Ilha de Ar - Os Quatro Elementos, Volume 3
Reconhecimento
Apesar de ainda ser dia de sem ana, o bar estava lotado. Tantos corpos j ovens por m etro quadrado deixavam pouco espaço para se locom over. O lugar possuía dois am bientes: um barzinho e um a boate. O batidão da m úsica invadia a noite.
Desceram do táxi e se reuniram na calçada em um ponto isolado para não serem ouvidos. Alexandre voltou a liderar.
– É aqui m esm o, Marcel?
– Sim . Está sentindo um a energia sutil e outra m ais leve ainda?
Todo m undo se concentrou – m enos Mainá.Lucca ficou satisfeito ao passar por essa experiência pela prim eira vez. Conhecia apenas as energias de Marcel, Alexandre e Tam ires. Era a prim eira vez que se deparava com outra diferente e a identificava com o desconhecida.
– A prim eira e m ais forte é de Nicolas – explicou Marcel. – A segunda é a não identificada.
– Mas tem outra ainda m ais forte e tranquila – sussurrou Lucca.
– Essa é a água-m arinha. Está no pescoço de Lara.
– Agora que posso senti-la, Marcel, não a reconheço – afirm ou Alexandre. – Talvez sej a fraca dem ais para que eu possa associá-la a algum a outra. Preciso chegar m ais perto. – voltou a instruir em seguida, sem pausar – Tam ires e eu vam os chegar o m ais perto que puderm os do grupo. Marcel vai ficar à direita, e Lucca e Mainá, à esquerda. Procurem não se aproxim ar dem ais. Não quero que Nicolas nos perceba e nos reconheça m ais tarde. Por enquanto, vam os apenas vigiá-lo.
Todos fizeram sinal positivo e Alexandre pegou a m ão de Tam ires para entrarem j untos no bar.
– Por que eu não podia vigiar sozinha? Sou a m ais forte do grupo depois de você – cochichou a ruiva contrariada.
– Sim . Mas não daria certo. Você seria distraída a noite toda por cada hom em que tentasse te passar um a cantada.
Tam ires não conseguiu conter um a risadinha.
– Eu sei m uito bem o que estou fazendo aqui e tam bém seria capaz de m e defender sozinha.
– Sei disso tam bém , m as eles não. Pelo m enos se aparentar que está acom panhada, evitam os um contratem po desnecessário.
A ruiva não discutiu m ais. Sua conversa fora abafada pela batida frenética da m úsica dançante. Foram envoltos por corpos e luzes coloridas quando cruzaram a entrada da boate. Seus olhos perscrutaram a procura de seu alvo. Não foi difícil localizá-lo em m eio a tantas pessoas. Sua energia era única e inconfundível.
Envolvida pela proteção e extensão da própria pedra, perm itia que qualquer ser com o eles, até novatos, pudesse identificá-la rapidam ente. Ainda havia aquela força desconhecida salientando o tom sobrenatural da energia de Nicolas.O que havia ao redor dele era poderoso.
Os olhos de Tam ires m arej aram ao vislum brar o rosto bonito do rapaz. Seu irm ão.Bonito era pouco. Nicolas era lindo. Mesm o com a barba aparada rente, o cabelo desgrenhado pela dança frenética – m esm o não sendo seu tipo de hom em , acrescentou – seu irm ão m ais novo era um hom em de porte, de traços firm es e atrativos.
Alexandre apertou sua m ão e foi só aí que Tam ires percebeu que cam inhava, involuntariam ente, direto para o círculo onde Nicolas estava. Chegara perto dem ais. Sorrindo, o m oreno com eçou a agitar o corpo ao ritm o da m úsica e a ruiva entendeu o recado.
A todo instante dava um a olhadinha na direção do grupo anim ado e descontraído de Nicolas. Um a m ulata bonita – que devia ser Lara – estava agarrada a um braço dele enquanto que, com a outra m ão, o rapaz segurava um a latinha de cervej a. De quando em quando sorvia um grande gole da bebida e arrancava um a careta do rosto da m oça.
Havia outros casais na roda, m as som ente um tam bém dançava agarradinho. Pareciam felizes e com panheiros. Os outros dois estavam ao redor m eio perdidos entre os prim eiros e ao m esm o tem po contrariados. Tam ires percebeu que um a das m ulheres – que era até bonita – olhava feio para Nicolas com frequência.
Enquanto dançava acom panhando o ritm o sem prestar atenção, Tam ires buscou o foco daquela energia extra. Explorou os rostos de cada um com cuidado, m esm o sabendo que não seria dessa form a que encontraria o dono daquela força.
