Meu Único Amor
Capítulo 7
Maggie abriu sem ruído a porta de casa, esperando que Anne estivesse fora ou ocupada com qualquer coisa para não se verem obrigadas a discutir imediatamente como o dia anterior tinha sido frustrante. Existia sempre a leve hipótese de Anne haver encontrado uma posição, mas Maggie começava a desesperar. A centelha de esperança que guardavam quanto a encontrarem um emprego adequado perdera o brilho.
Com os pés inchados e doridos, sentia-se como se tivesse percorrido Londres de uma ponta à outra, desde que saíra de manhã cedo, mas era impossível evitar distâncias longas. Em menos de três semanas, deviam estar a viver num outro lugar, embora não tivessem dinheiro para transformar essa mudança em realidade. George estava disposto a pô-las na rua, se necessário; mantinha a decisão.
De início, o prazo de três meses que lhes tinha dado para arranjarem outra casa parecera muito tempo, mas agora que o mesmo estava quase a cumprir-se, os dias passavam num abrir e fechar de olhos. Embora nenhuma delas o tivesse admitido, as duas começavam secretamente a entrar em pânico.
Maggie iniciara a procura de emprego, contactando as lojas femininas onde Rose fizera compras ao longo dos anos. As proprietárias mostraram-se gentis e preocupadas, mas nenhuma delas tinha uma vaga. Uma delas oferecera-se para despedir outra rapariga, a fim de arranjar espaço para Maggie. O facto de Maggie ter momentaneamente considerado aceitar a proposta apenas confirmou até que ponto a situação se tornara desesperada. A sua consciência levou a melhor no último minuto e recusara a sugestão da mulher.
Após contactar as donas de lojas que conhecia, optou por falar com as desconhecidas. Embora não fosse de forma alguma uma especialista, sempre se interessara pelas cores e a moda e achava que poderia singrar como vendedora. A sua aparência e a forma como se movimentava eram um bom passaporte, mas nem uma única proprietária se mostrou disposta a aceitá-la sem experiência. Os tempos estavam difíceis e havia demasiadas mulheres a precisar de emprego. Ninguém era obrigado a contratar alguém que nunca tivesse trabalhado.
Tentara comparecer a entrevistas para lugares de governanta, mas sem referências, ninguém iria tomá-la em consideração. Um cavalheiro permitira que entrasse, mas, pelos seus comentários, tornou-se claro que esperaria mais do que capacidade como ama, caso fosse contratada. Travara-lhe os avanços que surgiram no final da entrevista e fugiu a correr da casa, de saias erguidas.
Com a rápida diminuição de alternativas, começara a percorrer as ruas de todos os bairros respeitáveis e mesmo dos que não o eram. Começando cedo e prosseguindo durante o dia, passava de loja em loja, interessando-se mais pela possibilidade de ser contratada do que pelo tipo de produtos à venda. A confiança e o orgulho de Maggie haviam sofrido um profundo revés, pois, embora recebesse muitas ofertas, nenhuma delas se relacionava com um emprego remunerado.
Tinham passado dois meses desde aquelas desastrosas férias na praia. Dois meses em que ela e Anne bateram a portas, imploraram ajuda, pediram a paga de antigos favores. Tudo inútil. Maggie não conseguiu encontrar emprego em nenhum lugar. Tão-pouco Anne. Dentro de dias, George iria pô-las na rua apenas com as roupas e o punhado de moedas que tinham conseguido amealhar.
Anne apareceu no topo das escadas e começou a descer lentamente. Quando chegou ao fundo, embora o comportamento de Maggie deixasse claro que não havia novidades, perguntou:
– Tiveste sorte?
– Não. E tu?
– Madame LeBlanc informou-me delicadamente que eu era sem dúvida bastante bonita, mas simplesmente demasiado velha para trabalhar no seu luxuoso estabelecimento. Vou fazer trinta anos daqui a uns meses. Quase terei idade para ser mãe de muitos dos seus clientes.
Maggie abanou a cabeça condoída, mas no íntimo sentiu-se aliviada. A ideia da bela e doce Anne se ver obrigada a trabalhar num bordel era simplesmente impensável.
