Ilha de Ar - Os Quatro Elementos, Volume 3
Família
O aperto de m ão entre Lucca e Alexandre significou um orgulho para Mainá. Aquele assunto estava encerrado. Am bos se desculparam , am bos se perdoaram e no fim ela estava radiante. O sonho de se unir ao Filho da Terra e de seguir seu destino crescia nesse m om ento em seu ventre e a paz reinava entre os m em bros de sua nova – e distorcida – fam ília.
A índia não podia negar que, por m ais feliz que todos estivessem por ela, o clim a de m edo e incerteza pairava na casa e nos pensam entos ocultos – ou não – de todos. Ainda faltava um a pessoa no grupo e seu destino ainda era desconhecido. Sofria com todos, sentindo o cheiro do próprio m edo, em disparate com o arom a de sua alegria. Era a sensação m ais antagônica que poderia ter.
Por m ais que tentasse aparentar força, a indígena tem ia por todos. Não só por si m esm a e pelo hom em que am ava, m as principalm ente pelo pequeno ser que fora colocado no epicentro daquele furacão pelo acaso ou por Tupã. Ainda assim , sua fé era m aior agora que recebera a dádiva de gerar um a vida.
E quanto m ais m otivada ficava, m ais o pavor se acentuava. Porém disfarçava ao m áxim o, porque esse m esm o receio não saía da face de Lucca. Antes por causa dela, agora por causa do bebê tam bém . O rapaz chegara a am eaçar levá-la para bem longe dali. Para qualquer lugar onde não corresse perigo.
– Você enlouqueceu? – espantou-se Mainá à m enção de partirem . – Você não vai fugir do seu destino, Lucca!
– Meu am or, você ainda não percebeu que seu risco ficou dobrado agora? Não posso perder vocês.
A índia o pegou pelos braços com vontade de sacudi-lo.
– E não vai! Não estou aqui para atrapalhar e sim para segui-lo! Você não vai se desviar de seu cam inho por m inha causa. Nem adianta insistir nesse assunto.
E realm ente todas as tentativas posteriores foram inúteis. Mainá perm aneceu irredutível. Lucca estava conhecendo um lado dela que o orgulhava e ao m esm o tem po irritava. Porém , vencido – com o na conversa sobre Alexandre –, concordou em continuarem j untos em busca do desconhecido.
Nunca vou deixar você, mesmo que um dia não me queira mais.
O pensam ento de Mainá foi de um a força tão grande que fez um a lágrim a rolar no canto do olho de Lucca. Talvez se ela dissesse em voz alta não teria a m esm a intensidade. Sem palavras, o arqueólogo sim plesm ente a beij ou e a indígena soube sua resposta. Ele nunca a deixaria.
A participação do casal em m ais um dia de treinam ento trouxe a norm alidade à fam ília. Mantê-los ocupados fora a m elhor ideia que Alexandre tivera para am enizar as brigas e desanuviar a preocupação em que Nicolas era a m otivação central. Quase passariam por um a vida norm al se não estivessem se tornando lutadores e elem entais.
Só Marcel não fazia a m enor questão de m anter a paz com Tam ires. Ao contrário, am ava provocá-la com frequência. E com o o pavio da ruiva era m uito curto, as brigas sem pre se repetiam e causavam certos danos à casa quando ela utilizava sua força m ística para extravasar sua fúria.
Foi depois de m ais um surto da cunhada que o loiro resolveu parar de assistir ao treinam ento daquela m anhã. Sum iu porta adentro por apenas cinco m inutos, tem po no qual voltou correndo com um envelope branco na m ão. Mal se aproxim ou do pentagram a, interrom peu o truque concentrado dos irm ãos e gritou.
– Notícias de Foz!
A pequena cham a que bruxuleava na palm a de Tam ires se apagou instantaneam ente quando a estendeu – m ovim ento acom panhado por um a passada larga e rápida – a fim de pegar a carta de sua m elhor am iga Carolina. Sua m ão trem ia levem ente quando a tom ou entre os dedos. O coração ficou apertado. Sem pre era assim quando se lem brava de casa.
Seus olhos devoraram letra por letra das duas páginas de folha de caderno rápido dem ais. Todos assistiram sua expressão variar. Prim eiro aflita e ansiosa, depois saudosa e triste, e por fim choque acom panhado por um suspiro de espanto enquanto term inava as últim as linhas.
Alexandre, m ais do que depressa, se aproxim ou para consolá-la.
– O que houve? Algum a coisa com Sofia?
