Letramento Estético na EJA e na Educação do Campo
6.6. A escrita do estudante camponês jovem e adulto
6.6. A escrita do estudante camponês
jovem e adulto
Segundo Vigotski (2007), a linguagem escrita é constituída por signos verbais que se relacionam, dialeticamente, na conjuntura do texto. Nesse sentido, é fundamental que o indivíduo se comunique com o mundo a sua volta, ao estabelecer relações culturais e reais com as pessoas. Nessa direção, por ser um sujeito histórico e social e autor de sua própria história, o jovem e o adulto da Educação do Campo têm na linguagem escrita e na leitura a possibilidade de se humanizar e se apropriar da cultura. Esse processo se efetiva na medida em que ele interage com as pessoas a sua volta e com “parceiros” mais experientes que ele. Esse processo é importante para o amadurecimento de suas formações mentais.
Em consonância com essas reflexões, Puentes e Longarezi (2013) também entendem que o ensino mais adequado é aquele voltado para a ZDP. Ou seja, o ensino que precede o desenvolvimento, segundo Vigotski, gera o desenvolvimento quando é voltado para a ZDP, por meio de situações-problema e conteúdos resolvidos pelos alunos, a partir da produção do pensamento teórico, como foi o que aconteceu durante a realização das tarefas de estudo que tinham como núcleo as histórias em quadrinhos.
No que se refere à escrita, procurei compreender que importância os estudantes dão a essa linguagem na Educação do Campo. Assim relataram:
É importante igual à leitura, porque se você ler muito, você escreve melhor. Se você não ler, você não tem uma escrita cem por cento. A leitura e a escrita tem que andar juntas. (A1)
A leitura e a escrita são instrumentos importantes para os sujeitos do campo, sejam autônomos no sentido de responder por si. (A2)
A escrita é importante porque…é meio que redundante, porque da mesma forma que a leitura, a escrita também é importante…a leitura é algo escrito…você aprende ler escrevendo, igual lá no estágio (7° ano), quando a gente foi estagiar e falou para os meninos da turma fazerem um texto sobre alguns questionamentos lá, e pensando eu que eles iam fazer em casa, para entregar na próxima aula, porque o objetivo era esse, e tinha uma menina toda empolgada com a metade da folha já escrita, e a gente surpreende porque eles são do campo, e eles gostam de escrever, e os da cidade não gostam. A gente não tem o prazer de escrever, de ler, porque, pelo menos para mim, na minha infância, eu tinha isso como obrigação, eu era obrigada a ler, e eu era obrigada a escrever…então se é algo que você tem obrigação, no futuro você não tem prazer com aquilo ali. (A3)
Porque o cidadão precisa adquirir essa ferramenta…porque para ele escrever o que ele pensa, o que ele acha né, do sistema na qual ele vive…porque se ele só reescreve o que as pessoas escrevem, ele precisa escrever a sua própria história, precisa ser independente. (A5)
Já a escrita, também, é importante pelo fato de…as pessoas entenderem o que você quer passar…porque um ponto já diz muita coisa, um ponto de interrogação, uma vírgula. (C3)
Para se libertar professor…(risos)…é também, porque quando a pessoa não sabe ler, ela vive presa. Eu faço isso porque lá onde eu moro, tem muitas pessoas que são analfabetas, que não sabem mesmo ler não, mas tem uma colega minha lá que vive reclamando, porque ela não sabe ler, não sabe escrever de jeito nenhum, aí ela tá sempre pedindo as pessoas pra fazer. (C5)
Porque se eu sei escrever, eu lá no campo vou poder fazer qualquer documento e…mandar para qualquer lugar. Eu vou aprender a me comunicar através da escrita também. (D1)
