Letramento Estético na EJA e na Educação do Campo
6.5. A leitura do estudante camponês jovem e adulto
Com efeito, o pensamento teórico “não tem por objeto a diversidade imediata das coisas; estuda-as por meio da objetivação idealizada específica e só então realiza as suas possibilidades. Os símbolos e os signos são os meios de construção da objetivação idealizada” (DAVÍDOV, 1988, p. 134). Ou seja, os conteúdos trabalhados nas tarefas de estudo a respeito das histórias em quadrinhos ajudaram na formação do pensamento teórico dos alunos. Em suma, o desenvolvimento dessa atividade proporcionou uma formação mais plena neles, ao conseguirem identificar e conhecer os signos que compõem as histórias em quadrinhos.
À luz desse pensamento, Davídov (1988) defende que o ensino deve impulsionar o desenvolvimento mental dos alunos. E por que não partir de suas realidades por meio da arte? Com isso, o ensino pode ajudá-los a terem uma atitude nos modos de pensar, analisar e entender os objetos e as relações que esses têm com a realidade. É por isso que o pensamento teórico, que ocorre da ascensão do abstrato ao concreto, é relevante nesse processo, pois possibilitou ao jovem e adulto do campo a amadurecer as suas funções psíquicas superiores.
Destaco ainda que nas aulas do experimento busquei não “entregar” o conceito pronto ao aluno, pois era necessário que ele o desenvolvesse a partir de suas experiências com a realidade e por meio de situações-problema promovidas pelas produções das histórias em quadrinhos, ocorridas no Experimento Didático-Formativo, o que me permitiu inferir que muitos deles tiveram condições de desenvolver a sua criatividade.
6.5. A leitura do estudante camponês
jovem e adulto
Ler é uma habilidade que se desenvolve a partir da formação de processos mentais que o indivíduo amadurece por meio de atividades realizadas por ele. Contudo, tanto a escola quanto a universidade precisam criar meios que aproximem o camponês da leitura e, consequentemente, do livro. É possibilitar ao educando conhecer o desconhecido, imaginar e criar. É preciso entender o contexto, ler o mundo, como defendia Paulo Freire.
Na concordância com essa reflexão, é importante demonstrar que o ensino e aprendizagem não se realizam apenas em instituições de ensino formal, mas em outros espaços de vivências e resistências também, como no meio rural. No entanto, esse processo pedagógico precisa partir das experiências do jovem e do adulto camponeses.
Pois bem, ao serem perguntados qual é a importância da leitura para a Educação do Campo, os alunos apresentaram as suas respostas:
Olha, é de extrema importância, porque sem a leitura, a pessoa fica presa num mundo dos outros que sabem ler…né… então a leitura para o cidadão do campo é uma conquista né. (A5)
Professor, eu sempre digo que a leitura e a escrita, em especial a leitura, ela é um mundo junto com nós…se eu não leio, eu não escrevo. E escrever é muito importante, porque à medida que eu sei que do que eu estou escrevendo, eu sou capaz de lhe convencer que tô certa. Que a minha história é verdadeira. E se eu não leio, é porque eu não aprendi a escrever. E seu eu não leio, eu não aperfeiçoo a minha escrita. (L3)
Eu acredito que a leitura é muito importante pra libertar as pessoas, fazer com que as pessoas enxerguem de maneira diferente e não fiquem só naquele acomodismo…eu acredito que serve para libertar. (C5)
Acho que leitura é importante para tudo…inclusive professor uma aluna lá tava no 8° ano, fiquei mais horrorizada com um episódio lá, a menina queria ir embora, aí falei para ela escrever porque tava indo embora, era por causa de cólica, aí ela disse: “Não professora, soletra aí pra mim porque eu não sei escrever a palavra cólica…eu não sei nem ler”…nossa professor, fiquei chocada…o aluno sai do ensino médio e nem consegue ler. (E5)
Assim…porque…professor a gente percebe que a Educação do Campo, os professores dizem assim: que a leitura é responsabilidade do professor de Língua Portuguesa. E eu não acho que tem que ser assim. Eu acho
que a leitura tem que ser trabalhada em todas as disciplinas, porque é através da leitura que vai aprender a escrita. (I1)
É fundamental. Porque é o seguinte, se a gente não faz a leitura, tanto a leitura escrita quanto a leitura visual das coisas, fica complicado pra gente entender…eu faço uma relação com o Paulo Freire, que a gente tem que tentar ler o mundo…é uma leitura né? E entender a palavra. (J2)
A leitura de mundo…é preciso, porque ele precisa ter essa criticidade, de saber o que é bom e o que é ruim para ele, enquanto sujeito do campo, por isso que é importante. (S1)
