Ilha de Ar - Os Quatro Elementos, Volume 3

Josy Stoque · Capítulo 25 de 31

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Ilha de Ar - Os Quatro Elementos, Volume 3

Desaparecido

 

Lucca se apressou em virar a próxim a esquina a fim de tentar alcançar Nicolas com os outros sentidos. Aguçou sua audição e sua visão e procurou vestígios do rapaz. O som do m otor do seu autom óvel. Um a canção tocando no rádio. Sua silhueta ao volante. Qualquer sinal que o aj udasse a identificá-lo.

Conceição da Barra não era um a cidade grande, não devia ser tão difícil. Parecia parada no tem po enquanto as nuvens agourentas se form avam e cresciam ao redor, tom ando conta do céu e da paisagem – outrora verde, azul e branca –, agora cinza e escura.

– Lucca, não estou gostando nada disso – resm ungou Mainá se agarrando aonde podia.

Sem responder, continuou dirigindo enlouquecido em busca de Nicolas, focando toda sua concentração na tarefa. Concordava com a índia. Tam bém não gostava nada daquilo e se sentia responsável pela segurança do rapaz. Se algo acontecesse com ele agora, a culpa seria sua. Não podia tê-lo perdido de vista.

Um som de carro lhe cham ou a atenção e o seguiu m esm o sem ter certeza de que era o que procurava. Percebeu que andavam em círculos e se deparou com o veículo no m esm o ponto em que perdera Nicolas. O vento persistia, para Mainá era sobrenatural. Lucca com eçou a desconfiar disso quando avistou o autom óvel e constatou que não era o que procurava.

Tem algo muito errado aqui, pensou o ruivo. Pela segurança de Mainá e de seu filho procurou trafegar em um a rota contrária a daquele tem po m aluco. A velocidade que os ventos ganhavam era assustadora. Logo com eçaria a destelhar casas e galpões, aterrorizou-se. Sentiu anseio de abandonar a m issão, m as tam bém se preocupava com o capixaba.

Dim inuiu a velocidade e passou a procurar com a m esm a cautela anterior. Tinha certeza de que, em algum m om ento, se depararia com o grande carro de Nicolas parado em frente à casa do tal am igo. Só precisava ter paciência e persistência nessa busca. Não era de desistir tão fácil.

A índia relaxou um pouco e dim inuiu a pressão dos dedos contra os obj etos fixos do carro. Sentia-se m ais segura agora. Envolveu o abdôm en com o se em balasse o bebê, tranquilizando-o. É, meu filho, o mundo da mamãe é meio louco. Espero que esteja mais calmo quando você chegar.

Estendeu a m ão e a pousou sobre a coxa de Lucca em apoio. O ruivo se virou para ela e sorriu, um sorriso tím ido que buscou dentro de si em um cantinho m enos tenso. O rapaz retribuiu o gesto e ouviu o coração da índia dar um pulo alegre. Logo abaixo do dela, conferiu o batim ento cardíaco m ais fraco e acelerado de seu filho.

Não conseguia conceber m otivação m aior para não desistir do que aquele pequeno ser que crescia e a m ulher ao seu lado. Sabia tam bém que tinha um a fam ília para reunir ao seu redor. A felicidade estava ao lado. Bastava encontrar Nicolas novam ente.

Quando olhou de novo para o para-brisa, o céu estava azul e ensolarado. Algum as nuvens brancas passeavam pelo firm am ento. Olhou para o retrovisor e viu o cenário totalm ente oposto. As nuvens escuras avançavam para a outra direção a um a velocidade assustadora. Deu graças a Deus por estarem seguros e se perguntou o que ficaria para aquele lado.

***

Focada nos gestos e nas palavras de Lara, Tam ires vigiava a casa de Pietra. As am igas conversavam anim adam ente e com detalhes tudo sobre as duas sem anas em que não se viram . Procurou por indícios de um a possível tram a, m as não encontrou nada. Talvez não fosse boa nisso.

Quando seguia Lara até lá pensava que aquele seria o real m om ento de descobrir de que lado ela estaria, se realm ente fosse um ser especial com o eles – o que ainda não sabiam . Ainda que um a hum ana com um , Tam ires sabia que podia ser usada por alguém m al-intencionado.

A m ulata possuía todos os indícios contra ela. A energia dourada que sem pre a acom panhava, a pedra em seu pescoço, a sedução e dom ínio sobre Nicolas, a m oradia e os passeios em Conceição da Barra onde as outras duas forças tam bém foram sentidas. Seria coincidência?

