Ilha de Ar - Os Quatro Elementos, Volume 3

Josy Stoque · Capítulo 30 de 31

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Ilha de Ar - Os Quatro Elementos, Volume 3

Epílogo: Papai

EPÍLOG O: PAPAI

 

Um mês havia passado desde aquele dia. Havia voltado a minha rotina quase totalmente. Ainda tinha que conviver com as anomalias físicas e psíquicas. Acabara me habituando a elas. Fora difícil, mas Lara me ajudara nisso. Voltara para Vitória logo atrás de mim. Pude senti-la o caminho todo e a satisfação disso quase me fez dar meia volta em vários momentos somente para encontrá-la e surpreendê-la.

Naquela noite, ela não tocara no assunto. Também não falara nada. Nosso encontro no apartamento fora carnal, quente e sem palavras. Somente gemidos, suspiros e beijos. Com a casa vazia, começamos na sala, fizemos uma parada na cozinha, demos uma passada pelo quarto e terminamos no chuveiro. Ainda estava longe da exaustão, mas a madrugada começava e nos convidava a quietude.

No dia seguinte, me contou sobre a pedra que até hoje não foi encontrada. Não precisei dizer, ela percebeu o quanto aquilo me perturbou e muito além do valor comercial, já que a ganhara de... Tudo bem, era difícil ainda admitir toda a história que aqueles estranhos haviam contado sobre meus pais. Mas era uma história bonita, apesar do final trágico. Bonita e irreal.

A falta que aquela pedra me fez ia além da importância familiar. Nas semanas daquela maluquice, criara uma espécie de dependência dela. Precisava muito que os familiares de Lara a encontrassem logo. Às vezes me ocorria as palavras fatídicas do ruivo e a relevância da água-marinha tomava proporções ainda maiores dentro de mim, mesmo sem querer. Era mais forte do que eu.

Depois de um tempinho, Lara me mostrara o punhal. Era lindo. Pude sentir a energia que emanava dele. Ela me admitiu que também sentia. Eu me calei apenas por um tempo. Afinal, ela foi se abrindo e era bom ser normal ao lado dela.

Por isso que minha vida voltara quase completamente ao normal, mas estava boa. Como sempre. Balada, amigos, trabalho – sim, voltara ao trabalho e andava mais inspirado do que nunca, não errava uma –, e lazer.

Lara me acompanhava em tudo – menos quando estávamos ambos envolvidos no trabalho. Fiquei feliz quando ela saltou pela primeira vez de parapente, vencendo o medo de altura. Depois não quis mais parar. Fazer exercícios físicos juntos também era agradável. Ainda me perdia em meus pensamentos enquanto corria, mas as impressões do final do caminho e do cenário paradisíaco agora tinha com quem dividir.

O casamento de Giovani e Milene fora ‘o evento’. A cerimônia, a festa de arromba, o show. Fora tudo do tamanho da felicidade do casal. Fiquei impressionado com a dimensão da festa em tão pouco tempo.

Há algumas semanas o apartamento era só nosso. Após a retirada definitiva de Giovani para seu apartamento com Milene – só para constar, ele se mudara para o apartamento de baixo – Lara e eu fizemos muitas mudanças.

Desejávamos um cantinho com a nossa cara. Porque havia mudado e ela também. Não havia mais ‘eu’ e sim ‘nós’. Não foi difícil conciliar nossos desejos. Trocamos até os móveis. Era uma vida nova. E estava feliz. Volta e meia uma sombra pousava sobre meus olhos encobrindo essa alegria por alguns instantes. A dúvida se havia tomado a decisão certa ainda pairava sobre mim.

O verão findaria em alguns dias e o outono de 2012 se aproximava. Com ele, o alinhamento planetário, já aguardado pelo mundo todo, mesmo sem haver alguém para orientá-los sobre o que exatamente aconteceria durante o evento.

Muitos foram entrevistados por diversos canais de televisão a fim de dar seu palpite. Exotéricos, astrônomos, astrólogos, religiosos. As opiniões divergiam tanto que era impossível escolher uma como certa ou descartar qualquer delas.

Algumas batiam, em alguns pontos, com a história contada há quase um mês. Outras em nada. Ainda não tivera oportunidade – nem coragem – de tocar no assunto diretamente com Lara. Ela respeitara. Mas nos últimos dias temia que ela o fizesse. O tempo passava rápido demais e prometia mexer com minha tranquilidade. Sabia que ela não tinha ideia de minha verdadeira conversa com aqueles estranhos. No entanto, sabia o suficiente.

Eles – os estranhos – partiram de Vitória há quinze dias. Demoraram muito mais do que gostaria. Talvez esperassem que eu mudasse de ideia. Quando parei de senti-los, sabia que haviam partido. O alívio havia durado pouco tempo. Agora algo dentro de mim remexia sozinho. A ausência da pedra também me perturbava. Não havia paz na minha vidinha normal e pacata.

Hoje era domingo. Estávamos esparramados no sofá assistindo a um filme na TV de led gigante quando Giovani bateu na porta e nos interrompeu sem escrúpulos. Ficou bravo por não termos esperado eles para começar.

Tive que explicar que não era o filme combinado, que apenas estava passando na TV e começamos a assistir enquanto esperávamos os folgados chegarem. Ri. Sabia que se ofenderia.

O dia foi descontraído. Assistimos, depois almoçamos e por fim bebericamos uns aperitivos para fechar o dia junto com o entardecer. Giovani e Milene voltaram para seu apartamento e Lara foi tomar um banho.

Fiquei sozinho na sala. Era estranho aquele momento meio familiar, mas não deixava de ser agradável. O interfone tocou e fui ver o que o porteiro queria. O vídeo da portaria me deu a resposta antes da voz engasgada no aparelho.

– Nicolas, tem três malucas aqui embaixo dizendo que vieram falar com o pai dos filhos delas e que só saem quando ele descer.

– Paulo, pelo amor de Deus, que maluquice é essa?

Na entrada havia três mulheres que nunca tinha visto em toda minha vida. Era muito bom fisionomista. Uma estava visivelmente grávida e as outras duas seguravam crianças de colo. Quem estava aprontando aquilo comigo? Não podia ser Giovani. Ele não estragaria minha felicidade.