Tam ires ergueu os olhos dos papéis deixando os braços caírem flacidam ente e encarou o cunhado m oreno e alto com terror.
– Não, está tudo bem com ela. É Gustavo.
O restante form ou um arco ao redor da ruiva para ouvir o que tinha a dizer. Porém Tam ires hesitou quando se viu cercada. Vasculhou a alm a de cada presente a procura de pré-j ulgam entos a respeito do m arido. Sabia que o pouco ou quase nada que conseguira defendê-lo até agora, seria apagado assim que declarasse o conteúdo da carta.
Engoliu em seco e achou m ais confiável m anter os olhos em um Alexandre neutro e com preensivo.
– Ele exigiu de Carolina o endereço daqui. Quer vir atrás de m im .
– O que tem de espantoso nisso? – retrucou o cunhado. – Nós sabíam os que isso aconteceria m ais cedo ou m ais tarde. Gustavo não tem paciência.
Tam ires balançava a cabeça em desalento. Estava na cara que não falara tudo. Lucca cruzou os braços contrafeito a espera dos detalhes que confirm ariam suas suspeitas. Marcel pensava que não deveria ser tão grave assim , afinal Suzane não vira nada. Achava que a cunhada estava apenas dram atizando, j á que era de seu feitio.Mainá era a única que com partilhava do pavor da ruiva, m ais por pressentim ento do que por qualquer outra coisa.
– Ele desconfia de você – acrescentou Tam ires ainda vacilante e fixa no m oreno. – Desconfia que estej a aqui.
Tam ires o viu estreitar os olhos – um ligeiro reflexo ao que dissera – para em seguida ver sua calm a e pensativa expressão voltar ao estado norm al. O rapaz não refletiu m ais do que um m inuto antes de falar novam ente.
– E Carol?
Dividida, a ruiva estranhou a pergunta. Ainda assim , respondeu da m elhor form a que encontrou no m om ento. Sua m ente estava tão perturbada que era difícil raciocinar direito para form ar frases com pletas.
– Ela não confirm ou, m as pela narrativa, deixou a entender que talvez tenha entregado por um deslize expressivo. Você sabe que Gustavo a conhece m uito bem . Ele saberia se estivesse m entindo.
– Tam ires – perguntou pausadam ente –, oque ele fez?
Desviando os olhos para as próprias m ãos, a ruiva oscilou novam ente entre contar a pior parte ou fugir. Chegou m esm o a cogitar um a saída estratégica até se acalm ar. Seu m edo não tinha raiva – m as devia. Estava totalm ente preocupada com a m oral do m arido, que j á não andava alta por ali e pensava que externando o que sabia tornaria o fato ainda m ais real e palpável. Não queria adm itir que ele errara de novo.
Alexandre esticou o braço lentam ente enquanto dizia.
– Posso? – e no instante seguinte sua m ão tocou a carta.
Ela estrem eceu e apertou os dedos contra o papel erguendo os olhos aflitos para o cunhado. O m oreno transm itiu toda a calm a que sua alm a possuía e enquanto essa conexão lhe falava que estava tudo bem , ela afrouxou os dedos. Ele ergueu a folha até os olhos.
– Ah! – reclam ou Marcel. – Por que nós não podem os saber?
Sentindo gana de esbofeteá-lo, a ruiva sim plesm ente se afastou e se encolheu na varanda dos fundos, os braços em volta das pernas, a cabeça descansando sobre os j oelhos e os olhos presos no chão. Ela odiava se envergonhar. Pior, odiava descobrir que estava errada e que teria que ouvir a censura de pessoas am adas sobre o hom em que um dia confiara sua vida e que agora só dava m otivos para que se separasse dele.
Alexandre desviou os olhos do papel e procurou ansiosam ente pela cunhada. Quando fez m enção de se m over para perto dela, foi detido por Marcel.
– Espera – havia raiva em sua voz. – A gente tem o direito de saber.
O m oreno procurou os olhos de Tam ires, m as não os encontrou. Voltou-se então para o loiro e relatou os fatos de form a sucinta.
– Gustavo invadiu o apartam ento de Carolina. Aproveitou-se que ela sabia de seu segredo e não se im portou em ter cuidado. Porém , Carol estava prevenida pela insistência dele nos últim os dias em ter acesso às cartas. Quando chegou em casa, o apartam ento estava revirado e Gustavo estava furioso e alucinado no sofá à espera. Avançou sobre ela com o um bicho selvagem exigindo o endereço. Carolina é coraj osa e o enfrentou, o que piorou a situação. Gustavo a prensou contra a parede, segurando com força seu pescoço. Aí Carol teve m edo de até onde ele poderia ir. Ainda assim , disse que preferia m orrer a trair a confiança de Tam ires. Quando percebeu o que estava fazendo, Gustavo a soltou e fugiu.
