Letramento Estético na EJA e na Educação do Campo
4.4. A estética sociológica marxista
Neste momento, busco ampliar um pouco mais a concepção de estética. Para isso, trago para o debate a estética marxista. Os sociólogos, particularmente os marxistas, sempre se interessavam pelos problemas estéticos relacionados às teorias e práticas artísticas do homem com a realidade. As ideias estéticas de Marx estão relacionadas à sua concepção de homem e sociedade, tendo na arte o pressuposto para a apropriação humana das coisas e da natureza (VÁSQUEZ, 2011).
Mas então, qual o significado de estética sociológica?
Enquanto ciência, a estética para Vásquez (2011) tem como principal objetivo tratar da arte como atividade humana, criativa e histórica. Busca identificar a estrutura da obra artística, suas principais categorias e a sua relação com o homem e o mundo. O autor ressalta que a estética marxista se importa mais com o resultado final do trabalho artístico elaborado pelo homem – produto – e bem menos pelo seu processo. Com esse viés, se a arte tem utilidade e faz uso de suas qualidades estéticas, consequentemente, satisfaz a necessidade humana.
A obra de arte é produto de um trabalho peculiar. Esse trabalho produz também um objeto útil que satisfaz uma necessidade humana, a saber, a necessidade de se expressar, afirmar e comunicar […]. O homem produz obras de arte por uma necessidade, obras que têm um valor de uso peculiar, de acordo com a sua capacidade para satisfazer tal necessidade […]. A utilidade da obra de arte, seu valor de uso, acha-se condicionada por determinadas qualidades do objeto, qualidades que o homem deposita numa matéria dada mediante um processo de criação. O valor de uso condicionado por essas qualidades não existe, portanto, sem o homem e só tem sentido para ele quando se acha em relação com uma necessidade humana (VÁSQUEZ, 2011, p. 180-181).
Ao falar sobre o marxismo contemporâneo, relaciona a arte à
ideologia75, pois desde o surgimento de estudos marxistas sobre a estética artística, isto a partir do final do século XIX, a arte é vista por eles em sua natureza ideológica, isto é, como parte de uma sociedade dividida em classes, na qual a expressão artística deve ser composta por ideais políticas, morais e religiosas, mas, sem se reduzir a um mero fenômeno ideológico.
Esse aprofundamento na natureza específica da arte, porém, sem desligá-la do aspecto ideológico, fez com que os marxistas concebessem a arte como forma de conhecimento, como foi o caso de Marx. Para esse pensador, uma ideologia falsa poderia afetar negativamente a verdade artística expressa na obra.
Ora, o artista, ao criar a obra de arte, aproxima-se da realidade modificando-a, porém, sem dissociá-la de seu conteúdo ideológico. É nesse sentido que a arte é tida como forma de conhecimento para os marxistas. Compreendiam que a verdade representava o real, isto é, a realidade sócio-histórica e concreta do indivíduo que vive na sociedade.
Vásquez (2011) completa esse pensamento ao afirmar que a arte reflete a essência do real e cria uma nova realidade. Então, é possível afirmar que a arte não apenas reflete ou expressa à realidade, mas, ela a torna presente devido ao seu caráter expressivo e criador.
A tese de Marx a respeito da arte estabelece uma relação negativa dela com o capitalismo, na qual este último não favorece o desenvolvimento e a produção artística, pois considera que toda produção material, inclusive a arte, submetida à produção capitalista, se torna uma atividade produtiva.
Na visão marxista, quando a obra de arte se torna mercadoria, enquanto objeto de valor de troca, a mesma se submete ao capitalismo, o que a desumaniza, fazendo-a perder sua qualidade estética. Com efeito, “o valor de troca de uma mercadoria, diferentemente do valor propriamente estético, não leva em conta as propriedades sensíveis, a forma do objeto” (VÁSQUEZ, 2011, p. 183).
Nas palavras de Vásquez (2011), a liberdade criadora do artista é afetada quando sua obra se encontra sob as leis do capitalismo. Diante disso, sua criação fica limitada, às vezes negada, tornando-se uma mera mercadoria. O artista deixa de criar segundo uma necessidade interna e passa a criar para uma necessidade externa – mercado. Ao agir dessa forma, deixa de expressar sua liberdade criadora e sensibilidade estética. Ou seja, ao perder a criatividade, a arte deixa de ser sensível e, consequentemente, perde seu valor estético e artístico. Todavia, o artista pode tentar escapar dessa hostilização do capitalismo à arte desdobrando a sua atividade criadora, ou seja, criando segundo sua necessidade interna de expressão.
A arte é trabalho, mas um trabalho verdadeiramente criador […] satisfaz a necessidade do homem de humanizar o mundo que lhe rodeia e de enriquecer com o objeto criado sua capacidade de comunicação. Nesse sentido, a arte é superior ao trabalho (VÁSQUEZ, 2011, p. 173).
É essencial assinalar que na visão marxista esse valor de troca desumaniza o homem e o próprio objeto, ao perder a sua significação humana: “coisificam-se”, “alienam-se”. Em suma, a mercadoria deixa de estar em relação com a necessidade humana quando se torna objeto de troca, ao se tornar um objeto desumanizado. Nesse entendimento, a obra de arte é compreendida como mercadoria de troca.
Para Lukács (1978), a arte possibilita ao indivíduo se relacionar com o mundo, bem como os sentidos produzidos por ele que ajudam a mediar essa relação. Nessa ideia, a arte revela a qualidade estética para a vida humana, implicando, assim, numa relação estética entre o homem e a humanidade. Defende a tese de que a arte deve representar a luta de classes, a estrutura classista de uma sociedade, além da subjetividade de seu criador. Ao refletir, assim, a realidade objetiva, a arte evita ser extinta no seio da sociedade.
No entanto, esse autor oferece indícios para uma contribuição para a reação estética mencionada por Vigotski (1998, p. 289) ao afirmar que a emoção provocada pela arte leva o indivíduo a reviver eventos por ele vividos ao longo de sua vida, “tanto no caso em que assista a obras que representam o presente, como no caso em que a força da arte oferece a sua experiência fatos que lhe são distantes no tempo ou no espaço, de outra nação ou de outra classe”. Ou seja, o indivíduo vivencia o passado histórico e o presente, para que possa refletir sobre o desenvolvimento futuro de sua vida e a tomar decisões.