Mapeamento de Competências
Apresentação
Com a emergência, nas últimas décadas, de modelos de gestão baseados
no conceito de competência,(1) grande discussão tem sido feita, tanto no meio acadêmico como no ambiente organizacional, em torno da noção de competência no trabalho, suas dimensões, antecedentes e aplicações no
campo da gestão de pessoas.(2; 3)
No exterior, as publicações sobre o tema se alastraram a partir do início
da década de 1990.I Contribuíram para essa disseminação a publicação do
clássico artigo de Prahalad e Hamel,(4) intitulado The core competence of the corporation (A competência essencial da organização), e a realização das primeiras edições de conferência internacional sobre o tema (International Conference on Competence-based Management), organizadas na Europa
pelos professores Aimé Heene e Ron Sanchez,(5) cujos anais deram origem a diversas publicações sobre o assunto.
No Brasil, a gestão por competências tornou-se objeto de maior
interesse de organizações, gestores e pesquisadores a partir do final da década de 1990. Diversos estudos foram produzidos e publicados ao longo
da década passada,(1; 3; 6; 7; 8) analisando o tema sob diferentes perspectivas. No meio empresarial, tornou-se frequente a adoção de modelos de gestão baseados em competências por empresas (Vale, Banco do Brasil, Embratel e
Usiminas, por exemplo) de diferentes ramos de atuação.(9; 10; 11) O setor público acompanhou essa tendência, sobretudo depois da edição do Decreto
no 5.707,(12) em 23 de fevereiro de 2006, e da Portaria nº 208/2006(106) do Ministério do Planejamento. Esses dispositivos legais instituíram diretrizes e instrumentos para desenvolvimento de pessoal da Administração Pública Federal, exigindo das entidades dessa esfera a formulação de planos de capacitação com base nas competências requeridas de seus servidores. Muitas organizações públicas (Antaq, Banco Central, Ministério do Planejamento e Serpro, por exemplo) adotaram, em diferentes graus de sistematização e abrangência, iniciativas para implantação da gestão por
competências.(13)
A adoção desse modelo de gestão passou a ser considerada boa prática
organizacional, recomendada por teóricos, praticantes, códigos de
governança, índices de sustentabilidade, associações de classe e outros.(3; 6;
13) A gestão por competências tornou-se matéria curricular de cursos de especialização (tradicionalmente denominados MBAs) oferecidos por renomadas escolas. A Fundação Getulio Vargas – FGV, por exemplo,
chegou a editar publicações específicas(3; 14) sobre o assunto, para uso como livro-texto em seus cursos.
Comecei a dedicar-me ao estudo da gestão por competências em 1998,
no âmbito do Programa de Pós-Graduação em Administração – PPGA da
Universidade de Brasília – UnB, onde produzi dissertação de mestrado(15) sobre o tema. Posteriormente, de 2005 a 2009, no Programa de Pós-Graduação em Psicologia Social, do Trabalho e das Organizações dessa mesma universidade, dei continuidade a esses estudos, desta vez no curso
de doutorado.(16) Fui orientado pelos professores Tomás de Aquino Guimarães e Jairo Eduardo Borges-Andrade, com os quais, além de aprender muito, tive o privilégio de escrever diversos artigos sobre o assunto, publicados em anais de congressos realizados no país e no exterior, capítulos de livros, periódicos e revistas especializadas.
Ainda no meio acadêmico, tive a oportunidade de ministrar disciplinas
(gestão por competências e mapeamento de competências, por exemplo) em muitas turmas de MBAs em Gestão de Pessoas (cursos de pós-graduação lato sensu) da FGV Management, UniDF e Ibmec Educacional. Nessas turmas, pude orientar a elaboração de dezenas de monografias sobre o tema. Durante e mesmo depois de concluídos esses cursos, primei por uma atitude de me colocar próximo aos alunos, aberto a questionamentos, discussões e esclarecimento de dúvidas. Felizmente, como além das aulas que ministrava, estive envolvido com a implantação de práticas de gestão por competências em organizações (Banco do Brasil, Câmara dos Deputados e Eletronorte, por exemplo), estas experiências me permitiram, acho que a contento, dirimir as dúvidas com as quais meus alunos e ex-alunos se deparavam durante o mapeamento de competências em suas organizações. Possibilitaram-me ainda elaborar o planejamento educacional de dois cursos para a Escola Nacional de Administração Pública – ENAP: a oficina de Mapeamento de Competências e o curso Gestão por Competências, os quais foram ministrados por instrutores da ENAP para centenas de servidores públicos em todo o País, como parte do esforço do governo federal para aprimorar práticas de gestão na Administração Pública.
