me levantei limpando a areia no calção, peguei a camiseta e o tênis e caminhei de volta para meu prédio do outro lado da avenida, atravessando a Praça do Papa. A cidade fervia e despertava do feriado prolongado.

Subi direto para meu apartamento e conferi as mensagens no celular e no telefone fixo. Havia quatro de Giovani me lembrando do nosso almoço. Sorri ao pensar que meu amigo me tinha como um desleixado. Jamais esqueceria nosso compromisso.

Sempre que não havia reunião e Giovani estava sozinho porque a namorada não podia estar com ele no horário de almoço, a gente fazia essa refeição juntos. Era o melhor momento para conversarmos abertamente, apesar de morarmos no mesmo apartamento.

Nossos horários não batiam muito e, na maioria das vezes, mal nos esbarrávamos em casa. Os finais de semanas eram sagrados para as amizades, porém era sempre em grupo e Milene também participava.

Eram poucas as ocasiões em que podíamos falar sem interrupção ou barulho ensurdecedor. Desde o início do carnaval não conseguimos ter esse tipo de conversa. Primeiro sumi em Conceição da Barra. Depois ele desapareceu com a namorada. Era a primeira vez que nos veríamos depois do feriado apesar de termos ido para o mesmo lugar.

Fui direto para meu banheiro, me despi completamente e entrei debaixo do jato quente. Por melhor que fosse um mergulho no mar, somente a água doce podia remover o sal e a areia.

Eu me peguei pensando de novo em Lara e na pedra. Era engraçado como as duas se tornaram associadas na minha mente. A jovem era portadora do colar, afinal. E sentia uma falta violenta de ambas. Era exatamente este o termo. Estava perturbado por sentir saudade de duas coisas que nunca me foram tão importantes. Nem quando me dizia apaixonado por ela – era muito jovem para entender de amor – e me afastei, não me senti como agora.

Eu me desfiz da água-marinha com a mesma facilidade. Por mais que era um objeto que marcava o primeiro dia da minha existência – o ponto de onde me lembrava –, não sentia saudades dela nem das lembranças que me trazia. Talvez eu não fosse uma pessoa que superasse a dor, como pensava. Talvez somente tentava escondê-la em algum recanto. Mas era forte, a enfrentava quando ela me assaltava e sempre vencia.

Dificilmente era pego desprevenido. Um exemplo disso eram minhas lembranças nas dunas. Sabia o que aconteceria quando pisasse naquelas areias. Só não sabia o que o destino me preparara no Riacho Doce.

Saí do banho tentando deixar para trás os pensamentos, porém foi inútil. Estava preso àquela ideia fixa de encontrá-las novamente, em breve. Mas como? Não sabia onde Lara morava. Uma nova luz se acendeu. Mas sabia onde trabalhava.

Não, não e não! Antes que se firmasse em minha mente, a afastei aliviado. O compromisso com Giovani ia me ajudar a resistir à tentação de procurá-la. Como era doloroso ter tempo livre para pensar!

Nu, voltei para meu quarto e entrei em meu closet. Não me preocupei com o que ia vestir já que era um almoço com um amigo. Estava muito quente então mantive uma bermuda, camiseta pólo e sapatênis. Penteei o cabelo meio bagunçado, como gostava de deixá-lo. Quando conferi no espelho, gostei do resultado final. Estava bonito. Não podia negar que sabia da minha beleza, abençoada beleza, que chamava a atenção de muitas mulheres.

Era muito vaidoso para um homem e totalmente consciente disso. Era muito preocupado com a aparência, com a linha de roupas e sapatos que comprava, com a imagem que passava para as pessoas. Apreciava ostentar meus bens. Como meu apartamento luxuoso, meu carro potente e meu cargo no conselho da Siderúrgica Bertoldi. O nome que meu pai me dera já era uma porta de entrada para grandes eventos, festas e diversão.

Gostava de pensar que sabia viver e me divertir. Nada era um empecilho. Nem ninguém. Minha mãe facilitou as coisas e parou de falar comigo, não que concordasse, mas já que era assim que preferia lidar com a situação, que fosse feita a sua vontade. Não tinha namorada, nem mulher, nem filhos.