A arte de ler é primordial, em qualquer área do conhecimento. Pois bom leitor, bom escritor…quem muito lê, muito sabe. (S2) É importante porque através dela é possível entender tudo ao seu redor, como por exemplo, uma carta, um anúncio, uma notícia. (G1)
Sim, muito importante. Porque até para uma pessoa analfabeta…eu digo porque eu vi uma lá em Araguaína-TO, a mulher na rua, e ela tava procurando uma rua, e a placa da rua tava na frente dela, e ela tava assim, olhando…mas ela não sabia ler, aí ela disse assim, ela não perguntou pra mim, perguntou pra outra pessoa: “Ei moça, onde que fica a rua tal”, e a moça: “Você é cega? Uma placa desse tamanho…”, aí a mulher baixou a cabeça…aí eu disse: “é a rua tal”…a mulher respondeu com ignorância que ela era cega…aí ela disse assim: “não minha filha, me desculpa, eu não sei ler”, aí eu vi que ela era bem humilde…aí eu falei o nome da rua lá. (M4)
É possível constatar nas falas dos alunos que a leitura é libertadora para eles. Pelo fato de a maioria apresentar muitas dificuldades com relação à leitura e a escrita, inclusive alguns sendo analfabetos funcionais, como é o caso do aluno E3, encontram na leitura uma oportunidade de aprenderem e de se tornarem participativos numa sociedade que mais parece excluí-los, das tomadas de decisões, que incluí-los.
Os seus depoimentos mostram que a leitura é também um meio de resistência para eles, uma vez que, por meio dela, eles podem ressignificar as suas vidas e lutar a favor de seus direitos, que são tão negados pela sociedade capitalista. Ademais, palavras como “entender”, “convencer”, “imagens” e “criticidade” usadas por eles para conceituarem leitura revela que são indicativos importantes para tomaram consciência de sua realidade, pois compreenderam que essa linguagem é um importante instrumento de interação social e comunicação humana, que lhes permite avançar contra os retrocessos impostos pela propriedade privada e agronegócio. Porém, esse conceito se construiu ao longo da atividade de estudo que eles participaram.
Embora o homem do campo esteja imerso numa sociedade que se organiza por meio de práticas de leitura e de escrita, nem sempre ele teve um ensino de qualidade que promovesse uma aprendizagem adequada e efetiva no que concerne aos processos de formação dessas linguagens. É por isso que entendo que a arte, relacionada com a leitura e a escrita, pode tornar essa aprendizagem mais interessante e significativa para esse camponês.
Além disso, a aluna E5 faz uma importante observação: o problema de leitura e escrita aliada à alfabetização é um problema que se inicia bem antes, ainda na Educação Básica. A sua fala deixa claro isso, ao mencionar que uma estudante do Ensino Médio não sabia escrever uma determinada palavra, para indicar o motivo de sua ausência daquela aula. Ou seja, as contradições existentes nesse âmbito perpetuam-se na educação brasileira há bastante tempo, e os fenômenos que geram essas contradições precisam ser revelados e combatidos.
Entretanto, gostaria de destacar a fala da aluna M4. Ela relata um acontecimento interessante que ocorreu com ela e que, de forma geral, apenas corrobora os sérios problemas na educação brasileira que envolve os processos de ensino e aprendizagem da leitura e escrita. Em seu relato, é evidente que quando o indivíduo não se apropria e faz uso da linguagem escrita e oral para se comunicar e satisfazer as suas necessidades, ele não se humaniza e, portanto, não estabelece relações significativas com as outras pessoas, o que é importante para o desenvolvimento de suas funções psíquicas superiores, uma vez que, na perspectiva Histórico-Cultural, a relação entre as pessoas provoca a sua humanização e tem na aprendizagem o principal elemento para o desenvolvimento.
É importante assinalar que no excerto apresentado pela aluna I1, a mesma pontua, a partir de uma experiência vivida numa disciplina no curso de Educação do Campo, da importância de se ampliar os estudos e a aprendizagem da leitura e da escrita para outras áreas e disciplinas curriculares, e não apenas para a Língua Portuguesa, ao mencionar que o trabalho com essas duas linguagens deve abranger as demais disciplinas curriculares, ao ampliar o seu campo de conhecimento. Isso reforça a ideia de que a linguagem escrita e visual permeia todo o âmbito educacional, e não apenas é restrita a algumas áreas. Dito de outra maneira, sem a linguagem e a mediação dos signos na interação social e cultural, é impossível o desenvolvimento da comunicação humana.
