Mapeamento de Competências

Hugo Pena Brandão · Capítulo 23 de 27

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Mapeamento de Competências

5.5 Exercício 5: Análise do conteúdo de grupo focal

pessoais e espera do atendente um comportamento especí co. Um cliente inseguro, por exemplo, provavelmente cará satisfeito em reconhecer a segurança das informações prestadas pelo atendente. Exercitar essa empatia, colocar-se no lugar do cliente é muito importante. Isso requer do empregado exibilidade para adotar o comportamento mais adequado para cada cliente. O pro ssional tem que ter, ainda, as informações necessárias ao bom atendimento. Não quero dizer que ele precise saber detalhadamente tudo sobre todos os produtos e serviços da empresa, mas, sim, saber encontrar as respostas que o cliente necessita. Não precisa ser um ‘super-homem’, que entende de tudo, mas tem que saber pesquisar, encontrar rapidamente as informações e respostas de que o cliente precisa. Além disso, cortesia e educação são fundamentais. Tem que demonstrar atenção e presteza. É importante ainda conhecer técnicas de negociação e conceitos de qualidade, para que ele possa negociar preços e condições de pagamento. O atendente necessita também conhecer a estrutura da empresa, para saber a função de cada unidade e identi car onde obter as informações de que necessita para o atendimento.”

 

■ 5.5 Exercício 5: Análise do conteúdo de

grupo focal

Suponha que você esteja conduzindo, por meio de um grupo focal, o mapeamento de competências relevantes para professores de cursos de especialização de uma instituição de ensino superior. O diretor da escola desejava aprimorar os processos de seleção e avaliação do desempenho dos professores, a fim de melhorar a qualidade dos cursos que oferece. Solicitou então sua ajuda para mapear competências necessárias ao desempenho eficiente dessa função, para que posteriormente tais competências pudessem orientar os processos de gestão de pessoas da instituição. Com base na demanda que lhe foi designada pelo diretor, você optou por realizar um grupo focal com seis profissionais: dois coordenadores de cursos de especialização da escola, escolhidos entre aqueles com maior experiência e cujos cursos coordenados estavam entre os mais bem avaliados da escola; dois professores desses cursos, escolhidos entre os que tinham melhor desempenho nas avaliações realizadas pela escola; e outros dois professores, escolhidos por terem sido homenageados pelos alunos em cerimônias de formatura do ano anterior.

Durante o grupo focal, você, atuando como moderador, apresentou três questões a serem discutidas, seguindo um roteiro preestabelecido, com o propósito de identificar, segundo a percepção dos participantes, as competências individuais necessárias para que professores de cursos de especialização pudessem apresentar um ótimo desempenho no trabalho. Enunciado: Analise atentamente o conteúdo da discussão realizada no grupo focal – que se encontra transcrita adiante –, procurando identificar as competências individuais que os participantes consideram importantes. Descreva, no quadro apresentado a seguir, pelo menos cinco competências consideradas relevantes pelos entrevistados. Em seguida, ainda nesse quadro, indique, à direita de cada competência, a frequência absoluta e a frequência relativa com que foram mencionadas no grupo focal, ou seja, a quantidade e o percentual de participantes que indicaram a competência como relevante. Lembre-se de que a descrição de uma competência individual representa um desempenho ou comportamento esperado, devendo indicar explicitamente o que o profissional deve ser capaz de fazer em seu trabalho. Esse desempenho deve ser descrito utilizando-se um verbo e um objeto de ação. Se for possível e conveniente, a descrição pode conter também critérios de qualidade ou quantidade e condições em que se espera que o desempenho ocorra, conforme

discutido no tópico 2.1 (Capítulo 2) deste livro. Utilize o quadro a seguir para descrever as competências que você identificou como relevantes.

Competências relevantes ao desempenho do professor:

Frequência Frequência

Descrição da Competência

Absoluta Relativa

Nota: A frequência absoluta e a frequência relativa dizem respeito, respectivamente, à quantidade e ao percentual de participantes do grupo focal que fizeram menção à determinada competência.

 

Transcrição de alguns trechos da discussão realizada no grupo focal:II Moderador: “Para ter bom desempenho em sala de aula, o professor deve possuir que competências?”

Participante 1 (professor): Acho que o professor deve saber planejar, estruturar bem a disciplina que irá ministrar. Isso implica descrever os objetivos educacionais, definir conteúdos necessários para atingir esses objetivos e escolher as estratégias e recursos educacionais mais adequados para o ensino desses conteúdos.

Participante 2 (coordenador): Concordo com o Participante 1. Essa capacidade é fundamental. Às vezes vejo que alguns professores não definem claramente, em seu plano de aula, os objetivos da disciplina e ainda adotam estratégias educacionais que julgo inadequadas para o perfil da turma. Alguns fazem pior: pela ausência de planejamento prévio, preferem abordar temas de seu interesse pessoal em sala de aula, sem que tenham qualquer relação com os objetivos da disciplina.