Mas quem poderia querer meu mal inventando uma mentira daquelas? Três? Impossível! Primeiro porque sempre usava preservativo e tomava o maior cuidado com isso. E segundo que não as conhecia. Alguém queria mesmo acabar com minha credibilidade e para garantir, armara bem seu plano.

Não podia deixar que Lara as visse. Mesmo que lhe dissesse a verdade e ela acreditasse, a dúvida instalada seria suficiente para destruir aos poucos a confiança conquistada. Não queria perdê-la. Ainda mais para uma mentira. Uma mentira em dose tripla.

– Paulo, não estou. Morri, viajei, não tenho previsão para voltar, estou de férias, não importa o que vai inventar. Diga que falou com o caseiro que está tomando conta do apartamento. Faça com que elas acreditem, saiam da frente do apartamento e não voltem tão cedo.

Meu coração martelava no peito quando soltei o botão que interrompia a comunicação com a portaria. Precisava descobrir o autor daquilo. Ele me pagaria caro por esse ultraje. Tudo bem que gostasse de sair com mulheres diversas, mas nunca fui irresponsável e isso estava me deixando maluco.

Quem se interessaria pela minha infelicidade? Tinha tantos amigos. Onde estavam os inimigos? Escondidos? Covardes. Por que não vieram mostrar a própria cara para sentar a mão nela? Que ódio! Bateria em alguém agora facilmente.

No segundo seguinte, me lembrei de um nome. Mas claro. Só podia ser. O ciúme a perturbava desde que escolhera Lara e não ela. Michele. Ela estava se vingando, tentando nos separar. Mas não permitiria que ela vencesse. Não com um golpe sujo desses.

Entrei no banheiro onde Lara ainda se lavava, me despi e vi seus olhos dourados brilharem ao se deparar com a surpresa. Entrei no chuveiro quente envolvendo seu corpo mulato em meus braços. Beijei-a sorrindo, feliz só por senti-la tão perto de mim.

– Amor, o que acha de tirarmos umas férias? – perguntei.

Lara envolveu meu pescoço com seus braços abrindo um sorriso lindo e encantador. Eu me derreti naquele calor que era tão particularmente dela. Único.

– Adoraria! – respondeu.

O som de sua risada soava como música e me senti muito perto de meu objetivo. Aquela seria a decisão mais impulsiva de minha vida, porém a mais acertada também. Na verdade, não a tomara. Ela que se apresentara para mim como uma escapatória bem-vinda. Obrigado, Deus!

– Para onde vamos? – questionou ela curiosa.

Sorri de volta. A surpresa maior seria agora, tinha certeza, mas também sabia de sua vontade de conhecer aquele lugar único no planeta. Seria como uma lua de mel, sabia e estava encantado com a possibilidade. Seria a viagem mais feliz da minha vida, ao lado da mulher que escolhera. Ou fora o destino?

Respondi, afinal.

– Fernando de Noronha.

Um a espiada em UNIVERSO DE ÁGUA

 

 

o desfecho da saga OS QU4TRO ELEMENTOS.

A Lua:

Sou um pequeno mundo;

Movo-me, rolo e danço

Por este céu profundo;

Por sorte Deus me deu

Mover-me sem descanso,

Em torno de outro mundo,

Que inda é maior do que eu.

Olavo Bilac

PARTE I

UM ANO ANTES

PRÓLOG O

2011

Difícil traduzir o que via. Era obscuro, borrado e sem sentido até que uma cena se destacava e me chocava com o horror que podia identificar nos flashes sequenciais, como quadros de filmes animados passados em câmera lenta. Ao final, os acelerava mentalmente e em um segundo compreendia sua essência.

Agora o cenário era cinza-escuro com flashes brancos que surgiam de quando em quando além da cortina embaçada. Senti que se movia sem necessariamente mexer os pés. Quando parou, uma porta se abriu e correu descalça. Doía. Era mais escuro ali, somente uma luz próxima iluminava ao redor, um pouco menos nebuloso como se o que mais obstruía sua visão tivesse sido removido.

Havia um som alto e forte de água. Havia água por todos os lados. E desespero. Um grito ecoou medonho. Um chamado que insistia, mas não recebia resposta. Água e o resto era silêncio. Solidão. Abandono. Loucura. Sensações que me sufocavam enquanto assistia àquela cena forçada.

Insano? Água abundante. Pressão. Escuro que se movia lentamente. Para a esquerda. Para a direita. Ir para cima? Não, para baixo e para frente. Luz e esperança. E água, muita água. A luz crescente. Estava quase claro suficiente para ver. A água, o escuro e o fogo. Fogo sob a água?

Escuridão novamente.

PEIXES

MARÇO

Desanuviada sua visão, o cenário a sua frente voltou a ser claro e ensolarado. O horizonte se recortava em cores vibrantes repleto de vida contrastando com o horror de m orte que sua m ente criara há pouco. O azul do céu com poucas nuvens, as rochas pretas de origem vulcânicas, o verde-azulado do m ar e o am arelo-claro da areia fina.

De onde viera aquele pensam ento m acabro? Sua m ente era assim , vagava sem controle. Hoje não será um dia bom, suspirou. Mas quem fica feliz ao completar vinte e nove anos? Repetiu o núm ero cabalístico m entalm ente. O que diria a num erologia? Não im portava. Já era o fim de seu m undo chegar tão perto dos trinta, solteira e som ente agora conquistando sua independência.

Ainda havia algo a se com em orar, então. Mas por que não tinha vontade? Não enxergava o lado bom ? Talvez porque não existisse, sim ples assim . Morava em um a casa grande bem próxim a a Praia do Cachorro no Arquipélago de Fernando de Noronha, em Pernam buco. Tinha à sua frente a im agem deslum brante que tanto am ava.

Quase no extrem o norte da ilha principal, a praia ficava logo abaixo da Fortaleza dos Rem édios – hoj e de uso da Marinha –, nom e que em prestara ao único bairro povoado. Outras edificações im portantes, com o a Igrej a Nossa Senhora dos Rem édios e o Palácio São Miguel, encontravam -se na vila.

Suzane Vieira tinha orgulho de m orar e trabalhar com o veterinária na Esm eralda do Atlântico, por sua história e im portância am biental. O arquipélago era com posto por vinte e um a ilhas em um a área de vinte e seis quilôm etros quadrados, sendo dezessete som ente da ilha principal. Localizava-se há trezentos quilôm etros da costa brasileira.