Ah professor, a escrita tem uma importância muito grande, porque, tipo assim, se você pratica a escrita, você vai escrever mais simples, sua caligrafia vai mudar, e a língua vai mudar também…eu tinha uma dificuldade muito grande de “é” pra “e”…é como se você tivesse no fundo do poço, aí vão lá e te tira. (I1)
Eu acredito que quando mais você ler, mais você aprende…aumenta a capacidade de você escrever melhor né…e na escrita você precisa ter uma boa compreensão para escrever. (J1)
Acho que é a questão da documentação…do que sabe, do que faz, do que acontece né…no campo…porque é o seguinte, se acontece um determinado caso, se não se escreve, aquilo, a tendência é ficar no esquecimento…se não registra isso, ele. (J2)
O aluno do campo já sofre um preconceito por ser do campo e não tiver a leitura e uma escrita acessível já é taxado como analfabeto que não sabe ler nem escrever. Tanto a escrita quanto à leitura é muito importante para o aluno do campo. (R2)
É comum nas falas dos alunos a importância da leitura e escrita para o seu aprendizado e para a construção de conhecimento. Porém, alguns ressaltaram da relevância dessa linguagem para se inserirem na sociedade, isto é, para aqueles que não sabem e não exercem as ações de ler ou escrever, o fato de conseguirem assinar um documento se mostra uma grande conquista para que ele possa participar enquanto cidadão em seu meio social. Além disso, há alguns alunos que destacam a melhoria para a leitura o fato de exercitarem a escrita, como é o caso das alunas A3, C3 e I1.
A relação dialética entre a leitura e a escrita está presente nas falas dos alunos (A3, C3, I1), além de concederem essas duas linguagens relevantes. As suas repostas trazem indicativos de que eles entendem que a escrita não se dissocia da leitura no processo de interação e comunicação humana. Com isso, ambas são significativas para expressarem as suas ideias, conhecimentos de mundo e questionamentos da realidade camponesa. Em adição, a escrita possibilita ao jovem e adulto da Educação do Campo deixarem registrada a sua vida no papel, o que os coloca como sujeitos e autores de suas próprias histórias.
Além disso, a linguagem escrita é uma forma de libertação para eles, como relata a aluna C5, pois por meio dessa linguagem, o camponês representa os seus interesses, vontades e enfrenta as intempéries da vida. Com a escrita, esse sujeito exerce o seu direito de se posicionar criticamente, tão negado pelo Estado, pois assinar um documento e compreender melhor e com mais consciência a sua realidade, é mais que uma grande conquista de direitos: é um ato revolucionário para ele.
No entanto, a escrita na Educação do Campo também está relacionada ao processo de escolarização precária desses sujeitos, uma vez que aprender a ler e a escrever como imposição obrigatória do professor, com métodos tradicionais, sem considerar a realidade desse povo e seus saberes, apenas afasta esse educando do interesse em desenvolver melhor os seus processos de leitura e escrita. Assim, quando pretendem continuar os seus estudos na universidade, trazem com eles essas experiências negativas que, inclusive, afetam eles no processo de ensino e aprendizagem ao longo da graduação. Essa constatação foi possível a partir do depoimento da aluna A3.
Em outras palavras, se não há o desenvolvimento habitual da leitura e da escrita (VIGOTSKI, 2010), isto é, se é ausente à relação dialética entre essas duas ações linguísticas no processo de formação do jovem e do adulto da Educação do Campo, a necessidade de aprendizagem e, consequentemente, a formação da sua consciência não se desenvolvem efetivamente.