Em choque, todos continuaram parados enquanto viam Alexandre virar as costas e dar algum as passadas largas até alcançar Tam ires. Finalm ente, a vergonha perdera para a decepção e a m oça chorou no om bro do cunhado. Soluços angustiados sacudiam seu corpo. Sua força era um am ontoado de em oções. E essas em oções se tornaram um a dor m aior do que de coração. Seu corpo inteiro sofria com ela.
***
Não houve clim a para continuarem o treino naquela m anhã, portanto ficaram todos am uados dentro de casa enquanto Lucca e Mainá se aventuravam na cozinha na m egaprodução do alm oço. Era o dia deles e pretendiam anim ar a todos com um a refeição caprichada tipicam ente pantaneira.
O sarrabulho foi bastante apreciado por todos, apesar do clim a baixo-astral. Por ser um prato altam ente calórico – preparado com m iúdos de boi e acom panhado com arroz e m andioca –, o pantaneiro achou m ais apropriado j á que estavam gastando bastante energia com os treinos.
Ao final do alm oço – era a vez de Tam ires e Alexandre lavarem a louça –, Marcel se refugiou no quarto de Suzane. Enquanto Mainá aj udava a ruiva a tirar a m esa, o m oreno se aproxim ou de Lucca e estendeu seu aparelho celular para ele.
– Tom e. Acho que j á pode entrar em contato com sua fam ília.
Alexandre acreditava que o arqueólogo sentia falta de casa, por isso o alm oço especial e com o gesto, tam bém pensou em se redim ir de um a vez por todas com ele. O olhar gratificante que Lucca lhe lançou disse tudo o que precisava para voltar para perto de Tam ires e deixá-lo à vontade.
Apressadam ente, com o se Alexandre pudesse se arrepender do que fizera, Lucca teclou os fam iliares núm eros de sua casa no Pantanal. Esperou apenas dois toques antes de ouvir a reconfortante voz de sua m ãe Isabel.
– Alô.
Ele se deleitou por um segundo com aquele som tão saudoso. Lem brava-lhe sua infância, seus ensinam entos, suas broncas, seus elogios, seus incentivos. Recordou-lhe um a vida inteira.
– Mãe, que bom que foi você quem atendeu! – exclam ou o rapaz sem esconder sua em polgação.
– Lucca, m eu filho! – choram ingou Isabel do outro lado. – Com o é bom ouvir sua voz. Você está bem ?
– Tam bém é m uito bom poder falar com você! Estava com saudades. Estou bem , não se preocupe. E com o vão as coisas por aí?
– Aqui está tudo m uito bem por um lado e ruim por outro.
– O que aconteceu? Algum a coisa com papai? Com Alice ou Edm undo?
– Preciso te contar a história toda para você entender – bufou.
Lucca sabia que ela não estava exatam ente preocupada, apenas contrariada com o que quer que tenha acontecido. Relaxou os m úsculos que ficaram tensos à alusão da m á notícia. Sentou-se ao lado de Mainá e sorriu para fazê-la descontrair a expressão tam bém . Tom ou-lhe a m ão enquanto ouvia a m ãe com eçar o relato.
– Depois que você foi em bora, não se passou um a sem ana e o coronel desapareceu. Não se ouvia falar dele, não se via os capangas dele andando em bandos. Seu irm ão voltou para casa som ente para fazer as m alas e foi difícil arrancar algum a coisa dele, m as enfim , consegui.
Deu um risinho nesse ponto enquanto pensava: O que a dona Isabel não consegue? Despercebida disso, ela prosseguiu.
– Edm undo foi convidado para ir com Vitória e o coronel para a Europa! – falou com toda a indignação que sentia. – E o folgado aceitou! Deixei clara m inha opinião contra e ele explodiu toda sua raiva dizendo: “Esse lugar não m erece o coronel, m uito m enos Vitória! Depois que todos viraram as costas para ele, com o eu poderia fazer o m esm o? Mãe, eu am o Vitória e pretendo m e casar com ela. Então, apenas m e desej e felicidades.” E saiu.
Não era novidade que seu irm ão adotivo era apaixonado por sua ex-noiva, m as teve outro trecho do relato que lhe cham ou a atenção im ediata.
