Meu Único Amor

Cheryl Holt · Capítulo 11 de 31

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Meu Único Amor

Capítulo 10

 

 

Anne ergueu o rosto ao ouvir o som dos passos de Adam na escada. O indivíduo transbordava de alegria. Maggie devia ter desempenhado bem o seu papel, pois ele parecia muito satisfeito.

– Bom para ti, garota – sussurrou, esperando ansiosamente que St. Clair tratasse Maggie com gentileza e não lhe quebrasse demasiado o coração quando tudo tivesse acabado.

Adam avistou-a quando chegou ao fundo das escadas. Fitaram-se em silêncio e com desconfiança pelo espaço de segundos e depois Adam inclinou a cabeça, cumprimentando-a.

– Bom dia, Miss Porter.

– St. Clair – respondeu como saudação.

Ele reparou na capa e na mala feita que repousava aos pés dela. Anne parecia pronta a cumprir a ordem dele para que se mudasse. Na pressa de se ir embora, esquecera os acontecimentos da noite anterior.

Ela era uma mulher lindíssima que encantara James. O que lhe passara pela cabeça para a tratar tão duramente?

Muito envergonhado pelo comportamento adotado, engoliu em seco, aclarou a garganta e engoliu novamente em seco.

– Vejo que fez a mala para se ir embora.

– Achei por bem partir de imediato. Só gostaria de despedir-me da Maggie, se considerar aceitável. – Fez uma pausa. – Na verdade, vou despedir-me dela, quer aprove ou não.

– Miss Porter… Anne. – Deu alguns passos na pequena divisão. – Na noite passada estava furioso. Lamento o que disse, Maggie deseja a sua presença aqui e eu preferia que ficasse.

– Não tenho vontade de permanecer. – Recusava ter a sua vida sujeita a um equilíbrio tão precário, sujeita aos caprichos de um homem com um temperamento como o dele. Sempre que se irritasse, explodiria e ela passaria uma boa parte do seu tempo a fazer e a desfazer as malas.

– Mas a Maggie disse que não tem sítio para onde ir.

Anne encolheu os ombros.

– Não é a primeira vez na vida que isso me acontece e sempre fui capaz de não soçobrar. Também encontrarei uma solução desta vez.

Ele esboçou um aceno de cabeça, sentindo-se à toa.

– Bom… se mudar de ideias, pode voltar.

– Obrigada, mas não voltarei.

– Então, bom dia e boa sorte. – As palavras soaram a oco e ele sentiu-se um crápula. Anne correspondeu ao aceno de cabeça com tamanha frieza que o reduziu totalmente ao seu lugar. – A Maggie precisa da sua criada. Pode mandá-la vir?

– Vou ter de discutir o assunto com ela. Nós não temos criadas.

– Porque não?

– Quem lhes pagaria?

– Mas pensei que… – Virou o rosto na direção das escadas, pensando no estado virginal de Maggie e nos comentários gabarolas de Wilburton.

– Pensou o quê? Que Wilburton a mantinha?

– Bem, sim. – Anne parecia ler-lhe os pensamentos, o que ele detestava. – Foi o que deu a entender.

– Aposto que o fez – retorquiu Anne, impando de raiva. – Por amor de Deus! Nem sequer perdeu tempo a reparar que ela era virgem?

Não, até ser tarde de mais para ser mais gentil. A cor subiu-lhe às faces.

– Sim.

– Então, como podia achar que Wilburton tinha dormido com ela?

– Não sabia o que pensar.

– Wilburton mantinha a mãe dela, seu idiota – prosseguiu Anne com uma sacudidela de cabeça. – Rose. Ele mantinha a Rose.

– Ela morreu há algum tempo.

– Sim, e ele deixou-nos continuar a viver aqui, mas há meses que não manda dinheiro. Mal temos o suficiente para a comida, quanto mais para criadas. Portanto, desculpe a nossa falta de educação, mas se quiser uma chávena de chá, terá de prepará-la você mesmo.

– Wilburton tem-nas deixado à fome?

Anne recuou imediatamente, controlando a fúria. De nada valia queixar-se das injustiças da vida a um nobre como St. Clair. Era um desperdício de tempo e de fôlego.

