Letramento Estético na EJA e na Educação do Campo
6.8. O desenvolvimento da escrita do estudante camponês jovem e adulto
A linguagem sequencial das HQs proporcionou ao jovem e o adulto da Educação do Campo uma ampliação no entendimento do tempo transcorrido de um quadrinho para o outro, além de revelar, pela imagem, signos que os ajudaram a compreender a história de forma mais “objetiva”, como relatado pela aluna L3 em sua história, quando, numa determinada cena, ela desenhou um relógio marcando 04h30min, importante para ajudar a compreender que o camponês trabalhador passa o dia todo trabalhando no campo, levanta nesse horário para pegar um ônibus e chegar à universidade, para não se atrasar, isto é, sem perder as aulas nesse dia, para continuar os seus estudos. Isso, quando tem esse transporte para locomovê-lo do campo para a universidade ou quando não vai a pé mesmo.
Os alunos mostraram ainda em suas falas que a leitura visual ajuda a compreender o sentido e o significado dos textos que eles construíram. Mas, para isso, em suas concepções, foi necessário que os desenhos fossem bem feitos, não necessariamente bonitos, desenvolvidos pela sequência de imagens, que, por sua vez, as histórias em quadrinhos fazem com clareza. Por conseguinte, tiveram a oportunidade de conhecer palavras novas, que de certa forma, enriqueceram os seus vocabulários. No que concerne à leitura visual, as HQs ampliaram as suas habilidades de leitura com a imagem quando utilizada com o texto verbal e em diferentes momentos de suas vidas.
6.8. O desenvolvimento da escrita do
estudante camponês jovem e adulto
Por ser um sistema de signos verbais e visuais que ajudam a constituir a linguagem falada na interação e comunicação humana, as palavras produzem sentido e se relacionam dialeticamente com as frases e parágrafos no texto (VIGOTSKI, 2009, 2007). Sob esse raciocínio, as histórias em quadrinhos têm na sua linguagem visual uma contribuição importante para ampliar a escrita desenvolvida nas histórias, ao aliar imagens e palavras na sua elaboração.
Tanto a linguagem escrita quanto a linguagem falada são tidas como detentoras do saber pela classe dominante que, sob os seus interesses, impõe aquilo que é considerado verdadeiro e absoluto. Assim, aquelas pessoas que não as dominam são desconsideradas socialmente, se isolam e se somam às classes desprestigiadas e excluídas pela sociedade capitalista, nas quais se inserem os inúmeros camponeses. Nesse pensamento, a leitura e a escrita acabam sendo uma revolução para eles, pois, por meio delas, conseguem sobreviver ao mundo que se mostra cada vez mais letrado, porém, contraditório a sua realidade. E é por isso que entendo que a arte tem esse poder de revelar a essência das coisas, de mostrar o real verdadeiro e contribuir para que o jovem e o adulto da Educação do Campo produzam as suas relações sociais, materiais e conhecimentos de seu povo.