O clim a quente do nordeste e a brisa constante da m aresia eram seus com panheiros dia e noite. Esse lado continental da ilha era denom inado m ar de dentro. Águas calm as era sua m aior característica. Já o m ar de fora, do lado oposto da ilha, recebia ventos do oceano aberto e as ondas altas e bravias tornavam as praias inapropriadas para banho.

Tudo bem , m orava em um paraíso ecológico, em um a boa casa – não fazia um m ês que se m udara –, tinha um em prego que am ava, m as não estava feliz. Havia um vazio a ser preenchido em seu peito, risos a serem ouvidos, m úsica a ser entoada, luz a refletir em seus olhos, pessoas com quem com partilhar. Por que dessa vez a ouviram ?

Há um ano deixara m uito claro que não queria m ais festas, que não tinha porque com em orar a velhice – exagerada era seu nom e do m eio. Cada ano que passava sua neura piorava, m as nunca lhe deram ouvidos. Parecia que dessa vez haviam desistido de agradá-la quando ela se recusava à diversão tão veem entem ente.

Talvez fosse pela decisão de sair de casa. Tia Margarida não ficara nada feliz com a ideia. Na verdade ficara m uito irritada. Chegaram a brigar, com o na época em que Suzane era um a adolescente rebelde e queria conhecer um m undo proibido para ela. Lem brava-se m uito bem dos m otivos que a fizeram explodir em palavras de rancor.

– Por que não posso sair com o as garotas da m inha idade? – perguntara revoltada.

– Minha filha, se acalm e, um dia você vai entender que tudo isso é para seu bem – respondera calm am ente Margarida.

– Eu te odeio! – Virara-se pisando duro e prosseguira. – A senhora não é m inha m ãe!

Essa frase m agoara m uito a m ãe adotiva que chorara a noite toda.

Era verdade, m as Margarida a criara com a dedicação e o carinho de um a m ãe de verdade. Era genitora de seu irm ão de criação, Marcel Vieira. Desde cedo ficara claro para Suzane que eles não podiam ser irm ãos de sangue, m esm o não conhecendo o pai dele e não sabendo detalhes sobre sua paternidade.

Com o Margarida, Marcel era loiro, branco rosado, olhos castanhos intensos, caram elados. Am bos eram grandes, corpanzis com rostos angelicais. Apesar de que a senhora estava acim a do peso, o filho possuía estrutura óssea larga, robusta e m úsculos que se definiam e sobressaltavam sobre ela. Não tinha absolutam ente nada de gordo, apenas tam anho.

Em contrapartida, Suzane era franzina, baixinha – não m uito m aior que um m etro e m eio –, m antinha os cabelos curtos em um chanel, sem pre negros e brilhantes. Seus olhos eram de um azul tão claro que m uitas vezes se apagavam . A pele branca e firm e contrastava com seus lábios verm elhos que se destacavam no rosto de giz.

Era bonita, m as extrem am ente idealista e sonhadora. Por isso m esm o não se perm itia fugir daquilo que tanto desej ava, m as que não podia ter. De todas as coisas que queria, essa – a proibida – era a única que ainda não havia conquistado. E j am ais poderia. Talvez por isso quisesse tanto.

Sabia que quanto m aior o desafio, m ais ansiava executá-lo. Superação tam bém fazia parte de quem era. Porém conhecia seus lim ites e a decisão de sair da casa onde fora criada tinha a ver um pouco com isso. Não seria bem um a fuga – odiava pensar assim –, preferia ver com o um a escolha, um sacrifício por um bem m aior que o seu próprio.

Por m ais colorido que aquele dia fosse, pintando tudo ali e além de seu cam po de visão, Suzane via apenas cinza com o a tristeza, o vazio e a saudade. Há quanto tem po não os via? E o que a im pedia de procurá-los? Ela m esm a e um orgulho besta em ter que adm itir que não suportava viver sozinha. Não, j am ais! Não era isso que queria? Afinal, eles estavam m uito m elhores sem ela e suas m udanças de hum or.

Ninguém entendia sua instabilidade em ocional porque não sabiam o que se passava em sua cabeça. Sonhos – há m uito tem po deixara de acreditar que fossem m era ficção – a atorm entavam desde criança. Acontecim entos ruins que sim plesm ente povoavam sua m ente com um a riqueza de detalhes espantosa.

Por m ais apavorada que ficasse, só piorava quando aquilo que vira acontecia na vida real com alguém próxim o ou um conhecido. A reclusão, nessas horas, era seu refúgio. Não para se isolar, m as para entender. Havia previsto o incidente, por que não pudera im pedi-lo? Para que aquelas im agens confusas e desconexas lhe eram m ostradas se não serviam para aj udar àquelas pessoas?

A culpa era sua m aior com panheira nesses m om entos. Só m ais tarde, quando o sofrim ento se aplacava, refletia sobre sua paranorm alidade – não encontrara outra palavra que definisse m elhor o que se passava com ela. Havia herdado aquele dom ou fora designado por Deus? Seria um carm a para pagar por seus erros de um a vida anterior?

Chegara a frequentar centro espírita, candom blé, igrej as católicas, evangélicas e outras seitas e filosofias e em nenhum a encontrara a resposta para sua anom alia. Seria um a entidade isolada e totalm ente nova nesse m undo?

Encontrava algum conforto na expressão artística. Versos tentavam traduzir seus sentim entos m ais angustiantes, sua dor m ais profunda. E seus quadros retratavam o belo, a esperança, a vida e o am or. Dois m undos, um contraste e apenas um a m ulher em busca da felicidade e do autoconhecim ento.

Tia Margarida pouco falara sobre seus pais verdadeiros.

– Quanto m ais você cresce, m ais parecida com Luise você fica – salientou com olhar saudoso um a vez e Suzane ficara grata por conhecer pelo m enos o nom e de sua m ãe e o achava lindo. – Mas o tem peram ento em otivo é do seu pai, Pedro.

Não sabia m ais nada sobre eles e a tia nunca explicara o que lhes aconteceu. Por ter sido grande e íntim a am iga de sua verdadeira m ãe, Suzane sabia que as lem branças eram dolorosas para Margarida, m as achava – em algum as ocasiões – inj usto ser privada da verdade por isso. Na adolescência fora sua m aior obsessão. Agora não se im portava m ais. Atualm ente apenas pensava no tem a depois das visões, porém m antinha-se calada e fechada a respeito.