– O coronel não está m ais no Pantanal? – interrom peu.
– Não, não está. – respondeu com um som engraçado provavelm ente porque estava para dizer outra coisa.
– Tem certeza? – receou-se o filho. – Pode ser um a arm adilha.
A voz da m ãe, do outro lado da linha, não titubeou com o esperava.
– Pensei nisso prim eiro, m as depois seu irm ão m e enviou vários cartões postais e até m esm o cartas com fotos. Acho que m ais para se exibir do que por carinho e preocupação. Ele sem pre cita o coronel.
Houve um silêncio breve no qual ainda duvidava. Isabel pressentiu.
– Eles ainda estão lá sabe Deus em que pedaço daquele continente. Cada nom e estranho, m eu filho. Enfim , a Alice verificou os selos e os carim bos. São todos válidos. Não foram falsificados.
Lucca relaxou só um pouquinho porque acreditava na capacidade da irm ã de descobrir esse tipo de coisa. Se existisse alguém fuçada, essa pessoa era Alice.
– Mas a m aior confirm ação – prosseguiu Isabel – veio daqui da cidade m esm o e de onde m enos esperávam os.
A expectativa que sentia podia ser lida no olhar de Mainá, sentada ao seu lado, apertando-lhe a m ão com firm eza.
– Jader esbarrou com um dos capangas, quer dizer, ex-capangas do coronel andando tranquilam ente pela cidade, sem as arm as ou qualquer outro acessório que utilizava enquanto estava a serviço do fazendeiro. Meu genro foi esperto o bastante para conseguir a inform ação m ais absurda e ao m esm o tem po m ais feliz que essa cidade e, principalm ente eu, poderíam os ouvir.
Lucca se im pacientava de ansiedade. O m arido de Alice, sua irm ã adotiva, era o hom em m ais ‘na dele’ que conhecia. Não conseguia im aginá-lo puxando conversa com um estranho a fim de angariar m ais inform ações.
– Os capangas do coronel se revoltaram contra ele – continuou Isabel. – Disseram que não continuariam com o capacho do fazendeiro, que queriam sua liberdade de volta e que viveriam apenas suas vidas. É claro que o coronel não aceitou na hora. Então os capangas foram obrigados a am eaçar. Disseram que, se tentasse algum a coisa para im pedi-los, eles iriam a polícia entregar todos seus crim es, com provas cabais dinheiro nenhum desse m undo o tiraria da cadeia.
A narrativa inacreditável que ouvia não parou por aí.
– Envergonhado com a afronta que j am ais poderia revidar, o fazendeiro resolveu partir im ediatam ente do Brasil para um destino que Vitória escolhesse. Não acredito que um dia ele volte. Talvez pegue toda a sua fortuna e viva m uito bem lá no estrangeiro e finalm ente viverem os em paz.
– Não acredito! – exclam ou Lucca im pulsivam ente alegre.
– Pois pode acreditar, m eu filho! A cidade m udou. O clim a é outro. O prefeito voltou a seus deveres norm ais, a polícia circula com naturalidade e Corum bá voltou a ser um a cidade civilizada e j usta.
A alegria que não cabia em si explodiu em um a risada prazerosa.
Mãe e filho se descontraíram com um a conversa longa e trivial. Agora não haveria m ais perseguição. Estava tudo bem . Poderiam circular com o quisessem . Lucca resolveu, portanto, am pliar essa felicidade com a notícia m ais im portante que tinha – e que era a única coisa que podia com partilhar com sua fam ília adotiva.
– Mãe, preciso te dar um a notícia m aravilhosa.
– O que é, filho? Você vai voltar para casa?
Lucca quase se deixou entristecer por destruir os sonhos de Isabel.
– Não, m ãe, ainda não. Mas, m eus parabéns, a senhora será vovó!
A senhora ficou tão em choque do outro lado da linha que em udeceu. Lucca sentiu o susto e rindo, tentou m ostrar sua própria felicidade sobre o assunto.
– Mainá descobriu há alguns dias. Estam os m uito felizes e prom eto que assim que for possível levo seu neto para conhecê-los.
– Ah, m eu filho, desculpe por m eu espanto – riu sem graça. – Você m e pegou m esm o de surpresa, caram ba! Não im aginava que m eu prim eiro neto viria de você. Ainda m ais de um relacionam ento tão... tão...
– Repentino? – com pletou Lucca. – É nosso destino, m ãe. Ele sim plesm ente está se cum prindo com o deve ser.