– Não vou dizer que lamento muito. Sou incapaz de aceitar a ideia de te imaginar num desses lugares.
– Os mais requintados não são assim tão maus – insistiu Anne com mais entusiasmo do que sentia.
Estava disposta a dar o salto para ser prostituta a tempo inteiro. Na sua qualidade de mais velha e mais prática das duas, Anne via o prazo a aproximar-se muito mais rapidamente do que Maggie. Aceitaria qualquer proposta que as mantivesse afastadas das ruas, sentindo que, depois de perderem a casa, não haveria esperança para qualquer delas.
– Oh, Anne, a que estado chegou o nosso mundo. Não acredito que estejamos a ter esta conversa.
– Eu sei. Parece-se um pouco com um sonho, não é? – retorquiu Anne, pegando na mão de Maggie. – Acabei de fazer chá. Vamos beber uma chávena e ver se as coisas não parecem melhores quando terminarmos.
Foram sentar-se nas duas cadeiras usadas da sala de estar. Maggie inclinou a cabeça para trás e fechou os olhos, escutando o barulho da rua que lhe chegava através das janelas. Os sons e os ritmos eram calmantes e, quando esvaziou a chávena, sentiu-se mais confortada.
Ao abrir os olhos, viu que Anne observava serenamente a agitação do exterior. A luz do final de tarde refletia-se no seu rosto, fazendo-a parecer jovem e cheia de vida e Maggie não conseguiu deixar de pensar em como tinha sorte por Anne fazer parte da sua vida. Como a situação seria muito mais assustadora, caso estivesse sozinha!
Maggie quebrou o silêncio daquele companheirismo.
– Tenho uma ideia. Há uns dias que ando a pensar nisso e queria saber a tua opinião.
– Do que se trata?
Engolindo em seco, prosseguiu antes que lhe faltasse coragem:
– Talvez devesse permitir que George me apresentasse a alguns dos seus amigos… como se ofereceu para fazer no começo. – Anne manteve-se sentada sem fazer qualquer comentário, o que fez com que Maggie sentisse uma enorme necessidade de preencher aquele vazio silencioso. – Decerto resolveria todos os nossos problemas. E depois de conhecer alguém como Adam St. Clair, sei que poderia tolerar o que quer que fosse para ser bem-sucedida.
Anne sorriu ante a ingenuidade de Maggie. Havia poucos homens por perto como os irmãos St. Clair. Nada que se parecesse com a riqueza, aparência e charme que emanavam. Contudo, a ideia tinha mérito.
– Tenho uma confissão a fazer – disse com uma leve risada.
– Qual?
– Pedi ao George que fizesse isso mesmo. Só para mim. Pensei que talvez conseguisse encontrar uma posição junto de um cavalheiro para mim.
– E como reagiu?
– Ele e Madame LeBlanc têm algo em comum. Os dois acham que estou demasiado velha.
– Tens menos oito anos do que tinha a minha mãe e ele ligou-se-lhe rapidamente.
– Sei disso, mas não me achei em posição de assinalar tal coisa.
– Tens razão.
Riram as duas ante o ridículo da situação em que se encontravam, até a alegria dar lugar a mais um prolongado silêncio que Maggie finalmente interrompeu:
– Então… o que achas? Passarias a odiar-me se fizesse uma coisa dessas? Sei que tu e a minha mãe desejavam muito mais para mim, mas nem quero pensar no que nos acontecerá, se não tentar.
– Maggie, como poderia odiar-te por fazeres o que passei a maior parte da minha vida a fazer? É o estado deste mundo que nos obriga a encontrar uma forma de sobreviver. O próprio facto de sermos mulheres limita as nossas escolhas. Não posso irritar-me com qualquer das tuas escolhas para nos ajudar a sair desta confusão.
– É assim tão horrível?
– Pode ser ou não. Depende do cavalheiro. Agora, sou mais velha e mais experiente. Se recebesses uma oferta, poderia ajudar-te a decidir se devias ou não aceitá-la.
Maggie fechou os olhos e sussurrou uma curta prece. Quem iria pensar que a sua vida chegaria àquele ponto?
