Meu Único Amor

Cheryl Holt · Capítulo 21 de 31

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Meu Único Amor

Capítulo 20

 

– Vamos começar? – perguntou o jovem padre.

Não era ninguém conhecido de James, mas um total estranho de uma fé diferente, convencido a presidir à troca de votos pelo simples motivo de que todos os conhecidos de James filiados na Igreja haviam recusado – a pedido do seu irmão, o marquês de Belmont.

James consultou o relógio. Eram onze em ponto.

– Sim, comecemos.

Maggie observava num banco da frente quando ele se virou para Anne com um sorriso radiante. O vestido de Anne era decotado, bege, com enfeites verdes que combinavam com os seus olhos. Tinha o cabelo caído e encaracolado nos ombros, como James gostava. O seu presente de casamento, brincos de esmeralda e um colar a condizer com o anel de noivado, brilhavam à luz das velas, emitindo faíscas verdes pela capela, sempre que ela se mexia. Parecia tão bonita que a visão dela fez com que as lágrimas aflorassem aos olhos de Maggie.

Oferecendo o braço a Anne, James perguntou:

– Estás pronta?

– Podemos esperar mais uns minutos, se quiseres – respondeu Anne. – Não me importo.

– Não – recusou ele, abanando a cabeça. – Está toda a gente aqui.

Anne fitou Maggie.

– O que te parece?

Maggie apenas podia sacudir a cabeça. Era óbvio que tentara e falhara a missão.

– Não me parece que valha a pena esperar – respondeu com um encolher de ombros derrotado.

– Parece que tens de ser o padrinho – disse James, olhando para Charles.

– Tenho de ser? – retorquiu Charles indignado e as suas palavras e a atitude arrogante provocaram o riso em todos os presentes. – Sempre fui o melhor dos melhores. Há anos que te digo isso. Já era altura de me dares ouvidos.

– E também és humilde – troçou James.

– Sem dúvida – sorriu o primo. – Sou a própria imagem da humildade.

James e Anne avançaram até ficarem diante do padre. Charles deu a volta ao banco e ajudou Maggie a levantar-se para que pudessem colocar-se de cada lado da noiva e do noivo. Maggie varreu a capela com um último olhar. As únicas pessoas presentes além do quarteto que fazia parte da cerimónia de casamento eram Grace Stuart e os seus três filhos. Não havia sinal de Adam, que era a única pessoa que realmente importava no que se referia a Maggie.

Esperara ficar triste ao ver que ele não aparecia e surpreendeu-se ao constatar que tal não aconteceu. Olhando para James e Anne enquanto pronunciavam os votos, achou simplesmente impossível sentir-se infeliz. Estavam tão extasiados, tão alegres e felizes que sucumbiu rapidamente à comoção do momento. Quando o noivo beijou a noiva, lágrimas enormes inundaram-lhe as faces. Não era a única. O noivo, a noiva, o padrinho e a família adotiva do noivo enxugavam os olhos com os lenços.

Dirigiram-se em duas carruagens para casa de Grace Stuart, onde ela tinha insistido em organizar uma festa de casamento íntima. A comida estava deliciosa, a conversa fluiu amigável e sonora, os brindes foram inúmeros e lascivos. O momento alto da tarde residiu na apresentação do presente de casamento de Anne a James: o seu nu pintado por Charles. O retrato, após os gritos e aplausos que despertou, mereceu a apreciação e os elogios do seu novo marido.

Todos se divertiram imenso e James parecia ter sido totalmente absorvido pela família Stuart. Maggie sentia-se feliz por ele, feliz por ver que ele tinha algum semblante de família com quem celebrar a ocasião. Parecia ser a única a notar a sombra causada pela ausência de Adam, mas não se deteve muito a pensar no assunto. Adam fizera uma escolha e James também. Só o tempo ia dizer o que aconteceria entre os dois.

A refeição chegou ao fim, a última garrafa de champanhe esvaziara-se. James estava na sala de estar a despedir-se de Grace e de Charles. Aconchegadas na entrada, Anne e Maggie dispuseram de um minuto a sós. Quando as despedidas terminassem, o feliz casal iria para o Carlysle Hotel, onde tinham reservado uma suíte. Na manhã seguinte, partiriam para uma lua de mel prolongada em Itália. No regresso, iriam diretamente para a nova propriedade de James, na Cornualha.

Maggie não albergava ilusões sobre o futuro. Podiam decorrer meses, ou talvez anos, antes que voltasse a ver Anne. Dados os caprichos da vida, era sem dúvida possível que aquela fosse a última vez que se vissem.

