Letramento Estético na EJA e na Educação do Campo
5.2. Os textos das histórias produzidas pelos jovens e adultos camponeses
5.2. Os textos das histórias produzidas
pelos jovens e adultos camponeses
Ao iniciar o Experimento Didático-Formativo com os estudantes jovens e adultos, eu havia deixado claro no planejamento de ensino que em um determinado momento das tarefas de estudo, seria iniciada a produção textual das histórias. Esse momento ocorreria logo após os conteúdos de leitura e escrita terem sido trabalhados com os estudantes, sempre tentando seguir do abstrato ao concreto, isto é, numa perspectiva dialética e não tradicional, como ocorre na educação atual, enfatizado anteriormente neste capítulo.
Diante disso, me questionava: como posso trabalhar essas ações (ler e escrever) de forma que os sujeitos jovens e adultos se tornem, enquanto sujeitos históricos, conscientes de suas realidades? Como criar necessidades e motivá-los no processo de maturação das formações mentais para que desenvolvam a percepção visual e estética? Como fazer para que avancem na aprendizagem de signos verbais e visuais via história em quadrinhos? Foram algumas dessas questões que me motivou a trabalhar com as HQs enquanto núcleo nesta investigação, pois entendo que essa linguagem consegue ser um meio eficiente para motivar esses alunos nesse processo de desenvolvimento da leitura e da escrita, por aliar os signos visuais e verbais na consolidação desse processo.
É importante assinalar que os processos de leitura e escrita desenvolvidos ao longo do Experimento Didático-Formativo se constituíram de diferentes experiências de vida dos jovens e adultos camponeses, registradas por meio da arte. Essas histórias se desenvolveram nesse experimento no decorrer do tempo universidade e tempo comunidade e, na medida em que os conteúdos avançaram, as histórias tomaram forma e se enriqueceram de mais signos verbais e não verbais, devido ao amadurecimento das funções psicológicas superiores desses educandos no decorrer desse processo.
No entanto, antes de iniciar as análises dos textos verbais, quero fazer uma observação: os textos aqui socializados, produzidos pelos jovens e adultos da Educação do Campo durante o experimento, são apresentados nas formas manuscrita e digitada. A razão por optar por essas duas formas se justifica pelo fato de entender que nem todas as pessoas (leitores, pesquisadores e outros interessados) podem conseguir compreender a escrita do educando, o que pode levá-los a desinteressarem pela leitura e análise. Ressalto ainda que foi preservada, no texto digitado, a originalidade de cada texto escrito pelos jovens e adultos, incluindo erros gramaticais, de pontuação entre outros, para não descaracterizar os sujeitos desta pesquisa. Dessa maneira, entendo que essa forma de apresentação não atrapalha nem desqualifica os textos aqui socializados e analisados; ao contrário, contribui para que seja mais bem visualizado pelo leitor.
Logo abaixo, trago o texto da aluna L3, camponesa do Projeto de Assentamento Água Branca, interior do Estado do Tocantins:
Quadro 1 – Texto da história em quadrinhos da aluna L3.
Caminho da escola no campo
Daniel morador do Capão do
Boi, acorda as 4:30 da
manhã, caminha três
quilômetros ate o ponto do
ônibus. O mesmo passa as
6:00 horas da manha,
percorre 55km chegando as
07:15 da manhã na agrovila
do pé de piqui no projeto de
assentamento Agua Branca.
Estuda por quatro horas,
saindo as 11:15 da escola
chegando no ponto por volta
de 12:30 para novamente
caminha seus três
quilômetros para emfim as
13:00 chega almoçar.
Fonte: Elaborado pela aluna L3.
(2016).
A história relatada pela aluna L3 desvela a realidade da maioria dos jovens e adultos camponeses que frequentam a universidade: acordar de madrugada, caminhar alguns quilômetros para pegar o ônibus mais próximo (quando tem) para chegaram à instituição (geralmente atrasados). Após o fim das aulas, retornam a suas casas fazendo o mesmo trajeto.
Essa dificuldade para se locomover até a universidade para estudar e que atinge uma boa parte dos estudantes jovens e adultos do campo é um dos motivos de desistência deles pelos estudos. Muitos alunos do curso, além de serem trabalhadores do campo, têm que ajudar nos afazeres domésticos e cuidar da família. Além disso, ao chegarem à universidade, nem sempre encontram espaço com boa infraestrutura, além de se depararem com a falta de materiais didáticos, como, por exemplo, os materiais referentes às disciplinas de artes no curso, como tintas, pincéis, diferentes tipos de papéis entre outros.
No caso em questão, os estudantes que participaram do experimento não tiveram acesso aos laboratórios de artes (Artes Visuais e Música, respectivamente) do curso de Educação do Campo, do campus universitário de Tocantinópolis, pois na época, esses laboratórios só existiam no papel. No entanto, passados 2 (dois) anos, os laboratórios existem, porém, especificamente no de Artes Visuais, ainda faltam equipamentos e materiais didáticos para equipá-lo e iniciá-lo efetivamente.