Dom ingo era um dia norm alm ente triste, preguiçoso e tedioso – odiava dom ingo. E hoj e odiava duas vezes m ais por ser tam bém seu aniversário. Odiava aniversários ím pares desde os vinte e um anos. Odiava pensar que j á havia vivido m ais de duas décadas. E com o havia visto acontecim entos históricos nacionais e m undiais!

Por exem plo, o plano real, a posse de Lula, o ataque às torres gêm eas em Nova Iorque – este vira ao vivo –, a Guerra do Iraque, a posse do prim eiro presidente am ericano negro, a crise im obiliária, o avanço tecnológico – do cassete ao bluray , do preto e branco ao 3D –, e por aí sua lista prosseguia. Não tinha com o não se sentir velha.

E com o os últim os dez anos passaram depressa! Em um estalar de dedos saíra da faculdade – um m undo novo cheio de alternativas a explorar – para sua independência solitária bancada por um bom em prego com o veterinária. Era funcionária pública no arquipélago e passara com louvor no concurso.

Muitos j ovens poderiam dizer: que legal! Mas Suzane não pensava assim . Havia apenas um a alegria no m om ento que tam bém trazia ansiedade – a exposição de seus quadros. Seu m elhor am igo, Guilherm e Rocha – desde a época da faculdade –, fascinado com o que vira, colocara pilha para que prom ovesse o evento.

Depois de m uita relutância, Suzane fora convencida e a exposição aconteceria em setem bro. A quantidade de telas que pintara era m ais do que suficiente, m as a veterinária não gostava de todas e selecioná-las era seu trabalho atual, entre um a nova pintura e outra. Afinal, quando a inspiração a tocava não podia ignorá-la.

Sua casa se transform ara em um im enso ateliê. Todas as paredes estavam tom adas por quadros e os côm odos inutilizados eram povoados com cavaletes, m aterial para pintura com o telas em branco, pincéis e tintas. Suzane preferia trabalhar na sala da frente, a m aior, que ficava m ais próxim a à saída. Ali tinha visão privilegiada do cenário exuberante do arquipélago.

Será que Marcel e tia Margarida nem ligariam ? Estariam m uito m agoados? Tão m agoados a ponto de não a parabenizarem ? Droga, estraguei tudo de novo. Por que nunca conseguia parar de errar? Principalm ente com aqueles que am ava? Por que era tão im pulsiva e sincera? Por que não pensava antes de abrir a boca? Maldita boca!

Detestava fazer cena, m as havia horas em que perdia o controle sobre a raiva ou sobre as lágrim as. E a explosão de em oções afetava seu corpo todo, deixando-a m uito agitada ou m uito lenta; com o se a raiva acelerasse seu organism o ou a tristeza o desanim asse.

Porém , ao extravasar seus sentim entos, sem pre exagerados, sentia com o se expulsasse aquele m al de seu corpo. E ao contrário, tam bém havia grande com oção. Era um a m ulher de extrem os. Quando ficava triste, beirava à depressão; quando alegre, parecia possuída pela m aior felicidade do m undo tam anha sua em polgação e tagarelice.

E com o falava! Sua m ente às vezes trabalhava a um m ilhão e seu físico tentava acom panhar a velocidade alucinante de seus pensam entos, ora geniais, ora incoerentes. Só ela os com preendia. Sua busca pelo entendim ento hum ano não tinha base científica, apenas em convivência. E era bem -sucedida na m aior parte do tem po em suas observações e conclusões.

Possuía um a capacidade incrível de adaptação em um curto período. Am ava novidades, era ávida por novos desafios. Sentia necessidade de estar constantem ente apaixonada. Não sabia fazer nada por fazer. Tinha que agir com paixão, senão não tinha prazer nenhum naquela atividade e, portanto, perdia logo o interesse.

A convivência com os outros com eçava com plicada porque, na m aior parte do tem po, não se fazia com preensível. As pessoas que a conheciam tinham duas reações: em patia ou aversão. Não com preendiam sua cabeça, tão casada com a em oção, que confundia onde um a term inava e a outra com eçava.

Porém , Suzane sabia provar seu valor exatam ente com o era por estar sem pre disponível para aj udar os outros, para um a palavra de conforto ou incentivo – até m esm o um conselho –, para dividir inform ação e conhecim ento ou para se doar sem pedir nada em troca, apenas pelo prazer de aj udar.

Sacrifício era outra palavra aliada a suas virtudes – ou seria um defeito? Suzane não se sacrificava para aparecer, talvez nem reconhecesse o ato dessa form a. Não m edia esforços quando algo dependia dela e tom ava toda a responsabilidade – com seu tem peram ento sem lim ite sem pre term inava em um a doação exagerada de si m esm a ou de seu tem po, perdendo onde ela term inava e o proj eto com eçava. Ela se fundia à causa. Eram um só.

E sua determ inação, m esm o diante das dificuldades – que no m áxim o retardavam seu desfecho –, prosseguia até o fim . Era otim ista e bem -hum orada na m aior parte do tem po. Seu astral para cim a e seu entusiasm o norm alm ente contagiavam aos outros, sem querer. Era natural para ela se anim ar diante de um assunto que dom inava ou que apreciava.

Tinha um quê de artista, psicóloga e m ãe. Esse era um bom resum o da versatilidade de Suzane Vieira. Sua alm a artística era sensível à beleza, à poesia, ao am or. Seu lado psicólogo era com preensivo e analítico. E seu lado m aterno era cuidadoso, generoso e nada egoísta.

Porém , ser um a pessoa tão cheia de am or para distribuir tinha seu ponto negativo. A falta de com preensão de outros – para alguém que não enxergava tanto quanto ela dentro de cada um – era frustrante e lhe causava m uitos dissabores e m á interpretação. Talvez fosse ingenuidade pura e esperança em um m undo m elhor.

Fora os aproveitadores, Suzane sofria de m uita carência afetiva. Com o um a rom ântica incorrigível – no sentido real da palavra – ainda esperava pelo hom em de sua vida. Apesar disso, j á o havia escolhido, só não se preservou até hoj e para ele. Jam ais! Era um a m ulher m oderna, por m ais idealista que fosse. Seu corpo possuía necessidades próprias e paralelas à sua m ente e coração.

