Letramento Estético na EJA e na Educação do Campo

Gustavo Cunha de Araújo · Capítulo 2 de 42

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Letramento Estético na EJA e na Educação do Campo

Prefácio

 

Escrever o prefácio de um livro é sempre motivo de satisfação pessoal, mas se constitui em trabalho de grande responsabilidade acadêmica. No caso do prefácio do livro “Letramento Estético na EJA e na Educação do Campo” isso se amplia significativamente, não apenas por se tratar de obra elaborada por um jovem pesquisador cuja seriedade, dedicação e atuação acadêmica já são reconhecidas e consolidadas em excelente produção científica em tão breve cronologia de carreira, mas porque, além disso, trata de temática relevante e pouco explorada no espaço acadêmico, a qual se situa em um universo de pesquisa de grande alcance social e político, ao dar vez e voz a atores sociais que se constituem como sujeitos de aprendizagem postos em uma conjuntura de exclusão.

Historicamente, esses atores sociais necessitam reivindicar o direito inalienável de acesso à educação, nem sempre tendo tal prerrogativa reconhecida, na prática, na evolução histórica do desenvolvimento da educação brasileira, como ação fundamental para o processo de humanização e de democratização da sociedade.

Se discutir a temática da Educação de Jovens e Adultos (EJA), em ambiente acadêmico já é, per si, algo alvissareiro e necessário, discuti-la no contexto da Educação do Campo se coloca como imprescindível, inovador e da maior relevância nas conjunturas social, política e acadêmico-científica. De fato, seguindo tardiamente tendência internacional na educação em geral, com base em protocolos de orientação da UNESCO, progressivamente a EJA se consolida como instância de Direito Público Subjetivo no contexto nacional, o que significa que o acesso à educação é direito de todos os cidadãos e é obrigação do Estado o seu provimento, além de se observar a sua transformação em um campo de práticas e de reflexões que extrapola o contexto de mera escolarização.

Todavia, a depender do movimento do espectro político, ocorrem retrocessos nessa tendência como os que podemos inferir a partir de 2016 relativamente ao fechamento de salas de aula de EJA e a uma estagnação nos índices de redução do analfabetismo, ou seja, se a análise dos dados da última Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD), não permite concluir que aumentou o analfabetismo absoluto no período, revela claramente que ele parou de decrescer, de reduzir.

Com a clareza de que esse quadro de agudização da exclusão não é privilégio da escolarização inicial, pelo contrário, se revela ainda mais cruel nos demais segmentos do sistema de ensino, a pesquisa de doutorado de Gustavo Cunha de Araújo se impõe em contexto de trabalhos científicos no qual a EJA é percebida como corolário de processos formativos diversos, para muito além da mera alfabetização, englobando ações voltadas à tomada de consciência enquanto grupo social e político, à qualificação profissional, ao desenvolvimento comunitário e à formação de agentes sociais que se voltam à abordagem de questões sociais, políticas, artísticas e culturais que não se restringem ao espaço escolar. Menos ainda ao processo regular de escolarização.

Essa é a principal contribuição para o desenvolvimento social e humano que se espera da universidade quando se decide politicamente pela criação de um curso de Licenciatura em Educação do Campo. Além disso, desenvolvimento sustentável, solidariedade e justiça social não podem ser objetos de mero discurso que se professa, sem maiores consequências.

É fato que, mesmo quando se pauta os processos de escolarização de jovens e adultos, os modelos didático-pedagógicos da escola tradicional ou dita regular, ainda predominam com tempos e espaços escolares praticamente inflexíveis. Contrariam, esses modelos pedagógicos, com essa conduta, o espírito da legislação produzida sobre a temática da flexibilidade de currículos e programas de ensino, em especial, da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDBEN) vigente e legislação complementar. Por isso, também, a importância da investigação sobre processos de Educação de Jovens e Adultos no âmbito da Licenciatura em Educação do Campo, com propostas impactantes de flexibilização curricular, implementando ações como a do tempo de formação na universidade e do tempo de formação na comunidade.

No conjunto, o resultado dessa política é a oxigenação dos processos de formação, de produção e difusão do conhecimento. Trata-se de movimento acadêmico-científico que visa formar sujeitos éticos, críticos e criativos, compromissados técnica e politicamente com esse ideário, na busca de soluções para problemas inerentes à realidade sociocultural das populações que vivem e trabalham no campo. É sobre esse universo sociocultural rico em nuances, mas marcado por absurda desigualdade social, histórica e perversa, que o estudo se debruça.

Consolida-se, então, um rico laboratório de pesquisa posto em um amplo espectro formativo que envolve ações integradas entre ensino, pesquisa e extensão, voltadas a compreender e apresentar soluções para demandas de sujeitos do campo em uma relação dialógica que se efetiva entre o Tempo-Espaço Universidade e o Tempo-Espaço Comunidade. Por certo, o pesquisador e os atores sociais do universo pesquisado sabem que não há diálogo se a via é de mão única.