Pela análise feita, entendo que os jovens e os adultos do campo não devem ter os seus direitos de estudar e permanecer, com dignidade e qualidade, negados por escolas ou universidades, pois deixariam de desenvolver o seu pensamento crítico, histórico e político. É na universidade que aquele aluno indígena, quilombola, assentado pela Reforma Agrária, quebradeiras de coco, ribeirinhos, atingidos por barragens entre tantos outros camponeses, fazem valer os seus direitos de poderem cursar uma educação pública, gratuita e com qualidade, que há muito tempo na história brasileira, foi mais reservada às elites desse país. Diante disso, frequentar e permanecer na universidade, além de ser extramente vitorioso para eles, é uma forma de se humanizarem, se reconstituírem enquanto sujeitos históricos e de lutarem por um ensino que é de direito deles também.
Ou seja, há uma contradição entre o que é posto no discurso do poder público e na legislação brasileira a respeito do direito e o acesso à educação, com o que é feito na prática, dado o descaso desse poder público em ofertar uma educação com qualidade e condições de acesso e permanência desse estudante na universidade. Daí a importância de investir mais nas Licenciaturas em Educação do Campo – LEDOC no país, para que possam formar mais professores e professoras para atuarem nas escolas do campo e que possam lutar contra as mazelas que a sociedade lhes impõe. As LEDOC qualificam os diversos jovens e adultos camponeses para que atuem nas inúmeras escolas de Educação Básica localizadas no meio rural brasileiro.
Dito com outras palavras, a própria relação entre capital e trabalho ajuda a produzir essas contradições na sociedade, reveladas nas muitas histórias que esses jovens e adultos camponeses relataram nesta pesquisa.
Na história desenvolvida pela aluna R2 da comunidade quilombola de Cocalinho, em Santa Fé do Araguaia-TO, ela mostra um pouco do quão difícil é a realidade do jovem e do adulto camponeses:
Quadro 2 – Texto da história em quadrinhos da aluna R2.
A menina da mochila de saco de arroz
Em um pequeno povoado morava uma menina chamada R278.
Todos os dias a menina ia a escola, com seus materiais escolares
dentro de um saquinho de arroz amarrado com um pedaço de
cordão, sempre quando chegava a escola pedia uma nova mochila,
mais sempre recebia a mesma resposta.
Fonte: Elaborado pela aluna R2. (2016).
R2: papai você me dar uma mochila nova para me leva meu
caderno.
Pai: filha papai não tem dinheiro agora mais um dia eu prometo lhe
dá.
R2: tudo bem papai.
A menina meio que conformada agradecia pois percebia que seus
pais não tinha condições de compra sua mochila, conformada pois
sabia que toda semana podia troca de saquinho, pois em sua
escola tinha disputa de saquinhos de arroz mais enfeitados, todos
seus colegas tinha o saquinho de arroz como mochila.
Um certo dia R2 chega da escola seu pai a chama.
Pai: R2 venha cá filha
R2: sim papai
Então ele á entrega uma sacola com um objeto dentro. então a
menina tem seu desejo realizado uma linda mochila de cor
vermelha. R2 ficou tão feliz que não conseguia se conter de tanta
felicidade.
Na manhã seguinte R2 vai a escola com sua linda mochila
vermelha. todos seus colegas pede para ver, dai R2 percebe que
seus colegas continua com seus saquinhos de arroz e sente-se
triste por ver que somente ela tinha uma mochila de verdade. ela
percebe que sua tão sonhada mochila não era mais importante,
porque apenas ela com uma mochila.
No dia seguinte R2 chega a escola sem sua mochila nova e
continua com seus materiais no saquinho de arroz deixando de lado
sua linda mochila. alguns tempos depois a escola do povoado
através de um beneficio municipal ganha uma verba para compra
uniformes completos para os alunos, roupas, caderno, lápis
borracha e mochila. Aparti dai todos deixaram de usa o saco
plástico de arroz e passaram a levar seus materiais escolar em suas
mochilas novas.
Essa é uma história real que aconteceu na comunidade Quilombola
de Cocalinho-TO.
Fonte: Elaborado pela aluna R2. (2016).
Na escola municipal Emanuel.
E R2 sou seu. e essa história é minha.
Fonte: Elaborado pela aluna R2. (2016).
Como se observa, o contexto sociocultural da estudante reflete as condições socioculturais a que os estudantes camponeses estão submetidos. Além disso, a estudante relata uma história real, vivida por ela enquanto frequentava a escola, pautada por muita dificuldade e desafios, que por serem inúmeros, não a fizeram desistir de seus estudos, ao contrário do que ocorre com a maioria de jovens camponeses.
É possível constatar ainda na história contada pela aluna quilombola que as histórias em quadrinhos lhe possibilitaram revelar a sua vida no campo, as contradições existentes, a compreender as ações que ocorrem no seu meio social e cultural, as suas condições de vida e humanas, que não estão desconectadas das relações sociais estabelecidas entre ela e as pessoas do seu convívio.
