Letramento Estético na EJA e na Educação do Campo
3.4. As histórias em quadrinhos como linguagem para a compreensão da realidade
3.4. As histórias em quadrinhos como
linguagem para a compreensão da
realidade
Em pesquisas que realizei nos últimos anos a respeito das histórias em quadrinhos (ARAÚJO; COSTA; COSTA, 2008; ARAÚJO; NARDIN; TINOCO, 2010; ARAÚJO, 2013), compreendi que contar uma história ou se comunicar por imagens ocorre desde as pinturas rupestres, pois as imagens que o homem pré-histórico fazia se referiam a animais abatidos, objetos que circundavam a sua volta entre outros signos visuais. Na verdade, era uma forma de ele retratar a realidade a sua volta, uma vez que ele produzia tintas a partir dos elementos que o rodeavam, como terras, fezes, folhas entre outros e as utilizava, com as mãos ou instrumentos coletados na natureza, como gravetos de arvores, para “pintar” nas paredes das cavernas.
A partir desse raciocínio, parece-me estar claro que as histórias em quadrinhos existem desde a arte rupestre e, que ao longo da história, se disseminaram de diversas formas em impressos literários, publicitários, na internet e livros didáticos, além das formas
tradicionais como nas tiras 55 de jornais e das próprias revistas de histórias em quadrinhos, se tornando grandes veículos de comunicação popular em todo o mundo. Nos últimos anos, vem despertando o interesse de professores, pesquisadores, estudantes, entre tantos outros profissionais de discrepantes áreas, que veem nela uma forma de linguagem de bastante potencial, o que a levou a ser utilizada com certa frequência nas instituições escolares e instituições de ensino superior.
O homem tem marcada tendência para contar, ouvir, ver ou ler histórias. É uma constante universal no tempo e no espaço: em todas as épocas temos narrativas, em todos os lugares habitados há histórias. Além disto,
tudo serve para contar história: a língua escrita ou falada, o teatro, a coreografia, o cinema, os monumentos, a música […], e as histórias em quadrinhos. As diversas artes estão aí, há séculos, narrando fatos e feitos. Assim, esta sua manifestação principal foi a que lhe deu o nome e quase lhe define a essência: história em quadrinhos é uma história em imagens (CAGNIN, 1975, p. 21).
Segundo Vergueiro (2012), as histórias em quadrinhos representam na sociedade um meio de comunicação de massa bastante popular e acessível às pessoas. Englobam uma enorme variedade de títulos, gêneros que são consumidos por diferentes públicos, principalmente jovens e adultos. Mesmo com o advento da internet, os quadrinhos ainda continuam fazendo sucesso e unindo um grande público, bastante interessado e fiel. Afirma que os quadrinhos vão ao encontro das necessidades do indivíduo, pois além de ser um importante instrumento de comunicação, têm como principal elemento a imagem, isto é, a linguagem não verbal. E isso tudo, por meio de imagens. O autor fala que, olhando e analisando essas imagens das cavernas, basta colocá-las em um requadro dos quadrinhos, para parecerem uma “história em quadrinhos”.
Eisner (1989) afirma que desde o século XVIII os artistas que se dedicavam em contar histórias utilizaram imagens em sequência, separadas por quadros, para que pudessem contar uma história ou representar algo que, com apenas textos escritos, seria complexo ou impossível de descrever. Ao aprimorar esse processo, surgiram as histórias em quadrinhos hoje conhecidas mundialmente.
Para Cagnin (1975), as histórias em quadrinhos têm como importante função a de contar uma história por meio da sequência de imagens e de comunicar histórias e ideias por meio de imagens e palavras (EISNER, 1989). Elas, aliás, têm grande poder de representação visual, pois, uma mesma imagem, mesmo representada em outros países, terá o mesmo significado para o leitor, isto é, “o Pato Donald, assim escrito, neste livro é uma coisa. Escrito em japonês, hieróglifo, inglês, italiano, francês, é algo diferente em cada lugar do mundo, mas a simples visão de sua figuração gráfica quebra tudo e transforma o mundo todo numa aldeia só” (MOYA, 1977, p. 95). Desse modo, ao ler uma história em quadrinhos, o estudante jovem e o adulto do campo poderão "entrar", fazer parte da história que estão lendo.
