Meu Único Amor

Cheryl Holt · Capítulo 19 de 31

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Meu Único Amor

Capítulo 18

 

 

James contemplou através da janela o relvado e os jardins que se estendiam nas traseiras da luxuosa habitação a que se referiam como a casa de campo da família. A noite tinha caído levando as cores, mas tochas iluminavam o labirinto de caminhos e os pontinhos luminosos assemelhavam-se a belas estrelas que haviam descido à Terra, espalhando-se pelo solo. De vez em quando avistava sombras de várias pessoas que passeavam aos pares ou em grupos. Toda a semana havia sido excecionalmente acolhedora e agradável e a noite estava refrescante, sem frio, atraindo inúmeras pessoas para o exterior.

Segundo as opiniões gerais, a festa tinha sido um sucesso enorme. A mãe, apesar de todos os seus rígidos e detestáveis hábitos, sabia como organizar um evento tão importante e as dúzias de convidados estavam a divertir-se imensamente. Todos menos ele. Nunca se sentira tão entediado.

Tinha saudades de Anne.

Sentia falta da sua conversa picante e da paixão ardente. Sentia falta do riso, das histórias engraçadas, do seu senso comum, da esperteza e da postura descarada. Naquele momento, o único lugar onde desejava realmente estar era no quarto dela, na cama dela, recostado nas almofadas com o quente e lascivo corpo feminino estendido sobre o seu peito. De olhos fechados, conseguia evocar o toque da pele dela, o cheiro dos cabelos.

– O que estou a fazer aqui? – murmurou na sala envolta em silêncio.

Baixou os olhos e examinou demoradamente os documentos que segurava na mão. Haviam chegado no começo do dia por intermédio de um mensageiro especial. O seu tio-avô tinha finalmente morrido, viúvo e sem filhos e James tornara-se seu herdeiro. Agora era um barão. Não estavam em causa um título particularmente antigo nem uma propriedade rica, mas tratava-se de um título e de uma propriedade.

Visitara-a muitas vezes ao longo dos anos, sempre consciente de que um dia viria a pertencer-lhe. Tinha uma bela localização, embora um pouco isolada na Cornualha, e era dotada de uma bonita casa, campos férteis e prósperos locatários. O rendimento era ótimo para uma propriedade daquele tamanho. Esses fundos, aliados ao dinheiro que o pai lhe deixara, não faziam dele um homem rico, mas certamente bem instalado na vida.

Aquele devia ser um grande dia na sua vida. Talvez o mais importante. Então, porque não se sentia excitado? Devia estar ao fundo do corredor, no salão, namoriscando as senhoras, divertindo os cavalheiros, participando na festa, mas não podia forçar-se a fazê-lo. Em vez disso, há mais de uma hora que se escondera na biblioteca, esperando que ninguém tivesse dado pela sua falta. Todos estavam tão centrados em Adam que duvidava que alguém reparasse e ele precisava de algum tempo a sós para pensar no futuro.

Não tinha falado muito na herança pelo simples facto de não desejar parecer que era qualquer mostrengo, a aguardar impacientemente a morte do velho e gentil cavalheiro. Poucas pessoas estavam a par do assunto, embora a informação se tivesse espalhado bastante rapidamente. Ignorava quem dissera a toda a gente. Ele certamente não fora.

Já reparara no novo olhar de avaliação das mulheres. Aparentemente, interrogavam-se sobre se o segundo prémio seria aceitável no torneio St. Clair. Caso não fossem escolhidas pelo marquês, só poderiam beneficiar pessoalmente casando com um membro da realeza que, por acaso, também era irmão do marquês.

A ideia de ser avaliado àquela luz enojava-o um pouco.

O eco de saltos altos no corredor indicou-lhe que a sua pausa chegara ao fim. Conheceria aquele andar em qualquer sítio. A mãe, Lucretia, irritada pelo rumo que as coisas tomavam, entrou na sala e fechou a porta atrás dela.

– Boa noite, mãe.

Era sempre educado com ela, sem saber muito bem porquê. A mãe sempre o tratara de uma forma brusca e arrogante em todos os dias da sua vida.

– James, tens de voltar ao salão imediatamente.

– Porquê?