Nesse sentido, para que seja possível refletir e compreender essa realidade, é necessário interpretá-la, para que seja possível intervir e transformá-la. Foi o que a aluna R2 fez, ao materializar a sua realidade nas histórias em quadrinhos, revelando a sua essência. Contudo, essa totalidade revelada pela realidade dessa estudante só foi possível compreendê-la a partir das suas contradições, pois mostrou em sua história que o camponês, desde muito cedo, se depara com as intempéries da vida, como a falta de lugar para morar, luta constante pela Reforma Agrária, sem condições adequadas para estudar, somados a uma escola do campo que, geralmente, é bem precária e tradicional. Esses problemas que, na verdade, são construídos pela sociedade, entendem que esse sujeito do campo não tem o direito de trabalhar, estudar e permanecer no lugar que ele escolheu para construir a sua vida, como também compreendem que esse sujeito não deve participar das decisões de seu país, negando aquilo que é seu por direito.
A sua atuação na história, bem como a sua cultura e identidade são cessadas por aqueles que compreendem que a educação não precisa ouvir as suas vozes, pessoas essas que tanto contribuem para o crescimento do país. A sociedade esquece ou nega que são os camponeses que plantam, cultivam e colhem os alimentos que abastecem a população brasileira e, isso, para o capitalismo que só pensa em gerar lucros para si próprio, não mostra. É preciso enfrentar a forma como a educação é posta aos povos do campo pelas classes dominantes, pois não se pode jogar fora ou perder as conquistas e avanços da Educação do Campo conseguidos nos últimos anos por aqueles que lutam por uma educação de qualidade e que seja adequada à realidade camponesa.
Nesse sentido, defender a escola do campo é compreender que a criança, o jovem, o adulto e o idoso vivem e estudam no campo; portanto, não precisam se deslocarem obrigatoriamente até a cidade para estudarem. No entanto, é importante deixar claro a eles que há problemas tanto na cidade quanto no meio rural, mas que precisam entender que esses problemas podem e precisam ser enfrentados e superados.
É importante que a escola do campo seja um projeto voltado à realidade rural, evitando reproduzir a “urbanidade” que, na verdade, não faz parte da sua cultura e tradição. Para isso, a escola do campo precisa trabalhar com conteúdos voltados ao campo, com metodologias adequadas e que tenha a alternância como o seu alicerce.
É importante assinalar que a escola e a universidade são exclusivas no momento que negam os direitos desses educandos de acessar e permanecer nelas, quando não consideram a realidade deles, quando impõem conhecimentos ditos como “verdadeiros” e que não respeitam as especificidades e saberes de seu alunado.
Por outro lado, um aspecto bastante presente no campo e ressaltado por uma das histórias produzidas mostra o quanto esse espaço é permeado de lutas e disputas. Falo da história do aluno A5, intitulada “Destruição da Floresta”, que descreve como o agronegócio ainda influencia na política agrícola e educacional do país. É importante ressaltar que a sua história foi construída segundo as suas experiências de vida com o campo, como militante dos movimentos sociais:
Quadro 3 – Texto da história em quadrinhos do aluno A5.
Destruição da floresta
Laura – aaaaaah!!
Laura – Mas o que é isto Francisco! que está acontecendo aqui?
Francisco – É o trator Laura derrubando a floresta para o plantio de
soja!
Trator – Bla, bla, bla, bla!
Francisco – Laura é o resultado da política agrícola adotada pelos
nossos governantes!
Laura – não pode ser Francisco, como pode uma floresta tão bonita
ser arrancada para o plantio de sojá!
Laura pensando – Meu Deus!!
Francisco – Laura é assim, que os grandes fazendeiros ligados ao
agronegócio e ao grande capital fazem.
Fonte: Elaborado pelo aluno A5. (2016).
Francisco – Destroem toda a floresta sem piedade!
Laura – Francisco o que vai acontecer agora com o rio! que nasce
lá dentro da floresta? que está sendo arrancada e que passar lá no
nosso assentamento?
Francisco – O único propósito desses grandes fazendeiro é o lucro
cada vez maior, e por isso não respeitam o meio ambiente.
Francisco – por isso Laura duas coisas podem acontecer com o rio,
ele vai secar ou assorear por conta do desmatamento!
Laura – quedizer Francisco que não vamos más poder banhar mas
no rio?
Francisco – Porque eles plantam com venenos! e quando chove as
enchorrar, levam os resíduo dos venenos para dentro do rio Laura!
Francisco – O único propósito desses grandes fazendeiros é o lucro
cada vez maior, e por isso não respeitam o meio ambiente.
Laura – Nesse sentido transformaram numa agricultura não
sustentável, pois usam degradando as condições da natureza, do
solo, das águas, envenenando os rios e eliminando todas as formas
de vida! Não é mesmo Francisco!