– Vamos em frente – suspirou, resignada. – Como começo?
Anne estendeu a mão e deu-lhe uma palmadinha de apoio.
– Primeiro, vamos enviar uma mensagem a George, dizendo-lhe que queremos que comece a falar com os amigos. Depois, precisaremos de começar a cuidar do teu guarda-roupa.
– Fazes com que tudo pareça bastante simples.
Anne soltou uma risada, pois tudo seria na verdade incrivelmente fácil. A falta de presunção de Maggie impedia-a de perceber como era bonita. Anne não duvidava que muitos cavalheiros tomariam em consideração arrebatá-la – até mesmo os que não sabiam que andavam em busca de uma amante – mal tivessem a sorte de pôr os olhos nela.
– Podes acreditar que será incrivelmente fácil.
Adam seguiu a multidão ao longo da subida que conduzia à mansão. Um criado estava à disposição para receber o seu chapéu e a capa. Entregou-lhos em silêncio e virou-se para as escadas, pronto para se dirigir ao imponente salão de baile. Sentindo-se como um homem condenado, subiu lentamente os degraus, como se a forca o aguardasse no topo.
Sempre que participava numa daquelas festas, passava a odiá-las mais. As conversas superficiais, as mulheres insípidas, os pais presunçosos. Desde a sua estada na praia, em maio, tudo havia piorado. Fizera a viagem qual cotovia, esperando que uns dias de diversão e brincadeiras o libertassem de alguma da tensão e tédio do quotidiano. A tentativa não resultara. Em vez de haverem minorado a ansiedade e a pressão, as férias apenas tinham servido para cimentar quão profundamente desprezava tudo na sua vida.
Conhecer Maggie Brown fora a pior coisa que lhe acontecera! Pensava nela constantemente, na forma como sorria e ria, nas suas conversas francas e opiniões saudáveis. E também na sua fantástica – mas absurda – afirmação de que eles tinham sido feitos para serem ternos amantes e almas gémeas. Como podia uma jovem ocupar tão completamente os pensamentos de um homem?
Recuava muitas vezes até àquela noite no exterior do celeiro e à maneira como ela lhe oferecera a sua inocência de uma maneira franca e sincera. Como tinha sido estúpido em recusá-la! Embora ela estivesse disposta a contentar-se com qualquer pequena porção de felicidade que pudessem encontrar juntos, ele não poderia fazer o mesmo. Na realidade, era um cobarde. Fora-lhe dada a oportunidade de agarrar uma coisa maravilhosa e tivera demasiado medo.
Como resultado, a sua mente vagueava nas reuniões sociais, totalmente ocupada com recordações dela. Enquanto percorria as ruas de Londres, procurava-a constantemente, pensando e esperando ser capaz de vê-la no meio da multidão. Andava em círculo como um tolo cisne apaixonado.
Nunca lhe tinha perguntado onde vivia, mas supunha que podia contratar alguém para a encontrar.
E depois?
A pergunta surgia inevitavelmente. O que faria se a localizasse? Nada relativamente à situação de ambos mudara, exceto que ela saberia a verdade: ele não passava de um mentiroso e de um crápula. Não queria que ela alguma vez viesse a ter essa opinião, embora existisse a hipótese de que já o sentisse, considerando a forma como a deixara na pousada sem um mero aceno de mão.
Encontrá-la não era uma opção.
Em vez disso, entregara-se de corpo e alma à tarefa de escolher uma esposa, passar mais tempo fora, acompanhar mulheres a vários eventos, aceitar mais apresentações, frequentar mais festas, tal como era o caso nessa noite.
Nesse percurso, desenvolvera uma interessante e inexplicável ligação a Penelope Westmoreland. Havia algo naquela jovem que lhe recordava Maggie. Não se tratava de uma questão de parecença, já que Penelope era loira e robusta, enquanto Maggie era morena e magra. A semelhança cifrava-se em algo mais subtil. Estranhamente partilhavam muitos dos traços faciais, gestos e movimentos do corpo. Em numerosas ocasiões, vira-se a olhar para Penelope, observando lampejos ocasionais de Maggie que vinham à superfície.
Por vezes, interrogava-se se estaria a enlouquecer.