– Porquê? – repetiu, tremendo de indignação. – A tua ausência tem sido notada. Estás a ser extremamente indelicado.

«Não tanto como tenciono ser», esteve quase a dizer em voz alta. Antes de responder, esboçou o sorriso que nunca deixava de irritá-la.

– Não me diga que uma das beldades sentiu a minha falta? Qual delas? Vou já a correr para o lado dela.

– Não sejas insolente – repreendeu no tom de voz que fazia com que se sentisse novamente com dez anos. – Já três senhoras me perguntaram onde tinhas ido. Particularmente Miss Hawkins.

– O que levaria alguém a perguntar por mim? Deixe-me adivinhar: estão todas a interrogar-se sobre se o novo barão desapareceu. – disse, quase revirando os olhos de desdém. – Pergunto a mim próprio como souberam da minha herança.

Lucretia retesou o corpo.

– Contei a alguns convidados especiais e não vou desculpar-me por isso. Toda a gente sabe. Tornaste-te repentinamente um bom partido. Esse grupo de mulheres pode convir-te tão bem como ao teu irmão.

Portanto, as rodas já estavam em andamento.

– Sim, seria tão conveniente se me contentasse com uma das sobras de Adam! Com certeza! Vou regressar imediatamente.

– Não demores – reagiu a mãe sem, como era hábito, reparar no seu sarcasmo. – Dou-te quinze minutos.

Lucretia saiu com um ar irritado e James afundou-se novamente na cadeira atrás da grande secretária.

James nunca se dera bem com ela, nunca se sentira próximo, nunca estabelecera laços emocionais. A mãe era uma mulher fria, frágil, que nunca se deixara conhecer. Nunca haviam sido uma família por esse motivo. Ela nunca denotara uma centelha de cuidado maternal. James fora criado por governantas e amas e a mãe só raramente visitava o seu quarto enquanto ele crescia. Por regra, apenas se dignava aparecer quando ele causava qualquer problema.

Os pais raramente falavam um com o outro e Aston parecia considerá-la tão desagradável quanto James sempre achara. Tendo em conta as divergências irreparáveis entre os pais, raramente viu Aston enquanto se tornava adulto. Quando o indivíduo se dignava fazer uma visita ocasional, pouco mais era do que um estranho. Como resultado, James nunca tinha conhecido o pai. Em muitos aspetos, considerava-se como se tivesse sido criado como um órfão.

Talvez fosse esse o motivo que o levara a procurar a companhia de Grace Stuart no ano anterior. Descobriu uma mulher graciosa, uma casa cheia de amor, riso e um trio de meios-irmãos felizes e realizados. Todos haviam amado Aston profundamente e James sentiu que começava a conhecer o homem misterioso, aprendendo através dos olhos deles. James tinha sido acolhido como se fizesse parte da família e também os recebera afetuosamente. A noção de pertença que descobrira era algo de que nunca sentira falta, mas nesse momento não conseguia perceber como passara sem ela um só dia da sua vida.

Por Deus! Agora desejava o que o pai havia encontrado junto de Grace Stuart. Amor, riso e uma casa cheia de crianças barulhentas. Recusava aceitar a vida que fora imposta a Adam. O irmão e Lucretia bem podiam falar pomposamente das malditas obrigações até sufocarem nelas. James não lhes seguiria os passos. Se isso contribuísse para se desentender com ambos, paciência! Agora, tinha outra família, uma família que amava e se interessava por ele e o apoiaria em quaisquer decisões que tomasse. E já havia tomado a mais importante de todas.

Os passos de Adam foram o som seguinte no corredor. Por um breve segundo, James desejou ter ido embora antes de enfrentar o irmão, mas não podia fazê-lo. Depois de acionar as coisas em Londres, era muito provável que Adam nunca mais lhe dirigisse a palavra. Amava-o demasiado para fugir sem se despedir.

– Olá, irmão. Imagina só encontrar-te aqui! – disse James quando Adam entrou na sala.

Adam fechou as portas, dirigiu-se à secretária, puxou uma cadeira e sentou-se diante de James.

– Se ouvir mais uma rapariga a cantar Oh, Rose of Winter, acho que enlouquecerei.

– Exatamente o que acho.

