Ilha de Ar - Os Quatro Elementos, Volume 3

Josy Stoque · Capítulo 16 de 31

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Ilha de Ar - Os Quatro Elementos, Volume 3

Organização

ORG ANIZAÇÃO

 

Vista do alto, Vitória era um aglom erado de m ontanhas, m ar e luzes. Cobertos por um verde-m usgo colorido pela noite, os m orros eram ilum inados praticam ente pelo luar. A baía refletia a gam a de cores e brilhos da civilização que habitava ao seu redor.

Era ainda m ais bela ao vivo do que nas fotos, pensou Lucca espiando pela j anela do avião. Sentiu-se ansioso com o desconhecido, com o quando chegara a terra onde conhecera sua irm ã caçula e que agora era seu novo lar. Instintivam ente, apertou a m ão de Mainá.

A índia tam bém estava nervosa. Além de nunca ter saído do estado do Mato Grosso do Sul, em pouco m ais de um m ês cruzara o Brasil para cim a e para baixo em um a m issão arriscada. Retribuiu o gesto do com panheiro ciente de que seu destino era estar ali, agarrada àquela m ão, onde quer que estivesse.

Marcel ficou durante todo o voo de olho em Nicolas. Seguiu seus passos até o apartam ento de Lara e em seguida para a balada próxim a a orla da cidade. Conseguia identificar sua força sutil e volátil no m eio da m uvuca de corpos. Era a energia m ais palpável. A pedra tam bém estava lá e aquela enigm ática força dourada.

Finalm ente conseguiu senti-la um pouco m ais. No entanto, algo lhe im pedia de saber de onde vinha. Esperava que Alexandre pudesse aj udá-lo a decifrar esse m istério ao sentir aquela energia. Ele era a peça coringa naquele j ogo. Odiava adm itir isso, m as havia algo m uito m ais im portante do que seu ego.

Tam ires despertou de seu sono pesado quando o avião com eçava a descida para a pista de pouso. Acordou m eio desorientada. O peito largo de Alexandre, que virara seu travesseiro, pouco se m overa sob seu rosto perturbado. A ruiva encarou o rapaz com um olhar grato. Sua m ão ainda repousava distraída sobre sua cam isa entreaberta.

Alexandre virara um a estátua enquanto Tam ires dorm ia sobre seu corpo. Fora tão difícil conseguir que ela tivesse um sono tranquilo, que teve m edo de se m exer e atrapalhar seu descanso m erecido. O calor de seu corpo tão perto o afogueava, sendo obrigado a abrir alguns botões da cam isa.

– Que horas são? – perguntou a ruiva para o m oreno, sussurrando.

Era a pergunta que m ais fizera nas últim as horas.

– Um a da m anhã – respondeu Alexandre pacientem ente.

Os olhos verdes de Tam ires vidraram . O cunhado viu o m edo estam pado neles. Sentiu gana de tom á-la nos braços novam ente, m as se conteve. Deu tem po e espaço para que a ruiva organizasse os próprios pensam entos. Em silêncio, ela se debruçou até a pequena j anela e observou o avião tocar e taxiar na pista.

Logo na fileira da frente, Lucca e Mainá deixavam transparecer o nervosism o e a ansiedade enquanto tentavam se organizar para a descida. Um a tarefa tão sim ples, m as que se tornou com plicada por suas trapalhadas e desencontros. Marcel não conseguiu segurar um a risada, apenas filtrou sua intensidade.

De novo, Alexandre tem eu pelo sucesso da m issão. Um a índia grávida e um capricorniano prestativo e preocupado não era bem o que escolheria para um a busca desconhecida do outro lado do país. Revirou os olhos aborrecido. Às vezes se sentia m eio frio, porém naquela situação era necessário estar com a m ente focada.

Poderia parecer egoísm o, m as Tam ires nem se atentou ao pequeno conflito entre o casal. Estava se convencendo a parar de pensar em Gustavo e Sofia, e se voltar para Nicolas. Ele era a pessoa m ais im portante agora. Quem realm ente corria perigo. Era por ele que estavam em Vitória.

Lucca ganhou a guerra com Mainá. Na verdade, a índia deixara que ele enfim carregasse tudo sozinho. Não adiantava insistir que podia aj udar com algum a coisa leve, ele não aceitava. Dando-se por vencida, abdicou de seu direito a independência e saiu na frente, deixando um enrolado Lucca para trás.

– Espere, am or! – pediu o ruivo tentando aj eitar as bolsas nos om bros.

Marcel se aproxim ou do rapaz e o aj udou pegando um a sacola. Agradecido, Lucca sorriu para o loiro e saiu apressado no encalço de Mainá. Sem pressa, o loiro seguiu o casal no em aranhado de gente dentro do avião. Alexandre esperou Tam ires desgrudar da j anela para acom panhá-la.

– Obrigada – sussurrou de repente, tão baixo, que só Alexandre pode ouvir.

– Pelo quê? – m urm urou.