As histórias em quadrinhos, entendidas como arte sequencial, isto é, “uma série de imagens disposta em sequência” (EISNER, 1989, p. 10), se desenvolveram desde o seu surgimento em impressos, datado inicialmente do final do século XIX em tiras de jornais nos Estados Unidos e também no Brasil, até conquistarem uma posição significativa na cultura popular dos séculos XX e XXI (EISNER, 1989). Assim, as primeiras revistas de histórias em quadrinhos surgiram apenas na década de 1930, abrangendo diferentes temas e histórias.
Como mostrado no início deste tópico, contar histórias faz parte da civilização humana desde os seus primórdios. Todavia, Eisner (2005) salienta que uma de suas funções está a de ensinar algum comportamento na comunidade, transmitir ideias (abstratas ou não), valores, conhecimento, despertar a curiosidade entre tantos outros. Ou seja, história, nessa perspectiva, pode ser definida como “narração de uma sequência de eventos deliberamente arranjados para serem contados” (EISNER, 2005, p. 13). É importante assinalar que toda história tem uma estrutura, basicamente, a popularmente conhecida: início, meio e fim. No seu desenvolvimento, há uma linha de eventos que ocorrem com o objetivo de dar sentido à história produzida, desenvolvendo as ações.
Fica assim, evidente, que as histórias em quadrinhos são uma forma de linguagem e comunicação bastante disseminadas no mundo todo por diferentes veículos de comunicação, como jornais, revistas e até mesmo internet e que, além de contar diferentes histórias, retratam a realidade por meio dos signos verbais da escrita e dos desenhos. Vem sendo objeto de estudo de diferentes áreas, principalmente da Educação, muito devido ao seu potencial de linguagem e recurso pedagógico, para se trabalhar em sala de aula com estudantes. A esse respeito, trago neste livro alguns diálogos dessa arte com a Educação do Campo e com a teoria Histórico-Cultural.
Pois bem, se as histórias contadas pelos quadrinhos têm na imagem o seu principal elemento, então é importante falar um pouco sobre elas. A esse respeito, Eisner (1989) menciona que é importante que ela se desenvolva em interação com o leitor, a partir das experiências do mesmo, para que ele possa atribuir sentidos e significados à mensagem visual apresentada. Isso possibilita afirmar que é possível contar uma história em quadrinhos apenas com imagens, como, por exemplo, o cotidiano de uma pessoa, retratando os momentos dela em seu dia a dia. Assim, conceitua imagem como sendo,
[…] a memória de um objeto ou experiência gravada pelo narrador fazendo uso de um meio mecânico (fotografia) ou manual (desenho). Nos quadrinhos, as imagens são, geralmente, impressionistas. Normalmente, elas são representadas de maneira simplista com o intuito de facilitar sua utilidade como uma linguagem (EISNER, 2005, p. 19).
Certamente, para contar uma história apenas com imagens, é necessário que a sequência visual na história criada pelo autor possibilite a sua compreensão pelo leitor. Entretanto, com o acréscimo de palavras, essa forma de retratar a realidade pode ter outro sentido e significado. Ou seja, é importante que esse leitor contribua com os diálogos durante o desenvolvimento da história, o que exige uma “alfabetização visual” por parte de quem lê a história (EISNER, 2005), como pode ser visto na imagem abaixo, produzida por uma das alunas do curso de Educação do Campo da UFT/Tocantinópolis:
Imagem 2 – Imagem de um trecho de uma história em
quadrinhos.
Fonte: Elaborada pela estudante A1 (2016).