– Na eventualidade de te interrogares sobre o que faço aqui…

– Longe disso – interrompeu-o Adam com uma gargalhada. – A mãe mandou-me vir buscar-te com o recado de que os teus quinze minutos acabaram.

– Não regressarei ao salão. Nem mesmo arrastado por cavalos selvagens.

– É assim tão mau?

– Pior do que mau, diria.

Adam observou James com um olhar crítico. Alguma coisa se passava; conhecia James bem de mais para não reconhecer os sinais. Dirigiu-se ao aparador, serviu-se de um copo de bourbon e encheu novamente o que James tinha pousado em cima da secretária. Sentou-se e depois levantou o copo num brinde:

– Ao lorde mais recente do reino.

James correspondeu, juntando o copo ao do irmão.

– Para um homem que acaba de se tornar membro da nobreza não pareces muito satisfeito.

– Foi algo que nunca me interessou muito. Sabes isso perfeitamente.

– É verdade. Nunca teve muita importância – anuiu, inclinando-se para diante e apoiando os cotovelos nas coxas. – Esse acesso de melancolia não se enquadra contigo. O que se passa, James?

– Tenho estado a pensar no futuro – respondeu James com um encolher de ombros, como se nada tivesse importância. – Sinto a falta da Anne. Não sei o que estou a fazer aqui.

Adam assentiu com a cabeça. Também sentia a falta de Maggie, mas a separação era inevitável.

– Desempenhaste um papel importante, James. Ajudaste-me a receber os convidados e agora cabe-te um papel ainda mais relevante.

– Qual? – perguntou James, embora já conhecesse a resposta.

– Agora encontras-te na mesma situação, aquela a que sempre te achaste com sorte por haveres escapado. Um destes dias terás de casar. Devias começar a circular entre as jovens. Algumas são muito meigas.

– Oh, sim, sem dúvida muito meigas! – concordou James num tom sarcástico. – Notei que te agarraste logo a uma delas! – acrescentou, revirando os olhos com desdém. – Poupa-me, Adam. A mãe mandou-te aqui para falares sobre isso?

– Pediu-me que o mencionasse, mas de qualquer maneira tencionava abordá-lo. Este é um bom lugar para iniciares a tua busca.

James abanou a cabeça consternado ao ver como o irmão por vezes podia ser tão obtuso.

– Adam, sabes perfeitamente que todas essas senhoras me desprezaram durante a última temporada e ao longo dos anos. Ser eu próprio não bastava. Ser filho de um marquês não bastava. De súbito, tornei-me barão e já basta. Achas mesmo que agora me interessaria por qualquer delas?

– Serão diferentes.

– Não, serão as mesmas, apenas se comportarão de uma forma diferente. – Necessitando subitamente de se mexer, levantou-se e dirigiu-se à janela, abstraindo-se no escuro, até que a sensação dos olhos de Adam fixos nas suas costas se tornou tão intensa que o obrigou a virar-se. – Quero o que o pai tinha, Adam. Quero o que ele encontrou ao lado de Grace Stuart.

– Não pronuncies o nome dela – reagiu Adam num tom brusco. – Não nesta casa onde ela causou tanto mal.

James ergueu o braço num sinal de tréguas. Nessa noite, faltava-lhe energia para discutir o assunto. Nessa noite, pairava no ar uma questão muito mais importante.

– Quero ser feliz, Adam. É o que sempre desejei e achei dificílimo de conseguir. Quero passar a vida com alguém que me ame.

– O que queres dizer com isso? – retorquiu Adam após um pesado silêncio.

– Quero dizer que vou casar-me com Anne Porter. Se me aceitar, claro. Ignoro se pensará ou não que sou um bom partido, mas sei que me dirá sinceramente o que sente. É uma das facetas que mais me agrada nela.

– Casares com Anne? – repetiu Adam, como se não tivesse compreendido. – Não podes estar a falar a sério.

James já passara pela experiência de ver Adam sem palavras. O irmão abriu literalmente a boca de espanto. Após outro moroso silêncio, James afirmou baixinho:

– Nunca falei mais a sério em toda a minha vida.

– Mas ela é uma prostituta! – explodiu finalmente Adam, levantando-se tão bruscamente que a cadeira caiu atrás dele.

– E o que é que isso faz da Maggie? – retorquiu James num tom amargo.