Só não encontrava um a coisa: o m otivo. Lara parecia verdadeiram ente feliz ao lado de Nicolas enquanto expunha todas essas em oções a am iga. Mas talvez fizesse parte da encenação, do j ogo de vida e m orte que aplicava nele, onde ele era o prêm io e ela a caçadora.

Tam ires teve raiva. Não soube explicar de onde exatam ente vinha aquele sentim ento invasivo. Repassou seus pensam entos. Tam bém não entendia o obj etivo. Se Lara j á estava com a pedra, por que seduziria e envolveria Nicolas em um a arm adilha? A ordem seria a m orte?

Não conseguiu evitar a com paração. Gustavo tam bém dizia am á-la e, no entanto, depois de com eter m uitas atrocidades, confessara que a enganara em prol de um a cam panha contra a m issão na qual estava no m om ento. Porém nunca atentara contra sua vida.

Raiva de novo. Esse fato não devia ser um apaziguador, ainda m ais depois do ataque contra Carolina. E não era, afirm ou a si m esm a. Não im portavam os m otivos, concluiu, ele errara feio e perdera sua confiança e, consequentem ente, seu am or. Era definitivo.

Estreitou os olhos canalizando aquela raiva enraizada contra Lara. Não im portava o m otivo, salientou em pensam ento, im portava sim as atitudes da m oça. E havia m uitos vestígios a incrim inando. Torceu a direção do carro im aginando um a possível luta entre as duas.

Defenderia Nicolas com sua própria vida. Jam ais perm itiria que passasse pelo m esm o que ela ao lado do inim igo. Sim , Gustavo era o inim igo. Lara tam bém era um a adversária. Estava pronta e preparada para aquela luta e tinha certeza de que poderia ganhar facilm ente.

Um vento forte e repentino entrou no autom óvel pelo vidro aberto. Tam ires se apressou em fechá-lo. Espantou-se com a força de seus sentim entos e com seu descontrole ao criar aquela tem pestade. Acalm ou-se, porém o vento não dim inuiu. Estranhou.

Dem orou apenas um segundo para entender que aquele tem po feio e cinza-escuro não era obra sua. O ar estava carregado de um a energia pesada e densa e não era elétrica. Tinha um a carga nova, diferente, proveniente de algo que não lhe era estranho, m as que não lhe ocorria no m om ento.

Enquanto tentava decifrar aquele enigm a novo, viu a cabeça de Lara surgir em um a j anela. Os olhos da j ovem estavam tem erosos enquanto conferia o céu. Sacou um aparelho celular e teclou apressada um a sequência num érica. A ruiva nem se tocou que o gesto havia sido rápido dem ais.

Ouviu a cham ada ser atendida pela secretária eletrônica de Nicolas e a dúvida a tom ou. O que significava aquela tem pestade, ou a preocupação de Lara, ou o telefonem a? Intrigada, pegou seu pré-pago e ligou para Lucca. Ele atendeu no prim eiro toque.

– Está tudo bem com Nicolas?

– Tam ires! – a voz do ruivo estava am edrontada – Não sei onde ele está!

– Com o assim ? – quase gritou.

– Aquele vento estranho carregou o rastro dele. Não consigo m ais localizá-lo.

As palavras ar e m agia fizeram todo o sentido para a ruiva. Estava com eçando, podia pressentir agora, m as o que estaria im pedindo que conseguissem rastreá-lo? Marcel!, pensou de supetão. Com certeza o loiro conseguiria encontrá-lo a tem po. Com o conseguiram perdê-lo estando a alguns passos apenas?

***

Alexandre havia seguido Eugênio até o cafezal. O pai de Lara resm ungou o cam inho todo sobre a loucura de Francisco. O velho estava ficando senil, gagá, pior do que sem pre fora. Não podia contrariá-lo. Estava doente e precisava ter paciência, m as com o era difícil!

O m oreno ficou atento a cada palavra, com pletam ente consciente da presença daquela nova e enigm ática energia. Estava m uito m ais confuso e atento j á que encontraram o foco da força no sítio. Era possível que a fam ília de Lara estivesse diretam ente envolvida.