A respeito do desenvolvimento da escrita, perguntei se a história em quadrinhos ajudou o jovem e o adulto a desenvolver melhor a sua escrita. Suas respostas seguem abaixo:
Ajudou, porque você escreve a história, lê, revê o que tá faltando, que palavras estão certas e quais estão erradas. Só do fato de você estar lendo, você fala assim: "Não tá certo essa vírgula aqui! Tem que vir para cá!", ajudou demais, bastante. (A1)
Ajudou, porque é o seguinte: na maneira que você vai escrevendo, erra, você vai corrigir, então você apaga e faz de novo…porque num trabalho desse, você não lê só uma vez…você faz e refaz muitas vezes. (A5)
Sim. Melhorou muito porque toda vez que eu lia ela, eu tentava fazer melhor, mais bonitinha, bem desenhada, e tentava consertar os erros que eu encontrava. (C5)
Ajudou… igual eu falei, por causa da pontuação, aí eu vou ler e falo: “isso aqui é o que, uma exclamação…”, aí eu vou ler, vou olhar para a cara dos personagens, ver pontuação ali, se tá perguntando, afirmando. (M2)
Melhorou…no sentido das frases, quando a gente vai formar uma frase. (C2)
Sim, porque fomos desenhando e fazendo textos e assim desenvolvemos melhor a escrita. (E1)
Posso dizer que sim, porque quanto mais ler, desenvolvemos habilidade para escrita. (E3)
Sim, pois aprendi a escrever algumas palavras que eu tinha dúvidas na hora da escrita. (G1)
Melhorou… na história em quadrinhos, às vezes a gente coloca uma fala lá, e a gente: “poxa, qual é o sinal que a gente usa aqui…é uma exclamação”, a gente ia compartilhando com os colegas…aí interroga, mas eu diz, não to perguntando, to convidando ele…aí o que eu uso, é uma exclamação. (G3)
Ajudou muito…à medida que ia escrevendo e lendo minha história, dava mais vontade de escrever e me permitir ir ao mundo da imaginação. (I2)
Ajudou, porque eu lia e relia o texto…via que palavra que tava errada e fazia de novo…uma vírgula ali…me exercitou muito. (J1)
Quando eu fiz o meu texto eu tive que reescrever…e eu vi alguns erros na reescrita, meu texto foi tomando outra forma…então melhorou. (N1)
Sim. Ajudou e ajuda. Aquela atividade lá que fizemos você vai escrevendo e vai automaticamente visualizando as cenas, como você vai organizar aquilo lá nos quadrinhos. (S1)
Não diria que somente a escrita e sim a leitura. Pois a história em quadrinhos nos auxilia na hora de redigir, pois precisamos nos adaptar ao ato da síntese. Pois se faz necessária organização nas frases, na organização do pensamento. (S2)
Boa parte dos alunos entrevistados alegou que as histórias em quadrinhos contribuíram para que as suas escritas melhorassem, pois argumentaram que o fato de terem que escrever mais de uma vez os textos verbais das histórias, fez com que, semelhante às leituras, pudessem identificar erros na escrita. O fato de colocarem as palavras no interior dos quadrinhos, nas legendas, nos balões ou fora deles, às vezes com diferentes formatos (palavras com tamanhos diferentes, algumas em negrito, sublinhadas, maiúsculas e minúsculas) com o objetivo de desenvolver visualmente a história verbal por eles criada, os ajudaram a avançar na aprendizagem não apenas da leitura, mas da escrita também, pois, além de conhecerem novas palavras, símbolos visuais e outros signos, desenvolveram o pensamento para compreender de forma mais dinâmica, objetiva e consciente, a realidade na qual eles nasceram, vivem, estudam e trabalham.
Esse desenvolvimento do pensamento formado durante a criação das histórias, indo do geral para o particular, tornou a escrita desses educandos significativa, por realçar as suas emoções, seus sentimentos, as suas vidas e contradições presentes no meio rural brasileiro. A escrita para esse sujeito do campo (quilombola, ribeirinho, assentado da Reforma Agrária, atingidos por barragens, indígenas, movimentos sociais entre outros) não é apenas um ato de se comunicar com o mundo a sua volta, mas é um meio de fazêlo presente, de exercer a sua cidadania e a superar uma realidade pseudoconcreta que assola o território camponês.
Os seus depoimentos permitem afirmar que contextualizar os conteúdos para a realidade camponesa abre possibilidade real de impulsionar o interesse e motivação do sujeito do campo em querer aprender. Isso é fundamental para tornar a aprendizagem que está em constante processo de formação e transformação, significativa, uma vez que é por meio da linguagem escrita e da leitura que eles se apropriam de diferentes conhecimentos.
Nesse sentido, entendo que as histórias em quadrinhos, a partir de uma atividade de estudo, proporcionaram aos jovens e adultos da Educação do Campo oportunidade de participarem e interagirem coletivamente com o desenvolvimento de ações intelectuais que envolvem a leitura e a escrita em sala de aula. Consequentemente, as suas escritas e leituras foram melhoradas, uma vez que as tarefas trabalhadas no Experimento Didático-Formativo com eles permitiram que eles desenvolvessem as suas funções psicológicas superiores pela aprendizagem da linguagem visual (desenhos) e da linguagem verbal (palavras) que, muitos deles, não conheciam até participarem desta pesquisa.