Tam ires j ogou sua alm a nas profundezas dos olhos negros de Alexandre. Que pergunta era aquela? Por salvá-la. Por tolerá-la. Por aj udá-la. Por com preendê-la. Por não pedir nada em troca. Por estar ao seu lado nos m om entos m ais difíceis. Por insistir em encontrá-la. Enfim , a lista era enorm e.

– Por tudo! – exclam ou sim plesm ente.

Apesar de seu conflito interno, que ultim am ente estava em alta, Alexandre m anteve a calm a ao responder.

– Não m e agradeça por nada.

Por que Tam ires conseguia fazê-lo se sentir assim ? Bem . Feliz. E triste ao m esm o tem po. E m al. Hum ano. Im perfeito. E ainda um herói. Não sabia bem o que realm ente era, m as sabia o que gostaria de ser. Quando estava com ela, gostaria de ser apenas hom em .

Mas estava claro que Tam ires não o via assim . Seu rosto debochava dele. Sua sem elhança com o obj eto da decepção da ruiva o afastava dela. Sentiu vontade de arranhá-lo até desfigurá-lo o suficiente para ser ele m esm o. Não queria ser um a som bra do irm ão, queria conquistar seu espaço no universo por seu próprio m érito.

Queria tam bém arrebatar o coração de Tam ires com o ela havia feito com o seu. Sem pedir licença, ela bagunçara sua cabeça e agora ele estava perto, m as verdadeiram ente distante de conseguir um espaço de respeito dentro dela. Sabia que o considerava. Porém , não bastava para todo o desej o que o consum ia.

Ignorar esse sentim ento crescente estava cada vez m ais difícil, principalm ente nas últim as horas. A fragilidade e a tristeza de Tam ires o com oviam e revoltavam . Estava a ponto de m andar o m undo se danar e tom á-la nos braços de um j eito nada inocente. Por que im portava o fato do m arido dela ser seu irm ão m ais velho?

O am or não era m ais relevante? Não era a roda do universo? Não era o m otivo por estarem ali agora? Não os havia unido em um cam inho sem volta? A todos eles? Então o que havia de errado em seu am or por Tam ires? Nada! Mas ainda assim , não conseguia dar o passo m ais im portante que o tornaria finalm ente real.

Um gesto inocente fez o coração de Alexandre parar por um segundo. Tam ires tom ou sua m ão antes de dar o prim eiro passo no corredor. Quando voltou a bater, saltitava violentam ente em seu peito. Teve m edo até que a ruiva pudesse ouvir. Mas, se percebeu, não deixou transparecer.

Era Tam ires quem podia ler a sua alm a, porém era tão fácil ler a dela, m esm o sem ter a m esm a capacidade.Era transparente. Era fácil saber quando estava de bom ou m au hum or. Triste ou alegre. Apaixonada ou não. Alexandre sabia que suas chances beiravam a zero, m as não conseguia perder as esperanças.

Tentou desviar desse pensam ento por várias vezes, inutilm ente. Era ainda m ais difícil com o corpo quente colado ao seu. Mas não podia com eter erros. Sabia de suas responsabilidades e se envolver em ocionalm ente nessa m issão a ponto de perder o foco poderia destruí-los.

Não estava ali para m orrer e sim para levar m ais vida. Teim ou em m udar de assunto m entalm ente j ogando-o para um canto escuro qualquer. Retom aria esses pensam entos em um m om ento m ais oportuno. Agora sua razão devia guiar seus atos, suas palavras e suas decisões.

O casal encontrou o restante do grupo ao final da escada. Alexandre conteve o entusiasm o quando Tam ires não soltou sua m ão na frente dos outros. Os três rostos não pareceram perturbados com a intim idade dos dois, m as estavam perdidos. Não tinham ideia do que fazer.

– Vam os direto para o hotel fazer o check in – tom ou para si a liderança o m oreno. – Lá decidim os qual será o prim eiro passo.

O grupo pareceu aliviado com a tom ada de decisão de Alexandre. Ele se sentiu m ais fortalecido, apesar da fraqueza entre os dedos de sua m ão. Segurava para não trem er e Tam ires não se dar conta disso.

Precisaram se dividir em dois táxis por causa da bagagem de Mainá. Marcel foi com Alexandre e Tam ires em outro, porém se sentou no banco do passageiro. Atrás, a ruiva ainda segurava com força a grande m ão do m oreno.

Foram direto para o hotel onde j á estavam reservados dois quartos. Não escolheram um lugar caro porque não queriam desperdiçar dinheiro e m uito m enos cham ar a atenção. Mas a hospedagem em Vitória não era das m ais baratas, por isso econom izaram com as suítes.

Na recepção, pegaram as chaves. Os quartos ficavam um do lado do outro. No corredor fez-se um a pequena desordem para a divisão do grupo. Tam ires e Alexandre concordavam que deviam dividir por sexo, e Lucca e Mainá não. No prim eiro, havia duas cam as de solteiro. E no segundo, um a de solteiro e outra de casal. A decisão era óbvia, m as o tum ulto ainda prosseguiu por m ais alguns m inutos.

– Gente, por favor – cham ou à razão Tam ires. – Não im porta. Vocês estão se esquecendo que isso não é um a viagem de férias?