Assim, o estudo analisa o desenvolvimento do letramento estético a partir de signos visuais e da escrita com vistas à compreensão da realidade do educando jovem ou adulto da Educação do Campo e as implicações pedagógicas decorrentes para a formação do pensamento teórico, crítico e transformador das formas de ser, pensar e agir. Tendo como fundamento teórico os pressupostos da Teoria Histórico-Cultural de Vigotski e seguidores a investigação se debruça sobre a identidade cultural, as representações e histórias de vida de educandos da histórica região do “Bico do Papagaio”, nos limites do município de Tocantinópolis, extremo norte do estado de Tocantins, de tradição na luta pela constituição de uma sociedade brasileira que se defina de forma mais precisa nos contextos de equidade, igualdade e justiça social, particularmente no que se refere à educação.

Com o olhar da Teoria Histórico-Cultural, o texto analisa os dramas e as tramas que envolvem a luta pelo acesso à educação em geral e ao ensino superior, em particular, no lócus em que se estabelece, mostrando como o letramento estético pode se constituir em elemento fundamental para explicar dados da realidade cultural dos educandos e seu papel na consolidação dos processos de leitura e de escrita, uma conquista absolutamente necessária para suprir dificuldades postas no contexto da educação básica e que interferem no desenvolvimento da aprendizagem do trato científico na universidade. As dificuldades, historicamente reconhecidas no ambiente acadêmico, para a leitura e interpretação de textos por parte de contingente significativo dos ingressantes no ensino superior já justificariam a investigação. Mas, o desenvolvimento da pesquisa avança para o território abrangente da educação popular, percorrendo as trilhas definidas pelo legado histórico da sua vertente EJA para, a partir delas, pensar a constituição de sujeitos de aprendizagem e indicar princípios fundamentais do processo de negociação de significados conceituais a partir do letramento estético.

Desse modo, o livro dialoga com o movimento da educação popular, com a EJA e com condicionantes sociopolíticos e concepções teóricas que constituíram o seu legado, em especial, no período que se segue a partir da década de 1960 e se revelam tão atuais em termos de analfabetismo absoluto e funcional, de exclusão, de desemprego, de miséria, de fome, de luta pela terra, de luta pela aquisição de um canto para morar, de condições dignas de trabalho, enfim, de luta por dignidade na vida. Não esqueça, caro leitor, que neste país analfabetismo tem classe social, recrudescendo entre os mais pobres; tem cor, ao predominar entre os pretos; e, até recentemente, tinha conotação sexual, ao prevalecer entre as mulheres, tendência que progressivamente vai se desconfigurando pelas conquistas da condição feminina.

Pensando a educação como instrumento fundamental para a concretização do ideal de humanização, a obra é absolutamente coerente por cuidar primeiro dos educandos, de dirigir o olhar para a sua condição humana, tentando fazer valer os processos de EJA em sua vertente histórica, popular, ampla e plural, bem definida nos limites da LDBEN no. 9394/1996, mas cuja configuração na prática educativa com jovens e adultos pouco se concretizou na educação brasileira recente, ainda marcada pela tendência histórica de ensino propedêutico, de formação geral, para educar as classes dirigentes e ensino aligeirado, travestido de ensino técnico ou profissionalizante para a educação das camadas populares.

Coerente com essas formulações, a pesquisa de doutorado que sustenta as ideias deste livro se valeu de instrumental metodológico apoiado em ampla pesquisa bibliográfica, análise documental e um experimento didático-formativo que permitiu a geração, coleta e análise de dados a partir de observações, de gravação de situações didáticas do experimento, de desenvolvimento de histórias em quadrinhos e de entrevistas com os educandos, o que permitiu sustentação efetiva para a configuração dos resultados.

O produto final da pesquisa que resultou no livro é teoricamente bem fundamentado e metodologicamente coerente, indicando perspectivas didático-pedagógicas para abordagem e encaminhamento dos problemas relativos à produção de textos e corroborando a riqueza pedagógica de um ambiente de multiletramentos no qual o letramento estético ocupa papel fundamental.

Por fim, a leitura do livro revela a sensibilidade do sujeito que vive, pensa e respira arte, nos impondo profunda reflexão e um mergulho profundo na percepção e na valorização da condição humana, dos saberes e da cultura popular, nos permitindo o reconhecimento necessário da pluralidade de tempos, espaços e relações, postos no contexto histórico no qual nos fazemos humanos, cognitivos, culturais e inconclusos.

E nos faz lembrar que quando se defende a educação sem política, se põe em prática a política sem educação, fazendo do trabalho pedagógico algo destituído de cientificidade porquanto não permite pensar a condição humana.

Finalizo, desejando uma excelente leitura, que possa servir de inspiração para novas investigações que se voltem para a ressignificação do processo de formação dos jovens e adultos excluídos total ou parcialmente do mundo fascinante da educação.

 

José Carlos Miguel

Professor Doutor Livre-Docente da UNESP,

campus de Marília, São Paulo.