– Não estamos a falar da Maggie – gritou Adam, apontando um dedo acusador. – Isto é sobre ti, sobre o teu nome, a tua linhagem. A linhagem dos teus filhos. Perdeste totalmente o juízo? Não te interessa o escândalo que provocarás?

– Nem um pouco.

– Se não for isso, que tal a humilhação que causarás à mãe?

– Porque devo preocupar-me com ela, Adam, se nunca pensou um só momento no meu bem-estar?

– Mesmo assim, é nossa mãe – sibilou. – Isso vai matá-la.

– Ela sobreviverá – garantiu James tranquilamente, ainda mais determinado devido à indignação de Adam. – Se não sobreviver, pouco me interessa.

– Foste sempre um safado egocêntrico.

– Lamento que encares o assunto dessa forma, mas recuso levar a vida que estás disposto a infligir a ti próprio. Queres mesmo arriscar-te a casar com uma dessas raparigas que não te interessam minimamente e expores-te a dar aos teus filhos a mesma vida que tivemos em criança?

– Não será assim – insistiu Adam com menos entusiasmo do que deveria ter usado para argumentar o seu ponto de vista.

– Será exatamente assim – disse James, acabando a bebida de um trago e pousando o copo em cima da secretária. – Vou regressar a Londres de manhã para poder pedir Anne em casamento. Se ela aceitar, quero desencadear imediatamente o processo.

– Só por curiosidade, como darás início à mortificação da nossa família? Colocando um anúncio no Times ou encarregando o vigário de começar a anunciar os banhos no próximo domingo?

– Nenhuma dessas hipóteses. Quero que a cerimónia se realize o mais depressa possível.

Levado por uma súbita inspiração, Adam advertiu:

– Impedirei qualquer tentativa de obteres uma licença especial.

– Nesse caso, envergonhar-te-emos ainda mais e fugiremos – reagiu, encolhendo os ombros e lamentando que a discussão tomasse aquele caminho, mas consciente de que provavelmente não poderia ter sido de outra forma. – Terás uns dias para pensar no assunto e mudar de opinião. Espero que o faças.

– Não me interessa o quanto pensas que a amas. Não darei a minha bênção. Não reconhecerei a união e nunca te receberei na minha casa. E a mãe também não o fará.

– Oooooh… Ai está uma ameaça que me deixa a tremer.

– Mas deveria. Serás banido onde quer que vás. A tua mulher arcará com o pior. Pensa nela, se não queres pensar em ti.

Os olhos de James brilharam de raiva.

– Tenho vinte e sete anos, o meu próprio título e a minha fortuna pessoal. Não precisarei nem pedirei a tua bênção e, se optares por recusá-la numa questão que significa tanto para mim, não podia ligar menos. – Deu a volta à secretária até ficarem uns escassos centímetros separados, frente a frente. – Quanto a Anne e às opiniões que tens a respeito dela: amo-te, irmão, e sempre te amarei, mas ela será minha mulher e espero que receba toda a cortesia e todo o respeito que merece devido a essa posição. De ti e dos demais. Se alguma vez voltares a chamar-lhe prostituta, terás de haver-te comigo. Não me obrigues.

Adam, assustado e consternado com o que estava a acontecer, suavizou a postura e colocou a mão no ombro do irmão.

– Não faças isso, James – implorou calmamente. – Não faças isso à mãe, nem a mim. Por favor.

James sacudiu a mão e afastou-se.

– Partirei de madrugada para que não haja necessidade de despedidas ou de explicações. Apresenta desculpas em meu lugar.

Saiu da sala sem olhar para trás.

* * *

Maggie estava sentada na frente do toucador no seu quarto e fitou o seu reflexo no espelho. Inclinando o rosto para a frente e para trás não conseguiu detetar nada que achasse diferente. Parecia a mesma, o que se tornava difícil de acreditar. Caso as suas suspeitas se revelassem verdadeiras, se essa coisa espantosa tivesse acontecido, decerto haveria qualquer sinal na pele, na cor dos olhos, no brilho do cabelo. Mas, nada de nada. Continuava a mesma de sempre.