Alexandre sentiu orgulho dela. Assim com o ele, tam bém estava focada na m issão que os levara à Vitória. Talvez com o form a de esquecim ento de seus próprios problem as. Mas sinceram ente, não tinha a m enor im portância.

No prim eiro quarto, portanto, Alexandre e Marcel acom odaram suas m alas e no outro, Tam ires, Lucca e Mainá.O m oreno e o loiro foram ao outro quarto para um a breve reunião antes de partirem atrás de Nicolas.

– Marcel, você sabe onde ele está? – com eçou o m oreno.

O loiro grandão afirm ou com um gesto de cabeça.

– Ok. Então, eu penso o seguinte. Vam os entrar lá separados, com o turistas ou pessoas com uns em um a balada. Vam os ter que trocar de roupas, tudo bem ? Maquiagem tam bém é bom , m eninas. Sei que tem os pouco tem po, m as deem o seu m elhor.

Sérios e com penetrados, prestavam atenção e concordavam com as orientações de seu líder.

– Chegando lá, devem os ficar em pontos estratégicos, ao redor de Nicolas, observando de ângulos diferentes quem se aproxim a dele, quem são am igos, quem seriam possíveis inim igos. Vam os vigiar atentam ente. Nada de se aproxim arem dem ais um do outro ou do nosso alvo.Agucem ainda m ais seus sentidos e cuidado com a discrição.Lem brem -se que ele tem as m esm as habilidades e pode nos ouvir. Por isso, vam os evitar conversar lá dentro – olhou no relógio de pulso. – Saím os em no m áxim o trinta m inutos.

Alexandre e Marcel voltaram para seus quartos a fim de trocarem de roupa. Tam ires se apossou do banheiro da suíte assim que Mainá o liberou. Lucca j á trocava rapidam ente de roupa para aj udar a índia.

Enquanto se olhava no espelho, a ruiva quase se preocupou com as olheiras fundas que arroxeavam seu rosto em baixo dos olhos. Estava péssim a. Seu rosto, m ais pálido do que o habitual. Seus olhos tristonhos. Enquanto passava o corretivo e a base, procurou um resquício daquela outra ela m esm a no fundo de seus olhos. E percebeu com espanto que aquela m ulher que outrora fora havia m orrido.

Ao finalizar a m aquiagem e se vestir, deslum brantem ente, deu um a últim a conferida no espelho. Aquele reflexo dizia m uito sobre sua nova pessoa. Lápis e som bra preta contornavam seus olhos verdes fazendo contraste. A boca recebera um reforço para aparentar m ais grossa e brilhava com o gloss. Os cílios com pridos e escuros som breavam seus olhos. O blush laranj a salientava as m açãs ossudas de seu rosto.

O vestido curto deixava suas pernas à m ostra, porém pouco revelava de seu colo. O corte acom panhava as curvas de seu corpo. Era preto, básico, de um tecido elástico. Calçou sandálias de salto fino e alto prata e pendurou no om bro um a pequena bolsa onde guardou um espelho e um batom para o retoque. Brincos grandes e brilhantes balançavam em suas orelhas e um a pulseira cheia de argolas fazia barulho de m etal quando m ovia o braço.

Estava vestida com o um a garota com um . Mas tam bém m antinha sua fatalidade e fem inilidade naturais. Gostou do que viu no reflexo do espelho. Aquela Tam ires pouco sorria, m as o ar de m istério em seu rosto tornava sua beleza m enos extasiante e m ais passageira. Não queria se destacar na m ultidão. Queria apenas ser m ais um a em um a balada. E conseguira o resultado final. Sabia que o brilho da felicidade de outrora não a denunciaria naquela noite. Aquela cham a se apagara. Seu coração estava escuro. Seus olhos salientavam aquela verdade.

Quando saiu do banheiro, o casal que com partilhava o m esm o quarto j á estava pronto.Mainá estava m uito bonita, m ais do que costum ava ser ao natural. Porém , discreta e pouco cham ativa. Usava um a roupa com um – calça j eans e blusinha – com um a sapatilha e um bolero para arrem atar. A m aquiagem e as bij uterias eram com uns e nada ostensivas. Até escondiam sua verdadeira identidade.

Lucca trocara a calça para um m odelo m ais despoj ado e vestira um a cam iseta de gola polo. Nos pés, um sapatênis para com pletar o figurino. Os outros hom ens estavam m ais ou m enos no m esm o estilo. Apenas partiram para um a linha m ais esportiva. Tam ires percebeu nitidam ente as características de cada um influenciando em seu vestuário.

Mainá e seu m edo de ousar. Discrição era seu nom e do m eio. Lucca e seu j eito certinho, enfiado em um traj e um pouco m ais social. Marcel, o m oleque em um corpo de hom em . Só faltou colocar um boné na cabeça. E Alexandre, o adaptável. Seguiu a linha que achou m elhor para a ocasião sem se preocupar em com o se sentiria.

A tropa estava pronta e uniform izada para a m issão de reconhecim ento.