– Não vou dizer nada de mal sobre o indivíduo. Ele deixou-nos ficar muito tempo depois de Rose já não estar em condições de o satisfazer e permitiu que a mantivéssemos aqui para que pudesse morrer na cama dela, no andar de cima. E apenas me obrigou a ganhar a renda algumas vezes. – Anne nunca tencionara confessar tal coisa a quem quer que fosse e agora chegara a sua vez de corar até às orelhas.

– Foi obrigada a satisfazê-lo para que você e Maggie pudessem ficar? – disse Adam com dificuldade em formular a pergunta.

– Por favor, não conte à Maggie – insistiu, horrorizada por a confissão lhe ter escapado. – Ela não sabe e não quero que saiba.

– Não – anuiu com uma sensação de repugnância. – Não vou contar-lhe.

Anne passou junto dele, nesse momento demasiado perturbada para ficar na sala, mas parou na ombreira da porta, de costas para ele.

– É melhor ir ter com a Maggie. Em seguida, ponho-me a caminho.

– Diga-lhe que lhe enviarei algum pessoal ainda hoje. Uma ou duas criadas, uma dama de companhia, um cozinheiro. Se houver alguma coisa em que possa ajudá-la…

– Há uma coisa – respondeu sem se virar, continuando a olhar em frente. – Prometa-me apenas que cuidará dela, que nunca a magoará, nem será cruel e a dispensará gentilmente quando tudo acabar. Prometa-me isso, se puder.

Fez-se silêncio enquanto Anne aguardava uma resposta que nunca obteve. Saiu da sala e subiu as escadas. Na verdade, rebobinava mentalmente a viragem drástica dos acontecimentos ocorrida durante a noite e mal conseguia pensar claramente e muito menos antecipar o futuro. Saiu sem ruído pela porta da frente e dirigiu-se à esquina onde a sua carruagem tinha esperado toda a noite.

 

Anne bateu ao de leve na porta do quarto de Maggie, depois entrou e foi encontrar a jovem enroscada debaixo dos cobertores e lavada em lágrimas. Anne atravessou o quarto e sentou-se na beira da cama, passando ternamente a mão pelo cabelo de Maggie.

– Ele foi-se embora? – inquiriu Maggie quando se acalmou o suficiente para formular a pergunta.

– Foi.

– Ainda bem. – Maggie sentou-se e virou-se para encarar a amiga. Tinha o cabelo emaranhado, as faces vermelhas e cobertas de lágrimas. – Canalha.

– Canalha mesmo – concordou Anne. – Foi assim tão terrível?

– Doeu-me, mas não foi muito mau. Só o fizemos uma vez.

– Foi tudo o que conseguiu? Parece mais viril do que isso.

– Não, depois adormecemos.

– Deu-te algum prazer?

– Deu.

– Bom, pelo menos sabe fazê-lo. É algo positivo, acho.

– Também acho – concordou Maggie desanimada e em seguida lamentou-se: – Oh, o que vou fazer?

– Bem, primeiro, que tal se te limpássemos?

– Sim, por Deus que sim – concordou, saltando da cama como se estivesse cheia de cobras. Havia uma mancha de sangue no centro do lençol. – Ele não sabia que eu era virgem – declarou, envergonhada.

– Percebi isso. Porque não lhe disseste?

– Ele mostrou-se tão convencido sobre tudo.

– Canalha! – repetiu Anne num murmúrio, examinando Maggie da cabeça aos pés, tocando em algumas marcas de dentadas e nódoas negras. – Da próxima vez, não te vai doer.

– Eu sei – redarguiu Maggie ao mesmo tempo que um arrepio lhe percorria todo o corpo. – Contudo, não me imagino a fazê-lo novamente. Nem com ele, nem com ninguém.

– Vai sendo mais fácil. É só fechares os olhos e seguir em frente. Quando tiveres mais experiência, podes aprender formas de levá-los a terminar mais rapidamente. Agora, só te parece esmagador porque foi a tua primeira vez.

Maggie enfiou os braços no roupão. Verificando que tinha os joelhos fracos e as pernas trémulas, ajeitou-se na beira do colchão, colocando-se um pouco de lado, em deferência ao seu traseiro dorido. Ergueu o rosto para Anne, com um olhar cansado e a alma despedaçada.

– Não posso ficar aqui, Anne. Não posso fazer isto para ele. Julguei que podia, mas não posso.

– Tens a certeza de que seria assim tão terrível?

