Letramento Estético na EJA e na Educação do Campo
3.5. As histórias em quadrinhos e o ensino
[…] diferentes gêneros utilizam a linguagem dos quadrinhos; predomina nas histórias em quadrinhos a sequência ou tipo textual narrativo; as histórias podem ter personagens fixos ou não; a narrativa pode ocorrer em um ou mais quadrinhos, conforme o formato do gênero […]. A tendência nos quadrinhos é a de uso de imagens desenhadas, mas ocorrem casos de utilização de fotografias para compor as histórias (RAMOS, 2012, p. 19).
Nessa direção, Ferraz e Fusari (1993, p. 16) afirmam que “é a importância devido à função indispensável que a arte ocupa na vida das pessoas e na sociedade desde os primórdios da civilização, o que a torna um dos fatores essenciais de humanização”. Nessa linha de pensamento, entendo que a arte assume papel importante ao ser a linguagem que mais expressa e socializa informações e produção de sentidos às pessoas, devido a sua grande capacidade de expressão, criação e interpretação da realidade, o que contribui proficuamente para a produção e disseminação de conhecimento.
3.5. As histórias em quadrinhos e o
ensino
Ao ressaltar as histórias em quadrinhos62 na Educação do Campo, entendo que a sua linguagem está diretamente relacionada ao ato de comunicar-se com o outro, na produção de informações e experiências que podem ser individuais ou coletivas. Desse modo, quando há interação social entre professor e alunos a construção do conhecimento nesse meio se torna mais significativa.
É importante ressaltar que, na pesquisa de campo realizada por mim no período de 2016 a 2018 por meio descritores como “Histórias em Quadrinhos”, “Educação de Jovens e Adultos” e “Letramento” em bases de dados como a Scielo (Scientific Eletronic Library On Line) e Google Acadêmico, consegui identificar alguns
estudos63 sobre histórias em quadrinhos com jovens e adultos, principalmente relacionados à EJA da Educação Básica, sendo, a maioria desses, referentes aos processos de leitura e escrita nessa modalidade, como pode ser visto nas seguintes obras: “O trabalho com o gênero textual história em quadrinhos com alunos que possuem deficiência intelectual” (SHIMAZAKI; AUADA; MENEGASSI; MORI, 2018), “A produção de HQs como estratégia de ensino de História na EJA” (CID; CID, 2017), “Histórias em quadrinhos digitais: trabalho interdisciplinar promovendo autoria na EJA” (ANDRADE; PLÁ; IRIBAREM; RAPKIEWICZ; BENVENUTI, 2016), “História em quadrinhos como recurso didático para o ensino de Física na Educação de Jovens e Adultos” (GONÇALVES, 2016), “História em quadrinhos no ensino de Química na EJA: uma proposta de recurso didático” (POMBO; HUSSEIN; LAMBACH; DOMINGUES, 2016), “A leitura de história em quadrinhos na Educação de Jovens e Adultos” (SILVA, 2011). O curioso é que, embora seja nítida a diversidade de áreas do conhecimento em que as histórias em quadrinhos são pesquisadas e as metodologias adotadas em cada uma dessas pesquisas, nenhum desses trabalhos abordou a Educação do Campo.
Ao seguir essas reflexões, é necessário também observar que as histórias em quadrinhos, popularmente conhecidas como HQs ou arte sequencial, despertam atenção de diferentes e vários leitores infantis, jovens e adultos, pela diversidade de histórias, cores e desenhos que levam o leitor a imaginar, criar e a entrar nesse universo narrativo, construindo novos conceitos e significados da realidade a sua volta. Além disso, podem abordar diferentes temas e assuntos, vinculados aos educacionais, sociais, políticos, esportes entre tantos outros. No entanto, é importante que o professor saiba selecionar as revistas que irá trabalhar com os alunos, bem como os conteúdos das histórias, que possam se adequar aos objetivos das aulas e ao processo de ensino e aprendizagem dos educandos.
Além disso, os quadrinhos têm a capacidade de fomentar a criticidade em seus leitores, para os diversos momentos sociais e políticos que ocorrem na sociedade, devido a sua importante capacidade de representar a realidade por meio da arte.
A esse respeito, tomei cuidado ao selecionar as revistas de histórias em quadrinhos que seriam trabalhadas com os estudantes jovens e adultos da Educação do Campo durante o Experimento Didático-Formativo. A princípio, escolhi revistas de HQ que pudessem ser de “fácil” leitura para eles, pois, como dito anteriormente nesta pesquisa, muitos apresentaram dificuldades com a leitura e a escrita e, se depararem com histórias com muitas imagens, palavras e outros elementos visuais, poderia dificultar o seu entendimento da história e, consequentemente, desmotivá-los a ler. Diante disso, recorri à biblioteca do campus de Tocantinópolis/UFT para saber se ela tinha algum acervo de revistas de histórias em quadrinhos, pois, num contato inicial com os estudantes, por mais que alguns conhecessem essas histórias, não tinham acervo desse material em suas casas.