Participante 3 (professor): Talvez essa questão até seja relevante, mas na minha opinião o que realmente importa é a didática do professor. De nada adianta planejar bem, se o professor não for capaz de executar adequadamente esse planejamento. Acho que o professor tem que ser capaz de expor os conteúdos, de forma didática, clara e objetiva. É importante também que essa exposição seja participativa, que ele dê aos alunos a oportunidade de questionar, debater, apresentar exemplos. Assim, as aulas se tornam mais ricas e proveitosas para os alunos. Quando participam ativamente, é mais provável que os alunos consigam compreender e reter os conhecimentos e habilidades que foram ministrados.

Participante 4 (professor): Acho que não é possível prescindir de nenhum desses dois aspectos. De pouco adianta o professor ser capaz de planejar bem a disciplina, se não souber executar adequadamente, com didática, aquilo que planejou. De outro lado, ainda que exponha conteúdos com excelente didática, o professor não terá êxito se não planejar, estruturar previamente seu plano de aula. Se ele não define claramente o que os alunos precisam aprender, ou seja, se não sabe precisamente aonde seu ensino deve levar, é pouco provável que sua didática seja realmente eficaz.

Moderador: O que vocês acham? – dirigindo-se aos participantes 5 e 6. Participante 5 (coordenador): Concordo com o Participante 4: essas duas competências (planejar e ensinar) são igualmente importantes. Participante 6 (professor): Eu gostaria de ressaltar a importância de outro aspecto: a necessidade de o professor acompanhar a evolução da turma. Para ter bom desempenho, o professor precisa ser capaz de monitorar continuamente a aprendizagem da turma, para certificar-se de que os alunos estão compreendendo e retendo os conteúdos ministrados. Se não houve compreensão do conteúdo anterior, é pouco provável que os alunos consigam absorver os conteúdos seguintes, em geral de maior complexidade. Tem que acompanhar e, se for o caso, voltar, explicar novamente, dar exemplos ilustrativos, perguntar, até ter certeza de que houve compreensão. É importante também que as estratégias educacionais adotadas sejam adequadas às características dos alunos. Por exemplo: se em uma turma os alunos são inexperientes profissionalmente, jovens, recém-formados e possuem pouca prática organizacional, tenho que adotar estratégias de ensino bem diferentes daquelas que adotaria caso os participantes fossem maduros e tivessem vasta experiência profissional. Uma estratégia de ensino-aprendizagem não é necessariamente boa ou ruim, mas, sim, adequada ou inadequada às características e necessidades dos aprendizes.

Moderador: Por falar nos alunos, o que vocês acham que eles valorizam no comportamento do professor?

Participante 6 (professor): Acho importante o professor demonstrar cumplicidade, preocupação com a turma. Os alunos reconhecem quando o professor está genuinamente preocupado, interessado em contribuir para o desenvolvimento deles. Isso é o que dá sentido ao nosso trabalho. Quando a dedicação e a preocupação do professor são evidentes, o aluno legitima e valoriza as orientações e ensinamentos que recebe. Quando isso ocorre, ainda que receba uma nota ruim ou seja reprovado, o aluno tende a reconhecer como legítima a avaliação do professor e a entender que a decisão baseou-se no interesse do professor em ajudá-lo a superar uma eventual deficiência. Participante 3 (professor): Na minha opinião, os alunos valorizam o professor que se apresenta com humildade. Às vezes percebo que alguns colegas não agem assim. Utilizam seu título (de mestrado ou doutorado) para sobrepor suas proposições às dos alunos. Ao invés de argumentarem de maneira convincente, humilde, participativa, defendendo suas ideias com fatos, princípios e exemplos, preferem agir com arrogância, desqualificando e censurando a opinião dos alunos. Os alunos detestam essa postura. Participante 1 (professor): Concordo com o Participante 3. Tem professor que se posiciona numa condição de superioridade em relação aos alunos, de arrogância, como se tivesse uma verdade absoluta. Acho que, para obter o interesse e o respeito do aluno, tem que se colocar no mesmo patamar do aluno, atuando como um mediador, um facilitador da aprendizagem, dentro de uma perspectiva construtivista. O professor precisa reconhecer que os outros podem saber mais, que não há uma verdade absoluta e que é importante respeitar as opiniões dos outros, ainda que sejam contrárias às suas. Participante 5 (coordenador): Olha, para mim isso é relativo. O professor tem mesmo é que ter domínio do conteúdo que ensina, segurança sobre os assuntos que aborda. Do contrário, não terá respeito dos alunos. Estou cansado de receber alunos reclamando que seus professores são fracos, não dominam plenamente o conteúdo ministrado, e, por isso, sequer conseguem argumentar quando confrontados com opiniões divergentes. Participante 2 (coordenador): Concordo com o Participante 5. Claro que é necessário respeitar a opinião dos alunos, mas o professor não pode se eximir de ensinar adequadamente o conteúdo que está sob sua responsabilidade, demonstrando segurança, domínio dos argumentos que usa. Os alunos valorizam muito isso.