– Mas fiquei m uito feliz tam bém , Lucca – apressou-se em acrescentar. – Sem pre soube que você era especial. Tudo em sua vida só confirm a isso. E vou te cobrar essa prom essa – riu.
O últim o trecho da conversa foi sobre o sítio arqueológico que estava m uito bem e continuava escavando norm alm ente. Viviane Dias, a historiadora que o aj udara a identificar a peça religiosa indígena encontrada pouco antes de sua fuga de Corum bá, assum ira a gerência do grupo e continuava com pequenas escavações. Enquanto isso, o Museu de História do Pantanal exibia a peça para m ilhares de pessoas por dia.
Lucca se sentiu satisfeito por ver que – m esm o sabendo que nunca m ais exerceria tal atividade – deixara um grupo forte, com petente e uniform e, capaz de prosseguir com o trabalho. Com saudade, sorriu para a lem brança, porém não sofreu com a separação definitiva. Seu destino cam inhava para um lado com pletam ente oposto e estava seguindo nele com satisfação.
***
Na cozinha, o clim a entre Tam ires e Alexandre era pesado e silencioso. Ela lavava e ele enxugava a louça. Am bos realizavam suas tarefas m ecanicam ente. Suas m entes a um m ilhão por hora, a quilôm etros dali. A ruiva abriu a torneira para enxaguar um prato e, de repente, quebrou o silêncio grave em um sussurro tão baixo que um hum ano com um j am ais teria ouvido. Alexandre a escutou claram ente.
– Quero tirar Sofia dele.
Não havia em oção em sua voz. Apenas o tom de um a decisão tom ada e m uito bem pensada. Porém , ele parou o que fazia e se concentrou totalm ente nela. Ela colocou, calm am ente, o prato no escorredor e, sem fechar a torneira, virou-se para o cunhado e o encarou m uito séria. A conversa silenciosa durou um tem po longo e enfadonho para qualquer espectador desavisado.
– Ele j á provou sua insanidade inúm eras vezes – falou novam ente. – Não quero m inha filha perto dele. Quero Sofia perto de m im .
– E você terá! – ciciou concordando.
Os olhos do m oreno cintilaram de um prazer que a ruiva não conseguiu identificar. Fora rápido dem ais, m as não im portava.
– Com o?– perguntou. – Você sabe que na j ustiça j am ais venceria.
– Deixe com igo. – O rosto inexpressivo do cunhado não a am edrontou, m uito m enos os m étodos que ele poderia utilizar. – Ele nunca vai saber quem , nem com o Sofia foi levada.
Ela balançou a cabeça um a vez em concordância antes de falar.
– Ele vai nos perseguir.
– E vai torrar toda a sua fortuna em um a tentativa vã.
A ruiva deu um passo seguido de um suspiro para se aproxim ar do cunhado.
– Quando?
– Assim que voltarm os de Vitória.
Repousando suas m ãos sobre o peito m ásculo do m oreno, a ruiva perguntou:
– Prom ete?
O hálito dela acariciou o rosto do cunhado que aspirou seu perfum e e sentiu sua boca secar de desej o. Suas m ãos eram com o brasas sobre seu corpo. O que não faria por ela?
– Juro!
Envolvendo os punhos da cunhada com suas m ãos, Alexandre se debruçou sobre ela pronto para satisfazer o desej o de seu corpo. Gustavo fora tolo o bastante para fechar, acorrentar e até m esm o em paredar a única porta ainda aberta para o coração da m ulher. A dúvida a fizera ter algum a esperança. Porém , agora, a perdera para sem pre.
Talvez fosse cedo dem ais para um a tentativa tão ousada. Mas era a prim eira vez que ela o tocava daquela m aneira e esse ato o fez perder o controle sobre sua vontade. Seu corpo se m ovia voluntariam ente em busca de seu oásis.
– Chegou a hora!
A voz de Marcel eclipsou o m om ento e revelou um a realidade m uito m ais urgente e prom issora. O casal seguiu o cham ado instintivam ente, de m ãos dadas, alheio aos próprios anseios carnais.
– Senti aquelas forças não identificadas de novo m uito perto de Nicolas. Suzane continua sem ver nada. Acho que j á chega de arriscar.
Tam ires pensou que sua irm ã caçula, com certeza, o convencera da urgência. Todos concordaram e em silêncio – sem qualquer algazarra – partiram para seus quartos a fim de prepararem suas m alas para partirem . Para a ruiva, aquele m om ento, além de esperado há tanto tem po, tinha outro significado. Aceitava o fim de um ciclo e o com eço de um novo em sua vida.