Foi a partir disso que, surpreso, fui informado pela bibliotecária da época que havia um pequeno acervo dessas revistas na biblioteca. Ao me deparar com elas, constatei que todas eram os conhecidos “gibis” das histórias criadas pelo artista brasileiro Maurício de Sousa, criador dos personagens da Turma da Mônica, popularmente conhecida do público brasileiro. Por eu ter constatado que eram histórias populares, voltadas não apenas ao público infantil e juvenil, mas a adultos também, por tratarem de temas do cotidiano das pessoas e por apresentarem qualidade nos desenhos apresentados, sem “distorcer” a realidade do camponês, visto que é possível encontrar sim, em algumas histórias em quadrinhos, histórias equivocadas da vida no campo no Brasil, optei em utilizar essas revistas e as levei para a sala de aula para trabalhar. É importante assinalar que a leitura de HQs realizadas com os estudantes foi descrita com maiores detalhes nos capítulos de análises dos dados desta investigação.
Entretanto, segundo Nunes, Silva e Moura (2015), as histórias em quadrinhos passaram a fazer parte do Programa Nacional Biblioteca da Escola - PNBE, se tornando, assim, uma política de governo, o que revela o interesse e o reconhecimento dessa linguagem como importante instrumento pedagógico nas escolas brasileiras. Além disso, para esses mesmos teóricos, nos últimos anos foram produzidos impressos didáticos no formato de quadrinhos de importantes personagens da literatura brasileira, como as obras “O Alienista”, de Machado de Assis, citada anteriormente, além de “Triste Fim de Policarpo Quaresma”, de Lima Barreto entre outros.
Muitos são os motivos para utilizar os quadrinhos como ferramenta didático-pedagógica de ensino: primeiramente, o aluno se atrai facilmente a este tipo de leitura; partindo desse princípio, e ancorado na metodologia aplicada pelo professor, pode-se trabalhar na conjunção de palavras e imagens, aumentar o nível de informação e consciência crítica […] e a ampliação de vocabulário (NUNES; SILVA; MOURA, 2015, p. 238).
Setubal e Rebouças (2015) ajudam a compreender que a relação entre quadrinhos e educação nem sempre foi amigável. Muitas conquistas e avanços tiveram que ocorrer na educação brasileira,
dentre estas, o reconhecimento dessa linguagem pela LDB 64 n°. 9.394/96, PCN, além de seu reconhecimento enquanto recurso pedagógico para o processo de ensino e aprendizagem a partir de diferentes pesquisas (VERGUEIRO, 2012; NUNES; SILVA; MOURA, 2015; RAMOS, 2012; ARAÚJO, 2013), o que parece ter ficado mais fortalecido nesse século XXI.
Com efeito, o investimento no gênero histórias em quadrinhos só começou, efetivamente, na década de 1990, por meio dessas bases legais. Porém, programas como o PNBE pode ser considerado o principal impulsionador sobre a inserção dos quadrinhos na educação brasileira deste século XXI (SETUBAL; REBOUÇAS, 2015), embora a maioria dos quadrinhos escolhidos pelo PNBE se refira à literatura nacional e estrangeira.
Na visão de Vergueiro (2012), é possível hoje constatar com mais frequência do que em décadas atrás a presença de quadrinhos em diversos livros didáticos distribuídos nas escolas brasileiras, praticamente em todas as áreas do conhecimento. No âmbito educacional, destaca dois elementos fundamentais para que os quadrinhos sejam utilizados e aproveitados nesse meio: fácil acessibilidade, pois podem ser encontrados em bancas de jornal, farmácias, supermercados e entre tantos outros estabelecimentos comerciais; e baixo custo, visto que é possível encontrar várias revistas com preços baixos.
As possibilidades de comunicação são enriquecidas pela familiaridade com as histórias em quadrinhos. A inclusão dos quadrinhos na sala de aula possibilita ao estudante ampliar seu leque de meios de comunicação, incorporando a linguagem gráfica às linguagens oral e escrita, que normalmente utiliza (VERGUEIRO, 2012, p. 22).
Por mais que as histórias em quadrinhos possam ser utilizadas para instrução e entretenimento na visão de Eisner (1989), penso que seu uso se ampliou no século XXI, inclusive podendo ser trabalhadas em qualquer área do conhecimento e para diferentes funções, desde que sejam bem trabalhadas de forma adequada aos objetivos propostos. Assim, é possível afirmar que as HQs podem ser aprendidas por qualquer pessoa que se interesse por essa linguagem desde que estude a sua estrutura, o desenho e desenvolva a sua criatividade para elaborar histórias durante o processo de aprendizagem.