– Na verdade, ele não me oferece nada. Um relacionamento até se casar, o que será no próximo ano. Nenhuma garantia futura. De facto, se ficar grávida, disse-me com todas as letras, que me poria na rua.

– Não entendo os homens – reagiu Anne, sacudindo a cabeça.

– Nem eu – anuiu Maggie, estendendo o braço e agarrando nas mãos da amiga. – Tenho a certeza de que pode parecer uma tolice, mas esperava mais.

– De que maneira?

– Mais dele, acho. Estava tão furioso quando me viu no baile e só Deus sabe o que George lhe disse antes de eu aparecer. Contudo, sabe ser atencioso, divertido e gentil e pensei… pensei que se me entregasse, ele… – pronunciou baixando muito a voz –, ele me daria importância.

Anne sentiu piedade. O coração de Maggie já estava despedaçado e a situação iria piorar. Era simplesmente uma questão de lógica. Para uma jovem bondosa e encantadora como Maggie, uma relação com alguém como St. Clair era o pior que podia acontecer.

– É o que todas desejamos, Maggie – disse num tom suave. – Infelizmente, raras vezes acontece. Os homens só querem uma coisa de mulheres como nós e, quando a conseguem, partem para o próximo desafio.

– Isso é a pura verdade! Entreguei-me de corpo e alma quando fiz amor com ele, e, quando abri os olhos esta manhã, só dizia que estava com muita pressa, que tinha resolvido que podia deitar-me com ele três vezes por semana, e que se me portasse bem me levaria ocasionalmente ao teatro. – Surpreendeu-se ao ver que lhe rolavam novamente lágrimas pelas faces; julgava que já não restavam mais. – Sinto-me tamanha idiota.

– Não sintas!

– Mas desejava tanto que tudo desse certo para que ficasses a salvo e nem isso consegui.

– Não te preocupes comigo. – Anne deu-lhe uma palmadinha na mão. – À saída, ele teve um rebate de consciência e disse-me que poderia ficar, se quisesse.

– Que galante.

– Foi não foi? Contudo, recusei.

– Mas não vais deixar-me, pois não?

Anne puxou uma cadeira para junto dela e sentou-se com uma expressão cansada. A mensagem chegara na noite anterior depois de Maggie já ter saído para o baile.

– Preciso de dizer-te uma coisa.

– O quê?

– Ontem, recebi uma proposta de uma velha amiga. Está a começar um novo negócio e quer algumas mulheres com experiência que a ajudem a ir em frente.

– Que tipo de negócio?

– É um bordel, Maggie. – Apressou-se a continuar sem dar tempo a que a jovem protestasse. – É um lugar bastante aprazível. Terei o meu próprio quarto e só irei para a cama com um homem, se quiser. Ela está disposta a dar-me uma oportunidade e, portanto, vou aproveitá-la. – Sorriu, tentando desanuviar o momento. – Tenho a certeza de que tudo correrá pelo melhor.

– Oh, Anne, por favor, diz que não vais.

– Tenho de ir. Tu própria disseste que esta situação com St. Clair é apenas temporária. Se ficarmos de braços cruzados, dentro de alguns meses estaremos de volta ao ponto de partida. Dessa forma, posso pelo menos começar a trabalhar para uma nova vida. – Há um ano que andava a tentar arranjar uma oportunidade como aquela e não queria desperdiçá-la. – Quando ele acabar contigo, espero ter uma maneira de te ajudar.

– Mas não consigo suportar a ideia de me deixares. E não consigo suportar a ideia de ficar aqui e fazer isso com ele noite após noite. Agora que tivemos relações íntimas, não sou capaz de imaginar a continuação. Creio realmente que é uma coisa que só deve acontecer quando há amor entre as duas partes.

«Tão jovem. Tão inocente. Tão incrível e estupidamente ingénua», pensou Anne, abanando a cabeça.

– Falas como uma verdadeira romântica. Infelizmente, o amor e o romance não põem comida na mesa, nem um teto por cima da cabeça. Pelo menos, isso nunca aconteceu comigo. Tenho de seguir em frente, Maggie. Por nós as duas.

– Também não posso ficar aqui. O que Adam quer de mim devia ser tão bonito e fazer-me tão feliz. Em vez disso, sinto-me ordinária e suja. Receio o género de pessoa em que me tornarei se permanecer.