Passou uma das mãos sobre o ventre. Com medo. Com espanto, em total estado de pânico. Poderia ser? Voltou a contar as semanas. Não havia dúvida a esse respeito. Devia ter acontecido numa das primeiras noites depois de regressar a casa e deixar de trabalhar no bordel. Consternada, atirou-se para cima da cama e tapou os olhos com o pulso.

Caramba! Mas ela fora tão cuidadosa.

Rose e Anne tinham-lhe indicado todas as coisas que podia fazer e usar para evitar uma gravidez. E experimentara todas elas, lavando-se com vinagre e outros ingredientes, tomando poções de ervas, bebendo infusões, servindo-se o mais possível da boca e das mãos. Fizera tudo e testara tudo de que ouvira falar, mas de nada valera, pois o mais importante que lhe tinham dito – que todos os cuidados do mundo não poderiam impedir uma gravidez se estivesse predestinada – parecia ter acontecido.

– O que fazer? O que fazer? – murmurou no silêncio do quarto, voltando a sentar-se. Antes do mais, precisava certificar-se. Ignorava quando é que uma parteira podia confirmar um bebé, mas precisava de perguntar a uma delas. Anne saberia com quem devia falar. Anne saberia o que fazer.

Maggie encaminhou-se nos bicos dos pés até à porta e abriu uma fresta, sem ouvir qualquer som e interrogando-se sobre o que isso significava. James tinha-as surpreendido a ambas ao vir para casa mais cedo e o casal de amantes tinha-se fechado à chave no quarto de Anne, sem sair para comer ou para beber. Quando a noite ia adiantada, Maggie ouvira-os a falar, discutindo ocasionalmente, lutando até e depois sussurrando ao romper do dia. Alguma coisa se passara. Maggie sentia-a no ar e esperava de todo o coração que James não tivesse decidido deixar a amiga. Maggie não sabia se Anne aguentaria outra perda dolorosa.

O corredor estava imerso em silêncio. Se James se fora embora, não o ouvira sair. Depois de terem passado a noite acordados, era sem dúvida possível que estivessem a dormir. Nesse momento, Gail apareceu no corredor e Maggie interrogou-a em voz baixa sobre o paradeiro de James, vindo a saber que ele abandonara a casa de manhã cedo. Anne estava a pé, sem se ter arranjado, sentada no quarto.

Maggie dirigiu-se à porta do quarto de Anne e bateu, pensando como começara por se sentir entristecida ao ver que James regressara e Adam não viera com ele. A razão ditou-lhe que ele não podia abandonar os convidados na casa de campo, mas o coração desejou que o tivesse feito. Agora, com aquele problema sobre a cabeça, sentiu-se satisfeita por ele ficar fora durante mais alguns dias. Dar-lhe-ia tempo para saber alguns factos e elaborar um plano.

– Entre – disse a voz de Anne baixinho do outro lado da porta.

Maggie obedeceu hesitante, interrogando-se sobre o motivo da confusão e preocupada com o estado em que ia encontrar Anne. De vez em quando ouvira estrondos, como se Anne estivesse a atirar objetos a James.

No entanto, o quarto parecia perfeitamente arrumado. Anne estava sentada numa cadeira ao lado de uma mesinha, embrulhada num roupão felpudo, bebendo o chocolate da manhã. Tinha o cabelo impecavelmente escovado, mas os caracóis negros enquadravam um rosto que parecia encovado e pálido, como se estivesse doente. Os olhos estavam vermelhos de chorar, embora isso já fizesse parte do passado. Denotava um ar pensativo, como se carregasse nos ombros todas as preocupações do mundo.

– Bom dia – saudou Maggie ao entrar, tentando sorrir.

– Oh, Maggie, és tu. Olá! – disse Anne, pousando a chávena na bandeja. A título de explicação, acrescentou: – Julgava que seria a Gail com o meu vestido. Queres alguma coisa? – perguntou com um gesto na direção da bandeja.

– Sim, obrigada. Acho que sim. – Maggie sentia-se ligeiramente enjoada, quer fosse por causa de um bebé ou simplesmente pelo nervosismo provocado por essa possibilidade, não sabia. Contudo, sentou-se e serviu-se de uma chávena de chocolate, esperando que lhe acalmasse a desagradável sensação. Bebeu um golinho do líquido quente, olhou por cima da borda da chávena e acrescentou: – Preciso de te falar.