Era engraçado com o ela era perceptível e ao m esm o tem po não. Era com o se alguém fizesse truques o tem po todo, se escondendo um segundo antes de encontrá-lo. Ela sem pre se sentia perto dem ais de descobrir para depois se decepcionar.
A energia não parecia fixa. Pairava no am biente com o um vigia inquieto, sorrateiro e atento. Experiente, não se deixava pegar, m as tam bém não fugia. Tam ires não conseguia im aginar qual seria o obj etivo dessa força. Afinal, por sua leveza, j á teria sido capaz de fazer algo antes que pudessem percebê-la.
Mesm o com seus sentidos apuradíssim os, um a vigilância de quase trezentos e sessenta graus, sua busca era inútil. Com o coração acelerado, com eçou a tem er pelos presentes. Se ela que podia pressenti-la não podia prever de onde viria, quem diria o restante dos inocentes aglom erados naquele lugar.
Se seu obj etivo fosse destruição em m assa, com o um dem ônio sedento por sangue, aquela energia o alcançaria com êxito. Tam ires ficou m ais ansiosa em encontrar o causador daquela confusão em seus sentidos. A raiva com eçava a pulsar dentro de si. Onde estava, afinal, o canalha? Onde se escondia?
Qual seria a m áscara que disfarçava sua verdadeira face? Qual a form a que ocultava sua m onstruosidade? Qual seu m aquiavélico plano contra Nicolas e sua m issão? Estaria espreitando o poder da pedra? Ou usando o rapaz com o isca? Tam ires buscou apoio em Alexandre e se deparou com m esm a ansiedade em seus olhos.
O rapaz m oreno balançou a cabeça negativam ente ao perceber a preocupação da cunhada. Cunhada. Cuspiu a palavra m entalm ente. Ex-cunhada. Tinha que parar de pensar nela dessa m aneira. Fora autom ático, porém passaria a se policiar. Sim plesm ente Tam ires.
Vasculhou o salão, com sua altura excepcional a procura dos outros. Rapidam ente identificou Marcel afastado do grupo um bom tanto, m eio acom odado no banquinho do bar. Observava as pessoas dançando enquanto bebericava e batia o pé ao ritm o da m úsica. Sorriu. Era um a ótim a atuação. O loiro sabia se com portar quando queria.
Do lado oposto, afastados e no m aior clim a de rom ance, encontrou Lucca e Mainá. Dançavam agarrados e m ais devagar que a m úsica, m eio que alheios. Franziu o cenho contrafeito, porém no segundo seguinte Lucca lhe lançou um olhar rápido e concentrado. Tam bém era encenação. Ficou satisfeito.
Alexandre estava tão focado que não se distraía com a pele de Tam ires. Seu olhar passava constantem ente pelo grupo de Nicolas, avaliando-os. Não via am eaça em ninguém , m as tem ia ser enganado. Novas ideias com eçaram a fervilhar em sua cabeça em busca de respostas para aquele m istério.
Já tinha planos para o dia seguinte. Queria ser telepata agora e poder com unicar im ediatam ente o que estava decidindo para o restante do grupo. Teria que ser rápido e saber aproveitar a prim eira oportunidade que tivesse. Fez um cálculo e organizou o próxim o passo.
Marcel estava achando tudo m uito divertido. Quanto tem po não ia a um bar? Curioso, avaliou e ficou im pressionado. Fazia quase um ano. Desde o aniversário de vinte e nove anos de Suzane. Aquela data ficaria m arcada para sem pre em sua vida. Fora o fim e o com eço de um a nova vida.
Com o estava desacom panhado, achou m elhor se sentar no bar a ficar agitando o esqueleto na pista com o um idiota sem am igos. Tam bém achou longe o suficiente de Nicolas. E perto o bastante para que pudesse observar de um ângulo diferente. Dali, podia ver m elhor a m ulata e o casal m ais apaixonado do grupo.
O loiro percebeu alianças douradas em seus dedos, denunciando um com prom isso m ais sério. Tam bém observou as curvas da m ulata e se censurou pelo gesto. Era m esm o difícil não ver o quanto era bonita. Cham ava a atenção. Estava visivelm ente contrafeita com algum a coisa. Principalm ente quando Nicolas levava a latinha à boca.
Mulheres, pensou Marcel ao com preender. Todas iguais. Por que ela não podia curtir e deixar o rapaz aproveitar a noite? Por que não se divertia tam bém ? Quanto tem po m ais teria ao lado dele? Porém , sabia que tanto ele quanto ela não faziam ideia do que estava por vir.