Abraçou Anne com muita força ao mesmo tempo que uma nova explosão de choro lhe inundava o rosto. Vertera tantas lágrimas nesse dia que tinha desistido de tentar dissimulá-las ou pará-las. Parecia ser um dia em que cairiam à vontade. Pouco interessava. Se existira um momento para dar largas à emoção, era aquele.

– Amo-te, Annie.

– Também te amo, Maggie. – Agarrou ternamente no rosto de Maggie e beijou-a com suavidade nos lábios. – Sentirei a tua falta a cada minuto.

– Vou ficar tão só quando te fores embora. Nem consigo imaginar como seguirei em frente.

– Aconteceu tudo tão depressa, não foi?

– Sim – concordou, voltando a abraçá-la com força. – Sinto-me tão feliz por ti.

Anne agarrou nas mãos de Maggie e apertou-as firmemente.

– Quero que me prometas que cuidarás de ti.

– Sabes que o farei – respondeu, embora não conseguisse imaginar como seria a sua vida, quando Anne se tivesse ido embora para sempre. Eram tantas as mudanças que ocorriam em simultâneo.

Annie voltou a abraçar Maggie com força.

– Se precisares de alguma coisa, vai ter com o Charles. Ou com a Grace. Eles ajudar-te-ão.

– Eu sei, mas não precisas de preocupar-te comigo. Ficarei bem – sussurrou-lhe Maggie ao ouvido, embora estivesse a mentir com todos os dentes. Não fazia ideia de como se arranjaria com o afastamento de Anne – a sua única amiga – para uma nova vida, sem família e com um bebé a caminho.

Então, James regressou trazendo Grace e Charles a reboque, impedindo pensamentos privados sobre o futuro. Maggie sentiu-se aliviada e grata pela interrupção. As suas emoções e nervos haviam atingido o limite e não conseguiria suportar nem mais um momento de conversa íntima.

– Deus do céu! Mas vou sentir saudades tuas, Annie. E de ti também, James.

Maggie sorriu-lhe e conquistou um abraço de urso, que a fez girar pela sala envolta nos seus braços.

Seguiram-se mais despedidas, abraços e trocas de desejos de felicidade e, por fim, o casal saiu para o exterior. Maggie agarrou James uma última vez, beijando-o na face e apertando-o contra o corpo.

– Cuida bem dela por mim. Fá-la feliz.

– Tens a minha palavra.

Com uma piscadela de olho e um aceno desapareceram de vista. Assim mesmo.

 

Adam sentou-se na sua carruagem. Estava uma noite outonal nublada e fria em que o nevoeiro parecia engolir a agitação habitual das ruas de Londres. Poucas pessoas se tinham atrevido a enfrentar aquele tempo horrível que se adequava perfeitamente ao seu estado de espírito, entre a tristeza e o desconsolo.

A porta de Maggie situava-se a poucos metros. Desejava ir ter com ela, saber todos os pormenores do casamento, ouvir cada palavra pronunciada, as juras trocadas, os brindes efetuados.

Queria ouvir tudo.

Não queria ouvir nada.

Provavelmente, Maggie estava zangada por ele não ter aparecido. Considerando o otimismo da jovem, teria acreditado até ao último minuto que apareceria, e ele falhara. Caso estivesse zangada, sabia que não devia preocupar-se com isso, mas a verdade era outra. Valorizava a opinião dela, bem como tudo a seu respeito.

Como desejava poder explicar-lhe melhor o seu raciocínio quanto à decisão de James de casar com Anne. Não se tinha saído muito bem quando haviam falado sobre o assunto na sua casa, mais cedo, no início do dia. Ao refletir nas declarações que fizera para sustentar a sua posição, não lhe pareciam muito convincentes.

Mas ele estava certo, com mil diabos! Recusava mudar de opinião, por mais infeliz que se sentisse.

Aquele longo dia foi o pior da sua vida. Cancelara todos os compromissos para poder sentar-se sozinho e em silêncio nos seus aposentos privados, observando o relógio a avançar para as onze horas, imaginando a cerimónia, interrogando-se sobre os participantes e o local para onde haviam seguido. Também sobre o que tinham comido e bebido, quais haviam sido as conversas. Por mais que tentasse, foi incapaz de se concentrar noutra coisa e os pensamentos angustiantes encheram as horas intermináveis de um dia interminável.

Fechou os olhos para apagar as visões. De James a rir e a sorrir. Da bonita Anne, de pé ao lado dele envolta no brilho afetuoso que James inspirava nos que o conheciam.

É assim tão errado que James seja feliz?

