Letramento Estético na EJA e na Educação do Campo

Gustavo Cunha de Araújo · Capítulo 5 de 42

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Letramento Estético na EJA e na Educação do Campo

1.2. O lócus da investigação: de onde falo

Sobre as etapas de execução desta pesquisa de doutorado, num primeiro momento encaminhei o projeto de pesquisa ao Comitê de Ética e Pesquisa da UNESP, campus de Marília, Estado de São Paulo, visando a atender e a cumprir legalmente as normas e exigências no que se refere ao desenvolvimento de pesquisas científicas, principalmente no que concerne à pesquisa com seres humanos.

Em seguida, realizei um levantamento bibliográfico de autores que auxiliaram no desenvolvimento desta pesquisa. Contudo, é importante ressaltar que a teoria Histórico-Cultural foi a base teórica principal deste estudo, em diálogo com as artes e educação.

O momento seguinte se caracterizou pelo levantamento da instituição de ensino e dos sujeitos da pesquisa - estudantes jovens e adultos do campo e professor de artes, neste caso, eu, na condição de pesquisador, do curso de Educação do Campo da Universidade Federal do Tocantins, campus de Tocantinópolis, e pelo contato com os discentes para que os dados fossem gerados.

Por último, no quarto momento organizei os dados coletados, os quais foram categorizados e analisados por mim, resultando nesta pesquisa.

Vale destacar que, ao utilizar os referenciais teóricos durante as análises dos dados obtidos in loco, eles me auxiliaram na criação das categorias de análise, o que me levou a produzir novos conceitos, teorias, ideias e questões para estudos futuros, o que pode contribuir para o avanço científico para a área e para a produção de conhecimento em educação. Com efeito, a realização deste estudo resultará em benefícios não só para a instituição de ensino pesquisada, mas para todos os envolvidos na pesquisa, ao ampliar os resultados desta investigação para além da universidade.

 

1.2. O lócus da investigação: de onde

 

falo

Esta pesquisa de doutoramento foi desenvolvida na Universidade Federal do Tocantins, campus universitário de Tocantinópolis, Estado do Tocantins, local em que atuo como Professor do Magistério Superior. Os sujeitos pesquisados foram alunos jovens e adultos do curso de licenciatura plena em Educação do Campo com habilitação em Artes e Música desse mesmo campus universitário.

É curioso assinalar que a UFT foi a primeira universidade no país a estabelecer cotas para estudantes indígenas em seus processos seletivos, como o vestibular, por exemplo, a partir do ano de 2004.

No que se refere ao Estado do Tocantins, por ter uma heterogeneidade significativa em sua população, destacando os povos indígenas e a população rural que apresenta uma parcela significativa nesse Estado, se caracteriza por ser multicultural, o que leva a Universidade Federal do Tocantins a ter o desafio de propor e desenvolver práticas educativas que promovam o desenvolvimento de sua população.

Imagem 1 – Mapa do Estado do Tocantins com os campi da

Universidade Federal do Tocantins.

Fonte: Elaborado por Alef Ricardo Nogueira Diniz (2018).

 

Como é possível visualizar no mapa acima, atualmente a UFT possui 7 (sete) campi universitários, um dos poucos estados brasileiros que mais apresentam estrutura multicampi de uma mesma universidade do país. São distribuídos em diferentes regiões do Estado, a saber: Palmas, sua capital, ao centro, além de Miracema e Porto Nacional; Araguaína ao norte; Arraias ao sudeste; Gurupi no centro sul; e Tocantinópolis localizada no extremo norte, mais precisamente na região conhecida como Bico do Papagaio que, embora tenha sido colonizada há mais de 120 (cento e vinte) anos por colonos em busca de jazidas minerais e por ser uma área pioneira de acesso à Amazônia, é marcada historicamente por muitos conflitos de terra (FERRAZ, 2000).