Anne suspirou.

– Gostarias de vir comigo? Falei de ti à minha amiga e ela disse que te daria trabalho.

– Jamais conseguiria trabalhar como prostituta – reagiu Maggie, ofegante.

– Eu disse-lhe isso. Que precisarias de outra coisa. Na taberna ou nas cozinhas. Como criada. Ela respondeu que, se te esforçasses, te deixaria ficar. Terias de partilhar um quarto no sótão com algumas das outras criadas.

– Isso facilita-me tudo – redarguiu Maggie, levantando-se com cuidado. – Ajuda-me a lavar. Quero fazer as malas e ir embora antes que ele tenha hipótese de voltar.

 

Adam estava sentado à secretária na sua biblioteca, revendo a última carta de um monte de correspondência. Nesse dia só lhe restava cumprir a tarefa de um longo e monótono jantar com a mãe. Depois, chegaria finalmente a hora de se dirigir a casa de Maggie. Nas últimas trinta e seis horas tinha-se sentido bastante orgulhoso de si. Depois de a deixar na cama na manhã anterior, concluíra um dia inteiro de trabalho, de reuniões e compromissos. À noite, levara uma jovem dama ao teatro e conseguira agir como se lhe agradasse manter uma conversa com ela.

Tinha dormido durante a maior parte da noite e o sono apenas fora perturbado por um mínimo de frustração sexual que o fizera dar voltas na cama. Depois passara mais um dia a tratar do negócio da família e de outros assuntos pessoais. Tudo sem descurar as obrigações para se apressar a ir vê-la mais cedo do que lhe dissera. Como seu protetor, cabia-lhe o direito de aparecer sempre que quisesse e sentira indubitavelmente desejo de a visitar, mas fora capaz de se conter. Achava um procedimento necessário para definir os moldes exatos do relacionamento. Se Maggie acreditasse que estava apaixonado, tornar-se-ia assertiva e exigente e ele não podia deixar que tal acontecesse. Tencionava controlar o ritmo daquela união.

Ainda assim, estava preocupado. Algo na sua despedida não parecia certo, embora não fosse capaz de identificar totalmente o problema. Maggie mostrara-se tão extraordinariamente tímida e calma que as recordações dos últimos momentos juntos continuavam a atormentá-lo. A cópula tinha sido incrível – vista do seu lado. Ele montara-a brusca e violenta, demasiado violenta para uma virgem e não podia deixar de se preocupar sobre como ela se sentia. Estava provavelmente dorida, interrogando-se sobre se seria sempre assim.

Na manhã seguinte, ele deveria sem dúvida ter passado algum tempo a elogiá-la e tranquilizá-la, em vez de se concentrar nos termos em que se processaria o final da relação, mas sentia-se demasiado oprimido para pensar com clareza. À luz do dia, os seus atos haviam parecido muito chocantes. O facto de ter aceitado uma amante, algo que tinha jurado nunca fazer, era um pouco assustador e desconfortável. Precisando de tempo e de distância para organizar as ideias relativamente ao assunto, deixara-a o mais rapidamente possível.

Mas, oh, como desejara ficar! Ela era tão encantadora à luz do amanhecer. O cabelo despenteado e emaranhado, os lábios ainda rosados e inchados dos seus beijos ofereciam uma visão espetacular.

Fechou os olhos e passou o indicador e o polegar ao longo da cana do nariz, numa tentativa para aliviar o stresse que tinha sofrido nos últimos dias, mas o que viu por trás das pálpebras cerradas limitou-se aos seios fartos da jovem ao alvorecer, quando se tinha sentado na cama e os cobertores descaíram até à cintura. Os mamilos encantadores tinham a cor de pêssegos maduros.

– Oooh! – gemeu, apoiando a palma da mão contra o membro, tentando aliviar um pouco da pressão. Faltavam apenas umas horas. Sorriu, mas o sorriso e a ereção desapareceram rapidamente quando os passos da mãe soaram no corredor. Foi de imediato assaltado por um sentimento de culpa, ponderando no que lhe passara pela cabeça ao comprar os favores de Maggie, embora sabendo o quanto a mãe ficaria magoada se ficasse a par.