Mas tinha muitos amigos, de todos os tipos. Não saberia viver sozinho. Já havia perdido meu pai – o grande homem que era meu exemplo – e minha mãe – a mulher que deveria me amar incondicionalmente depois dele, mas era controladora e ranzinza demais para ser amorosa. Não tive irmãos. Então só podia contar com os amigos, que eram como família para mim.

Desci direto para a garagem, peguei meu carro e saí do apartamento com destino ao restaurante onde deveria me encontrar com Giovani. Hora de me distrair com coisas boas e afastar as ruins da mente.

***

Com dez m inutos de atraso, Giovani Pagotto entrou no restaurante do Hotel Ilha do Boi, localizado de frente a m arina. Nicolas Bertoldi j á o aguardava em um a m esa reservada com antecedência para o alm oço.

Especializado em culinária regional, nacional e internacional, o lugar era clean, em um estilo bem contem porâneo. A parede de vidro revelava a incrível vista para a piscina e, m ais adiante, o cenário inesquecível do arquipélago.

Os am igos se encontraram com um abraço e se sentaram de frente um para o outro. Ao contrário de Nicolas, Giovani estava vestido de terno e gravata j á que vinha do escritório. Antes que pudessem trocar m eia dúzia de palavras, o garçom se aproxim ou para anotar os pedidos. Som ente depois que saiu os dois puderam conversar m ais a vontade.

– Nem parece que a gente m ora no m esm o apartam ento – brincou Giovani. – Faz dias que não te vej o.

– Pois é – entrou na onda Nicolas. – Acho que a partir de agora vou precisar agendar um a hora para conversar com você, o hom em de negócios.

– Nossa, cara, que dia! – desabafo. – Nem parece que vivem os dias felizes em Conceição da Barra.

– Dias felizes? – riu. – Não vi nada dem ais nesse carnaval.

Por dentro, queria gritar. Enquanto estivera se m artirizando por tanto tem po, seu m elhor am igo estava nas nuvens. Não tinha o direito de sentir essa invej a inocente, m as não pode evitar.

– Vai m e dizer que não pegou ninguém !? – chocou-se Giovani. – Você, Nicolas, o pegador! Não, im possível!

Dessa vez, Nicolas se sentiu m ais leve. Era um a bobagem com o o apelidaram , m as sabia que era verdade.

– Algum as – respondeu sem m odéstia. – Mas nem por isso cham aria esse feriado de especial.

Nicolas quase se arrependeu da defensiva. Havia se esquecido que o am igo não podia ler seus pensam entos, nem saber de suas torm entas.

– Mas para m im – disse orgulhoso – foi m uito especial.

Giovani m ostrou a m ão direita para que Nicolas visse a aliança dourada em seu dedo anular. Ela cintilou sob a luz do sol que entrava pela parede de vidro.

– O quê? – surpreendeu-se.– Você ficou noivo? – e depois riu alto.

– Sim – sorriu feliz.

– E no carnaval!-acrescentou ainda rindo.

– Não havia data m elhor!-explicou-se o am igo.

– Não, com certeza não – retrucou dando risada. – Isso explica seu afastam ento da turm a no cam ping.

Giovani piscou para Nicolas.

– Você entende, não é? Estávam os adiantando a lua-de-m el.

Riram j untos dessa vez antes que Nicolas acrescentasse.

– Isso é bem sua cara!

– Por quê?

– Carnaval não é bem a época m ais rom ântica para um pedido desse tipo.

– É, m as não sou o tipo rom ântico – contestou.

– Não m esm o – respondeu rindo m ais. – Ainda bem que Milene é tão festeira quanto você para entender sua iniciativa.

– Ela j á m e conhece há tem po suficiente para com preender. Mas você precisava ver a cara de surpresa dela – sorriu com a lem brança.

– Im agino. – Nicolas estava feliz com a notícia, por fim . – E para quando é o casório?

– Nós ainda não decidim os. – Esse detalhe não dim inuiu seu m om ento de alegria. – Mas será ainda este ano. Hoj e à noite vou j antar na casa dela. Milene quer fazer um a festinha de noivado em fam ília.

– Meus parabéns, cara! – cum prim entou efusivo.

A bebida chegou e os rapazes brindaram .