Vale ressaltar que as histórias em quadrinhos na educação podem ser utilizadas como recurso metodológico. Foi essa a conclusão a que cheguei em pesquisas que realizei (ARAÚJO; COSTA; COSTA, 2008; ARAÚJO; NARDIN; TINOCO, 2010; ARAÚJO, 2013), pois oferecem ao aluno uma compreensão melhor de temas trabalhados na sala de aula, além de possibilidades criativas por meio de uma linguagem artística que relaciona texto e imagem. Podem ainda servir de relevante apoio pedagógico, ao trabalhar com conceitos referentes ao conteúdo em que o docente pretende trabalhar na aula com seus alunos através de textos escritos e visuais, promovendo no educando o pensamento teórico e sendo uma linguagem bastante próxima do universo infantil, do jovem e do adulto, ao contribuir para uma aprendizagem significativa e com um ensino de melhor qualidade estética.
No entanto, desde muito cedo, crianças, jovens e adultos são motivados a interagirem com o meio social do qual fazem parte e com as diferentes manifestações artísticas, para conhecê-las e a vivenciá-las, desenvolvendo formas nos seus modos de pensar e apreciar as diferentes linguagens presentes na sociedade, como nesse caso, as histórias em quadrinhos.
Ao trabalhar com os quadrinhos na sala de aula, os alunos podem ter a capacidade de conseguir selecionar elementos visuais presentes nessa linguagem, ao determinar melhores condições para criar e recriar a realidade a sua volta, desenvolvendo a sua consciência e melhorando a sua leitura e escrita. Podem ainda aplicar conceitos que contribuem para o processo de ensino e aprendizagem, ao utilizar a linguagem sequencial de uma forma mais dinâmica e criativa. Nesse sentido, entendo que conhecer os elementos que compõem a linguagem visual das histórias em quadrinhos se torna importante no processo criativo da produção dos textos das histórias.
Nesse sentido, é importante o professor provocar nos estudantes a necessidade e o motivo de leitura, por meio de ações mentais e tarefas de estudo que possibilitem interação com a leitura, desde que sejam planejadas e pensadas. Tendo um material interessante, que chame a atenção e o aluno entenda que é importante e necessário para o seu desenvolvimento, ele irá ler. Não tenho dúvidas de que esse material pode ser as histórias em quadrinhos.
Diante dessas reflexões, afirmo nesta pesquisa que não tem segredo a sua utilização no ensino: basta que o professor, além de saber escolher adequadamente as revistas que irá trabalhar (segundo os objetivos de seu planejamento e fins de aprendizagem que promovam o desenvolvimento das funções psicológicos superiores), tenha criatividade e domínio para utilizar esse material em sala de aula. Nesse sentido,
Na utilização dos quadrinhos no ensino, é muito importante que o professor tenha suficiente familiaridade com o meio, conhecendo os principais elementos de sua linguagem e os recursos que ele dispõe para representação do imaginário; domine razoavelmente o processo de evolução histórica dos quadrinhos, seus principais representantes e características como meio de comunicação de massa (VERGUEIRO, 2012, p. 29).
Como bem marcou o autor, as histórias em quadrinhos apresentam um nível elevado de informações que possibilitam o desenvolvimento do pensamento, muito devido ao fato das histórias em quadrinhos, neste caso, as revistas, apresentarem uma diversidade de temas, que podem ser trabalhados em qualquer área em consonância com os signos verbais e visuais presentes na escrita e nos desenhos.
Neste trabalho, entendo que as histórias em quadrinhos podem ser utilizadas na Educação do Campo, pois não há barreiras para sua utilização no ensino superior. A sua diversidade de temas e histórias permitem ao educando ampliar seu entendimento da realidade e a elevar as suas funções psíquicas superiores a partir da criação estética, fundamental para que seu desenvolvimento ocorra de forma plena.
Eisner (1989) me permite fortalecer o raciocínio aqui desenvolvido, ao ressaltar que a sequência de imagens nas histórias, aliadas aos signos visuais como onomatopeias, palavras desenhadas entre outros, criam a chamada “gramática visual” das histórias em quadrinhos. É por isso que o texto das HQs pode ser lido como uma imagem, pois retrata não apenas as palavras, sons e pensamentos, mas também palavras desenhadas que, ao exprimirem emoções, sons entre outros, ao seguir o raciocínio da história, harmonizam o sentido que a mensagem contada pelo autor quer expressar. Desse modo, o texto assim apresentado é
denominado de letreiramento65 que, visualmente, age como uma extensão do texto visual.
Esse entendimento é defendido também por Araújo, Costa e Costa (2008), ao afirmarem a tese de que as histórias em quadrinhos agregam elementos que podem favorecer o desenvolvimento do ensino e da aprendizagem dos estudantes, pelo fato de unir texto e imagem em consonância com o seus elementos visuais, como cor, enquadramentos, pontos, onomatopeias entre tantos outros, que auxiliam na interpretação da história pelo aluno, principalmente daquele que não consegue compreender textos escritos, apenas as imagens, como foi possível observar em algumas histórias produzidas pelos estudantes da Educação do Campo, analisadas neste livro.
Com o objetivo de ampliar as reflexões desenvolvidas nesta investigação, apresento no capítulo seguinte às leituras feitas a respeito da arte e da estética, duas categorias importantes para que o debate proposto nesta pesquisa avance no que concerne à caracterização do termo “letramento estético”.