– E eu contigo. Não vais acreditar no que aconteceu.

O repentino aflorar de lágrimas aos olhos de Anne fez soar a campainha de alarme na cabeça de Maggie. Se James a tivesse magoado, Maggie matá-lo-ia.

– O que é isso? Foi o James? O que fez ele?

Anne esticou o braço por cima da mesa e apertou a mão de Maggie.

– Ele não fez nada. Só que aquele… aquele desgraçado quer casar comigo.

– O quê?

Maggie estava tão chocada que não tinha a certeza de que ouvira bem.

– Quer casar comigo – repetiu Anne, sacudindo a cabeça e soltando uma leve risada ante o olhar atordoado de Maggie. – Eu sei, também mal consegui acreditar.

– Desculpa. Eu só… – Sem saber o que dizer, fechou a boca, recompondo-se um pouco antes de tentar novamente. – O que provocou isso?

– Diz que sentiu a minha falta. O facto de ter estado longe durante uns dias deu-lhe oportunidade de pensar na vida. Na semana anterior herdou uma propriedade e algum dinheiro, continuou a pensar no futuro e decidiu que quer gastá-lo comigo. – Pegou num guardanapo e limpou uma lágrima que teimara escapar-lhe pela face. – Consegues acreditar?

– Claro que sim. És a pessoa mais maravilhosa que conheço. Acho que James é muito mais inteligente do que eu julgava – respondeu, apertando a mão de Anne com força. – Espero que tenhas tido o bom senso de aceitar.

– Bom, no início não, mas ele venceu-me. – Retirou a mão esquerda de baixo da mesa onde a ocultara discretamente quando Maggie tinha entrado no quarto. O dedo ostentava um bonito anel de noivado, uma esmeralda encrustada num pequeno mar de minúsculos diamantes. – Vamos casar na sexta-feira.

Maggie já estava a segurar na mão direita de Anne e nesse momento pegou também na esquerda.

– Oh, Annie. Sinto-me muito, muito feliz por ti.

– Queres ser minha madrinha?

– Seria uma honra.

Mais algumas lágrimas escorreram pelas faces de Anne e Maggie pegou no guardanapo e enxugou-lhas.

– Porque estás tão triste? – inquiriu.

– Não estou triste. Estou em estado de choque.

– É compreensível – anuiu Maggie que também se sentia bastante atordoada com a notícia. – Porque estavam a discutir?

– Ouviste?

– Acho que algumas pessoas que vivem a dois quarteirões de distância provavelmente também ouviram.

Anne passou a mão distraidamente pelo cabelo e suspirou, dando a sensação de que acabara de travar uma grande batalha e perdera.

– É uma confusão tão grande.

– Porquê? Não queres seguir em frente?

– Bem, claro que quero, mas ele tem muitos problemas a enfrentar para casar com alguém como eu. Não acho que se aperceba das dificuldades.

– Em que aspeto?

– Sou amante dele.

– Claro, mas não será o primeiro homem a quebrar as regras e a casar com a amante.

– Não, mas há coisas tão horríveis no meu passado: a passagem pelo bordel e os outros protetores que já tive. As pessoas do seu círculo conhecem-me e podem lembrar-se de mim. Não aguentaria se alguma vez fosse desprezado ou envergonhado por ter casado comigo.

– James é um homem adulto, Annie. Tenho a certeza de que pensou em todas as consequências.

– Não estou muito certa. Foi esse o motivo por que estávamos a discutir com tanta veemência. Não quero que ele leve a decisão por diante e dentro de seis meses ou de um ano decida que cometeu um erro.

Maggie pensou na intensidade com que os olhos de James brilharam quando Anne entrou na sala e riu da preocupação da amiga.

– Não me parece que alguma vez tenhas de te preocupar com isso.

– Espero que não – disse, inclinando-se para a frente e apoiando os cotovelos na mesinha que as separava. – Mas há mais e de certa maneira envolve-te.

– A mim?

– Bom, sabes que o Adam nunca simpatizou comigo e está furioso com a decisão de James. Tiveram uma discussão enorme. Ele não irá ao casamento e disse que nunca nos receberá nem reconhecerá a nossa união.