Participante 4 (professor): Outro aspecto muito valorizado pelos alunos é o relacionamento interpessoal. O professor tem que ser cordial, prestativo, educado, bem como utilizar uma linguagem acessível aos alunos e apresentar exemplos ilustrativos que sejam mais próximos dos interesses e da realidade deles. Eles valorizam isso.

Moderador: E o diretor da escola? O que ele valoriza no desempenho do professor?

Participante 5 (coordenador): Certamente o cumprimento de horários e demais compromissos acadêmicos. Vez ou outra deparo com ele reclamando de professores que se atrasam com frequência, faltam a reuniões, não corrigem provas e trabalhos nos prazos estabelecidos. De outro lado, ele elogia aqueles que agem com correção, respeitando compromissos, normas e prazos. Participante 1 (professor): Isso de fato representa uma expectativa dele em relação ao nosso desempenho. Eu acrescentaria apenas que não é uma questão apenas de respeito aos prazos acordados, mas também de qualidade do trabalho. Tem professor que corrige prova e trabalho de qualquer jeito, muitas vezes nem lê. É só para cumprir o prazo de lançamento das notas. Restringe-se então a atribuir a nota e registrar apenas um “Muito Bem! Parabéns!” no trabalho ou prova. Para mim, isso não é feedback, pois não explicita clara e precisamente o que há de bom ou ruim no trabalho, certo ou errado na prova, ou ainda o que poderia ser aprimorado pelo aluno. A correção feita pelo professor precisa trazer uma contribuição à aprendizagem e ao aprimoramento do aluno.

Participante 3 (professor): Concordo com o Participante 1. O professor tem que ser capaz de orientar, acompanhar e oferecer feedback aos alunos. A correção de provas e trabalhos constitui ótima oportunidade para exercitar isso. Quando o professor identifica os eventuais equívocos cometidos pelo aluno e aponta o que seria correto e caminhos para o aprimoramento do aluno, está de fato contribuindo para otimizar a aprendizagem. Participante 4 (professor): Também concordo. Esses aspectos são realmente importantes para que os instrumentos e práticas de avaliação da aprendizagem tenham também caráter formativo, e não apenas corretivo. Participante 2 (coordenador): Outro aspecto importante diz respeito ao registro correto e tempestivo de notas e frequências dos alunos. Tem professor que encerra a disciplina e leva semanas para registrar as notas dos alunos. Isso irrita o diretor, pois enseja reclamações dos alunos e a exposição da escola a riscos legais.

Participante 6 (professor): O diretor valoriza também a produção acadêmica dos professores. A publicação de livros, capítulos de livros e artigos em revistas acadêmicas ou especializadas traz notoriedade ao professor, com reflexos positivos sobre a imagem da escola e sobre as avaliações que o Ministério da Educação realiza.

Gabarito do Exercício 5:

Analisando o conteúdo das respostas dos participantes do grupo focal, é possível inferir que são

relevantes as seguintes competências individuais:

Competências relevantes ao desempenho do professor:

Frequência Frequência Participantes

Descrição da Competência

Absoluta Relativa do Grupo

Elaborar planos de ensino,

estabelecendo conteúdos e

estratégias de ensinoaprendizagem 4 66,7% 1, 2, 4 e 5 adequados aos objetivos educacionais

e ao per l dos alunos.

Expor oralmente conteúdos previstos

no plano de aula, de forma didática, 3 50,0% 3, 4 e 5 clara e objetiva.

Auxiliar o aluno a superar eventuais

de ciências, oferecendo orientações e

3 50,0% 3, 4 e 6

avaliações construtivas para

promover seu aprimoramento.

Apresentar argumentos, de forma

convincente, demonstrando domínio 3 50,0% 2, 3 e 5 sobre os temas abordados.

Debater fatos e princípios,

3 50,0% 1, 2 e 3

respeitando as opiniões dos alunos.

Executar atividades acadêmicas, com 2 33,3% 1 e 5 assiduidade, respeitando

compromissos, normas e prazos.

Registrar correta e tempestivamente

1 16,7% 2

as notas e frequências dos alunos.

Esclarecer dúvidas da turma, com

presteza e cordialidade, utilizando 1 16,7% 4 linguagem acessível aos alunos.

Monitorar o nível de aprendizagem

da turma, certi cando-se

periodicamente de que os alunos 1 16,7% 6 compreenderam os conteúdos

ministrados.

Identi car estratégias de

ensinoaprendizagem adequadas às

1 16,7% 6

características e necessidades dos

alunos.

Redigir textos acadêmicos, visando

publicá-los sob a forma de livros ou 1 16,7% 6 artigos.

Nota: A frequência absoluta e a frequência relativa dizem respeito, respectivamente, à quantidade e

ao percentual de participantes do grupo focal que zeram menção a determinada competência.

Perceba que as competências relacionadas na tabela anterior não estão necessariamente na mesma

ordem com que foram mencionadas durante a realização do grupo focal. Estas foram ordenadas em

razão de sua frequência, colocando-se primeiro as competências que foram mencionadas por número

maior de participantes. Essa disposição facilita a análise dos resultados porque, pelo menos em tese,

as competências mencionadas com mais frequência possuem maior importância relativa.