Como se pode observar na imagem acima, há uma história em quadrinhos contada por meio de imagens e diálogos que representam uma determinada realidade social e cultural da educanda. Como é possível notar, a estudante utiliza alguns signos visuais característicos das histórias em quadrinhos como os balões e o close, que é a imagem destacada de algum detalhe da cena, com o objetivo de chamar a atenção do leitor, como se pode notar no desenho da televisão. Além disso, os balões que representam a fala dos personagens apresentam diferentes cores, com o propósito de chamar a atenção do leitor para o diálogo construído na cena desenvolvida por 4 (quatro) personagens sentados ao redor de uma mesa. A estudante deixa claro nesse quadrinho que o objetivo não era focar nos personagens, uma vez que eles estão em segundo plano, mas chamar a atenção do leitor para a cena de televisão e a escrita dos balões, que indicam categorias presentes em sua história criada: palestras, oficinas e comunidades, que se referem à ocupação realizada pelos estudantes do campus da UFT/Tocantinópolis no ano de 2016, que reivindicavam melhores condições de estudo na época.
Contudo, se eu retiro as palavras e deixo apenas as imagens, eu entendo a história e dou sentidos para ela. Isso é possível devido ao fato da autora (aluna) ter conseguido construir uma sequência visual que me possibilita essa compreensão, a partir da abstração e internalização do objeto estudado. Porém, tal sequência não é fácil, pois exige abstração e autonomia da aluna em conseguir desenvolver essa leitura a partir dos signos visuais e da escrita, o que foi possível pelas tarefas de estudo e ações mentais desenvolvidas por ela ao longo do Experimento Didático-Formativo.
Nessa linha de pensamento, Eisner (1989) chama a atenção ao fato de que, no tipo de história essencialmente visual, é importante que o leitor tenha uma observação atenta e certa experiência com a linguagem visual para saber compreender e, consequentemente, interpretar o que o autor tenta demonstrar na história, pois, ao contrário do cinema, que apresenta uma quantidade maior de sequência de imagens em movimento contínuo, as histórias em quadrinhos apenas “simulam” esse movimento, numa página impressa, com uma quantidade menor de imagens.
Dos sinais de trânsito às instruções mecânicas, as imagens ajudaram as palavras e, muitas vezes, até as substituíram. Na verdade, a leitura visual é uma das habilidades obrigatórias para a comunicação neste século. E as histórias em quadrinhos estão no centro desse fenômeno (EISNER, 2005, p. 07).
Nessa discussão a respeito de sua historicidade, chamo atenção a um aspecto importante presente nessa linguagem: a sua linguagem visual que a caracteriza como uma HQ. Foi a partir disso que começou a ser discutido o vocabulário dessa arte, com o objetivo de compreender melhor os termos específicos que fazem parte e que constituem sua linguagem. Consequentemente, pelo fato de disseminar com bastante rapidez e por comunicar de forma mais rápida a mensagem ao leitor, devido aos signos escritos e visuais, as HQs começaram a fazer parte das leituras de um público mais amplo, fortemente marcado pelos jovens e nos dias atuais, também com os adultos. Desse modo, “pode-se esperar dos leitores modernos uma compreensão fácil da mistura imagem-palavra e da tradicional decodificação de texto” (EISNER, 1989, p. 07).
O processo de escrita se mostra mais presente nessa discussão, pois o ideal é que o autor seja, ao mesmo tempo, o artista e o escritor da história, pois retratará mais fielmente e com maior intimidade a história criada por ele (EISNER, 2005, p. 118). Nas palavras do autor, “as histórias em quadrinhos são uma mídia confinada a imagens estáticas, desprovidas de som ou movimento, e o texto tem de suprir essas restrições”. Foi nesse sentido que, ao longo do experimento realizado, objetivei que os jovens e adultos da Educação do Campo fossem, ao mesmo tempo, autores e escritores de suas histórias em quadrinhos.
