Letramento Estético na EJA e na Educação do Campo

Gustavo Cunha de Araújo · Capítulo 20 de 42

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Letramento Estético na EJA e na Educação do Campo

3.3. Novos estudos de letramento

Com essa reflexão, afirmo que a Educação do Campo está contaminada com o letramento ideológico, por conter uma diversidade de letramentos situada em diferentes práticas sociais e culturais de leitura e escrita das quais o jovem e o adulto camponeses participam. Além disso, é preciso assinalar que o ensino de leitura e de escrita na escola não considera a realidade do camponês. Diante disso, entendo e defendo nesta pesquisa que as histórias em quadrinhos, por possibilitar ao jovem e ao adulto produzir seus textos das histórias, bem como os desenhos e a utilização de signos que pouco conheciam, como o desenho, para representarem a sua realidade, constituem uma relevante linguagem que, se trabalhada em consonância com o contexto desses educandos, pode proporcionar o desenvolvimento da leitura e da escrita a partir da arte e a fazê-los tomar consciência da sua própria realidade. Com efeito, é uma das possibilidades de letramento com jovens e adultos camponeses.

 

3.3. Novos estudos de letramento

 

Na esteira desse pensamento, os novos estudos de letramentos surgiram com o objetivo de romper com a visão evolucionista do letramento, que entendia a produção de conhecimento sobre a escrita ainda ser baseada na divisão entre letrados e iletrados. É substituindo essa visão “antiga” de letramento que surgiram esses novos estudos, que entendem que “as práticas de uso da escrita são consideradas práticas sociais plurais e heterogêneas, vinculadas às estruturas de poder das sociedades” (VIANNA; SITO; VALSECHI; PEREIRA, 2016, p. 29).

Esse novo movimento influenciou as pesquisas sobre leitura e escrita desenvolvidas no país nas últimas décadas, principalmente aquelas relacionadas à teoria Histórico-Cultural (CHAVES et al., 2014; FELLINI; CORTEZ; BOGONI, 2017; CUNHA; OLIVEIRA, 2014) que, embora tenham diferentes objetos de estudo e, na maioria das vezes, focam na alfabetização, e em outros, com jovens e adultos na perspectiva da Educação Básica (MOLLICA, 2009; CHAVES, 2008; SIMÕES; FONSECA, 2015; PELANDRÉ; AGUIAR; 2009; AUDA; SHIMAZAKI; MENEGASSI, 2017; SANTOS, 2014), demonstram que é possível dialogar com essas áreas para a produção de conhecimento para a Educação do Campo, como é o caso desta investigação, ao enfatizar o letramento estético com jovens e adultos camponeses, o que amplia seu campo de estudos e produção de novos questionamentos na pesquisa educacional brasileira.

Os novos estudos de letramento se desenvolveram justamente com o objetivo de relatar as condições sociais do uso da escrita, a partir de práticas de letramento de diferentes grupos, como os minoritários e excludentes, como a Educação do Campo, por exemplo. Nesse sentido, “os estudos já não mais propunham efeitos universais do letramento, mas pressupunham que os efeitos estariam correlacionados as práticas sociais e culturais dos diversos grupos que usavam a escrita” (KLEIMAN, 1995, p. 16).

A partir desse contexto é que surge o termo “multiletramentos” que, segundo Vianna, Sito, Valsechi e Pereira (2016, p. 36), refere-se a “uma multiplicidade de práticas que envolvem toda noção sócio-histórica e cultural do letramento e permite examinar a constituição de práticas de letramento intragrupos”.

Esses novos estudos, além de assumirem o conceito de letramento mais amplo (linguagens visuais), reconhecem que tais práticas são diferentes e variadas na sociedade, são construídas a partir de determinados contextos, culturas e experiências.

A esse respeito, Kleiman (2014) argumenta que os multiletramentos implicam uma capacidade maior do indivíduo de ler e interpretar mensagens visuais. Sob essa perspectiva, aponta que a maioria dos currículos oficiais voltados hoje para o ensino no país utiliza bastante as imagens (ilustrações, figuras, mapas, gráficos, histórias em quadrinhos, charges etc.), mas são pouco estudados e analisados pelo viés sociocultural.

Ao se embasar em Dondis (2003), Kleiman (2014, p. 82) ressalta que quando o sujeito é mais participativo na leitura e apreciação da imagem, mais desenvolve a sua “inteligência visual”. Assim, na medida em que desenvolve a capacidade de interpretar e de se expressar por meio da linguagem visual, a sua capacidade de fazer inferências, analogias, críticas e critérios são também desenvolvidos. Desse modo, “o conhecimento propicia interpretações baseadas num sentido de adequação e prazer estéticos e, por sua vez, esse nível de desenvolvimento cria autonomia”.

Todavia, para acompanhar as demandas da sociedade que surgem a todo o momento, é importante que o indivíduo leia, interprete, se posicione, isto é, que desenvolva estratégias para se informar e tomar suas decisões. Para isso, os novos e múltiplos letramentos emergem em resposta a essas demandas dominadas pelas imagens e escrita verbal, tendo no professor, um sujeito da comunidade ou, mesmo, um pesquisador, o mediador ao fornecer condições e materiais para que o estudante desenvolva suas atividades de forma mais significativa e da melhor forma possível (KLEIMAN, 2014).

Entretanto, embora Kleiman (1995) e Silva (2018b) conceituem letramento se limitando à escrita e à oralidade, defendo nesta pesquisa de doutorado que o letramento envolve, além disso, práticas sociais de uso não apenas da linguagem verbal, mas da visual (não verbal) também, como é o caso das histórias em quadrinhos, que possibilitam ampliar a concepção de letramento. Daí o surgimento dos multiletramentos mencionados neste capítulo, o que me permitiu ampliar o seu conceito, não se limitando apenas à escrita e à oralidade.

Como mencionado neste tópico, é possível dizer que os novos estudos do letramento são enfatizados na literatura científica nacional por diferentes metodologias e áreas de pesquisa, e que me ajudaram a caracterizar o que entendo por letramento estético, pelo viés da teoria Histórico-Cultural. Tais estudos colaboram para que o conceito de letramento fosse desenvolvido e que contribuísse para a variedade de práticas sociais de leitura, escrita e os seus usos em diferentes contextos. É nesse sentido que o conceito de letramento se torna plural.