Depois de ser anunciado, desceu para o salão, evitando ao máximo olhar para os restantes convidados, enquanto procurava James ou o seu primo Charles, sem encontrar a segurança de uma companhia masculina. Conseguiu atingir uma parede do fundo e manteve-se a um canto, bebendo champanhe.
Uma voz à esquerda chamou-lhe a atenção e virou-se, emitindo um gemido silencioso quando avistou George Wilburton. Conhecera desde sempre aquele homem arrogante e não o suportava. Compondo uma expressão simpática, saudou o velho conhecido.
– O que o traz aqui, Wilburton? Julguei que estava no campo a preparar o seu casamento.
– Tenho alguns assuntos para resolver antes de deixar a cidade. Não está por acaso interessado numa pequena vivenda?
– Não posso dizer que sim.
George examinou St. Clair com um olhar atento. Não tinha planeado abordá-lo, mas que mal poderia advir? Ele apreciava tanto uma cara bonita como qualquer outro.
– Na verdade, à casa junta-se um complemento que pode suscitar-lhe curiosidade.
– O quê? – perguntou Adam, mais por necessidade de manter a conversa do que por interesse genuíno.
– Uma mulher – sussurrou George num tom conspiratório, inclinando-se.
– Uma mulher? – Era a última coisa que Adam esperava ouvir de um bronco como Wilburton e não conseguiu reprimir a surpresa que acompanhou a pergunta. – Tem uma amante?
– Há anos que a tenho. – George estivera prestes a confessar a verdade sobre a sua relação com Maggie, mas mesmo nos tempos da juventude sempre havia desejado impressionar St. Clair. Não conseguiu evitar a pequena mentira ou a enorme insinuação que a frase acarretava.
– Hmm… – cogitou Adam. Podia sempre saber-se uma novidade a cada dia que passava. – Ela vale a pena?
– Sem dúvida.
– A sério? – Segundo a experiência de Adam, os seus conhecidos que mantinham mulheres acabavam por considerá-las um tédio. Todos, à exceção do seu maldito pai que tivera a audácia de se apaixonar.
– Ela é requintada, mas já a sustento há algum tempo e não posso continuar – prosseguiu George, dando o seu melhor para parecer farto da ligação. – Ela precisa de arranjar um novo acordo e prometi-lhe delicadamente que lhe faria várias apresentações.
– Claro! – exclamou Adam, mantendo uma expressão séria, frente à atitude condescendente do indivíduo. – Tenho a certeza de que ficará muito grata.
– Sem dúvida – anuiu, erguendo sugestivamente as sobrancelhas. – Gostaria de conhecê-la? Ela é excecional.
– Se é tão excecional – reagiu Adam, incapaz de reprimir um tom de sarcasmo – porque se dispõe a abandoná-la?
– Por causa da minha noiva – respondeu ele com um suspiro. – Sabe bem como algumas senhoras reagem a esse tipo de assunto.
– Sim. Sei muito bem – concordou Adam, pensando na mãe e no ódio que ela albergava contra o seu pai devido à prostituta que tingira as suas vidas.
– Mesmo assim, é uma mulher encantadora – disse George. – Estou empenhado em fazer o que puder para zelar pelo seu bem-estar enquanto ainda tenho oportunidade. Ela está comigo esta noite. Tem a certeza de que não quer conhecê-la?
Adam sentia-se divertido. A ideia de um homem como Wilburton a manter uma amante era tão absurda que seria ridícula, se não fosse patética. Ficou curioso. Nada lhe agradaria mais do que conhecer a mulher que estava suficientemente desesperada para prestar serviços sexuais regulares a um homem como George Wilburton. A imagem servir-lhe-ia provavelmente de motivo de troça para vários dias.
Tentando parecer casual, encolheu os ombros e bebeu um longo gole de champanhe.
– Porque não? Tenho a certeza de que vou achá-la encantadora.
George perscrutou a multidão.
– Ah… lá vem ela.