Com esse pensamento, Eisner (1989, p. 09) defende que as histórias em quadrinhos são meios de leituras acessíveis às camadas populares, são possibilidades, mas não únicas, principalmente para aqueles indivíduos que apresentam dificuldades com a leitura e a escrita, uma vez que, para o autor, “o processo de leitura dos quadrinhos é uma extensão do texto. O ato de ler envolve uma conversão de palavras em imagens […]. Assim, quando executados de maneira apropriada, eles vão além da conversão e da velocidade e tornam-se uma só coisa”. É possível observar esse processo na maioria dos quadrinhos produzidos pelos jovens e adultos da Educação do Campo por meio do Experimento Didático-Formativo nesta investigação.
No entanto, ao contrário de décadas atrás, levar os quadrinhos hoje para a sala de aula é bastante aceitável e bemvindo às escolas e universidades brasileiras, por ser uma importante linguagem que possibilita criar e recriar a realidade, além de serem motivadores para leituras de crianças, jovens e adultos. Com a sua inserção
cada vez mais presente nessas instituições56, inclusive presente em
livros didáticos, provas de ENEM 57 e vestibulares, bem como
citados nos PCN58 59 e no PNBE, é possível dizer que há uma relação harmoniosa entre os quadrinhos e a educação, visto que “ler
quadrinhos é ler sua linguagem, tanto em seu aspecto verbal 60 quanto visual (não verbal)” (RAMOS, 2012, p. 14).
Em algumas pesquisas que realizei com outros autores sobre essa linguagem com estudantes universitários (ARAÚJO; COSTA; COSTA; 2008), vivenciei diferentes experiências com as histórias contadas e produzidas por eles, retratadas nos seus desenhos e em seus respectivos textos. Muitos alunos que participaram das oficinas
que eu ministrei sobre HQs na universidade61, na minha época de graduação, eram de diferentes idades e cursos: História, Letras, Geografia, Engenharia, Matemática entre outros, o que reafirma a tese de que trabalhar com essa linguagem em sala de aula, com planejamento e a devida adequação aos conteúdos a serem trabalhados, é bastante produtivo e enriquecedor para o processo de ensino e aprendizagem do educando na formação de suas funções psíquicas, além de ser um interessante recurso pedagógico para professores que queiram trabalhar com ele em suas aulas.
Não verifiquei, nessa época, resistência quanto ao trabalho das histórias em quadrinhos em sala de aula, tampouco quando trabalhei essa linguagem com estudantes da Educação Básica, o que pode ser conferido em (ARAÚJO; NARDIN; TINOCO, 2010). Ao contrário, verifiquei que os alunos gostavam de ler e desenhar essas histórias e, quando viam o resultado final, era uma vitória para eles, pois muitos relatavam que “venci um obstáculo que achava que não conseguiria!”.
À luz desse pensamento, Ramos (2012) faz uma importante observação: os quadrinhos, às vezes, são designados por diferentes nomes, muita vezes devido à falta de conhecimento a respeito de seus gêneros e de suas características. Outra designação que se afirma é que as histórias em quadrinhos também são uma forma de literatura, talvez pelo fato de adaptar clássicos literários em formas de quadrinhos, como “O Alienista” (Machado de Assis), entre outros. Porém, o autor chama a atenção para o fato de que a HQ não é uma literatura, pois possui uma linguagem autônoma e características específicas que as caracterizam como tal, embora hoje tenham pontos comuns com a literatura, assim como têm também semelhanças com outras linguagens, como o cinema, por exemplo, o que não concordo, pois defendo que, assim como Eisner (1989, p. 06) “as histórias em quadrinhos são, ao mesmo tempo, uma forma de arte e de literatura”. Nesse sentido, é importante compreender os quadrinhos como um grande rótulo que abriga diferentes e variados gêneros (tiras cômicas, cartuns, charges, etc.).