Estas experiências profissionais constituíram excelentes oportunidades
de aprendizagem. Sou muito grato a professores, alunos e colegas de trabalho e de pesquisa com os quais pude aprender, compartilhar ideias, formular proposições e buscar soluções para problemas organizacionais. Para orientar minha prática profissional, procurei documentar as principais dúvidas, dificuldades, equívocos e imprecisões que, com certa frequência, emergiam em processos de mapeamento de competências. Boa parte dessas dificuldades devia-se à relativa escassez de publicações de caráter instrumental, em especial no Brasil, dedicadas especificamente a aspectos metodológicos do mapeamento de competências, visto que a literatura nacional, em grande parte, privilegiou a realização de discussões conceituais sobre a noção de competência, proposições teóricas e estudos empíricos sobre o assunto.
Reunindo experiências de minha trajetória profissional e acadêmica nos
últimos 20 anos, este livro foi elaborado com a pretensão de ajudar a preencher certa lacuna na literatura sobre o tema, trazendo contribuições de ordem prática e metodológica àqueles que necessitam empreender processos de mapeamento de competências nas organizações em que atuam, a profissionais de gestão de pessoas e aos que estudam a gestão por competências em cursos de graduação e especialização. Ao enfatizar a descrição operacional de competências e os métodos, técnicas e instrumentos de pesquisa social aplicados ao mapeamento, com a apresentação de exemplos ilustrativos, casos e exercícios práticos, espera-se que este texto possa instrumentalizá-lo, leitor, a conduzir adequadamente processos de mapeamento de competências em diferentes contextos organizacionais.
Privilegiei aqui a adoção de um estilo de linguagem mais coloquial –
certas vezes afastando-me da sobriedade e neutralidade que tradicionalmente caracterizam textos acadêmicos –, procurando dialogar com o leitor, oferecer exemplos e tornar a leitura mais agradável e acessível. Não abandonei, contudo, o caráter objetivo, factual, fidedigno, correto e racional que é próprio da literatura científica. As proposições deste livro estão baseadas em sólida fundamentação teórica e empírica, conforme se pode denotar pela extensa e qualificada bibliografia referenciada.
Este livro foi estruturado em quatro capítulos, além desta apresentação.
No primeiro, discutiremos o conceito de competência, seus pressupostos e sua utilização para orientar processos de gestão nas organizações. O segundo capítulo constitui nosso foco principal. É dedicado a explorar em detalhes os principais métodos, técnicas e instrumentos utilizados para mapeamento de competências, assim como os cuidados metodológicos fundamentais para realizar o diagnóstico e a descrição acurada das competências relevantes à organização. O terceiro destina-se a discutir e exemplificar o uso do mapeamento de competências para orientar diferentes processos de gestão de pessoas (capacitação, avaliação de desempenho, recrutamento e seleção, por exemplo), enquanto o quarto capítulo é dedicado a conclusões e considerações finais. Há ainda um Apêndice, que apresenta diversos exercícios práticos e seus respectivos gabaritos, com comentários e explicações, para permitir ao leitor fixar conteúdos e exercitar práticas de mapeamento de competências.
Boa leitura!
O Autor
__________
I Embora no campo da Administração a gestão por competências tenha se popularizado durante a década de 1990, no campo da Psicologia do Trabalho e das Organizações relevantes estudos sobre a
natureza da competência individual no trabalho, como os realizados por Gilbert(27) (105) e McClelland,
foram publicados ainda na década de 1970.
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