* * *
Maggie observou a sua imagem refletida no espelho. Poucas vezes em toda a vida parecera melhor. Anne tinha-se esmerado como habitualmente com o cabelo de Maggie e apanhara-o no topo da cabeça. Alguns cachos suaves emolduravam-lhe o rosto. Haviam usado várias tonalidades para colorir as faces e realçar o violeta dos olhos, mas a aplicação fora feita tão ao de leve que pareciam naturais.
O vestido, alfazema-claro orlado de púrpura, estava puído no ombro, expondo a maior parte dos seios, e a brancura da pele era apenas quebrada por um único fio de pérolas emprestado por George. A cintura elevada do vestido acentuava na perfeição os seios arredondados e a figura esbelta. O corte e o fluir do tecido faziam-na parecer mais alta e esguia.
– O que estou a fazer aqui? – perguntou à imagem refletida.
De início, quando abordara com Anne a questão de se tornar amante, a ideia parecera-lhe boa. Contudo, agora, sozinha na casa de banho das mulheres enquanto o baile decorria em pleno no andar inferior, mudara de opinião. Como Anne dissera, podia conhecer o amor da sua vida, ou, com mais probabilidade, um canalha e um tratante – o que, aos olhos da amiga não era necessariamente mau, desde que o homem não fosse cruel.
Rose estava provavelmente às voltas na sepultura.
A porta para o compartimento exterior abriu-se e ouviu o barulho da multidão lá em baixo filtrado por quem quer que tivesse entrado. Sem desejar falar com ninguém, virou-se para sair, mas parou devido às vozes de duas mulheres que falavam lá fora.
– Lorde Belmont deve estar a chegar a qualquer momento, Penelope.
Maggie quase soltou um gemido em voz alta ante a possibilidade de encontrar Adam. Naqueles dois meses, desde a sua saída abrupta da Tidewater Inn, ele ocupara-lhe frequentemente o pensamento. Na verdade, embora se sentisse furiosa e humilhada devido às suas mentiras e atitudes, não conseguia esquecê-lo. Quantas vezes um homem tão elegante, bonito e educado apareceria na sua vida? Muito provavelmente, nunca.
Que golpe do destino ele aparecer numa noite em que tencionava vender-se pela melhor oferta! Tinha de sair dali. Estendeu a mão para abrir a porta, mas voltou a parar quando a mulher chamada Penelope respondeu à amiga.
– Estou ansiosa por ver a cara dele quando puser os olhos no meu vestido. Vem cá. Puxa-me o corpete um pouco mais para baixo. – Soou o restolhar de tecido caro. – Isso mesmo. Mais ainda. Como está o meu decote?
– Inclina-te um pouco – respondeu a outra mulher. – Hmm… Perfeito.
– Ele terá certamente uma bela vista… se conseguir que se aproxime o bastante – disse Penelope com uma risadinha enquanto a outra mulher se lhe juntava.
– A proximidade não deve ser um problema, tendo em conta a atenção que te tem dado ultimamente.
– É verdade – concordou Penelope ao mesmo tempo que se ouvia mais um sussurrar de tecido. – Vê só isto.
– O que é?
– Aquele perfume francês de que te falei. Ao que parece, tem um ingrediente secreto que fará com que um homem se apaixone loucamente pela mulher que o usar. Adam não conseguirá resistir-me nem mais um segundo. Vamos para a outra sala. Resolvi que quero colocar um pouco nos mamilos.
– Mas que garota perversa! – exclamou a amiga, deliciada. – E se o teu pai reparar?
– Duvido que o duque se aproxime o suficiente do meu peito – redarguiu, sarcástica. – Além disso, que comentário podia fazer o meu pai a esse respeito numa sala cheia de gente?
Maggie respirou fundo quando a porta se abriu. Antes que pudesse mover-se, pensar ou reagir, viu-se frente a frente com a sua mais jovem meia-irmã. Sabia tudo a respeito de Penelope – nascida da esposa legítima do duque quase um ano depois de Rose ter dado à luz Maggie – mas nunca a tinha visto.
Até esse momento.
Quase da mesma altura, ficaram praticamente ao mesmo nível, avaliando-se uma à outra. Maggie conseguiu detetar muitas semelhanças e, na verdade, sentiu uma picada de simpatia por Penelope ao ver que ela lhe perscrutava o rosto à procura de reconhecimento, mas sem o descobrir. Maggie duvidava que a jovem soubesse que tinha uma irmã.