Francisco – E o pior Laura as sementes que eles plantam são
transgênicas sementes “Inventada” nos laboratórios, para que
produzam somente se utilizar venenos nelas! Fim
Fonte: Elaborado pelo aluno A5. (2016).
A história do aluno A5 demonstra a realidade do camponês que é modificada duramente pelos interesses do capital. Muitos povos do campo trabalham em lavouras, em jornadas extensas ao longo do dia, para plantarem e colherem alimentos que chegam às mesas das pessoas e também para a sua sobrevivência. Além disso, terra aqui é entendida não apenas como solo, mas território, lugar de vida, de trabalho, de estudo, moradia e produção de alimento, mas de conflitos também. Não deve ser tratada ou considerada como mera mercadoria para o agronegócio que, para lucrar e gerar capital, destrói inúmeros rios, vegetações e polui o meio ambiente, com a justificativa de que promove o crescimento econômico do país com a exportação de produtos. Com isso, questiono: elevar a economia do país e fazê-lo crescer, implica destruir terras de agricultores familiares? Expulsar índios e quilombolas de suas comunidades? Exterminar essas populações em conflitos, geralmente, violentos e cada vez mais presentes no campo brasileiro? Como o ocorrido na região do Bico do Papagaio, em Tocantins na década de 1980? É na terra que o camponês constrói as suas relações sociais e de produção, onde se constitui como sujeito histórico.
É importante ainda ressaltar nessa análise, a aprovação pela Câmara dos Deputados em 2018 do Projeto de Lei n°. 6.299/2002, conhecida como a “PL do Veneno” que representa, na verdade, maior flexibilidade no uso de agrotóxicos nas plantações no Brasil. Em outras palavras, caso esse projeto seja sancionado pela presidência da república, haverá maior quantidade de veneno nos alimentos que abastecem as casas da população brasileira, o que pode resultar, dentre outros problemas, o aparecimento de inúmeras doenças como o câncer, provocadas por esses agrotóxicos. Não há dúvidas de que, na história contada pelo aluno A5, ao mostrar o conflito presente no campo brasileiro, de que é mais um golpe do agronegócio contra o povo brasileiro, principalmente aqueles que vivem no campo.
A Educação do Campo nasceu como uma mobilização dos movimentos sociais contra a lógica capitalista que via o campo como lugar de negócio, que expulsa as pessoas que ali vivem, estudam e trabalham, afirmando que esse espaço não precisa de educação, mas de lucro e mercadoria. É por isso que esse novo modelo de educação surgiu, para lutar contra uma lógica que não era dela, que negava os seus direitos, saberes, conhecimentos, culturas e identidades de um povo que só quer lutar por aquilo que é dele e de direito. Com efeito, a Educação do Campo luta por uma educação emancipadora e humanizadora, uma vez que o campo é um espaço de lutas, de contradição e de poder. Nessa análise, é possível afirmar que os jovens e adultos do campo querem continuar sendo agricultores e lutar pela terra e Reforma Agrária, pois necessitam de melhores condições de vida e trabalho no campo.
No entanto, outra história merece ser analisada nesta pesquisa: a aluna C5, de 41 anos e moradora de um Projeto de Assentamento no Estado do Maranhão, produziu um texto que relata um acontecimento real ocorrido em sua comunidade, envolvendo a leitura e a escrita. Em sua história, mostra que é possível, a partir da linguagem visual, um analfabeto se comunicar com objetos de sua realidade. No entanto, para que essa comunicação aconteça, é preciso que o seu pensamento se desenvolva, para que possa compreendê-la, atribuindo-lhe significado, como foi o caso dos personagens Ana Joaquina e João.
Quadro 4 – Texto da história em quadrinhos da aluna C5.
Fonte: Elaborado pela aluna C5. (2016).
O camponês que não sabia ler
Seu João um homem de mais ou menos 55 anos, casado e pai de
um filho de nove ano de idade, ambus moravam em um
assentamento que fica a 22km da cidade.
Um certo dia por consequêcia do destino, Ana Joaquina, a esposa
de seu João adoeceu. Ele muito preocupado com Ana, procurou
ajuda médica e ela foi muito bem atendida pelos médicos. Durante
muito tempo, Ana Joaquina foi acompanhada pelos médicos,
enfermeira, e agente de saude, em sua propria residência, pois seu
caso era muito grave. No entanto, quando Ana teve uma pequena
melhora os médicos pararam de visitá-la, mais continuou com o
tratamento e receitou muitos medicamento que Ana precisaria para
seu tratamento.
Eis ai uma grande preocupação, pois seu João e Ana Joaquina não
sabiam ler nada ou seja não conseguiam ler as bulas dos remédios,
para saber que horas tomar, então ficou na responsabilidade das
agentes de saúde, de medicar Ana varias vezes por dia, e durante
muito tempo isto aconteceu.