Logo atrás da culpa sobreveio a irritação pelo facto de ser um marquês, um dos homens mais ricos e poderosos do reino, próximo dos trinta anos, mas ainda agarrado às saias da mãe e obedecendo-lhe cegamente por recear ofendê-la. O facto de ter ou não uma amante não era da conta dela.

Lucretia St. Clair entrou na biblioteca sem se dar ao trabalho de bater à porta. Era uma mulher baixa e robusta que não envelhecera bem. Com cinquenta e muitos anos, tinha o cabelo de um cinzento baço, o rosto marcado por rugas de infelicidade, as mãos pontilhadas de manchas. Adam nunca a tinha compreendido, mas tratava-a com um sentimento de dever e de respeito – o mesmo dever e respeito que ela lhe incutira em cada dia da sua existência. A ascendência da família dela remontava a muito mais séculos do que a maioria das outras e era uma das mais antigas de Inglaterra. Adam recebera a mesma educação que a mãe – centrado no que era melhor para o país e o título e não necessariamente no que era melhor para as pessoas implicadas.

Se a mãe alguma vez tivera um momento de felicidade na vida, Adam não o testemunhara. Apesar de toda a riqueza e posição com que nascera e fora criada, tinha permanecido uma mulher amarga e infeliz. O seu casamento arranjado com Aston, o pai de Adam, revelara-se um desastre desde o primeiro dia. Lucretia afirmava que isso se devia ao facto de ele ter uma amante à época do casamento, uma tal Grace Stuart, que mantivera durante os anos em que vivera. Aston nunca se tinha pronunciado sobre o assunto, deixando que os atos falassem por si próprios.

O homem concebera três filhos com Grace Stuart, cumulou-a e aos filhos de amor, atenção e carinho e, nas últimas duas décadas de existência, fora viver publicamente com ela e tivera a ousadia de morrer nos seus braços a meio do ato carnal. Durante todos esses anos raramente foi a casa. Adam e James mal o conheciam e Lucretia nunca o via. Comunicavam por intermédio de um advogado se ela precisava de alguma coisa. A humilhação fora tão grande que Lucretia nunca tinha recuperado.

A sua tia Lavinia insistia que Lucretia nascera amarga e desiludida e que haviam sido os seus modos rancorosos e detestáveis a afastar Aston da sua vida e de casa. Dizia ainda que tudo o que lhe acontecera ao longo dos anos era pura e simplesmente merecido. Adam não sabia.

Apenas sabia que era sua mãe e tinha o dever de cuidar dela, bem como a responsabilidade de a suportar. Suspirou quando ela entrou na sala.

– Boa noite, mãe.

– Adam, fico contente por estares aqui. Preparei os convites para a festa em nossa casa. Queria que os examinasses antes da impressão final.

A temporada estava prestes a terminar e aquela reunião seria um dos eventos mais elegantes depois de as pessoas abandonarem Londres. Programada para o fim de setembro, também seria algo mais do que uma simples festa, pois os convites incluíam uma dúzia ou mais de jovens na idade casadoura.

– Confio inteiramente na sua escolha – disse ele.

– Mesmo assim, quero que os vejas – insistiu, pousando os convites em cima da secretária.

– Parecem-me excelentes, mãe, a sério – disse após examiná-los de relance.

Os olhos fixaram-se na data. Duas semanas! Caramba! Esquecera-se de que concordara passar esse período a avaliar as candidatas. A demora soou a um género de tortura medieval. Ainda ficou mais surpreendido ao concluir que a sua reação se devia a não poder ver Maggie durante esse tempo. A jovem já estava a apoderar-se dos seus pensamentos e da sua vida e só se deitara uma vez com ela. O que lhe aconteceria depois de uma dúzia de vezes? Depois de cem? Estremeceu só de pensar nisso.

– Talvez uma semana chegue. Não tenho a certeza de poder dispensar duas.

– Serão duas. Não podemos esperar que as jovens façam a viagem para uma estada mais curta.

– Mãe, para passarem tempo comigo, elas viriam nem que fosse apenas por uma hora.

– Duas semanas. Está dito.

– De acordo, mãe. Subscrevo tudo o que achar que é melhor para mim – retorquiu com um olhar apaziguador, que a levou a ir embora.

Aprendera há uns anos que era preferível limitar-se simplesmente a anuir aos seus desejos, o que fazia com regularidade. Depois, acabava por fazer o que queria, independentemente da vontade dela. Geralmente dava resultado, embora nesse caso se tornasse difícil seguir em frente. Abandonar a sua própria festa uma semana mais cedo seria o cúmulo da indelicadeza e todos os convidados se sentiriam desprezados.

