Letramento Estético na EJA e na Educação do Campo

Gustavo Cunha de Araújo · Capítulo 27 de 42

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Letramento Estético na EJA e na Educação do Campo

4.5. A estética na formação de professores

Nesse processo, o prazer artístico recebido pelo indivíduo o enriquece e, ao mesmo tempo, o transforma e reforça a sua comoção (LUKÁCS, 1978). Assim, a arte, sendo reflexo da realidade objetiva, medeia e provoca nele a necessidade de desenvolvimento e, consequentemente, o desenvolvimento histórico e social da sociedade. Dito isso, esse reflexo estético, na visão do autor, produz novas realidades que transformam o indivíduo do seu “eu individual” para o seu “eu coletivo”, na produção da obra de arte. Desse modo, a arte se transforma em autoconsciência humana, pois, ao se apropriar de uma realidade, esse indivíduo cria para si uma autoconsciência que não é separada do mundo exterior. Com efeito, a autoconsciência pode ajudar a compreender os fenômenos artísticos que se desenvolvem no percurso histórico da humanidade.

 

O conteúdo da obra de arte é a experiência que o indivíduo faz de si mesmo na ampla riqueza de sua vida na sociedade e da sua existência como parte e movimento do desenvolvimento da humanidade […]. No prazer estético, o sujeito receptivo imita aquele movimento que recebe a sua forma objetiva na criação da individualidade da obra de arte: uma ‘realidade’ que, no sentido da diferenciação, é mais intensa do que a experiência obtida na própria realidade objetiva e que, precisamente nesta intensidade, revela imedi-atamente a oculta essencialidade real (LUKÁCS, 1978, p. 292).

 

Essa representação da realidade pelo viés marxista, que serve à verdade e reflete a essência dos fenômenos humanos, considera a arte como meio específico de conhecimento. De todo modo, é possível dizer então que a ideologia e o realismo na obra de arte são os principais temas pelos quais a estética marxista se interessará.

 

4.5. A estética na formação de

 

professores

 

É possível pensar em uma estética na educação, não apenas relacionada às artes, ou mesmo à leitura e à escrita e na qualidade estética de algum objetivo artístico, mas também relacionada à formação de professores. Sobre isso, para Loponte (2017, p. 434) a formação estética docente possibilitaria aos professores terem “contato com diferentes linguagens artísticas”, para que o “docente pudesse educar-se, humanizar-se, sensibilizar-se, passando a enxergar os alunos com outro olhar”. Ou seja, ter contato com essa diversidade leva o indivíduo a ampliar a sua relação com o outro, as interpretações da realidade a sua volta, além de elevar o seu conhecimento cultural.

A esse respeito, a autora assevera que a estética não deve se referir unicamente à beleza, mas à experiência desenvolvida a partir de práticas pedagógicas artísticas. Ou seja, deixa claro que é importante evitar convenções clássicas e tradicionais que defendem a estética como um único ideal de beleza, ao tratar de experiências educativas que envolvam a arte.

Assim como Duarte Júnior (1981), Carvalho e Neitzel (2013) também entendem que a estética na educação deve estar voltada ao esmero dos sentidos humanos e que a escola seja bem mais que uma instituição educativa: que seja um espaço para a produção e disseminação de um conhecimento sensível. Desse modo, em consonância com Pareyson (1993, 1997), afirmam que esse entendimento permite conceber a educação como um processo formativo que muito contribui para a formação dos sentidos e da percepção mais ampla da realidade pelo indivíduo.

Nesse sentido, a arte e suas diversas manifestações possibilitam ao indivíduo ampliar o seu entendimento da realidade, bem como sua sensibilidade e reflexão para questões a sua volta (CARVALHO; NEITZEL, 2013, p. 1024), ou seja, ao interagir com a arte, o indivíduo pode ter na experiência estética um “meio pelo qual percebe melhor a si mesmo e seu entorno”.

Com essa visão, as autoras defendem que a formação estética leva o professor a ter um olhar mais sensível às diferentes e variadas mazelas que assolam a educação brasileira. Desse modo, o contato com a diversidade artística, além de promover novas experiências ao professor, o torna mais sensível para as situações educativas em sua prática pedagógica. Esse acesso à arte, que pode ocorrer por diferentes meios, como a música, a pintura entre tantas outras, o leva a compreender melhor o contexto do qual faz parte, vive e se constitui enquanto sujeito.

Outro trabalho bastante interessante, que aborda a categoria estética no campo educacional, é o de Rosito (2017). Em seu estudo, a partir de análises de algumas obras do pensador brasileiro Paulo Freire (1921-1997), compreendeu que suas obras, especificamente “Pedagogia da Esperança” e “Pedagogia do Oprimido”, trazem dois (2) elementos – desenvolvimento da autonomia e emancipação – que permitem ter um olhar estético e, portanto, mais sensível para com a educação. A autora afirma que a análise feita por ela possibilitou inferir que esses elementos, quando analisados esteticamente, podem ser relevantes para a melhoria da educação e sociedade.

A partir dessa reflexão, Rosito (2017) enumera quatro (4) possibilidades interessantes para se utilizar a estética na educação: a) toda leitura do mundo é estética, pois o indivíduo, a partir de suas experiências de vida constrói sentidos e significados da realidade a sua volta, ampliando o seu conhecimento de mundo e o aprendizado; b) ao se relacionar com o outro, o indivíduo constrói um olhar estético, isto é, a relação entre o professor e o aluno precisa ser afetuosa, respeitosa, cordial e dialógica; c) a linguagem enquanto estética, isto é, sem linguagem não há como o indivíduo se comunicar e participar enquanto sujeito histórico, pois é impossível dissociar linguagem da experiência do indivíduo com a leitura e a escrita; d) a estética da alteridade. Significa dizer que a construção do olhar do sujeito na relação com o outro é estética, pois envolve a sensibilidade.

A autora chega à conclusão de que as obras de Paulo Freire permitem entender que todo trabalho humano tem a sua beleza e, na medida em que o indivíduo vai construindo a sua experiência, desenvolve a sua autonomia e amplia a sua capacidade de reflexão, tornando-se mais crítico e participativo, ou seja, parte de uma consciência ingênua para uma consciência crítica e, consequentemente, emancipadora. Destaca que é importante o professor considerar em suas práticas pedagógicas esse olhar sensível para com o aprendizado do educando. Assim, além de romper com um paradigma de ensino tradicional, provocará no aluno o gosto de aprender e criar um olhar estético, não ficando apenas decodificando leituras, mas também as criando e as interpretando em novos contextos, desenvolvendo seu pensamento.

Rosito (2017) parte da ideia de que é importante que a educação seja humanizadora, que possibilite ao indivíduo construir conhecimentos científicos e artísticos. Mas, para que isso aconteça, entendo que é necessário que a educação seja não apenas um ato criador e crítico, mas, sobretudo, seja baseada em um ensino desenvolvente, que possibilite ao educando desenvolver seu pensamento teórico e a sua aprendizagem. Assim, nessa dimensão estética, os conhecimentos construídos podem ser elaborados ou recriados por meio de novas experiências.

Após desenvolver nesses quatro primeiros capítulos reflexões que me possibilitassem analisar os resultados encontrados nesta pesquisa de doutorado, apresento nos próximos dois capítulos as análises desses dados gerados pelo Experimento Didático-Formativo com os jovens e adultos da Educação do Campo, em diálogo com a teoria Histórico-Cultural.