Isso o assustava. Lara realm ente era a preocupação m aior. Podia sentir a energia dourada, m ais firm e do que na m oça, cercando o pai dela. Era intrigante que as forças fossem iguais, porém de intensidades diferentes. Buscou na m em ória algum a inform ação antiga que o aj udasse a com preender.

O cafezal era pequeno. Isso explicava porque Eugênio conseguia cuidar do sítio sozinho. Na terra do café, Alexandre se espantou por não ver um plantio vasto e povoado por m ilhares de pés, enriquecendo aquela hum ilde fam ília. O que teria dado errado?

Eugênio ocupou suas m ãos com a colheita do fruto verm elho e redondo. Realizava o trabalho com cuidado exagerado, consum indo um tem po m aior. Alexandre desconfiava que o senhor fugia da pressão do pai, m as não pode confirm ar porque em vez de resm ungar, com eçou a cantarolar.

Viu o hum or do pai de Lara m udar drasticam ente. Com certeza o trabalho deveria ser um a terapia para Eugênio Costa. Ele cantava um a m úsica antiga e gostosa, harm oniosa com a vida no cam po. Com binava com ele e sua atividade.

Alexandre esperou, porém o senhor não falou m ais nada. Manteve um a distância considerável para que pudesse perm anecer escondido e ainda vigiá-lo. Se ele tivesse poderes, poderia identificá-lo. Mas tem eu em vão, nem lhe lançou um olhar de soslaio.

O m oreno continuou sua busca na m em ória. Por que estava tão difícil? Sentia que era tão óbvio, m as a solução não lhe vinha à m ente. Devia conhecer aquela energia, m as fazia tanto tem po. Por que faria diferença o tem po para ele? Não devia. Então, por que fazia? Seus questionam entos quase eram revoltosos.

Por m ais preocupação que tivesse com o desconhecido, agora que estava ali diante do enigm a, não tem eu. Sentia que não precisava m esm o entender por quê. Algo lhe dizia que não havia perigo, m as a curiosidade por desvendar esse m istério era cada vez m aior.

Não tiraria seus olhos de Eugênio naquele final de sem ana. Um a hora a solução lhe surgiria, contava com isso. Já estava a um passo dela, podia sentir, m as só falaria quando tivesse certeza. Sabia que os outros estavam bastante preocupados com esse assunto. Esperava poder tranquilizá-los.

Sua m ente vagou sozinha até Tam ires e a m anhã anterior. O que havia sido aquilo? Era verdade m esm o que a ruiva estivera em seus braços por vontade própria pronta para se entregar totalm ente para ele? Sabia que havia sido um a decisão im pulsiva, porém não m enos deliciosa.

Naquela tarde, a m esa virara. Desde que foram interrom pidos por Marcel, Tam ires o evitava deliberadam ente. Alexandre sabia que aquilo talvez acontecesse pelo que conhecia dela. Mas com o torcera para que não fugisse do que sentiam um pelo outro.

Ela havia escorregado entre seus dedos. Era frustrante e doloroso constatar que a oportunidade se fora. Sua fom e por ela só aum entara e seu corpo estava ansioso por saciar seu desej o. Com o conseguiria suportar aquele m artírio? Com o poderia suportar a sua ausência a alguns passos de tocá-la?

Um a som bra estava entre eles im pedindo sua aproxim ação. Gustavo sem pre estaria ali, atrapalhando-a a retom ar sua vida am orosa. Sua única esperança era que o irm ão realm ente ficasse aqui enquanto ele continuaria com ela do outro lado. Lá a som bra seria extirpada para sem pre de seu coração.

Lem brou-se da prom essa que havia feito a ela sobre Sofia. Era um a oportunidade de conferir Gustavo e seus planos. Tinha certeza de que ele não desistira de encontrá-la e depois do que faria, ele ficaria ainda m ais louco. Não teve pena do irm ão, ele cavara o próprio destino com suas m ás escolhas.

De repente, Eugênio parou de cantar e a energia dourada pareceu cintilar – se pudesse vê-la – cham ando sua atenção de volta à realidade. O senhor olhava espantado em direção a casa. Alexandre se virou para observar o que o assustara a ponto de paralisá-lo.

O horizonte estava escuro e baixo, carregado de nuvens densas. Podia ver as folhas agitadas por um vento enfurecido a grande distância. Alexandre se lem brou que aquele tem po os havia acom panhado até ali e agora am eaçava despencar do céu em um a tem pestade.

