Letramento Estético na EJA e na Educação do Campo

Gustavo Cunha de Araújo · Capítulo 34 de 42

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Letramento Estético na EJA e na Educação do Campo

6.3. A concepção de leitura e escrita

 

O movimento do abstrato para o concreto por meio da linguagem escrita e visual pode tornar os processos de aprendizagem que estão em movimento no jovem e no adulto da Educação do Campo mais ativos, uma vez que o trabalho com os signos verbais e visuais na atividade de estudo com eles contribui de forma significativa para uma formação mais plena. Desse modo, a leitura e a produção de textos e a interação verbal e visual entre eles e o professor, neste caso, eu, na condição de pesquisador, foi fundamental para a produção de conhecimento acerca da Educação do Campo, pelo viés das histórias em quadrinhos.

No que concerne à leitura e a escrita, perguntei aos jovens e adultos da Educação do Campo as suas concepções acerca dessas duas ações da linguagem, ao começar com a primeira (leitura):

 

Leitura…a não ser o ato de ler, é olhar o mundo com olhos diferentes. (A4)

 

Olha professor, o que eu entendo por leitura, é uma pessoa ler e compreender o que tá lendo…você tem que ler e interpretar a leitura que você faz. (A5)

Leitura é conhecimento. Quando você tá lendo, você tá imaginando…as ilustrações, você tá olhando ali e fica imaginando como é, como seria. (C3)

 

Leitura pra mim é você…por exemplo, eu ler isso aqui e entender. (D1)

 

É a maneira que usamos para expressarmos e entender o que o mundo possa demonstrar seus conhecimentos…e possamos ser capaz de descobrir novas formas de se interagir e ter mais capacidade. (E2)

 

A leitura traz conhecimento sobre todas as coisas passadas ou presentes, traz informações para o seu cotidiano. (E3)

 

Professor, eu acho que seria o centro de tudo, porque quando você lê, você interage com o mundo todo…você vai ter conhecimento daquilo que

tá lendo. (E5)

 

É entender professor…você ler é entender a vida. (G3)

 

Leitura é conhecimento…traz conhecimento e compreensão né. (J1)

 

Leitura professor, ela éum mecanismo que não é só da leitura escrita, do mecanismo da linguagem, do português, do espanhol, do inglês, enfim… mas a leitura tá na percepção. (L3)

 

Às vezes você tá lendo um texto ali, só por ler, e às vezes você não consegue fazer a leitura daquele texto ali todinho, mas você viu uma palavra diferente que ficou curioso e foi pesquisar sobre aquela palavra. (M2)

 

É pegar uma escrita, ler ela e entender o que ela quer dizer. (M4)

 

Há um entendimento comum na maioria dos alunos de que a leitura está diretamente relacionada à compreensão, isto é, só conseguem compreender, ou seja, conceituar leitura, se entendê-la, como, por exemplo, um texto escrito que produziram nas histórias em quadrinhos. Essa constatação foi decorrente das tarefas de estudo que realizaram no experimento, que lhes permitiram entender que a assimilação dos conteúdos trabalhados a respeito da leitura e da escrita, bem como o conhecimento e utilização de signos visuais e verbais, foi necessária para que eles chegassem a essa conclusão.

Nesse processo, ao utilizar da arte para se comunicar, essa comunicação verbal do tema ocorrida na prática de leitura não deixa de utilizar gêneros criativos (BAKHTIN, 1997), como foi o que aconteceu com os estudantes, ao utilizarem das histórias em quadrinhos para produzirem os textos verbais e os desenhos. Ou seja, os jovens e adultos da Educação do Campo podem, por meio da leitura, se comunicarem melhor, conhecer novas palavras e vocabulários, enfim, podem melhorar a sua escrita.

Contudo, essa compreensão pelos alunos não surgiu do nada, pois eles partiram dessas tarefas que os instigaram a desenvolver esses conceitos para que pudessem, a partir da internalização desses signos presentes nas histórias em quadrinhos, relacionar os conteúdos das histórias ao mundo a sua volta. É importante assinalar que eles desconheciam alguns desses signos, como os elementos da linguagem visual das histórias em quadrinhos. Esse aprendizado só se efetivou no processo de desenvolvimento de suas funções psíquicas, o que foi bastante significativo para o avanço da aprendizagem deles.