– Ao casam ento! – exclam ou Giovani.

– À festa! – gracej ou Nicolas.

Sorveram um generoso gole das bebidas antes de voltarem a conversar sobre o que fizeram no feriado. Giovani om itiu os detalhes sórdidos do pedido de casam ento, porém fez um a descrição detalhada das reações da noiva.

Nicolas estava contente pelo am igo. Percebia com o ele estava anim ado com os planos. Sua vida estava bem encam inhada. Era um passo im portante, m as sabia que Giovani estava preparado. Quando chegou sua vez, fez um resum o do pouco que se recordava do carnaval. Om itiu tudo sobre o prim eiro dia, suas lem branças e seu encontro com Lara. Não queria externar todo o tum ulto que o sufocava.

Tentou parecer o m ais natural possível, porém , m uitas vezes, se pegava controlando os gestos e as palavras. Nessas horas, um a ruga se form ava entre os olhos de Giovani, m as entrava em um assunto qualquer e ela sum ia.

Os pratos chegaram e os am igos dim inuíram a conversa para que a com ida não esfriasse. Concentraram -se em assuntos sem im portância com o o calor, a vista, o restaurante, a bebida e a boa gastronom ia do lugar.

– Tem algum a reunião m ais tarde? – perguntou enquanto os garçons tiravam os pratos da m esa.

– Não – suspirou enfadado. – Hoj e estou totalm ente livre.

– Não parece m uito satisfeito com isso.

– Está sendo um dia m eio entediante e cinzento – revirou os olhos em resposta.

Giovani riu. Tom ou m ais um gole de sua bebida antes de acrescentar.

– Tenho dois convites para a inauguração de um a loj a de grife m asculina para hoj e à noite. – Tirou-os do bolso interno do paletó que estava pendurado na cadeira. – Não poderem os m esm o ir. Que tal um pouquinho de diversão?

– Obrigado – respondeu pegando os convites sobre a m esa. – Quem poderia convidar?

Giovani riu alto dessa vez.

– Você está brincando, Nicolas? O que há com você hoj e? Sua agenda é tão lotada de m ulheres com o um a cidade inteira!

– Que exagero! – gargalhou e deu de om bros. – Talvez por isso m esm o estej a em dúvida.

– Bem , quer m eu conselho?

– Por favor!

– Cham e a Michele.

Nicolas fez um a careta.

– Qual é, j á cansou de pegar a garota? – questionou sorrindo.

– Você sabe que adoro am izades coloridas. Só não havia pensado nela.

Nicolas queria se bater. Por que estava pensando tanto em Lara?

– E pensou em quem ?

– Ninguém – apressou-se em responder. – Mas acho que a Michele não vai m e perdoar se eu não convidá-la para essa inauguração.

– Não m esm o – fingiu seriedade. – Ela am a eventos sociais e para você, tam bém é um a ótim a oportunidade de fazer contatos.

– Tem razão. Vou ligar para ela depois.

Os am igos se separaram no estacionam ento do hotel. Seguindo um cham ado silencioso e m isterioso, Nicolas dirigiu direto para o bairro onde Lara Costa trabalhava. Chegou a passar em frente ao prédio da em presa. A m ão esquerda oscilando sobre o pisca e o pé esquerdo no freio. Quase cedeu. Para vencer àquela sensação sedutora e envolvente, pisou com força no acelerador e arrancou cantando os pneus. Ignorou os m otoristas que gesticulavam furiosos contra ele.

Nicolas Bertoldi se apressou em estender o convite para a am iga Michele antes que sucum bisse à tentação de procurar por Lara. Com prom etido, seria m ais fácil resistir. Ali m esm o, do carro, ligou para ela, que aceitou em polgadíssim a.

Inquieto e im paciente, resolveu não ficar de bobeira em casa. Estava nublado dem ais em sua m ente. Foi direto para a academ ia e passou a tarde toda treinando e conversando com o personal e conhecidos que frequentavam o lugar.

Mais tarde, os am igos Augusto e Leonardo tam bém apareceram e m onopolizaram a conversa contando suas conquistas do feriado para o distraído Nicolas, presente apenas de corpo, porém sua cabeça estava m uito longe dali.