Eugênio com eçou a correr de volta e o m oreno o seguiu. Sabia que tem pestades não eram apreciadas por pessoas do cam po, m as não entendia o horror em seu rosto. Partiu, m antendo certa distância, ao encontro das nuvens cinza-escuras. Talvez lá encontrasse a resposta para a últim a pergunta.

***

Enquanto vigiava, Marcel percebia o quanto Francisco Costa se rem exia na cam a. Estava inquieto e não conseguia dorm ir. O loiro se espantou com a concentração três vezes m aior da energia dourada no quarto do idoso. Estrem eceu ao pensam ento que lhe veio à m ente, porém era o m ais lógico.

A chave de tudo era a genética. Marcel poderia ser debochado e distraído, m as fora o prim eiro a m atar aquela charada. Estava tão m aravilhado que não se preocupou com o enigm a m aior: por quê? Afinal, o que um velhote gagá seria capaz de fazer, de bom ou ruim ?

Ah, sim , o loiro tam bém era ingênuo, erro que Alexandre nunca com eteria. Nunca subestim aria seu inim igo, com o dizia o ditado. Marcel se esqueceu dessa lição e ficou se gabando para si m esm o sobre sua genialidade ao se deparar com a solução, clara e nítida, daquele enigm a.

Francisco se levantou da cam a e espiou pela j anela. Marcel se apressou em se confundir na m ata afastada a fim de não ser percebido, porém o idoso olhava firm e em sua direção. O loiro bufou. Não era possível que ele o estivesse vendo àquela distância. Era?

Perm aneceu im óvel. Não era um a tarefa difícil. Esperou que o idoso desviasse o olhar. Talvez estivesse sentindo sua presença m ais do que enxergando. Ainda não conhecia um escudo, portanto, procurou apenas não em anar energia algum a além de seu corpo.

Para isso, teria que voltar a sua form a hum ana com um . Isso j á não seria fácil. Prim eiro, anulou a visão aguçada, em seguida a audição. Foi o que fez m ais falta. Era seu poder preferido. E, por fim , o rastream ento. Esse tentava encontrar saída e foi o m ais com plicado de conter.

Após alguns m inutos de sucesso, sentiu-se orgulhoso do que conseguira. Queria que Susane estivesse ali para que pudesse dividir aquela vitória. Não ousou pegar o celular, talvez o velho o ouvisse. Para que arriscar? Estava exposto e sozinho, por que se com plicar?

Porém , após m uitos m inutos, com eçou a se sentir deficiente sem seus poderes. Aquele não era m ais ele, m as um antigo Marcel, lim itado e desinteressante para quem ninguém olhava. O novo Marcel era vibrante, forte e m uito m elhor. Bem , era com o se taxava.

Lutou m ais um pouco para m anter-se escondido no m eio daquela m ata, silencioso e solitário. Não forçou a visão nem para confirm ar se o velho se fora da j anela com m edo de não deter a corrente de energia que o pequeno gesto desencadearia. Concentrou-se no que fazia, sem distração.

Um som com eçou a vir das copas das árvores sobre sua cabeça. Os galhos se agitavam . Pela prim eira vez em m uito tem po, se sentiu vulnerável. Teve m edo. Agarrou as pernas e as apertou contra o peito, encolhendo-se ao m áxim o.

Aquele hom enzarrão virara um a bola loira e clara no m eio do verde e m arrom . Cham aria a atenção de quem passasse por perto, m as não havia ninguém . Só o vento que aum entava sobre ele e que em algum m om ento o tocou.

O toque do celular em seu bolso o sobressaltou e na pressa de atendê-lo, todo seu esforço foi por água abaixo. Enquanto levava o aparelho à orelha em um a velocidade hum anam ente im possível, sua visão percebia a j anela vazia do quarto de Francisco. Suspirou de alívio pouco antes de atender.

– Alô.

– Marcel, perdem os Nicolas. Acho que está com eçando. Você precisa encontrá-lo.

Focando todas suas forças represadas na conhecida energia de Nicolas, Marcel procurou. Era engraçado com o sua energia batia em um a espécie de paredão e não se afastava. Estranho. Olhou para cim a. Um a nuvem enorm e e escura pairava exatam ente sobre sua cabeça. Estava tão baixa e densa, carregada com um a energia diferente, que assustava. O vento forte cresceu desenfreadam ente e Marcel viu um brilho distinto piscar entre as nuvens. Era dourado.