Até que um dia Dalila teve uma brilhante idéia! pegou uma caixa de
sapatos, decorou, e depois dividiu em vários compartimento, e em
cada compartimento da caixa ela colocou um tipo de remédio, e
sabe como ela fez para seu João entender, o horário de cada
medicamento? Pois é, Dalila colocou no compartimento o remédio
que Ana tomava três vezes ao dia, ela desenhou com E.V.A, o sol,
um bifé e a lua.
Pois, o sol reprezentava a manhã, o bifé, o meio dia, e a lua
representava a noite…
E assim, ela colou em cada compartimento o desenho que
representa o horário certo de cada medicamento. E o seu João
através dos desenhos que Dalila colocou na caixa, conseguiu
contnuar com o tratamento de Ana sem dificuldade ou confusão,
graças a brilhante idéia de Dalila.
Fonte: Elaborado pela aluna C5. (2016).
Na história da aluna C5 é possível observar a contribuição dos signos visuais para a compreensão da realidade de dois camponeses analfabetos. Como não sabiam ler e escrever, duas importantes ações linguísticas, necessitavam aprender uma linguagem que pudessem fazê-los comunicar com o mundo a sua volta e, foi com a internalização desses signos, que conseguiram efetivar esse processo. Mas, para isso, foi preciso que a personagem Dalila fizesse as representações dos objetos (remédios) para que, relacionadas às práticas sociais que estabelecem e as suas experiências de vida, pudessem desenvolver os seus pensamentos.
A esse respeito, Davídov (1988, p. 111) traz uma pertinente contribuição: é por meio da comparação e separação das propriedades dos objetos, que se orienta a compreensão, visando dar-lhe algum conceito. É a partir disso que é possível diferenciar os objetos. Para o autor, essa generalização orienta o início da produção do conhecimento, uma vez que essa ideia se refere ao pensamento empírico que tem como principal objetivo classificar os objetos a partir da abstração (conceito). Assim, “se o princípio do entendimento consiste na identidade abstrata, na unidade formal, em troca, o princípio da dialética, da razão é a identidade concreta como unidade das diferentes definições […]”. Ou seja, a definição pode mudar, caso se desenvolva.
Dito de outra forma, após os dois camponeses terem internalizado os conceitos, relacionaram-nos com a situação da realidade deles (necessidade de tomar remédio) na qual os conceitos estavam na forma concreta. Embora tanto o abstrato quanto o concreto se complementam dialeticamente, apenas o conhecimento empírico não é suficiente para que eles cheguem ao pensamento teórico.
Nesse raciocínio, na medida em que tomam consciência de que são analfabetos, se colocam como importantes sujeitos que reivindicam acesso, permanência e condições adequadas para frequentar a escola, para que possam, enfim, aprender a ler e a escrever e a fazer uso das linguagens verbal, visual e oral para atender as suas necessidades. Desse modo, com a apropriação desses signos, eles podem modificar e interferir de forma crítica na sua realidade.
Vale destacar que uma personagem teve papel fundamental nessa história: Dalila, por ser a mediadora no processo de leitura realizada por Ana e João, ao agir como o indivíduo mais experiente que ensinou os menos experientes, ao atuar na Zona de Desenvolvimento Proximal – ZDP deles. A respeito disso, a teoria Histórico-Cultural entende que é na interação com os indivíduos mais experientes que o indivíduo internaliza e se apropria da linguagem, fundamental para que possa desenvolver as funções psicológicas superiores. Nesse caso, assimilaram os signos visuais a partir do movimento de pensamento realizado, com o auxílio da personagem Dalila, protagonista da história.
Essa análise permite afirmar que, para o desenvolvimento das funções psicológicas superiores, é necessária a participação de um indivíduo (mediador) mais experiente que o indivíduo que desenvolve essa atividade, pois é importante esse sujeito aprender com a experiência do outro. Um exemplo básico foi o que ocorreu nessa história da aluna, quando a personagem Dalila foi a pessoa mais experiente para ensinar os dois camponeses analfabetos menos experientes. Além disso, o contexto social, cultural e histórico no qual o indivíduo se insere é a base para o desenvolvimento das suas funções psicológicas superiores. Ou seja, essas funções se desenvolvem a partir das relações sociais, de signos e outras ferramentas que os humanos criam para determinados fins e as utilizam para satisfazer as suas necessidades.
Ao considerar a diversidade das histórias produzidas pelos discentes da Educação do Campo, há também que se destacar aquelas que foram frutos da imaginação, sendo algumas fantasiosas, como é o caso do texto produzido pela aluna M2, de 42 anos, socializado em seguida:
Quadro 5 – Texto da história em quadrinhos da aluna M2.
Fonte: Elaborado pela aluna M2. (2016).