Pude vivenciar nos últimos anos que a leitura é destacada na literatura científica não apenas como decodificação, isto é, do código escrito para o oral, mas também como conhecimento de mundo, de interação entre leitor e texto, que produzem, por sua vez, outras práticas sociais de leitura. Quero acrescentar ainda que as políticas públicas surgidas nos últimos anos voltadas para a leitura da população brasileira tiveram relevantes avanços nas taxas de alfabetização, se comparadas com as de 30 (trinta), 40 (quarenta) anos atrás.
Embora o Plano Nacional de Educação (2014-2024) ressalte na
Meta 979 algumas estratégias voltadas para o aumento da taxa de alfabetização na população brasileira, penso que se não tiver um esforço significativo por parte da escola e da universidade -professores qualificados, metodologias adequadas voltadas para um ensino desenvolvimental, materiais adequados, entre outros - mais eficientes e compromissados com o ensino e aprendizagem de jovens e adultos da Educação do Campo, de nada vai adiantar propor políticas públicas que demonstrem um esforço apenas na teoria, e na prática serem discrepantes da realidade desses estudantes.
Essas reflexões permitem dizer que, além de se somar aos altos índices de analfabetismo na população brasileira, o ensino tradicional, embora dissemine práticas de leitura e escrita consideradas “corretas” e “adequadas”, ao conceber ainda o livro didático como o principal detentor do conhecimento, fragmentou ao longo da história da leitura práticas de ler e escrever impostas por cânones que, por meio de um currículo fragmentado, que defende modelos de leitura como sendo únicos e verdadeiros, exclui a população camponesa, por não considerar a sua realidade nesse processo e as suas dificuldades e necessidades de aprendizagem dessas habilidades linguísticas para sua constituição social e cultural.
Nesse sentido, penso que seja fundamental a participação desse jovem e do adulto na cultura letrada, pois ele poderá ter acesso maior aos diferentes materiais de escrita existentes, visto que a maioria que reside nas cidades tem contato com eles: revistas, jornais, livros, cartas, poemas, textos virtuais na internet, entre tantos outros presentes em seu cotidiano, produzindo diálogos com maior fomentação crítica da sociedade na qual se insere, além de ampliar o seu conhecimento cultural.
Com o objetivo de ampliar a compreensão da leitura do educando jovem e adulto do campo, perguntei a eles se gostavam de ler. Essas foram as suas respostas:
Gosto. Olha, eu leio muitos livros de…como que se chama….livros políticos, eu me interesso muito pela política. (A5)
Professor eu gosto de ler, assim, quando tem um bom livro que me chame a atenção eu gosto de ler…eu não gosto de ler sob pressão, eu gosto de ler por minha livre espontânea vontade. (C5).
Sim, gosto de ler história, geografia. (E3)
Eu gosto. Eu leio sempre, eu sempre to lendo alguma coisa. Eu tenho lido muito próximo a experiências de…diria…muito…da história do nosso povo. Por exemplo, ultimamente eu tenho muito lido de como foi construída a nossa educação. Hoje a gente sabe que as leituras são muito direcionados, assim como no processo de ensino né…eu tenho buscado ler outras experiências de formação de professores, como o Movimento dos Sem Terra vê a formação de professores. (L3)
Gosto não…assim…eu leio às vezes, mas tenho dificuldade em interpretação…eu não gosto de ler, mas é necessário ler né. (M3)
As falas aqui apresentadas demonstram que a maioria dos alunos jovens e adultos, mesmo com as dificuldades apresentadas no que concerne aos processos de leitura e de leitura e escrita, gosta de ler. Embora haja alunos, como é o caso da M3, que não sabe ler pelo fato de não conseguir interpretar, as respostas foram positivas sobre o exercício da leitura pelos estudantes. Contudo, é importante destacar que cada um gosta de algo que lhe chame a atenção, de um tema que interesse a ele, pois não dá para gostar de tudo.
O fato de gostarem de ler mostra que, mesmo com as dificuldades que eles têm em interpretar textos, ou mesmo, de compreendê-los e ter acesso a uma diversidade literária, em geral, querem se aproximar da leitura. Leem porque querem e necessitam. As suas leituras são variadas e estão relacionadas aos seus contextos de vida no campo. Há alunos que preferem temas políticos (A5), outros em descobrir e entender melhor as histórias de seu povo (L3); porém, há aqueles que, por diferentes motivos, não gostam de ler (M3).
É importante frisar que a leitura leva esse educando a conhecer melhor a sua realidade e a construir conhecimento sobre ela. Ao ampliar a sua reflexão crítica a respeito do meio rural brasileiro, desenvolverá a sua imaginação e autonomia, elementos importantes do psiquismo, conforme a teoria Histórico-Cultural, logo, fundamentais para que se tornem sujeitos mais ativos nas atividades que forem realizar.