Pois bem, os campi da UFT estão localizados em lugares estratégicos do Estado, como é o caso de Tocantinópolis, situado na divisa com os Estados do Pará (região norte) e Maranhão (região nordeste). Vale destacar que as diferentes territorialidades desse Estado foram ocupadas por indígenas, afrodescendentes entre outros grupos. Em Tocantinópolis, só para se ter uma ideia dessa diversidade, vivem mais de 3000 (três mil) indígenas, a maioria da etnia Apinaye (Apinajé) e poucos da etnia Khraô, distribuídos em várias aldeias, localizadas na região rural do município.

A Universidade Federal do Tocantins tem a responsabilidade e o compromisso de elevar o nível de escolaridade da população do Estado do Tocantins, “ao oferecer uma educação contextualizada e inclusiva. Dessa forma, a universidade tem desenvolvido ações voltadas para a educação indígena, Educação do Campo e de jovens e adultos” (PPC, 2018, p. 09).

Atualmente, o campus de Tocantinópolis possui quatro (4) cursos de graduação, todos presenciais e de licenciatura plena, a saber: Pedagogia, Ciências Sociais, Educação do Campo com habilitação em Artes e Música e Educação Física. Há previsão de se ter mais um curso até o ano de 2019, que se refere ao bacharelado em Direito, aprovado no Plano de Desenvolvimento do Campus – PDC no ano de 2018. Contudo, o campus ainda não possui cursos de pós-graduação – stricto sensu e lato sensu, mas estão em fase de planejamento.

O curso de Educação do Campo da UFT é ofertado na modalidade presencial em dois campi: Arraias e Tocantinópolis. Foi implantado em 2013, por meio do Edital n.º 02/2012-

SESU 15 16 17 18 /SETEC /SECADI /MEC-2012 com apoio do PROCAMPO, com suas primeiras turmas iniciando no início do ano de 2014. O ingresso no curso ocorre por meio do vestibular, sendo que as vagas são distribuídas por meio do sistema universal, através de cota para indígenas, por meio de cotas para quilombolas e cotas para aqueles que concluíram o ensino médio em escolas públicas. As entradas no vestibular ocorrem anualmente, sendo que a primeira entrada no curso ocorreu em 2014 com 120 (cento e vinte) alunos. Atualmente, a entrada no curso é de 40 (quarenta) alunos por ano. A quantidade diminuiu devido ao fato de ter grande evasão

no curso, nos últimos 2 (dois) anos, como pode ser visto na tabela abaixo:

 

Tabela 1 – Quantidade de alunos matriculados nos cursos de

Licenciatura em Educação do Campo da Universidade Federal do

Tocantins no período de 2014 a 2018.

 

Cursos de Licenciatura em 2014 2015 2016 2017 2018 Educação do Campo / UFT

Campus de Arraias 120 120 120 59 40

Campus de Tocantinópolis 96 103 83 44 54

Total 216 223 203 103 94

Fonte: Adaptado de Silva (2018a).

 

Conforme mostrado na Tabela 1, há uma diminuição na quantidade de alunos que ingressaram no curso de Educação do Campo em Tocantinópolis nos últimos 4 (quatro) anos e, segundo meu entendimento, isso está vinculado a 4 (quatro) fatores: a) ao corte nas bolsas permanência desses estudantes no ano de 2017 pelo MEC e diminuição drástica da oferta dessas bolsas pela UFT em 2018, que ajudam a mantê-los no período de aulas; b) a ausência de um restaurante universitário no campus; c) ausência de transporte que auxilie na locomoção do educando no trajeto da comunidade onde mora até a cidade de Tocantinópolis para fazer o curso; d) a aprovação do Projeto de Emenda Constitucional – PEC n°. 55/2016 que paralisa os investimentos públicos em diversos setores, entre eles, o da educação, por 20 anos, o que acaba sendo um retrocesso no desenvolvimento do país.