É nessa perspectiva que, no processo de leitura, o camponês precisa relacionar os signos ali presentes no seu contexto com as suas necessidades e interesses, pois não são entendidos de forma isolada no texto que ele produziu no processo de sua constituição como sujeito histórico, como lembra Vigotski (2009, p. 466):

 

A palavra só adquire sentido na frase, e a própria frase só adquire sentido no contexto do parágrafo, o parágrafo no contexto do livro, o livro no contexto de toda a obra de um autor. O sentido real de cada palavra é determinado, no fim das contas, por toda a riqueza dos momentos existentes na consciência e relacionados aquilo que está expresso por uma determinada palavra.

 

É bastante esclarecedora a afirmação de Vigotski, pois para compreender um texto, além de ser necessário que o leitor identifique as letras, as sílabas e as suas palavras, decodificando-as em sons, é importante também analisar os sinais gráficos presentes nele, para que ele possa, enfim, abstrair as informações e ir do escrito para o oral. Foi isso que aconteceu durante o Experimento Didático-Formativo, pois os jovens e adultos camponeses tiveram a oportunidade de conhecer, utilizar e criar signos visuais em suas histórias, ao relacioná-los com as suas histórias de vida construídas no mundo campesino.

Esse movimento de pensamento foi importante para que eles compreendessem que ler e escrever são ações que objetivam mais que se comunicar, pois produzem sentidos da sua realidade, o que lhes ofereceu condições de fazer conclusões, comparações, questionamentos e compreender como os textos podem refletir o seu mundo no campo e ser algo que “libertasse” eles.

Embora muitos desses jovens e adultos da Educação do Campo tenham apresentado dificuldades com a leitura ao longo do curso, muito devido as suas experiências de escolarizações antes de entrar na universidade, foi nítido em seus trabalhos que as histórias em quadrinhos os ajudaram a compreender melhor os processos de leitura. Além disso, é importante evitar práticas e técnicas mecânicas de leitura e de sua decodificação que apenas serve para deixá-los passivos e com dificuldade de ler e interpretar. Atividades de memorização, por exemplo, pouco ajudam esse educando a desenvolver as suas funções psíquicas superiores e a se tornar mais ativo no processo de construção de conhecimento.

Nesse sentido, é possível afirmar que essa compreensão de leitura enfatizada por esses educandos está relacionada à interação deles com o texto e com o meio a sua volta como instrumento de luta e libertação de seu povo, pois não está desconectada da sua cultura, identidade e trabalho na terra, que lhes permitem se aproximar com o tipo de texto que estejam lendo naquele momento, ao compreenderem a sua estrutura e os principais elementos que o compõem, fundamentais para que eles expressem as suas ideias e conhecimentos acerca da sua vida no campo. É inadequado o camponês apenas “achar a informação” ou “decorála” nos textos encontrados em livros didáticos ou trabalhados nas disciplinas da universidade. É insuficiente. É preciso que ele construa a informação do texto por meio de atividades que tenham como centro de aprendizagem ele e o professor, isto é, por meio da atividade de estudo.

Com o objetivo de dar sequência nessas análises, exponho o que responderam o que entendiam por escrita:

 

Escrita é você saber escrever tudo certinho, pôr vírgula, por tudo, então escrita para mim é isso. (A1)

 

É a forma utilizada para transmitir uma mensagem, seja ela de forma visual ou não. (A2)

 

Olha, para mim escrita é você saber escrever corretamente…porque a escrita é você escrever o que tá pensando, porque se você não escreve corretamente, muitas vezes a pessoa não vai saber o que você quis dizer. (A5)

 

É um desenho de palavras…porque às vezes tem pessoas que não conseguem escrever porque não tem aquela habilidade de manusear uma

caneta. (C3)

 

É a maneira que usamos para expressar nossos pensamentos…e a escrita nos faz estar melhorando nossa leitura. (E2)

 

Escrever é colocar em prática aquilo que você está pensando. (G1) Para mim não é só letra não…se eu fazer um desenho, um desenho também é um tipo de escrita, não é? É uma forma de comunicação. (J1)