É necessário acrescentar ainda que ninguém lê aquilo que não quer. Isso ficou evidente na fala da aluna M3 e mencionado em alguns momentos desta pesquisa. Com isso, quero dizer que o jovem e o adulto da Educação do Campo leem aquilo que lhe chame a atenção, que lhes possibilite ressignificar a sua vida de camponês, como sujeitos históricos e de luta pela Reforma Agrária.
Na sequência, perguntei quais as dificuldades que os jovens e adultos têm com a leitura. As falas abaixo deixam um pouco mais claras essas dificuldades deles com o desenvolvimento dessa habilidade, inclusive, para aqueles que não sabem ler e escrever direito. Essas foram as suas respostas:
Eu tenho. Tenho dificuldade para interpretar. (A1)
Ao ler alguns textos mais complexos, sinto dificuldades de interpretar. (A2)
O foco. A concentração, porque quando eu tenho que estudar alguma coisa, tem que ser de madrugada. (A3)
Eu tenho. Eu acho que é devido eu sempre…meu estudo sempre foi seriado…aí quando eu comecei a estudar eu estava com 10 anos de idade…aí sempre foi muito seriado…eu fiz o EJA um tempo atrás, aí depois fiz magistério…acho que tenho dificuldade por causa disso, de ter começado a estudar muito tarde. (C5)
Tenho, porque tenho muita dificuldade em entender. (C2) A falta de concentração. (C4)
Eu não tenho, mas toda vida sempre gostei muito de ler…só que eu tenho um defeito muito grande, nunca termino de ler uma coisa, eu leio um pedaço aqui, outro, e já mudou pra aquele lá…eu não tenho aquela leitura de começar a ler um livro e terminar ele não. (M2)
A falta de concentração, porque quando a gente vai ler o texto, tem coisa que a gente não consegue interpretar. (M3)
Falta de concentração. Preciso controlar mais minha atenção quando estou lendo livro. (R2)
Às vezes tem algumas palavras assim…por exemplo, quando leio legislação, tem algumas palavras difíceis. Às vezes você tem que ler e reler mais de uma vez para compreender. Então você tem que fazer essa releitura. (S1)
Não…assim, qualquer coisa eu leio…a minha dificuldade é de entender (risos)… é porque eu fico lendo, aí já quero ler outra coisa…eu não me concentro, acho que me falta a concentração. (L1)
A falta de concentração. (L2)
São quase unânimes em suas falas as dificuldades com a leitura, com destaque para falta de concentração e interpretação do texto lido, que evidenciam a atenção e a distração no decorrer dos processos de leitura e escrita. A esse respeito, Vigotski (2010) ressalta que a distração é o oposto de atenção. Conceitua essa última como sendo a investida do organismo em determinados estímulos, que melhora com a repetição de movimentos e, distração, como a incapacidade do organismo em reagir a esses estímulos. Contudo, é importante assinalar que não é uma questão de concentração o fato de terem dificuldades em ler, mas de saber ler, de ter interesse e razão para ler alguma coisa. Em seus relatos, fica evidente que se “tomassem remédio” para melhorar essa concentração, não teriam dificuldades com a leitura. E não é isso.
Em outras palavras, formas de leitura que não possibilitam o jovem e o adulto da Educação do Campo a construir significados do texto lido e tampouco a formarem as suas funções psíquicas para promover esse desenvolvimento, apenas empobrecem o seu aprendizado, além de levá-los a conceber o objeto em estudo daquela leitura de forma equivocada e superficial, como, por exemplo, compreender uma realidade da qual eles não fazem parte (aparência/pseudoconcreto). Por isso da necessidade de se trabalhar com textos que sejam próximos da realidade desses educandos e que revelem a sua essência.
As suas falas levam a afirmar ainda que apenas a decodificação dos signos verbais e visuais do texto não é suficiente para que esse jovem e esse adulto do campo avancem na aprendizagem da leitura, por isso que muitos relataram essa dificuldade em entender e interpretar um texto, reforçada pela escolarização precária, de ensino essencialmente tradicional e com metodologias ineficazes que pouco contribuíram para formar plenamente as suas funções psíquicas superiores.
Para Vigotski (2010), a observação das letras num texto leva a descobrir as palavras. Logo, ao ler as palavras, conscientemente, é possível notar as letras que compõem essa palavra e que lhe conferem significado. No entanto, esclarece que quando os processos de leitura não são frequentes na vida de uma pessoa, não levam ao desenvolvimento de sua concentração para com os textos escritos. Dito de outra forma, quanto mais se lê, mais a possibilidade de desenvolver a consciência humana.