A descoberta dos prazeres da carne aconteceu m eio tarde em sua vida. Quando cursou Medicina Veterinária na Universidade Federal Rural em Recife, conheceu Guilherm e Rocha que estudava biom edicina na Universidade Federal de Pernam buco. Um leonino que m exeu com ela quase que im ediatam ente ao se conhecerem . Gentil, carinhoso, esperto, sedutor sutil, conquistou sua atenção e afeição.

Já nas prim eiras conversas descobriram m uito em com um com o livros, m úsicas, lugares e sonhos. Guilherm e não era lindo, m as seu cabelo liso caram elo caindo sobre o olho era um charm e; seu sorriso sincero e levem ente torto era gracioso; seus olhos escuros tinham intensidade, tanto quanto suas palavras e atitudes.

Na cam a, era um am ante insaciável e criativo que aj udou Suzane a iniciar a vida sexual com segurança e sem traum as. Além da diversão em casal entre quatro paredes, Guilherm e lhe m ostrou o m undo, as festas – a diversão –, a dança, os drinques, as baladas e os passeios em turm a que aliavam cenários e adrenalina.

Que saudade! Foram os m elhores cinco anos de sua vida. Tantas descobertas, aventuras, paixões. Por m ais que eles nunca tenham se tornado um casal duradouro, Suzane nutria por ele um sentim ento único e inabalável, um a atração que j am ais desaparecia, um a sintonia quase tão ininterrupta quanto o que sentia por...

Parou o pensam ento aí. Com o sua m ente fora naquela direção? Não fazia ideia. Estava ficando cansada de tanto esperar e dar asas a im aginação am alucada de sua m ente livre e fluída. Outro pensam ento surgiu. Era a segunda vez naquele dia que pensava em Guilherm e. Quanto tem po não o via? Quase um ano, refletiu.

Nossa, quanto tem po! Estava explicado porque voltava a pensar nele. Sem pre que se sentia sozinha, carente e rej eitada, era dele que lem brava porque erguia seu astral e ego. Não era dada à vaidade, era m ais sim ples, rápida e direta. Porém , m eses sem um cham ego não fazia bem a ninguém , inclusive a ela. Tam bém tinha vontade de se sentir am ada, querida e desej ada. Porque, para ela, tudo estava interligado e tinha um m esm o obj etivo.

Aquele m ês havia se arrastado – assim com o os anteriores. Quando entrara na casa, no início de m arço, esperara ansiosam ente pelo finzinho e a chegada de seu aniversário. Tivera tem po de sobra para organizar os m óveis e os côm odos para aquele dia. E ele finalm ente chegara, porém igualm ente com o os outros: vazio.

Preferiu vagar por lem branças m ais alegres, estava cheia de tantas recordações em otivas e confusas por um dia só. A solidão tinha esse poder sobre ela, a retalhava em pedaços de m em órias tristes e saudosas. Com o antes a vida era boa, fácil, sim ples. E um a cena, de sua infância, veio com tam anha nitidez à sua m ente, que se viu assistindo ao passado.

Tia Margarida não estava em casa e Marcel chegaria da escola a qualquer m om ento para acom panhá-la – à época, o garoto j á estudava cedo e ela, à tarde. Suzane estava infeliz, parada em frente ao espelho, contem plando seus longos cabelos pretos. Todas suas am iguinhas tinham cabelos curtos. Não gostava deles com pridos daquele j eito.

A criança pegou um a tesoura nas coisas da tia e, parada diante de seu reflexo, pôs-se a cortar as m adeixas, abandando fios e m ais fios no chão aos seus pés. Quando o irm ão m ais velho chegou e vagou pela casa à sua procura, j á era tarde dem ais. A linda cabeleira de Su j azia ao chão e o que sobrara em sua cabeça eram pontas picotadas e desengonçadas.

– O que você fez, Suzane? – exclam ara assustado Marcel e tentara esconder aquela bagunça antes que Margarida chegasse em casa.

Depois que term inou a lim peza, olhou por m uito tem po para a irm ã, com os olhos claros arregalados, porém seus lábios estavam presos em um sorriso satisfeito.

– Ficou bonito assim – dissera ela.

– Não ficou, não – enraiveceu o irm ão. – Você estava penteada. Agora se olhe no espelho direito!

A m enina obedecera e enquanto agitava o cabelo na tentativa inútil de colocá-lo no lugar, m ais fios soltos caíram ao chão arrancando um suspiro resignado de Marcel.

– A m ãe vai ficar furiosa! Acho que vou com prar um a peruca com m inha m esada.

– Não! – vociferara Suzane. – Não quero ter cabelo com prido de novo.

E em burrou em um canto com os braços cruzados. Não dera m ais tem po para Marcel colocar algum a ordem no cabelo e no quarto da irm ãzinha, Margarida entrava em casa naquele instante e foi a procura deles os encurralando no côm odo onde, silenciosos, os dois nem respiravam de expectativa.

– Suzane – suspirou espantada a tia. – O que aconteceu aqui, Marcel?

Por que será que o garoto tinha certeza de que levaria a culpa daquilo?

– Não fiz nada. Quando cheguei, ela j á tinha cortado todo o cabelo.

– Ah, m inha filha, por que fez isso? Seu cabelo era tão lindo!

Mesm o diante de suas lam entações, Margarida tivera que levá-la im ediatam ente a um a profissional para pelo m enos deixar o cabelo apresentável. A partir daquele dia, Suzane continuou batendo o pé e nunca m ais deixou o cabelo crescer. Usou todo tipo de Chanel que existia, com e sem franj a.

O telefone tocou a arrancando das lem branças saudosas que ganharam rapidam ente sua atenção. Com o era fácil se distrair com o que era bom , agradável e prazeroso. Bem longe do m undo real cruel e doloroso ao seu redor, na casa grande de côm odos inabitados. Seus passos ecoando tristonhos através do vazio.

***

Conhecia bem aquele número. Meu coração disparou, minhas pernas ficaram bambas. A sintonia entre tempo e pensamento me espantou. Éramos, sem dúvida, uma espécie de almas gêmeas ligadas pela mente, por um mesmo propósito, por um mesmo caminho. Só o fato de ambos termos escolhido profissões na área médica já comprovava isso.