A pergunta de Maggie durante a discussão que haviam travado de manhã atormentara-o o dia inteiro, mas colocou-a de lado. Se aceitasse o que James tinha feito, se decidisse que James estava certo ao situar o amor e a felicidade acima do dever e da responsabilidade, onde o deixaria isso? Que objetivo teria a sua vida, tudo o que fizera e o que deveria fazer? Se tolerasse o comportamento egoísta de James, a sua visão do mundo começaria a desintegrar-se à medida que tudo o que acreditara e lhe era querido teria de ser submetido a um severo escrutínio. A família e os seus iguais estariam errados? Na forma como viviam, pensavam e se casavam?

Tratava-se de uma estrada demasiado perigosa para que a pisasse e não o faria.

– Oh, James… – sussurrou, desolado com o pensamento de como o irmão deveria odiá-lo.

A porta da frente da casa abriu-se, arrancando-o ao seu devaneio. Chegara a altura de enfrentar Maggie. Desceu da carruagem e viu-se na frente do jovem criado a quem ordenara que cuidasse e acompanhasse Maggie nas suas saídas. John… qualquer coisa. Não se lembrava do nome do indivíduo, mas Maggie lembrar-se-ia. Maggie conhecia e lembrava-se de todos; era boa e atenciosa de uma maneira contrária à dele.

– Desculpe, milorde… – começou o homem cautelosamente.

– Passa-se alguma coisa? – perguntou imediatamente em estado de alerta.

– Não, sir. Se fosse possível, gostava apenas de trocar uma palavra consigo antes que entrasse. Prometi a Miss Maggie que não lhe contaria… Ela disse que não queria que se preocupasse desnecessariamente, está a entender-me? – Adam esboçou um aceno de cabeça compreensivo – as palavras soavam exatamente ao que Maggie diria – e o homem prosseguiu: – E… bom, não desejava que ela se zangasse comigo por ter faltado à minha palavra, mas também não queria vê-lo irritado por ter escondido.

– Compreendo. De qualquer maneira, estás num beco sem saída – retorquiu, abrindo as mãos num gesto de aceitação, esperando pôr o homem à vontade.

– Isso mesmo, sir. Assim parece.

– O que aconteceu?

– Bom, não foi hoje, mas há duas semanas, durante a sua ausência.

O homem passou a narrar como Maggie tinha sido raptada à saída da loja de roupa, como ele a seguira numa carruagem durante uns minutos até todos ficarem detidos no trânsito e Maggie ter saltado do veículo parado mais à frente.

– Estava magoada?

– Não. Só muito irritada com o que quer que ocorreu quando estava na outra carruagem. – Engoliu em seco, visivelmente assustado com o seu futuro imediato. – Peço desculpa, milorde. Aconteceu tudo tão depressa que não consegui agir, mas pensei que deveria saber. Vai… – acrescentou e interrompeu-se. – Vai despedir-me?

– Não, não… Maggie sente-se satisfeita contigo. Não te censuro pelo que se passou e agradeço que me tenhas contado. – Conseguiste ver quem se encontrava na carruagem? – acrescentou, como uma reflexão tardia.

– Não, mas vi o brasão na porta. Andei a fazer perguntas e soube que pertencia ao duque de Roswell.

Com mil raios. O que poderia ser aquilo?

– Obrigado por me teres contado. Não te preocupes – retorquiu, dando uma palmada tranquilizadora no ombro do indivíduo e dirigindo-se à casa.

Reinava um silêncio absoluto e aparentemente não estava ninguém. Conhecendo Maggie como agora a conhecia, achou que provavelmente dera o dia de folga à restante criadagem para que celebrassem o casamento. A única iluminação na casa chegava das últimas brasas na lareira que haviam ardido no salão. Serviu-se daquela parca luz para subir as escadas até ao quarto dela. Não se via qualquer luz por baixo da porta e nenhum ruído provinha do interior.

– Maggie? – chamou baixinho, batendo ao de leve na madeira, depois de entrar.

A jovem estava enroscada numa cadeira junto à janela. Por um momento, julgou que estava a dormir e interrogou-se sobre se devia acordá-la. Era provável que o dia tivesse sido tão emocionalmente difícil para ela como o fora para ele.

– Maggie? – chamou novamente.

– Olá, Adam – disse sem se virar. – Não te ouvi chegar. Não estava à tua espera.

– Disse-te que viria esta noite.

– Pensei que provavelmente tinhas mudado de opinião depois do que se passou hoje.

Adam detetou a melancolia da voz dela, sentiu a tristeza que emanava.

– Estás bem?

– Devo confessar que já vivi dias melhores – respondeu com um encolher de ombros.

– Posso acender uma vela?

A longa hesitação levou-o a pensar que ela recusaria, mas não estava disposto a conversar no escuro.

– Se quiseres.