Quando essa PEC foi aprovada, o discurso das elites era de “enxugamento” nas despesas que pudessem viabilizar o crescimento econômico do país, porém, na verdade, foi uma forma de concretizar um golpe político ocorrido no Brasil com o Impeachment da presidenta Dilma Rousseff em 2016, em que a elite do país, assim como o sistema capitalista que só gera lucro para si próprio, se interessava mais no sistema financeiro do que no desenvolvimento da nação. Além disso, com essa PEC, o próprio Plano Nacional de Educação – PNE foi afetado, pois essa política

pública destinava um aumento de porcentagem do PIB 19 do país para a educação em até cinco anos (7%), chegando a 10% até 2024, segundo a sua Meta 20 (BRASIL, 2014). Contudo, com essa “PEC da morte”, o próprio Plano se mostrou incapaz de concretizar isso, o que afetará negativamente o desenvolvimento da educação brasileira nos próximos anos.

O Projeto Pedagógico do Curso de Licenciatura em Educação do Campo com habilitação em Artes e Música foi elaborado pela primeira vez em 2013, pelo colegiado desse curso que, na época, era formado por apenas 4 (quatro) professores. No final do ano de 2017 para início de 2018, passou por atualização em sua matriz curricular e parte pedagógica, o qual teve seu corpo docente ampliado, atualmente contando com 15 (quinze) professores – 12 (doze) efetivos e 3 (três) substitutos – de diferentes áreas: Pedagogia (1), Artes Visuais (1), Música (4), Teatro (4), Letras (1), Geografia (2) e Sociologia (2).

Miranda e Cover (2016) argumentam que a escolha pela área de linguagens com habilitação em Artes e Música para o curso de Educação do Campo se justifica pelo fato de suprir a demanda da área nas escolas localizadas na região de Tocantinópolis, principalmente na área de artes, bastante incipiente no Estado. Num

breve diagnóstico realizado 20, foi constatado que a maioria das escolas de Educação Básica da cidade e da região não possui professores formados na área de Artes.

É importante destacar que a arte acompanha o próprio desenvolvimento da sociedade. É manifestada por diferentes meios e tem na educação um meio possível para que o jovem e o adulto da Educação do Campo possam desenvolver suas habilidades, conhecer as diferentes manifestações artísticas a sua volta, ampliar o seu conhecimento cultural, formar conceitos, criar ideias, fomentar críticas da realidade e a ter uma sensibilidade estética. Assim, “enquanto criação essencialmente humana, a arte é produzida em determinada época, contexto, cultura e sociedade” (ARAÚJO; OLIVEIRA, 2015a, p. 686); portanto, deve ser considerado o contexto social e cultural em que é produzida e analisada.

Nessa direção, a matriz curricular do curso foi estruturada pensando na interdisciplinaridade basicamente entre essas 4 (quatro) áreas: Artes, Educação, História e Sociologia, todas possíveis de serem dialogadas com a Educação do Campo e de acordo com as necessidades e demandas do curso. Assim, o Projeto Pedagógico do Curso é estruturado em três núcleos, a saber: os conteúdos referentes à formação do educador (núcleo comum); os conteúdos referentes às áreas, especificamente das Artes (núcleo específico); e os conteúdos relacionados às atividades complementares, como a extensão, pesquisa, estágios, participação em eventos acadêmicos entre outros (núcleo de atividades complementares).

Ter um projeto pedagógico que se estruture a partir das necessidades de aprendizagem do educando, tendo seu contexto como fonte de estudo e pesquisa, articulado com os movimentos sociais, é uma forma de propor um projeto que seja, ao mesmo tempo, articulado com as demandas e necessidades do curso, e que seja emancipador, democrático e inclusivo (VEIGA, 2001). Ou seja, na visão da autora, é preciso superar a concepção conservadora e centralizadora do currículo tradicional, não sendo mero instrumento de controle. Nesse sentido, além de ter a participação da comunidade em sua elaboração, assim como aconteceu no curso de Educação do Campo, quando os movimentos sociais participaram da criação do Projeto Pedagógico do Curso, ele deve conceber a teoria e a prática de forma dialética, ao compreender que no projeto há, de um lado, “a ação que subsidia o pensamento para a construção de novas ideias […] e de outro, a teoria representada por um conjunto de ideias, sistematizado a partir da prática pedagógica” (VEIGA, 2001, p. 57).