Não importava quanto tempo ficássemos sem nos ver ou falar. Sempre haveria uma comoção sincera e intensa dentro de mim, me levando diretamente para seus braços. Aqueles braços que estavam sempre prontos a me receber e aninhar. Aquele corpo que aquecia o meu em dias frios e tristes. Aquela boca que me recebia com um sorriso e beijos ardentes.

A esperança acendeu em meu peito ao ver seu nome na bina. Aquele dia, que ameaçava se findar em breve no horizonte, não estava totalmente perdido. Uma alma – a melhor delas – se lembrara de mim. A alegria percorreu meu corpo enquanto me movia para atender a ligação. Cada segundo preenchido de grande expectativa e ansiedade.

Sua voz grave e forte do outro lado da linha quase me fez desfalecer de emoção.

— Feliz aniversário, Su, minha linda! Tem um presente tocando em sua porta agora.

Antes que pudesse responder, a campainha tocou e corri à sala da frente para atender. Quando me lembrei de agradecer, a linha estava muda. Abri a porta com a mão livre enquanto apertava o botão discar do celular. Paralisei com um sorriso bobo no rosto. Lá estava ele. Mais alto do que eu uns vinte centímetros, o cabelo liso sobre os olhos, o sorriso de orelha a orelha e uma fita vermelha ao redor do corpo fechada em um grande laço. Caí na gargalhada.

— Desculpe por não poder te dar algo melhor, mas é de coração – disse ele com a maior cara de piada e abriu os braços.

— Obrigada por se lembrar, Gui – respondi me perdendo no calor de seu corpo.

Guilherme passou a mão por meu cabelo curto e riu agradavelmente me sacudindo ao ritmo. O laço farfalhou.

— Sempre me lembro – sussurrou.

Era verdade. Ele sempre se manifestava de alguma forma na medida em que suas atividades pessoais e profissionais permitiam. Para mim não havia presente melhor do que sua presença naquele momento. Vê-lo coloriu meu aniversário. Convidei-o a entrar e lhe mostrei a casa. Logo percebeu que ninguém havia comparecido devido à louça limpa e empilhada sobre a mesa decorada.

— Seus convidados nem bagunçaram nada – brincou.

— Não convidei ninguém – ri como se não me importasse.

— Então isso tudo é só para mim?

Rimos juntos. Brincar com um fato sério e depressivo me fazia vê-lo de outra forma, mas ainda não era agradável admiti-lo, muito menos em voz alta.

— Sou telepata, esqueceu? – cutuquei-o.

— Ah, é! – e bateu com a palma da mão na testa.

Não havia escapatória e comecei a narrar minhas expectativas frustradas. Era fácil me abrir com ele e depois que começava a falar, dificilmente parava até terminar. Aberta e franca, narrei cada detalhe dos últimos meses assistindo a suas reações sérias e compenetradas. Ao final, ele falou:

— Você precisa parar de se lamentar, Su.

— Eu, me lamentar? – cortei espantada. – Todos me abandonaram!

— Su, pense direito. – Lá vinha o Guilherme sério e observador, tão analítico que me irritava. – Se não convidou ninguém, como esperava que viessem? E outra, em quantos aniversários presenciei suas reclamações? O que você queria? Você afastou todo mundo.

Enfatizou bem a palavra ‘você’ na última frase. Fiquei em choque. Odiava quando ele estava certo e me mostrava meus erros. Odiava me sentir desnuda daquele jeito. Era como se tivesse me despido até a alma, arrancando sem dó vestes, pele, músculos e ossos. Fiquei ali destruída encarando meus destroços de lamentações, erros e sofrimentos. Como era difícil me sentir feliz e completa.

— Su, desculpa – sua voz saiu de algum lugar ao meu lado na tentativa de me arrancar de meu devaneio básico de quem está ‘caindo na real’. – Não queria te magoar. Afinal, hoje é dia de festa!

— Está tudo bem, Gui. Você tem razão. Só preciso de um minuto para absorver o que disse.

— Ok – soou fraca e temerosa dessa vez. – Vou pegar bebida para nós e já volto.

Meus dedos coçavam de vontade de consertar a burrada que fizera. Queria ligar para todo mundo me desculpando pelo sumiço e convidá-los para virem à minha casa. Seria muito tarde? A escuridão do lado de fora da janela me disse que sim. Eu me senti tão mal. Não era uma boa filha nem amiga. Era um monstro egoísta que só sabia reclamar da vida sendo a única causadora de meu próprio sofrimento.

Não era bem assim. Não havia enxergado o óbvio. Talvez tivesse criado expectativas demais acreditando que se cumpririam com a força de meu pensamento. Às vezes mergulhava em um mundo imaginário que apenas eu tinha acesso e me perdia nele, misturando a realidade com a fantasia. Isso tinha que parar. Estava me privando de viver de verdade.

Ainda mais eu que sempre briguei por minha liberdade de ir e vir quando mais nova. Quem era essa Suzane triste, prisioneira de seus ideais? Onde estava aquela mulher de mente aberta, pronta para enfrentar medos, dificuldades e aprender algo novo? Estava na hora de voltar. Estendi a mão para pegar o aparelho de telefone quando ele começou a tocar e vibrar ao mesmo tempo, me sobressaltando.

A tela anunciava que várias mensagens de texto e uma ligação chegavam. Quando atendi, o aparelho não parou de virar um minuto sequer me avisando que continuava recebendo torpedos. Do outro lado da linha, tia Margarida desejou felicidades e avisou que estava a caminho com Marcel. Quase não consegui responder de emoção.

Ao findar a chamada, conferi a caixa de mensagens. Havia vinte SMS de amigos desejando felicidades. Enquanto lia, Guilherme voltou da cozinha com dois copos grandes e cheios e me passou um. O líquido rosa-claro formava espuma na borda. Era bastante atraente.

— O que é isso? – perguntei ao pegar a bebida.

— Beba.

Sorvi uma bicada para provar meio receosa. Não estava acostumada a ingerir algo que desconhecia. Era doce, lembrava morango. Hum, era bom. Tomei um gole mais generoso e Guilherme rui alto.

— Sabia que ia gostar.

— Batida de morango com vodka? – arrisquei.

— Na mosca.