 

Eu acredito que a escrita é a transferência daquilo que eu aceito ou eu tenho construído… aquilo que eu conheci, aquilo que eu vivi, aquilo que eu vivenciei…então a escrita é a transferência do meu conhecimento para o papel. (L3)

 

Bom, pra mim a escrita transmite alguma mensagem que a pessoa olha e consiga entender o que tá dizendo ali…para mim o conceito de escrita não é só letra não…tem um significado dependendo de cada contexto. (M2)

 

É uma forma, assim como a arte, de expressar sentimentos, opiniões, críticas. (S1)

 

É o ato de transmitir a mensagem, seja ela de forma verbal por extenso ou visual. Pois a escrita é ato de registrar. (S2)

 

Os seus depoimentos demonstram que a escrita precisa ser algo “bem feito”, reforçado pelas falas dos alunos A1 e A5, pois, além de ser um registro de ideias, pensamentos e informações produzidas, a escrita está associada ao desenho, o que lhe confere uma qualidade estética.

Nas suas palavras, a escrita melhora a interpretação, pois eu escrevo não apenas para mim, mas para as outras pessoas também, o que evidencia a importância da interação na formação das funções psíquicas superiores do jovem e do adulto do campo. Além de “libertar” o camponês, tanto a leitura quanto a escrita são conquistas significativas para eles em busca de seus direitos enquanto cidadãos, uma vez que muitos deles são analfabetos funcionais, o que implica a mudança da realidade deles pela arte, leitura e escrita.

Sob essa afirmação, as histórias em quadrinhos produzidas por eles no experimento foram fundamentais para que eles enfrentassem as suas realidades, superando-as ao mostrar que são capazes de agir com mais fomentação crítica e com intensa participação nos interesses de seu povo, por meio de movimentos sociais e mobilizações que buscam lutar por seus direitos. Não é porque são camponeses e moram no campo que não mereçam atenção ou que não sejam considerados fundamentais para as tomadas de decisões do país. Nesse sentido, é possível dizer que as linguagens escrita e oral são revolucionárias para eles.

Quero assinalar ainda que durante o experimento, na 1° Ação da 3° Tarefa de Estudo, os jovens e adultos ficaram à vontade para ler as revistas de histórias em quadrinhos. Essa ação me permitiu compreender que ao lerem sem impor regras, funciona! Quando o jovem e o adulto leem sem cobrança, se sentem motivados a querer ler. A esse respeito, deixei-os bem à vontade para fazer as leituras das revistas de histórias em quadrinhos entregues a eles, e no final dessa tarefa, quase a totalidade dos estudantes da turma pesquisada disse ter gostado muito da atividade nesse dia, pois leram “sem pressão” as histórias, o que revela a contradição existente na maioria das escolas brasileiras de Educação Básica: leituras maçantes, “impostas” pelo professor e entendidas como “verdadeiras” e “corretas”, mas que pouco contribuem para o desenvolvimento da aprendizagem do educando.

Com esse pensamento, defendo que trabalhar com textos escritos com jovens e adultos da Educação do Campo é uma forma interessante para motivá-los a respeito da importância da leitura para o processo formativo deles. Ou seja, busquei “provocá-los” no interesse deles para a leitura. Embora gostar de ler ou ter interesse pela leitura pode ter influência cultural e familiar desse sujeito no seu contexto camponês, esse conhecimento foi fundamental para que eu conseguisse trabalhar com os textos escritos e visuais com eles a partir de suas vivências, interesses e necessidades, com o objetivo de captarem a essência do real, e não simplesmente observarem “superficialmente” o que liam e escreviam no experimento.

É por meio dos textos que eles expressam as suas ideias, sentimentos e conhecimento, e porque não dizer, instrumento de luta? Ora, a linguagem escrita e oral é um interessante meio de expor os seus questionamentos no que concerne à sociedade atual. A partir dessa perspectiva, é preciso mencionar também a linguagem visual nesse processo que, em consonância com a produção artística que eles realizaram no Experimento Didático-Formativo, foi importante para a formação estética e cultural deles.