Isso o fez pensar em algo óbvio. Nicolas estava fingindo que ainda tinha um a vida norm al. Com o se nada tivesse abalado sua rotina ou seus sentidos. Vivendo naturalm ente e evitando pensar ou prestar atenção naquilo que o incom odava. Marcel se preocupou com essa conclusão. Poderia ser um problem a.
Aflito com a integridade física e o bem -estar de Mainá, Lucca m antinha a dança em um ritm o m ais lento do que deveria. Seus braços a envolviam com cuidado, prontos para protegê-la de qualquer acidente. Sua atenção estava dividida entre ela e os quatro am igos de Nicolas.
De onde estavam , podia vê-los m uito bem . Bronzeados, não tinham m ais nenhum a sem elhança. Os hom ens não eram tão altos com o Nicolas. Na verdade, form avam um a escada. Os corpos eram m usculosos, porém um era m ais definido e o outro m ais bom bado.
O m enor tinha a aparência m ais descontraída, quase debochada. Atorm entava constantem ente as duas m ulheres sozinhas da roda. O outro, além de ter o m aior físico, ainda tinha a cara m ais am arrada. Sorria, às vezes, m as deixava a seriedade voltar ao seu rosto sem pre.Era evidente que tam bém estava se divertindo, ainda assim .
Entre as m ulheres, um a tam bém era m ais séria que a outra. Am bas m agras e definidas – deviam ser adeptas a academ ia –, porém um a m ais cheinha.Na verdade,tinha m ais corpo. Essa era um pouco m ais alta, apesar de sua estatura ser m ediana, e tinha reflexos loiros. A outra tinha o cabelo castanho.
Lucca evitava até m esm o cochichar com Mainá, deixando-a alheia até m esm o de suas im pressões. Por sua vez, a índia se sentia frustrada por estar ali e não poder fazer m ais nada além de aj udar o com panheiro no disfarce. Um a encenação sem um pingo de ação. Coisa chata. Passava das três da m anhã e estava com sono.
Um pequeno alvoroço cham ou im ediatam ente a atenção de todos para Nicolas e seus am igos. Podiam ouvir nitidam ente o que o rapaz falou para Lara.
– Não tente m e controlar – sua voz denunciava em briaguez.
– Tudo bem – respondeu friam ente a m ulata. – Vou em bora de táxi.
Virou-se sem m ais e saiu do centro do grupo em purrando as pessoas para que abrissem espaço. Estava com pressa. Lara passou bem ao lado de Tam ires, que aproveitou para observá-la de perto e viu lágrim as brotando em seus olhos.
– Lara, espere! – gritou Nicolas sem se im portar em im plorar, seu tom era de arrependim ento.
Tam ires não teve tem po de piscar. Viu o m edo nos olhos de Alexandre.
– Ele está se aproxim ando! – afirm ou am edrontada tam bém .
– Sim . É m elhor que não nos vej a – respondeu o m oreno em um sussurro.
Ao m esm o tem po em que concordava com um m eneio de cabeça, a ruiva dava um passo na direção do m oreno que instintivam ente fazia o m esm o. Não havia espaço nem tem po para fugirem em outra direção.
Alexandre e Tam ires se encontraram no segundo passo, seus braços voaram ao redor de seus corpos e suas bocas se uniram desesperadam ente. Quem passasse por eles, pensaria apenas no quão apaixonados estavam .
Foram segundos divididos. A pressão, o m edo e o desej o ditavam o ritm o. Era um a encenação, m as tam bém atendia a algo que queriam há algum tem po. Seria passageiro, porém não queriam que acabasse.
Ao sentirem que o perigo havia passado, ofegantes e relutantes se separaram . Mas a violência dos sentim entos que aquele beij o im pensado e repentino lhes causou foi m uito m aior do que verdadeiram ente deixaram transparecer.
Alexandre via seu desej o por aquela m ulher finalm ente satisfeito. Seu corpo trem ia, suas pernas bam bearam , seu coração disparou. Por m ais que não acontecera da form a que sem pre im aginara, o beij o fora m uito m elhor do que sonhara.
Sofria um a abstinência desesperada a partir do segundo seguinte, m as não estava arrependido. E pensar que ela reagira no m esm o im pulso o deixava infinitam ente esperançoso. Talvez tivesse algum a chance.
Tam ires sentiu um fogo arder em seu peito enquanto um arrepio contraditório percorria sua espinha. O ardor que aquele beij o proibido – porém infinitam ente saboroso – lhe provocara fora com pletam ente novo.
E com pletam ente diferente do que sentia nos braços de Gustavo. Aquela nova queim ação fazia sua pele form igar. Um rastro de fogo ardia onde Alexandre a havia tocado. Ao findar o beij o, a cham a se apagara com o m ágica. Mas ficara a lem brança.