A dor de cabeça provocada pela visita da mãe desapareceu imediatamente com a chegada do seu irmão. Adam tinha estado tão ocupado que não se viam há mais de uma semana. A sala transbordou da energia de James quando ele entrou a rir e bem-humorado. Servindo um uísque duplo para os dois, puxou uma cadeira e sentou-se do outro lado da secretária.

– O que fizeste agora? – inquiriu James com um brilhozinho nos olhos.

– O que queres dizer?

– Quero dizer que estava no clube, quando fui abordado nem mais nem menos que pelo grão-duque de Roswell em pessoa, exigindo saber a identidade da mulher com quem saíste do baile na quinta-feira à noite.

– Imaginas ter aquele homem como sogro? – reagiu Adam ao mesmo tempo que a dor de cabeça voltou a fazer-se sentir.

– Antes tu do que eu – riu James e prosseguiu: – Mas devo confessar que, pela descrição, só podia deduzir que a mulher era a encantadora e incrível Maggie Brown.

Adam ergueu bruscamente a cabeça.

– Não lhe disseste o nome dela, pois não?

– Claro que não. Portanto… era ela. Como é que se encontraram?

– É melhor encheres o copo. Não vais acreditar.

James foi bebendo devagar, enquanto Adam relatava os acontecimentos da noite. Omitiu estrategicamente os detalhes mais picantes do que se passara no quarto, mas James percebeu pelo esboço generalizado que Adam estava em êxtase com as circunstâncias e ansioso por se lhe ir juntar mais tarde, nessa noite.

– Sempre tiveste uma sorte dos diabos. Estou com ciúmes. – Tentando adotar uma postura tão casual quanto possível, perguntou: – E a amiga dela, Miss Porter? Sabes alguma coisa sobre o que é feito dela?

– Na verdade, vi-a por um momento – respondeu Adam, demasiado embaraçado para confessar que quase a tinha posto fora de casa.

– Como a achaste?

– Parecia a mesma. Bonita. Astuta.

– Astuta é uma boa palavra para a definir – riu James. – Fazes alguma ideia de onde está a viver?

– Não – respondeu com sinceridade. – Mas provavelmente a Maggie sabe como contactá-la.

Nesse preciso instante, o mordomo bateu à porta e entrou.

– Sim, o que se passa? – perguntou Adam.

– Um dos criados, que mandou para a casa em Mulberry, regressou. Diz que precisa de falar com o patrão.

– Manda-o entrar.

Uns momentos depois, um homem novo, parte do pequeno grupo de criados que enviara para casa de Maggie no dia anterior, apareceu na ombreira. Visivelmente nervoso, o homem dava voltas ao chapéu que conservava na mão, à espera de que dessem pela sua presença.

– Olá, John – cumprimentou Adam, fazendo-lhe sinal para entrar. – O que se passa?

– Lorde Belmont, fui para a casa, como pediu. Juntamente com as senhoras que mandou e, bom, elas pediram-me que viesse falar consigo.

– A que respeito?

– Bom, passámos a maior parte de dois dias na casa. Não está lá ninguém e as senhoras acharam que era um pouco estranho e que talvez devêssemos informá-lo, dado estar a planear fazer uma visita esta noite.

– Não há ninguém lá?

– Não, sir. Limpámos tudo, arrumámos a comida, começámos a receber a mobília nova e o que tem chegado, mas não há ninguém.

– Nem mesmo ontem à noite?

– Não, sir. E a dama de companhia disse-me que as arcas das senhoras estão parcialmente vazias, como se tivessem levado algumas das roupas.

Adam olhou para James, tentando entender o que ouvia. Dali a umas horas, iria juntar-se a Maggie na cama dela. Era impensável que estivesse ausente. Nos últimos dias só tinha pensado nela e em como seria o próximo encontro. Não podia ter-se ido embora.

– Mais alguma coisa? – conseguiu articular.

– Havia um bilhete, deixado num dos quartos. Mistress Perkins disse que devia trazer-lho.

Adam estendeu a mão e pegou na missiva selada.

– Obrigado.

O lacaio pigarreou.