Quero ressaltar que a maioria desses estudantes tem interesse pela escrita, o que é importante para desenvolverem os seus pensamentos e a sua criticidade. Não é porque são do campo, que vivem em condições precárias tanto de moradia quanto de escolarização que não se interessam pela leitura e escrita. No entanto, a dificuldade em escrever, de se apropriar e conhecer diferentes signos verbais e visuais leva alguns jovens e adultos camponeses a não gostar de desenvolver essa ação linguística; portanto, a se afastar dela e, consequentemente, não continuar em seu desenvolvimento. Isso ficou claro em suas falas ao perguntar se tinham alguma dificuldade com a escrita:
Eu tenho. Ortografia. Fica mudando essas coisas…querendo renovar. (A1)
Tenho…palavras difíceis, pontuação. (C2)
Tenho muita dificuldade com ortografia. (C5)
Eu tenho, assim…as habilidades…eu não tenho dificuldade para escrever…hoje eu tenho receio da escrita justamente porque a ortografia mudou muito do tempo que aprendi a escrever…então aquilo que era certo, hoje não é mais certo. (L3)
Sim, com algumas palavras que às vezes fico com dúvidas de como é a palavra, ou seja, de como escrever a palavra. (G1)
Eu tenho…eu já estudei as normas, mas acho confusas…é tanta regra da linguagem portuguesa… porque eu tenho dificuldade entre “ss”, “c”, “sc”. (G3)
Assim, com algumas palavras, por exemplo, “ç”. (I1)
Sim, depois da nova ortografia eu escrevo muitas palavras erradas. (I2)
Sim. Tenho com a ortografia. (J1)
Eu tenho lá…a questão do Português…aquelas regrinhas assim…se eu for fazer tudo acima dos conformes, aí fica mais complicado. (J2)
Eu tenho. Palavras grandes. (M1)
É evidente em seus relatos que a maioria dos jovens e adultos da Educação do Campo compreende que a principal dificuldade em escrever é a apropriação de novos signos verbais que, até então, eram desconhecidos por eles, muito devido à nova ortografia brasileira que entrou em vigor no ano de 2016 no país. Sob essa constatação, entendo que as histórias em quadrinhos que eles produziram no Experimento Didático-Formativo são importantes nesse processo, pois trabalhadas na perspectiva Histórico-Cultural, levam eles a superar o ensino tradicional baseado por exercícios repetitivos e mecânicos que, associados a métodos obsoletos, pouco contribuem para esse educando a avançar na escrita. As suas falas revelaram essa afirmação.
Nesse sentido, tanto a escola quanto a universidade não devem trabalhar com a leitura e a escrita de forma superficial, pois elas não devem ficar apenas na decodificação de sinais gráficos e palavras. Diante disso, acrescento ainda que as histórias em quadrinhos proporcionam a esse educando maior qualidade nos seus processos de leitura e escrita, ao trabalhar no desenvolvimento de signos verbais e visuais na produção de textos, o que ajuda significativamente na evolução desses processos no percurso formativo de sua vida.
É importante lembrar que a vida desse camponês que quer escrever e ler não é nada fácil. Muitos percorrem grandes distâncias até universidade, às vezes a pé ou de carona (quando tem), tudo isso associado a trabalhos desgastantes no campo, nas tarefas coletivas de suas comunidades, nas plantações colheitas, assentamentos entre outros. Geralmente são vistos pela sociedade dominante como “inferiores”, sem ao menos, possibilitar-lhes a transformação de sua própria realidade. É por isso que é importante romper com a lógica formal do ensino que entende apenas ser correto e verdadeiro determinados métodos e conteúdos trabalhados em sala de aula, que não levam em consideração o contexto camponês. Quero dizer que se o jovem e o adulto da Educação do Campo se deparam com uma realidade na universidade totalmente diferente da dele, ele não se interessará em aprender e a desenvolver a sua escrita e, consequentemente, a sua leitura, dois instrumentos importantes para exercerem os seus direitos e a continuarem na luta pela Reforma Agrária.
Alguns desses estudantes preferem escrever no computador, outros, manualmente. Independente dos meios que utilizam para representar as suas realidades e as suas ideias, eles gostam de escrever, mas, pelas dificuldades que têm com essa ação linguística, em compreender determinadas palavras, signos visuais entre outros já mencionados, acabam se afastando dela. É por isso que pelos trabalhos realizados por eles no Experimento Didático-Formativo, quando produziram as histórias em quadrinhos, não tenho dúvidas de que a arte os ajudou a se interessarem mais pela linguagem verbal e linguagem visual. Com efeito, é possível dizer que as histórias em quadrinhos ampliam o universo letrado do homem do campo.