***
Estava se tornando um hábito irritante, constatava agora. Lá estava eu, correndo atrás de Lara de novo. Que temperamento decidido ela tinha. Quando dizia que faria algo, não se passava muito e ela cumpria sua palavra.
Mas por que ela tinha que tentar controlar minha noitada? A quantidade de bebida que eu ingeria? A hora que precisava levá-la embora?Não tinha o direito a me embriagar se quisesse ou de dançar até raiar o dia?
Estava sendo tremendamente injusto e por isso fui atrás dela. Lara também era responsável. Tinha um trabalho que amava e prezava. E já passara da hora de estar na cama para cumprir o expediente na companhia na manhã seguinte.
Sabia que precisava levá-la, mas não queria. Por uma noite, desejava apenas ser irresponsável, jovem, normal. Beber, dançar e beijar na boca. E queria que ela estivesse comigo. Era pedir demais?
Pelo visto, sim. Magoada, Lara decidira pegar um táxi e me deixar. Que absurdo! Como se eu pudesse permitir algo assim. Por mais grosso que tenha sido – grosso era pouco, egoísta, isso sim –,agira por impulso, sem pensar.
Alcancei a mulata na calçada – como ela era rápida – e a agarrei pelo braço com força desnecessária.
– Eu te levo – afirmei com a voz rouca.
Ricocheteada por meu puxão, Lara chocou-se contra meu peito, sem me demover. Eu a segurei com os dois braços para que não caísse.
– Você não tem condições de dirigir – retorquiu com a voz trêmula.
– Então você dirige – rebati.
Fiquei satisfeito ao vencer aquela briga. Entrei alegre no carro do lado do carona depois de passar as chaves para Lara. Ela vacilou alguns segundos na porta, com o molho na mão, mas depois entrou e sentou no banco do motorista.
Sabia que estava bêbado, mas não me sentia tonto. Minha bebedeira, na verdade, afetara meu pensamento, não meu corpo. Parecia que ele era mais forte do que minha mente ao consumo exagerado de álcool.
Minha cabeça estava anuviada a ponto de perder a noção quanto ao que devia ou não dizer ou fazer. Aquele era um Nicolas sem censura. Nu. Aberto. Não gostava dele e isso me deixava ainda mais irritado.
O sacolejar do automóvel mexeu comigo. Sem uma latinha para bebericar, enquanto Lara dirigia em silêncio, comecei a pescar. Estava difícil manter as pálpebras abertas. Quando estava quase me entregando ao sono, Lara embicou meu carro no portão da garagem do prédio.
Despertei imediatamente a fim de mostrar minha cara embriagada para o porteiro. Ele já sorria para Lara, confirmando sua frequência em minha residência. Não me importei.
Descer do carro foi mais difícil. Lara percebeu e se prontificou, ainda sem abrir a boca, a me ajudar. Gostei tanto do contato físico que fingi estar um pouco pior. Assim, ela me acompanharia até o apartamento.
Foi o que aconteceu. Seu rosto passara da raiva para a preocupação com meu estado. Chegou a ponto de me ajudar a deitar na cama e tirar meus sapatos e meias.
– Boa noite! – sussurrou sobre mim e foi como uma carícia.
Lara se virou para sair e entendi o que aconteceria agora. Sem pensar duas vezes, me ergui com uma rapidez espantosa e voei, passando por ela e deixando para trás um vento sobrenatural.
Bati violentamente a mão na porta que fechou com um baque surdo. Continuei apoiando-a para que não pudesse ser aberta. Lara estremeceu de susto e me encarou. Seus olhos estavam ansiosos e receosos ao mesmo tempo quando encontraram os meus a poucos centímetros de distância.
– Aonde você vai? – perguntei.
Meu tom foi no mínimo rude. Aquele era um Nicolas que eu fazia questão de esconder. No entanto, há muito perdera o controle sobre mim mesmo.
– Nicolas... – começou a dizer.
Mas como pressenti qual seria sua resposta, puxei rápido a mão da porta e a apoiei em seu rosto inteiro, meus dedos roçaram sua nuca. Com o outro braço, envolvi sua cintura com força desnecessária e pressionei seu corpo contra o meu. Lara gemeu quando, no segundo seguinte, nossos corpos se chocaram contra a madeira fazendo outro ruído alto.
– Você não vai fugir de mim de novo! – ordenei com certa raiva na voz.