A formiga triste
Era uma vez uma formiga muito triste que caminhava sozinha pela
floresta em busca de um abrigo, quando de repente encontra com
um tamanduá enorme e faminto. Ao encontra-se com a formiga o
tamanduá foi logo lhe cumprimentar dando-lhe boas vindas. Quanta
honra encontrar você por aqui! O que faz uma senhorita andando
sozinha numa floresta tão perigosa? A formiga inocente falou: ando
a procura de abrigo, pois perdi tudo que eu tinha na última enchente
do riacho gogó da ema. O tamanduá, muito comovido com a triste
história da formiga, convidou para seu abrigo. A formiga sentou-se
embaixo de uma árvore e ficou pensando se aceitava ou não o
convite do tamanduá. Foi aí que veio na lembrança as histórias que
sua falecida mãe contava, que tamanduá adora degustar formigas.
Ao recordar essa história a formiga foi logo subindo na árvore para
se proteger das garras do tamanduá, que fico só na vontade de
degustá-la.
Fonte: Elaborado pela aluna M2. (2016).
Em seu texto, M2 relata uma história voltada à imaginação para demonstrar, mesmo que de forma fantasiosa, como as emoções afetam as pessoas. Ao utilizar da arte para se comunicar algo, enquanto representação da realidade, a aluna deixa claro que os sentimentos vividos pelo camponês podem encontrar nessa linguagem, meio para expressá-los. Com esse pensamento, Vigotski (2009) assevera que as pessoas expressam os seus estados internos por meio de imagens da fantasia, revelando os seus sentimentos. Desse modo, essas imagens se tornam fragmentos isolados da realidade, ao se relacionarem com as emoções da pessoa. Contudo, embora sejam frutos da imaginação, a história não deixa de estar vinculada à realidade da aluna M2.
Posto isso, Vigotski (2009) ressalta que a fantasia na arte inquieta e contagia o indivíduo, ao provocar emoções que podem ser reais e, inclusive, vivenciadas pelo ser humano, como o sentimento de medo, relatado pela personagem formiga que, por mais que tenha sido fruto da imaginação da autora/aluna M2, se refere a apenas uma das inúmeras emoções sentidas pelos camponeses nos conflitos existentes no campo brasileiro.
Quero dizer que as emoções provocadas pelos desenhos são descargas da imaginação desenvolvida pela aluna que, segundo Vigotski (1998), se formam em movimento expressivos da arte ao contagiá-la com diferentes sentimentos que, inclusive, podem ser tanto bons quanto ruins, baseados na perspectiva da teoria Histórico-Cultural.
Como se verifica na história dessa aluna camponesa, as histórias em quadrinhos lhe possibilitaram que ela superasse a aparência do fenômeno, fundamental para avançar no pensamento e chegar ao concreto pensado. Desse modo, a história dela explica, e não apenas descreve, as ações desenvolvidas na realidade. Com esse movimento, o pseudoconcreto é negado (superado).
A partir dessa análise, quero dizer ainda que a arte dessas histórias, além de ser cultura e conhecimento, humaniza a estudante camponesa, por havia lhe possibilitado modificar e interferir na sua realidade, pois ela, assim como o jovem e o adulto da Educação do Campo, não são entendidos nesta pesquisa como indivíduos fragmentados, desconexos de suas relações sociais e desconsiderados de sua totalidade que os constituem como sujeitos históricos.
Em consonância com essas análises, ressalto na observação da história da aluna C2 a luta pela terra enquanto espaço de vida, trabalho, estudo e de relações sociais, mostrado logo abaixo. Ela relata uma história verídica que ocorreu com a sua família, agora representada pelas histórias em quadrinhos. As dificuldades que ela menciona no decorrer do seu texto são características dos homens, mulheres, crianças, jovens e idosos camponeses: maioria pobre, sem lugar para morar, negros, analfabetos e que saem nas estradas da vida em busca de um lugar para viver e produzir o seu sustento. Ao encontrarem uma terra produtiva para se instalarem, começam a construir as suas vidas.
Quadro 6 – Texto da história em quadrinhos da aluna C2.
A conquista
Em 10 de janeiro de 1967, sairam três camponêses em busca de
um lugar adquadro para morar e poder criar suas familias, andaram
por vários dias até que encontraram o lugar desejado. Os
camponêses fizeram seus barracos de palhas e ali foram
reconstruindo suas vidas. Depois de vários meses que estavam no
determinado lugar, um dos três homens voltou no lugar em que
morava antes, para buscar seus familiares e os outros dois ficaram.
Depois que muitos anos se passaram, quando já estavam todos
adaptados, o lugar já bem evoluido, com bastante pessoas morando
lá, todos felizes. Chega uns homens todos trajados, altos e de boa
aparência, dizendo que aqueles povos tinham que desocupar
aquelas terras, pois elas tinha donos, e eles eram os donos. Foi ai
que todos moradores se desespera e se perguntam uns aos outros,
para onde vão e o que vai ser da vida deles, então todos se uni e
falam que não sai, e os homens disseram que eles iam sair por bem
ou por mal, e foram embora.
No dia seguinte veio um trator a mando dos homens para gradiar as
terras próximo aos barracos, e um recado, que no outro dia o trator
viria derrubar os barracos, foi ai que homens, mulheres e crianças,
pegaram foiches, facões, machados e inchadas e espingadas e
colocaram o tratorista para correr.