Maggie sentiu-se repentinamente tão fraca como Anne parecia. Fosse qual fosse o rumo que a situação tomasse, Maggie ficaria armadilhada entre o homem que amava e a sua melhor amiga.

– Tenho a certeza de que ele falou sem intenção, Anne. Conheço o Adam. Sofre tanta pressão que quando está furioso lhe escapam palavras contra sua vontade.

– Não o desculpes perante mim – retorquiu Anne bruscamente. – O problema é que… supõe que Adam não consegue superar a situação e não perdoará James. James farta-se de repetir que não se importa e acredito que pense assim agora, mas continuará a adotar a mesma posição daqui a seis meses ou um ano? Será que devo interpor-me entre ele e o irmão quando foram sempre tão chegados?

Anne levantou-se e dirigiu-se à janela, ficando a observar o trânsito lá em baixo.

– Era isso que estávamos a discutir. Ele tinha resposta para tudo e acabei por ceder – contou, fitando Maggie por cima do ombro. – Achas que agi da melhor maneira?

– Tenho a certeza.

Era fácil responder afirmativamente. Anne merecia ser muito feliz na vida e era uma sobrevivente. Tiraria o máximo partido da situação, independentemente do que pudesse surgir. Maggie levantou-se e foi ter com Anne, abraçando-a com força.

– Será a melhor coisa que alguma vez te aconteceu. Sei isso.

– Espero bem que sim – redarguiu Anne, soltando-se do abraço, mas mantendo as mãos na cintura de Maggie. – Há mais uma coisa que preciso de falar contigo.

– O quê?

– Vou mudar-me hoje. Para um hotel até ao casamento.

– Porquê?

– Por causa de toda a confusão com o Adam. Não quero encontrá-lo nem discutir com ele. Depois da cerimónia, vamos fazer umas longas férias. Quando regressarmos, iremos viver para o campo. Para a propriedade que James herdou na Cornualha.

Essa foi a pior notícia que Maggie podia imaginar. O casamento de Anne era uma coisa, mas que se mudasse para tão longe era outra. Tudo acontecia com demasiada rapidez. Engoliu as lágrimas que se apressavam a preencher o novo vazio que agora surgia na sua vida.

– Então, não te verei muito mais vezes.

– Não, exceto se vieres connosco. Sinto-me preocupada contigo e o que pode acontecer com Adam. Não quero deixar-te aqui entregue a ti própria.

– É escusado preocupares-te comigo – tranquilizou-a Maggie com uma leve risada. – Ou com Adam. Ele cuidará de mim e vai correr tudo bem.

Anne submeteu-a ao atento escrutínio que parecia dar-lhe a capacidade de ir até ao âmago da questão.

– Mas quero que prometas que irás ter connosco a qualquer momento, sem hesitares, caso precises de ajuda ou de um sítio para viveres. Se precisares de alguma coisa, tens de jurar que irás ter comigo.

– Duvido que o teu marido queira uma intrusa como eu a intrometer-se logo no começo do vosso casamento.

– Já conversámos sobre isso e ele pensa como eu – disse, pousando a mão na face de Maggie. – Jura-me.

– Juro. Se alguma vez precisar de alguma coisa, vou ter contigo.

Porém, no mesmo instante em que pronunciou as palavras, soube que não era verdade. Seria incapaz de pedir ajuda a Anne. Independentemente de James e Adam estarem agora de costas viradas, Maggie sabia que Adam acabaria por aceitar o casamento de James. Anne seria eventualmente considerada um membro da família St. Clair, o que significava que não haveria lugar na sua casa para a ex-amante de Adam.

Felizmente, Anne estava tão absorta com o peso dos seus problemas que não avaliou a promessa de Maggie com a habitual acuidade. Aceitou a jura de Maggie como verdadeira, aliviando-a em muito ao dizer:

– Ótimo. Era isso o que precisava de ouvir antes de seguir em frente.

Abraçou Maggie novamente e acrescentou:

– Quando entraste, disseste que querias falar comigo sobre algo. O que era?

– Sabes que mais? Não devia ser muito importante – mentiu Maggie sem hesitar.

A possível gravidez era a última coisa de que falaria nesse momento. Negava-se totalmente a estragar a felicidade de Anne ou a preocupá-la em vão.

– Depois de ouvir as tuas grandes novidades, já nem me lembro.