Lara não disse nada, seus olhos desfocados buscavam uma saída da prisão que eu impunha. Mas não daria espaço para que alcançasse esse feito. Em um movimento brusco e certeiro, pressionei meus lábios contra os seus macios e carnudos, forçando um beijo desesperado. Mesmo sobressaltada com minha brutalidade, me acompanhou sem relutar. Ainda assim, não diminuí a pressão contra sua boca.
Minhas mãos andavam pelo caminho conhecido de seu corpo, abrindo e afastando o tecido fino de seu vestido sobre a pele sedosa e firme, apertando com força e ansiedade. Abaixei as alças deixando seus ombros desnudos, e desci meus lábios sobre eles saboreando-os. Suas mãos responderam na mesma linguagem, arrebentando os botões das casas e o zíper de minha calça. Alisou meus músculos sob o tecido, apertando e mordendo.
Fora de mim, gemi alto respondendo em seu corpo e, provavelmente, deixando marcas por onde meus dedos andavam. Quanto mais a tinha, mais queria. Era uma droga para mim, um vício, minha loucura e perdição. Estava me afogando em seu aroma, preso pelas correntes de seus braços, mesmo que parecesse o contrário. Estava feliz com aquela liberdade, limitada e restrita por sua presença ao meu redor.
Interrompi o beijo de repente, sem afastar muito nossas bocas. Quando falei, nossos lábios roçaram suavemente. Pressionei minha testa contra a dela e não desapertei meu abraço de aço, prensando-a inteira com meu corpo contra a porta.
– Preciso de você!
Antes que ela pudesse balbuciar alguma coisa sob sua respiração ofegante, a sufoquei com outro beijo enlouquecido. Minha mão contornava as curvas de seu corpo esbelto e sensual como se o delineasse. Desci por seu quadril até a coxa e encaixei minha mão na curva do joelho. Com um puxão, ergui sua perna dobrada e envolvi meu quadril com ela.
Lara gemeu por dentro, já que meu beijo ininterrupto não lhe permitiu extravasá-lo. Sua resposta a meu desespero foi entrega imediata. Sabia que ela me desejava tanto quanto eu.Havia muita pressa. Nossos corpos se chamavam com uma exigência enlouquecedora. Precisava fazer parte de Lara, precisava me fundir a ela, precisava daquilo para continuar respirando.
Era como se o nosso tempo juntos estivesse se acabando. Não podia perdê-la, não podia deixar que partisse por aquela porta. Meu corpo queria gritar aquela necessidade latente. Eu me inclinei para, com conforto, erguê-la em meu colo. Foi fácil, seu peso era irrisório. Conectada à minha intenção, Lara ergueu a perna e a entrelaçou com a outra em volta do meu quadril.
Enquanto nossos corpos se encaixavam com sensualidade em meio a suspiros, como peças feitas uma para a outra, permiti que Lara respirasse e contornei o desenho perfeito de seu rosto até a orelha com meus lábios. Sua pele era tão saborosa quanto sua boca. Doce, aromática e sedutora. Não me cansava de prová-la, ininterruptamente.
– Você vai ficar comigo – sussurrei ao pé de seu ouvido.
– Sempre! – respondeu ofegante enquanto eu mordia o lóbulo de sua orelha.
Eu a amei de forma urgente, porém intensa. Minhas mãos inquietas vasculharam sua pele seminua. Minha boca devorou a dela incansavelmente. Suas mãos contornaram os músculos de meu corpo como se quisesse reproduzi-los ou decorá-los. Aquela mulher bela e contraditória, ora queria, outras fugia de mim, estava jogando comigo e entrei na brincadeira sem medo das consequências.
Sentia que implodiria a qualquer momento. Ela ainda seria a causa de minha morte, mas correria o risco. Soltei o peso de uma das mãos sobre a porta e Lara nem se sobressaltou com o som ao lado de seu ouvido. Com a outra mão, a apertei mais forte, mais perto, segurando seu quadril com firmeza contra o meu enquanto nos levávamos ao êxtase.
Por fim, exausto, minhas pernas vacilaram. Havia sido um dia de muitas emoções e extremamente longo. Abracei-a, deixando meu corpo escorregar, deslizando as costas da mulata rente a porta até o chão, sem forças para chegar até a cama. Lara nada disse. Em meio a uma respiração entrecortada, seus lábios buscaram os meus mais uma vez, de forma carinhosa, ainda que me parecesse sensual.
Repousou a cabeça em meu peito ainda coberto parcialmente pela camisa entreaberta e sorriu ao ouvir o som disparado de meu coração. Um sorriso discreto redesenhou meus lábios. Era ali que eu devia estar. A última coisa que vi antes de adormecer foi o primeiro raio do sol tocar a janela e invadir o quarto. Era o anúncio de um novo dia.