Estiquei as pernas e pousei os pés sobre a mesinha de centro. Sorri satisfeita. Aquela noite seria agradável a ponto de me fazer esquecer o péssimo dia. Guilherme se acomodou ao meu lado com seu copo na mão.

— E aí? – puxei conversa e mudei o foco. – O que me conta de novo?

— Comprei um barco – respondeu à queima-roupa.

Quase engasguei com o gole da bebida que repunha naquele momento.

— O quê?

— Bem, não é um barco. É pequeno. Pode ser uma lancha.

— Ah tá! – retruquei incrédula. – Quantos metros tem?

— Não sei – esquivou-se.

— Você veio com ele?

— Sim – respondeu temeroso.

— Vamos ao porto. Quero vê-lo – anunciei me erguendo.

— Depois, Su. Agora vamos aproveitar a festa – esparramou-se ainda mais no sofá.

Coloquei as mãos na cintura diante de sua chacota.

— Que festa? Só estamos nós dois aqui!

A campainha tocou e me lembrei que tia Margarida e Marcel estavam vindo. Deveria ser eles. Pedi licença a Guilherme e me dirigi à entrada. Ao abrir a porta me espantei com o coro de “Feliz Aniversário!” que ouvi. Eram mais vozes do que esperava. Muito mais.

Minha mãe de criação estava à frente com um sorriso enorme no rosto redondo e infantil. Em sua mão, uma caixa de presente meticulosamente embrulhada chamava a atenção. Apesar do corpanzil, tia Margarida se moveu rápido e me apertou em seus braços em um abraço de urso.

— Parabéns, minha filha. Que Deus a abençoe.

Estendeu em seguida o presente para mim. Agradeci feliz com seu cumprimento caloroso. Não vi mágoa nem tristeza em seu olhar. Foi um conforto.

– Deixe-me ver sua casa, minha filha. Está precisando de alguma coisa? Posso arranjar para você.

— Obrigada, tia, mas não preciso de nada. Não se preo...

Perdi a fala ao ser literalmente agarrada por Marcel, meu irmãozão de criação. Ele também me espremeu em um abraço sufocante que me ergueu do chão.

— Parabéns, irmãzinha.

Odiava que me tratasse assim, mas fui pega desprevenida. Tão rápido quanto me levantou, me baixou e foi entrando se sentindo em casa.

— Nossa, Suzane, que desperdício de espaço. Essa sala poderia ter um enorme home theater em vez desses cavaletes.

Ouvi seu comentário com desdém enquanto a família vizinha de tia Margarida – desde que me conhecia por gente convivi com eles e brinquei com os filhos – se aproximava. Antônio era pescador e tinha a pele bastante queimada pelo sol, parecia mais velho, mas era magro e bem-disposto. Ele me cumprimentou timidamente e logo deu lugar à sua mulher.

Regina era dona de casa, também estava queimada por aquele sol pesado, mas bem menos que o marido. E sua pele era esticada pelo excesso de peso. Seu abraço foi efusivo demonstrando o carinho que sentia por mim. Era uma mulher expansiva, porém seu cumprimento foi breve seguido da entrega do presente.

Os gêmeos Leandro e Leonardo – isso mesmo, receberam o nome da dupla sertaneja porque Regina era fã –, morenos e simpáticos vieram em seguida. Eram inseparáveis e o casamento em breve de Leandro estava apavorando Leonardo. Já planejavam tornarem-se vizinhos. A noiva, Vanessa, me cumprimentou depois dos irmãos. Era bem mais jovem do que eu, mas parecia feliz com sua escolha de se casar precocemente, sem estudo nem profissão. Os gêmeos eram técnicos ambientais e trabalhavam ali na ilha. Ganhei um presente em nome dos três.

Minhas mãos estavam cheias quando meus colegas de trabalho se aproximaram. A loira meio metida era Priscila. Ela havia pintado o cabelo há pouco tempo e ficou estranho por causa de sua pele bronzeada do trabalho na praia. Também era voluntária no projeto Tamar. Robson era o negro e seu trabalho como oceanólogo junto aos golfinhos era incrível. Luciano e Danila – morenos e atarracados – apesar de semelhantes em muitos aspectos não eram parentes. Trabalhavam como pesquisadores da fauna e da flora do arquipélago.

Alguém me ajudou com os pacotes quando reconheci André, Natália, Juliano e Talita, amigos da faculdade que haviam me enviado torpedos com felicitações, mas agora estavam bem na minha frente, sorrindo orgulhosos por terem me surpreendido. Não os via há muitos anos e quis saber tudo sobre eles enquanto entrávamos em casa. Moravam e trabalhavam ainda em Recife, em empresas privadas, como técnicos rurais.

Fiquei feliz ao ver os cômodos tomados por gente, vozes e risadas. O barulho dos copos e dos pratos, as conversas animadas. Era exatamente assim que gostava que minha casa ficasse, sempre cheia, pulsante, alegre e divertida. Repleta de vida. Afinal, era para isso que alugara aquela casa.

Guilherme voltou ao meu lado.

— Como arranjou esse imóvel? – lá estava o lado negociador de meu amigo.

Outros, que estavam próximos, voltaram-se curiosos para meu grupo que estava no centro. Também haviam elogiado o tamanho e a localização da minha casa. O jardim no fundo com mata preservada era o meu xodó. Todos os imóveis pertenciam ao governo de Pernambuco sendo proibida sua comercialização. Isso evitava a construção de mansões particulares e ajudava a preservar a natureza.

— Pesquisei bastante. Sabem que não é fácil achar uma boa casa nessa ilha.

— A estrutura é ótima. E apesar de ser antiga, está em ótimo estado – acrescentou Guilherme.

— Mesmo sem reformas, não é – confirmei.

— O quintal é excelente e a vista nem tenho palavras.

— Você é uma privilegiada.

— Parabéns pela escolha.

Os comentários não pararam por aí nem os assuntos. Meus amigos de Recife deixaram escapar que haviam vindo de barco com Guilherme e me deram mais detalhes – ficaram escondidos lá. Era uma embarcação de passeio com aproximadamente vinte metros de comprimento e um convés superior. Fiquei doida de vontade de conhecê-lo. Então meu amigo havia prosperado mais do que quisera me contar.