Passado três dias chega um oficial de justiça com uma intimação a
procura de um dos moradores, que seria o líde daquele povo e
pediu para ele assinar a intimação, más o líde não assinou nada
pediu licencia e saiu. Nesta saída ele vai até a cidade, onde
encontra um amigo que lhe informa uma pessoa que pode lhe
ajudar. O lide vai até essa pessoa, que e um homem e pedi ajuda,
conta toda história para a pessoa, e a pessoa lhe diz, para voltar
para sua comunidade que no outro dia ele irá lá com um advogado,
e assim aconteceu. no outro dia ele chega com o advogado na
comunidade e orienta os moradores o que eles devem fazer, e
assim fizeram.
Fonte: Elaborado pela aluna C2. (2016).
Depois de alguns dias os homens voltaram e conciente de que os
camponêses não iriam sair de forma alguma, resolveram negociar
com eles, ofereceu uma escola em troca de metade das terras, os
camponêses decidiram que era pouco, então pediram também um
Posto de Saúde. Os homens aceitaram e feicharam a negociação, e
assim os camponêses conseguiram o espaço onde vive até hoje.
Fim.
Fonte: Elaborado pela aluna C2. (2016).
No entanto, nesse percurso, surgem os grileiros, pessoas que usam falsas escrituras para se apropriarem de terras de outrem, além dos grandes empresários e fazendeiros que, sob ameaças, expulsam famílias inteiras das terras que ali se encontram, como também índios de diferentes etnias, quilombolas, ribeirinhos entre tantos outros, desmatando a flora brasileira e matando sua fauna, para construir as suas indústrias e criar plantações que abastecem, com os seus lucros, muito mais os bolsos da elite burguesa que as mesas dos brasileiros. É nesse sentido que há tensão no campo: entre aqueles que defendem o campo como espaço de vida e sobrevivência, e aqueles que defendem esse espaço como mercadoria e geradora de lucros para a propriedade privada.
É nesse contexto conturbado que os movimentos sociais, sindicatos e outros setores da sociedade civil se fazem presentes para lutar por avanços para a classe trabalhadora. Enfrentar uma política neoliberal que visa às elites é buscar alternativas reais que possam melhorar a qualidade de vida dos mais afetados: negros, pobres, indígenas, ribeirinhos, assentados entre outros que vivem no campo. Por isso é necessário que os diferentes grupos sociais pressionem, articulem e reivindiquem os seus direitos, para que possam, enfim, exercer efetivamente a sua cidadania.
É necessário salientar ainda o importante papel dos movimentos sociais que lutam a favor de uma educação que atenda efetivamente as necessidades, especificidades, cultura, identidade e saberes do jovem e do adulto do campo, que tentam superar a hegemonia capitalista que cada vez mais enxerga o campo como lugar de produção de capital e de poder, que não precisa da educação para realizar as suas ações. Com esse pensamento, lutar pelo direito à educação, ao trabalho e à vida são formas do camponês resistir às investidas do agronegócio que avança com tanta força nas terras brasileiras.
Com isso, vencer esse conflito que envolve questões agrárias, revelado nas histórias em quadrinhos socializadas nesta investigação, é lutar por uma educação mais humana, uma vez que a arte possibilitou à aluna C2 desenvolver a sua percepção visual e a imaginação para que ela conseguisse explicar, a partir da interpretação da realidade, as tensões presentes no meio rural brasileiro. Além disso, a história vivenciada por essa estudante contribui para intensificar uma realidade nua e crua: o agravamento das desigualdades sociais, econômicas, étnicas e de gêneros presentes no contexto rural brasileiro.
O campo também é lugar onde se produz cultura e identidade de diferentes povos campesinos, que, por meio da coletividade ali construída entre eles, produzem conhecimento. Essa afirmação é desvelada na história aqui analisada na sequência, a respeito do povoado de origem da educanda N1, localizado no interior do Estado do Tocantins.
Quadro 7 – Texto da história em quadrinhos da aluna N1.
O peixe que virou “santo”!
Em um lugar muito seco e distante, morava uma certa família, que
sofria muito por não ter terra para plantar e nem casa própria para
morar. Num certo dia o pai disse:
- Vamos sair desta terra muié? Vamos procurar um lugar melhor
para nossos filhos.
- E vamos para onde marido?
- Arruma as trouxas e os meninos, eu pego o Zeca e vamos andar.
Não esquece a farofa, pois a viagem é longa.
O pai colocou a cangaia no Zeca, pegou a família e saiu a procurar
um lugar para plantar e morar.
A família andou por vários dias seguidos, parava só para comer e
dormir. Após vários dias de viagem, chegaram em um de terra boa.
E o pai disse.
- É aqui o lugar, vamos desapiar as coisas e acampar.
- Será marido? É melhor andar mais. Responde a mulher.