Maggie foi a primeira a falar, desejando apenas ir embora e nunca mais pôr os olhos na beleza angelical que tinha crescido com tudo o que poderia ter sido dela, caso o mundo fosse um lugar justo e imparcial. Não era por natureza uma pessoa mesquinha ou invejosa, mas tornava-se difícil pensar num comentário delicado quando Penelope estava ali a perfumar os seios para seduzir Adam St. Clair enquanto Maggie, a outra filha do duque de Roswell, estava ali para vender o corpo a fim de conseguir manter um teto sobre a cabeça. O ressentimento e a inveja tinham um sabor amargo.
– Desculpe. – Afastou-se para dar passagem a Penelope e à amiga.
Penelope não se mexeu. A mulher na sua frente parecia-lhe muito familiar, mas não conseguia localizá-la. Tinha a certeza de que conhecia toda a gente do seu círculo próxima da sua idade. A mulher estava impecavelmente vestida da cabeça aos pés e era deslumbrante. Penny detestava encontrar rivais sobre as quais nada sabia e ocorreu-lhe rapidamente que havia indivíduos no baile capazes de achar aquela mulher mais bonita do que ela. Que pensamento aterrador!
– Desculpe perguntar – disse com um sorriso forçado –, mas sinto como se a conhecesse. Nunca nos cruzámos?
– Não.
– Sou Lady Penelope Westmoreland – apresentou-se, ficando à espera do habitual lampejo de reconhecimento bajulador; todos sabiam quem ela era ou endireitavam-se respeitosamente quando o descobriam. Sem ver a reação aguardada, sentiu-se obrigada a acrescentar: – O meu pai é Harold Westmoreland, duque de Roswell.
– Sim, eu sei. – Maggie não fazia tenção de se apresentar ou conversar, portanto, foi extremamente indelicada quando não indicou o nome, depois de Penelope ter mencionado o dela. Passou pelas duas mulheres, o que não foi uma tarefa fácil com Penelope a bloquear cuidadosamente a saída. – Desejo-vos uma noite agradável.
– Ora, bem…! – comentou Penelope ofendida, quando Maggie saiu para o corredor.
– Quem era?
Maggie ouviu a pergunta feita pela voz exasperada da amiga de Penelope, mas o resto dos comentários foi abafado quando a porta se fechou.
Havia provavelmente quinhentas pessoas presentes naquele baile. Quais eram as hipóteses de se ver aprisionada numa pequena divisão, tendo apenas por companhia uma Penelope Westmoreland de mamilos espetados? Ou descobrir que a sua meia-irmã tencionava conquistar Adam? Se ficasse, tinha a certeza de que seria novamente abordada por Penelope, um confronto que queria evitar a todo o custo.
Dada a forma como a noite se desenrolava, encontrar-se-ia provavelmente com o pai que, sem dúvida, a reconheceria, dado parecer-se imenso com a mãe durante os anos em que eles haviam sido amantes. O pensamento de ser desprezada por ele em público era mais do que conseguia suportar.
E ainda havia Adam a ter em conta. Esbarrar com ele estava fora de questão, sobretudo se houvesse a mínima hipótese de Penelope estar pendurada no braço dele quando isso acontecesse.
Estava tremendamente corada e desejou saber onde havia um outro toucador para poder banhar a cara com um pano frio antes de regressar ao salão de baile. Infelizmente, não sabia e estava disposta a queixar-se de dor de cabeça e a abandonar o baile antes que se tornasse mais desastroso.
Desceu as escadas e circulou por entre os convidados, até ao fundo do salão, esperando que George a aguardasse no sítio onde dissera que ficaria. Avistou-o através da multidão, bebendo champanhe e falando animadamente com quem quer que estava ao seu lado. Deu a volta junto a um grupo e avançou até junto dele.
George ergueu o rosto e deu pela sua aproximação.
– Ah… lá vem ela! – disse ao seu companheiro. – Ainda bem que já voltaste, Maggie. Quero apresentar-te a uma pessoa.