Tia Margarida assumiu o papel de anfitriã ajudando a repor pratos e copos. A comida havia se multiplicado e demorei a entender que cada um trouxera algum prato entre doces e salgados. A bebida era variada. Marcel e Guilherme se revezavam como barman e por isso não tomei duas vezes o mesmo sabor de batida.

Meu irmão de criação dividia sua atenção entre os convidados me auxiliando. Cuidei para que todos pudessem trocar palavras comigo, conversando sobre assuntos que lhe agradassem. Respondia a todas as perguntas que me eram feitas e ouvia atentamente quando me contavam algo.

As horas passaram muito rápido. É sempre assim quando a gente se diverte. Ao contrário, se arrastam quando estamos tristes. Só percebi quando minha tia e a família vizinha se aproximaram para se despedir o quão tarde estava. Abri os presentes deles para agradecer devidamente e aproveitei para desvendar todos.

Após isso, meus colegas de trabalho também se foram. Acordariam cedo no outro dia. Marcel foi com eles. Pareceu relutar por um momento, mas se foi ao chamado insistente de Priscila. Suspirei na porta vendo-os partir. Guilherme chegou por trás e me envolveu pela cintura. Mal percebi quando jipe arrancou depois disso.

— Quer ver o barco agora? – sussurrou em meu ouvido.

Concordei e deixamos os outros entretidos com minha tv e notebook. Caminhamos de mãos dadas até o porto enquanto conversávamos.

— Obrigada por tudo, Gui – cortei o assunto sem importância.

— Ainda nem te dei meu presente – piscou um olho para mim.

— Sei que você é responsável pela festa.

Ele não respondeu e parou a caminhada. Deu um tranco no meu braço me puxando contra seu corpo. Seus lábios encontraram os meus famintos, como me lembrava deles. Correspondi da mesma forma com um misto de desejo e gratidão. Seu presente sempre seria bom, muito bom.

— Vamos para o barco – murmurou em minha boca.

O porto era próximo, na baía de Santo Antônio, no extremo norte da ilha principal. Ancoradouro natural, um molhe de pedra foi construído para atracar navios de pequeno porte e se estendia a partir da encosta até o meio da baía em formato de L. Os maiores ficavam ancorados a cerca de quinhentos metros da praia porque uma embarcação grega afundara naquela área.

O Forte de Santo Antônio, que batizou toda a região, foi a primeira fortificação da ilha principal e já estava bastante arruinado. Restos do primeiro molhe construído durante a guerra para descarregar canhões ainda podiam ser avistados. Porém, atualmente abrigava somente embarcações de pesca e turismo. Ali nascia a BR 363 que, depois de atravessar toda a ilha em diagonal, terminava na Baía Sueste no lado do mar de fora.

Mas não foi o cenário nem as edificações histórias que vi naquele momento. O barco do meu amigo chamou minha atenção assim que avistamos o porto. Era diferente de todos que estava acostumada a ver ali, mais sofisticada apesar do tamanho semelhante a muitos que circulavam com turistas. Era mais novo também.

Guilherme me ajudou a embarcar e enquanto invadia vasculhando e fuçando em tudo, ele colocou o barco em movimento. Subi no convés superior e fiquei maravilhada observando o desenho das luzes que formavam as dimensões territoriais da ilha principal. Não nos afastamos muito e assim que parou, meu amigo se juntou a mim.

Deitamos calados contemplando o céu limpo e estrelado daquela noite fresca e pensei como havia sido boa a festa esperada, porém improvisada. A surpresa superou as expectativas. Guilherme fora incrível em cada detalhe. E até aquela oportunidade única de estar sobre o mar e sob as estrelas era obra dele.

— Obrigada de novo, Gui. Tudo está maravilhoso e seu barco é lindo.

— Você é linda e merece tudo de bom.

Eu me virei para ele com os olhos marejados. Não pensava o mesmo de mim mesma, mas fiquei emocionada com suas palavras que soaram tão sinceras. Engasgada, não consegui dizer mais nada e o envolvi em um abraço caloroso e um beijo apimentado. Acho que estava um pouco alterada pelo álcool, mas totalmente ciente de meus atos.

Minha pele queimava onde Guilherme tocava e beijava. Quanto tempo fazia que não vivia um momento como aquele? A ansiedade, o desejo e o tempo me confundiram entre a pressa e a degustação do prazer. Para que atrasar o fim? Para que alcançá-lo logo? Queria desfrutar com intensidade cada segundo e, ao mesmo tempo, que eles voassem e fizessem meu corpo chegar ao êxtase.

Pensei que a fome que me acometia era como um desejo inesperado por chocolate. Devorá-lo de uma vez para saciar logo a vontade ou saboreá-lo lentamente, prolongando o prazer que poderia me proporcionar? Comer de novo seria gula?

Meus pensamentos se perderam quando Guilherme, controlado por sua própria ânsia – que parecia semelhante a minha – entregou em meus braços seu corpo, reduto de prazeres carnais infindáveis, que era meu primeiro e último presente daquele aniversário.

Nus, sob o céu azul-marinho pontilhado de cintilantes estrelas e sobre aquele mar plácido infinito que refletia a luz da lua e da civilização, nos entregamos um ao outro encerrando aquela noite de comemoração da melhor maneira que podia desejar: amando e sendo amada.

Algo remexeu em meu estômago naquele momento e não era fome. Sabia o que estava vindo. Apertei os olhos com força respirando fundo e compassado a fim de afastar aquela sensação que tentava me sufocar. A morte seria mais fácil do que enfrentar a dor que ameaçava me dilacerar.

Engoli ruidosamente e senti Guilherme se mexer. Abri os olhos e antes que ele pudesse me prender ou fazer perguntas que não queria responder, rolei para a beirada do convés. Precisei de um segundo apenas para me levantar e no instante seguinte estava voando. O impulso me levou mais longe do que imaginava ser capaz de alcançar.

O vento mais fresco do que meu corpo causou um arrepio sedoso enquanto o desconforto em meu estômago vibrava e crescia. Não demorou muito e a água escura e levemente gelada me encobriu totalmente. Não fechei os olhos enquanto afundava cada vez mais devido a força com que pulei. Era corajosa suficiente para encarar a escuridão de frente.

Sej a bem -vinda!, cumprimentei-a enquanto meu corpo perdia a atração da gravidade e flutuava. Havia uma chance de que a dor fosse aplacada agora. Já estava acalmando, mas será que voltaria?