- Muié, eu conheço terra boa, pega os meninos e as trouxas e é
aqui que vamos ficar.
A mulher duvidando resmunga.
- Ele pensa que sabe de tudo!
- Muié, muié, eu escutei, se alcame olha aqui tem até um ribeirão
para pescar e os meninos banhar, a terra é boa.
Logo no primeiro dia, o pai resolve pescar para almoçar.
- Muié corre, corre, corre peguei um peixe e é grande.
- E é graúdo o bicho. Que peixe é esse?
- É uma traíra, tu não conhece mais? parece que ficou foi besta.
E então Julião tem um idéia.
Fonte: Elaborado pela aluna N1. (2016).
- Vou botar o nome desse lugar de traira. O que tu acha Lorença?
- Tu ficou foi doido, onde já se viu chamar um lugar de peixe.
Mesmo Lorença achando que Julião tinha enlouquecido, o nome do
lugar ficou Traíra. Os dias foram passando e passando e o restante
da família de Julião e Lorença foram chegando e o acampamento
cresceu e cresceu.
Em um certo dia resolveram mudar o nome do lugar e fizeram uma
consulta popular para escolher o nome do lugar. E a confusão
começou.
- Eu quero Nazaré
- E eu Fortuna
- Não, tem que ser Resada
- Há, vai ser Santa Terezinha diz Julião
Após muita confusão, foi escolhido o nome Santa Terezinha. E
Lorença diz
- Eu disse que o Julião era doido, onde já si viu peixe virá santo
Fonte: Elaborado pela aluna N1. (2016).
A partir desse contexto, associado ao processo histórico de seu povo, os personagens da história relatada conseguiram, por meio de signos e ferramentas por eles criadas quando ocuparam a terra, a satisfazerem as suas necessidades. Posto isso, esse processo possibilitou a eles desenvolverem o povoado e as relações sociais que os constituem na historicidade. Em outras palavras,
O homem satisfaz as suas necessidades por meio de movimentos vivos (ou ações) realizados no meio social; cujo conjunto caracteriza a sua atividade. A atividade humana está mediada pela psique, mas esta é uma psique que já adquiriu a forma de consciência (na consciência, simultaneamente, se conservam as funções gerais da psique: estruturação das imagens da realidade e também a busca e a prova das ações sobre a base destas imagens). A natureza histórico-social da consciência permite ao ser humano realizar a busca e a prova das ações baseando-se nas imagens ideai. (DAVÍDOV, 1988, p. 38).
Esse fragmento de Davídov é pertinente nessa análise, pois é no meio social do qual o jovem e o adulto da Educação do Campo constrói e dele faz parte, que ele cria diferentes objetos para satisfazer as suas necessidades, explicado a partir da história da aluna N1. Esse processo o ajuda a superar a aparência do real para que ele próprio tenha tomada de consciência. Contudo, não é uma realidade qualquer, mas permeada de conflitos, contradições e desafios que ele precisa enfrentar constantemente para ocupar o seu lugar na história. Nesse sentido, é possível afirmar, a partir da história relatada, que a ocupação da terra não está desvinculada das relações sociais que o jovem e o adulto da Educação do Campo desenvolvem com os seus pares, tampouco separada das atividades produtivas e ações que lhes permitem avançar na luta pela Reforma Agrária.
É nessa interpretação da realidade que o jovem e o adulto camponeses, enquanto seres sociais, na figura de Julião, personagem e um dos protagonistas da história em quadrinhos construída pela aluna N1, tiveram na coletividade de seus pares e nas relações sociais ali construídas entre eles a tomada de consciência para irem à busca da emancipação e humanização de seu povo.
Como mostram essas histórias em quadrinhos, a maioria delas revela aquilo que Karl Marx denominou de contradição, pois é possível constatar nelas contradições entre a realidade camponesa com a aparência “distorcida” do mundo no qual vivem, isto é, o que se tem na realidade é coisa bem diferente. Além disso, é importante assinalar que a escola, a universidade e o campo são espaços de intensas desigualdades sociais e tensões que ocasionam disputas para defender determinados interesses de uma dada classe. Assim, a partir dessa categoria foi possível compreender a exploração da realidade vivida pelo jovem e adulto camponeses para que em seu movimento, pudesse ser transformada, por meio de signos verbais e visuais construídos nas histórias em quadrinhos.
Nesse pensamento, o materialismo histórico e dialético permitiu entender o movimento da realidade pela abstração. Porém, essa só foi possível via pensamento teórico, que possibilitou compreender a totalidade. Nesse sentido, as histórias em quadrinhos, como núcleos, revelaram a essência da realidade que cerca os jovens e adultos da Educação do Campo, pois estão articuladas com a condição material e objetiva deles, uma vez que, se fossem outros jovens e adultos, em outros lugares, não seriam essas histórias. As análises feitas permitem afirmar ainda que foram as relações sociais, humanas, de trabalho e de ocupação da terra, que geraram essas histórias. Portanto, é a vida deles registrada e revelada pela arte.