O camponês se depara com um conjunto de fenômenos presentes em seu cotidiano que penetra na sua consciência, mas que não são verdadeiros. Para Kosic (1976), uma vez que são caracterizados por objetos externos que passam a impressão de serem naturais, da feitichização humana e as aparências das coisas que nada revelam as suas verdadeiras essências, embora o fenômeno se manifeste diretamente, o mesmo não ocorre com a essência. Por isso, da relevância e necessidade de ela ser revelada na Educação do Campo.
É importante assinalar nessas análises que o processo de produção das histórias em quadrinhos, a leitura dessas revistas e das próprias histórias que eles produziram se relacionavam com a realidade do homem do campo. Com isso, passaram a produzir inferências, hipóteses, comparação e generalização durante as leituras que pudessem ressignificá-los e humanizá-los enquanto sujeitos históricos que produzem relações sociais e delas produzem conhecimento.
O experimento demonstrou que as histórias em quadrinhos podem e devem sim serem utilizadas na sala de aula como meio para se trabalhar conteúdos numa perspectiva de ensino desenvolvimental, pois a linguagem visual dessas histórias contribui significativamente para a uma alfabetização visual do jovem e do adulto da Educação do Campo, o que torna, consequentemente, a leitura mais atraente e interessante para ele. Os elementos dessa linguagem, como os requadros, os balões, os enquadramentos entre outros funcionam nas histórias dialeticamente, pois não dá para dissociá-los da realidade do campo, da luta pela terra e por direitos para a população camponesa.
É preciso mais histórias em quadrinhos na sala de aula. São meios que motivam a leitura e a realização de práticas artísticas pelo educando, o que proporciona benefícios para a formação desse aluno como, por exemplo, um avanço interessante em sua aprendizagem com os signos visuais, ao ampliar a sua compreensão de leitura, uma vez que a linguagem, enquanto interação social, não comunica apenas por palavras, mas também por imagens. Embora muitos desses jovens e adultos do campo não tenham tido contato com as histórias em quadrinhos antes de ingressarem na universidade, é importante dizer que em suas vidas essa linguagem torna significativa a interação deles com as pessoas de seu meio, a observarem e a interpretarem diferentes signos para se comunicarem com elas, o que é importante para a formação intelectual deles.
A partir dessas análises, é possível dizer que a estética hoje se refere não apenas a uma obra bem feita, mas a um objeto ou pensamento que tem mais que um valor artístico, isto é, que ofereça uma harmonia e equilíbrio em suas formas, isto é, uma qualidade estética. Nesse âmbito, corrigir ou amenizar problemas que aparecem na leitura e na escrita, buscando melhorá-las, é uma forma de pensar numa possibilidade de letramento estético. Pois na pesquisa realizada, os alunos passaram a escrever melhor após produzirem as HQs. Melhoraram a escrita. Isso é belo, beleza: caráter de bem feito (obra bem feita); coerente, definida, boa forma.
Portanto, pensar numa possibilidade de letramento estético também tem a ver com as concepções dos jovens e adultos do campo acerca do contexto camponês, pois, o que é belo para eles? São sujeitos homens e mulheres trabalhadores do campo que trazem as suas experiências com o campo e as suas condições materiais de vida para a sala de aula de uma universidade! Se conseguem escrever melhor após produzirem histórias em quadrinhos; se tomaram consciência de sua realidade; se há a possibilidade de melhorarem a escrita e a leitura a partir dessa linguagem; se por meio dos signos verbais e visuais conseguem mostrar as contradições e os conflitos existentes no campo, entendo que isso é belo, pois tem caráter de obra bem feita e coerente, uma vez que, mais do que melhorar os seus processos de leitura e escrita, as HQs representaram significativamente a essência do campo que poucos brasileiros conhecem.