Consequentemente, compreender um texto para esse estudante camponês que apresenta dificuldades com a leitura e escrita é uma tarefa árdua, pois a maioria não conseguiu completar os níveis de escolarização; portanto, apresentam dificuldades para ler e escrever, ou mesmo, a interpretar um simples texto. Diante disso, trabalhar com metodologias que dialoguem com as necessidades de aprendizagem dos alunos, que considerem a realidade/contexto desses educandos, ou seja, que diminuam a resistência do aluno em querer aprender é fundamental para que ele se insira em processos de aprendizagem de leitura e escrita e, nesse contexto, desenvolva suas funções psíquicas superiores.
Com o fito de compreender melhor acerca da presença da leitura na vida dos jovens e adultos, procurei saber deles se acessavam frequentemente alguma biblioteca, e assim responderam:
Raríssimo…só para reunir para fazer trabalho…nem para pegar livro… reúno mais em casa de colegas mesmo. (A3)
Muito pouco, apesar demorar dentro de uma escola, muito pouco…aqui também quase não frequento. (A4)
Não cotidiano…mas de vez em quando eu frequento…aqui e lá. (A5)
Só quando tá aqui mesmo, uma vez ou outra a gente vai lá…lá onde eu moro, que é num assentamento, tem biblioteca não. (C5)
Não, pois só tenho acesso na UFT, quando estou no curso. (E3)
Sim. Lá da minha escola. E às vezes lá da minha unidade de saúde, porque lá tem aqueles livros do Ministério da Saúde e eu gosto de ler… tudo que tem a ver com a saúde eu gosto de estar lendo. (G2)
Não…até porque lá não tem professor para ficar na biblioteca…tinha, mas acabou a biblioteca…eu fui nela umas três vezes…tem a biblioteca virtual. (L1)
Professor, nos últimos anos não, porque…aqui, quando eu to aqui, eu sempre vou na biblioteca. No meu município a gente não tem nenhuma biblioteca. (L3)
Aqui não tem…ah, tem da faculdade…mas eu vou fazer o que lá? (T1)
A maioria não frequenta espaços de leitura como a biblioteca, ou por não ter esse espaço em suas comunidades camponesas ou por desinteresse do aluno. Contudo, me chamou a atenção o relato da aluna T1 ao afirmar que não acessa esse espaço na universidade porque não entende a sua importância e necessidade em frequentá-lo, o que poderia ser modificado a partir de iniciativas de promoção de leitura realizadas no próprio campus universitário que incentivem educandos a se interessarem pela leitura e, consequentemente, a conhecer como funciona e qual o papel de uma biblioteca na vida das pessoas.
Essa constatação nas falas dos jovens e adultos da Educação do Campo se relaciona, diretamente, aos baixos níveis de alfabetismo por parte desse estudante, pois a falta de acesso a livros e outras obras literárias de qualidade, inclusive, as histórias em quadrinhos que, aliados a metodologias inadequadas para a aquisição e desenvolvimento da leitura e da escrita utilizadas na escola e na universidade, pode contribuir para que não se insiram na cultura letrada, o que influencia no desenvolvimento dos processos de leitura e de escrita desse estudante e, consequentemente, em seus interesses para efetivarem esse conhecimento.
A partir dessas análises, entendo que esse problema em não frequentar bibliotecas está relacionado a 3 (três) fatores: a) carência de bibliotecas nas comunidades campesinas onde moram; b) poucos acervos das bibliotecas – quando existem; c) a falta de políticas públicas efetivas para a promoção da leitura nas universidades, que não fiquem apenas na teoria. Entendo que esses são apenas alguns dos fatores que podem contribuir para esse não acesso do camponês à cultura escrita na sua localidade e na universidade.
Ademais, quero assinalar ainda que mesmo com o
desenvolvimento de políticas públicas como o PNLD 80 81 , o PNLEM
e o PNBE82, que conferiu maior acessibilidade às famílias a terem acesso a uma diversidade de obras literárias, muitas localizadas no campo brasileiro não conseguiram constituir acervos de leitura em suas próprias residências e, algumas sequer receberam essas obras, que são distribuídas gratuitamente pelo Governo Federal. Essa constatação foi possível a partir das conversas com os jovens e adultos da Educação do Campo que relataram não conhecer, exatamente, esses programas, o que evidencia, novamente, a distância do poder público para com as populações campesinas e o descaso com um ensino de mais qualidade a essas pessoas, o que reforça cada vez mais as contradições presentes na realidade desse povo que vive, trabalha e estuda no meio rural brasileiro.