Letramento Estético na EJA e na Educação do Campo

Gustavo Cunha de Araújo · Capítulo 10 de 42

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Letramento Estético na EJA e na Educação do Campo

1.7. O ensino desenvolvimental e a formação de conceitos

Isto é, para esse teórico, não há palavra sem pensamento, pois ambos estão diretamente ligados no processo de desenvolvimento mental humano, por entender que tanto o pensamento quanto a linguagem são fundamentais para se entender a natureza da consciência humana e, consequentemente, para compreender o processo de construção de conhecimento no indivíduo.

 

1.7. O ensino desenvolvimental e a

 

formação de conceitos

 

Vigotski defendia que o bom ensino “abre as portas” para o desenvolvimento das funções psíquicas superiores do aluno. Nesse sentido, embora não tenha deixado claro em seus estudos a compreensão do ensino desenvolvimental, o que foi acontecer com Davídov, ao elaborar sua teoria que remetesse a esse estudo, o ensino desenvolvimental teve sua origem na teoria Histórico-Cultural a partir do desdobramento dessa corrente psicológica fundada por Vigotski, principalmente no que concerne à relação entre educação e desenvolvimento do indivíduo. Por ser considerado um dos mais importantes resultados das pesquisas desenvolvidas por Davídov, o ensino desenvolvimental diz respeito ao planejamento de ensino do professor e o desenvolvimento das funções psíquicas de seus estudantes (PERES; FREITAS, 2014). Assim, tem como um dos seus principais objetivos promover o desenvolvimento do pensamento e da autonomia do aluno a partir da realização de tarefas e ações mentais, que possam contribuir para que ele avance em seu aprendizado.

Davídov foi um psicólogo russo que elaborou sua teoria a partir dos estudos de Vigotski na teoria Histórico-Cultural e também de Leontiev, a respeito da atividade. Nessa teoria, “a aprendizagem resulta da interação entre processos externos (interpsíquicos) e internos (intrapsíquicos), com a interiorização dos signos culturais convertidos em ações mentais dos indivíduos” (LIBÂNEO, 2016, p. 355). Desse modo, ressalta o papel do indivíduo na mediação cultural e social na formação dos processos psicológicos superiores.

O ensino desenvolvimental, na visão de Sforni (2015), propõe elaborar novas formas de tornar o conhecimento mais acessível às pessoas, pautando-se no desenvolvimento dos estudantes por meio do planejamento, da execução e da avaliação de ensino. É nesse sentido que Davídov (1988) afirma que quando a escola possibilita ao estudante desenvolver seu pensamento a partir da formação de conceitos científicos, ela contribui para a sua humanização e, consequentemente, para o seu desenvolvimento pleno.

Na verdade, o objetivo de Davídov era propor uma teoria que tivesse o fito de desenvolver nos alunos o pensamento teórico. Essa teoria/pedagogia ficou conhecida como ensino desenvolvimental. É importante destacar que o ensino desenvolvimental, tendo suas raízes na teoria Histórico-Cultural, se baseia não apenas nos estudos de Vigotski, mas também na teoria da atividade de Leontiev e no materialismo histórico de Marx e Engels. Com efeito, Davídov propunha, em sua tese, analisar a realidade a partir do movimento do abstrato ao concreto, para entender como esse movimento poderia ser aplicado no ensino escolar.

Nessa perspectiva, entendo que trabalhar esse ensino nas escolas brasileiras é um grande desafio, pois a grande maioria das escolas de Educação Básica ainda segue uma perspectiva de ensino tradicional, o que não foi diferente em Tocantins. Ao trabalhar com os jovens e adultos do campo da Universidade Federal do Tocantins, durante o desenvolvimento da atividade ao longo do Experimento Didático-Formativo, os alunos se mostraram, em alguns momentos, resistentes à forma como o conteúdo era lecionado e apresentado a eles. Por mais que a maioria seja oriunda do campo, também tiveram contato com um ensino tradicional em suas escolarizações.

Nesse sentido, é importante ressaltar o nível de desenvolvimento proximal do educando. Na perspectiva de Vigotski (2009), essa Zona é constituída pelo “Nível de Desenvolvimento Real” (quando o aluno tem a capacidade de realizar tarefas de forma independente); e pelo “Nível de Desenvolvimento Potencial ou Proximal” (quando o aluno precisa de ajuda para realizar tarefas, mas que um dia, conseguirá realizálas de forma independente). Por isso é importante o professor atuar no nível de Desenvolvimento Proximal, pois o aprendizado promove o seu desenvolvimento. É nesse nível que se encontram as funções psíquicas superiores, mas que precisam amadurecer e se desenvolver por meio da aprendizagem, o que vai ocorrer por meio de situações-problema, tarefas de estudo entre outras atividades que promovam o desenvolvimento das ações mentais do aluno. Além disso, o professor precisa atuar nesse nível enquanto mediador, ser um conhecedor dos saberes de seus alunos para que possa, a partir de seus conhecimentos (do professor), auxiliar os alunos a se apropriarem desses conhecimentos sob a orientação do próprio docente, ampliando sua aprendizagem e seu desenvolvimento, pois é um meio de verificar a eficácia do processo de ensino e aprendizagem e, consequentemente, no desenvolvimento de conceitos científicos no aluno e tomada de consciência dos fatos e fenômenos envolvidos nesse processo.

A esse respeito, durante o processo de desenvolvimento da atividade de estudo com os educandos jovens e adultos da Educação do Campo, procurei realizar atendimentos individuais com eles, pois muitos me solicitaram orientações e auxílios durante a produção dessas atividades, como, por exemplo, no desenvolvimento dos desenhos das histórias em quadrinhos, bem como das produções de seus textos dessas histórias, pois dúvidas e dificuldades apresentadas durante o desenvolvimento da atividade foram surgindo à medida que os discentes iam avançando nas tarefas de estudo.

Consequentemente, esse aprender ou assimilar na escola e na universidade exige do aluno um tipo específico de atividade (estudo), que considere o “confronto de saberes”, isto é, o ensinado pela pedagogia tradicional com o defendido pela teoria Histórico-Cultural (ensino desenvolvimental que leve à formação de conceitos científicos).

O estabelecimento dessa relação ativa com o conhecimento permite ao aluno compreendê-lo como produção humana em movimento, como resposta às necessidades humanas produzidas ao longo da história, não como verdade atemporal, absoluta e imutável (SFORNI, 2015). Assim, no processo de elaboração de síntese pelos estudantes, ações mentais de reflexão e análise são colocadas em movimento e, portanto, desenvolvidas. Destarte, é possível dizer que tanto o professor (enquanto orientador e mediador) quanto o aluno constroem o conhecimento juntos, mediados por signos visuais e pela escrita.