– As senhoras e eu estávamos a pensar… ah… devemos ficar, ir embora, ou o quê?

– Diz a todos que fiquem, até eu saber melhor o que se passa.

– Muito bem, milorde. Obrigado. Nesse caso, vou regressar… – Hesitou e em seguida escapou-se quando se apercebeu de que o marquês estava distraído.

Adam quase não se apercebeu da saída do criado enquanto perscrutava as breves palavras escritas por Maggie.

Obrigada pela sua generosa oferta, mas acho que não posso aceitar o que tão graciosamente propôs. Boa sorte com o seu futuro casamento. Desejo-lhe muitas felicidades.

Ele virou e revirou o bilhete entre as mãos, pensando que deveria haver mais alguma coisa. Uma explicação mais pormenorizada ou uma despedida melhor. Algum indício sobre o que pensava ou para onde fora. Franziu o sobrolho e ergueu o rosto, fitando James.

– Não acredito.

– O que é isso?

– É um bilhete de Maggie, recusando a minha oferta.

James atreveu-se a soltar uma risada ao ouvir as novidades e ergueu o corpo num brinde.

– Bravo, jovem Maggie.

– Achas graça? – balbuciou Adam.

– Muita. Vivi o bastante para assistir ao grande marquês de Belmont colocado no devido lugar. – Riu novamente, engoliu a bebida de um trago e em seguida perguntou: – O que têm essas duas mulheres? Despertam simplesmente o que de pior há em nós ou portamo-nos sempre como canalhas e são as únicas com coragem suficiente para nos dizer isso?

– Não acho que me tenha portado como um canalha em relação a Magdalina Brown.

– Deixa-me adivinhar. Puxaste-a à força para fora de um salão de baile a transbordar de gente curiosa, ameaçaste-a e puniste-a durante todo o trajeto para casa, conquistaste-a ao tirar-lhe dolorosamente a virgindade e passaste o resto da noite a dizer-lhe que tinha conseguido um bom partido.

Demasiado envergonhado para confessar que a descrição correspondia à realidade, Adam explodiu:

– O que te faz pensar que foi isso o que aconteceu?

– Porque, meu irmão, és tremendamente previsível.

Adam estava atordoado, chocado e sem saber o que fazer. Nenhuma mulher lhe recusara o que quer que fosse. Todas as que havia conhecido lançavam-se praticamente aos seus pés. Mulheres que nunca conhecera deitavam-se na cama, à noite, urdindo esquemas para a melhor forma de seduzi-lo. Finalmente, tentara manter mais do que uma relação passageira e ela atirara-lhe a oferta à cara.

– Nunca entenderei as mulheres enquanto viver – comentou, olhando para James.

– O que não entendes?

– Ofereci a essa rapariga tudo o que uma mulher pode desejar: uma casa nova, todas as belas roupas que poderia usar, comida na mesa, idas ao teatro. E se continuasse a satisfazer-me, teria mesmo direito a joias e bijutarias.

– E não vamos esquecer o privilégio de estar ligada a alguém como tu – observou James num tom irónico que escapou a Adam.

– Exato. E não foi o suficiente. O que mais poderia desejar?

Ao ver a expressão consternada do irmão, James decidiu compadecer-se dele.

– Não sabes mesmo?

– Estou com ar de quem sabe?

– Adam, às vezes preocupo-me verdadeiramente contigo.

– Porquê?

– Porque não compreendo como pudeste chegar aos vinte e nove anos e ainda seres tão obtuso quando se trata de mulheres.

– Admito-o sem hesitar. Sou ignorante no que se refere a mulheres, mas, se sabes assim tanto, diz-me o que ela queria.

– Queria o que nunca poderias dar-lhe.

– Sou um dos homens mais ricos ao cimo da terra. O que podia ela desejar que fosse incapaz de lhe dar? – inquiriu, exasperado.

– Uma parte de ti.

– Que parte?

– O teu coração, meu grande idiota. Ela queria a única coisa que jamais darás.

– Ela queria… – pronunciou hesitante dado o absurdo da ideia – … amor?

– Assim parece e tudo indica que se não podia ter o teu coração, não desejava mais nada de ti.

– Mas tratava-se de um contrato – rugiu Adam, frustrado.

– Para ti. É evidente que aos olhos dela significava algo mais.

– Repito: nunca entenderei as mulheres enquanto viver.