Os movimentos dele ecoaram demasiadamente sonoros na divisão enquanto procedia aos gestos necessários e aguardava que a trémula centelha se transformasse numa chama brilhante. Pousou o candelabro num aparador e encaminhou-se até junto dela. Maggie continuava imóvel, fitando a noite, lá fora. Adam pousou a palma da mão no cimo da sua cabeça, ficando mais apreensivo ao constatar que ela se recusava a olhar para ele.

– Como foi o casamento? – perguntou. – Espero que tenha corrido bem.

– Foi uma perfeita maravilha.

– Ainda bem. – Apoiou-se num joelho ao lado dela, mas Maggie continuou sem o fitar. De perto, conseguia ver que ela estivera a chorar, provavelmente há bastante tempo. Tinha os olhos inchados e os traços de lágrimas continuavam visíveis nas faces avermelhadas. – O que se passa, pequenina?

– Nada – respondeu com um suspiro. – Tudo.

– Queres falar sobre isso?

– Na verdade, não.

– Uma mulher que conheço disse-me um dia que faz bem desabafar. Acho que o nome dela era Maggie Brown.

– Maggie Brown, hein? – repetiu amargamente. – O que sabe ela da vida?

A resposta provocou um novo caudal de lágrimas e levou as mãos aos olhos para tentar dominá-lo.

– É assim tão mau?

– Lamento. Detesto que me vejas neste estado.

– Já me viste em baixo muitas vezes. Acho que consigo lidar com a situação.

Ergueu-se e sentou-se na cadeira, instalando-a no seu colo.

– Conta-me o que aconteceu.

– Nada. Só que regressei a casa do casamento e tinha dado folga aos criados. Não estava ninguém e reinava um silêncio enorme. Sentei-me e pus-me a pensar.

– A que respeito? – incitou-a meigamente quando a pausa se prolongou.

– Sobre muitas coisas, acho. Sobre a minha mãe e as saudades que sinto dela. Sobre a partida de Anne com James. Com toda a excitação do casamento, não tinha pensado em tudo isso a sério.

– Até hoje, quando chegaste a casa sozinha?

– Exato – anuiu Maggie, fitando-o pela primeira vez. – E tu vais-te embora em breve e onde ficarei? – Não conseguiu acrescentar o último pensamento e o mais aterrador: Com o nosso bebé a caminho, o que me acontecerá?

Adam não tinha respostas. Não havia nenhuma. Algumas vezes permitira que o futuro interferisse nos seus pensamentos, mas sempre os afastara. Não podia manter Maggie, portanto, o que seria dela? Arranjaria outro protetor, talvez um dos seus amigos? Casaria com outro? As duas opções eram impensáveis.

Maggie voltou a olhar pela janela, fixando algo invisível no escuro.

– Continuo a ver o James, como estava feliz ao lado de Anne. Dói-me que nunca ninguém me tenha amado assim. Que ninguém alguma vez o fará.

«Eu amo-te assim.» As palavras ansiavam por se libertar dos lábios dele. Desejou pronunciá-las e ela precisava de ouvi-las, mas não conseguiu dizê-las em voz alta. Sem jamais as ter dirigido a quem quer que fosse, Adam foi incapaz de reunir forças para tal quando essas palavras eram as que ela tão desesperadamente precisava de ouvir.

De qualquer maneira, para que serviria uma confissão de sentimentos? Amá-la não mudaria nada e só acabaria por dificultar a separação final. O melhor para ambos seria que ela nunca conhecesse a profundidade dos seus sentimentos.

– Quem me dera saber o que dizer para que te sintas melhor, Maggie. Não sou muito bom a dar conforto. Não tenho muita experiência nisso.

– Não me parece que haja algo que possas dizer – suspirou a jovem, limpando a face com a mão, à medida que mais algumas lágrimas teimavam em escorrer. – Só preciso de algum tempo para pensar e adaptar-me a todas estas mudanças. Está tudo a acontecer ao mesmo tempo e ignoro como lidar com a situação.

Esse foi o momento em que sabia que devia falar-lhe da sua gravidez, antes que passasse mais tempo, mas havia uma verdadeira possibilidade de que ele terminasse a relação deles ali mesmo, assim que soubesse a verdade. O pensamento de o ver ir-se embora depois do que passara nas últimas semanas era mais do que podia contemplar. Falar de um bebé teria de esperar mais um dia quando não lhe faltasse coragem.

– Deixa-me escovar-te o cabelo. Vai acalmar-te.

Adam agarrou-a com firmeza pela cintura, inclinou-se para a cómoda a fim de pegar numa escova e em seguida posicionou-a no chão entre as suas coxas. Dedicou-se a penteá-la silenciosamente, com escovadelas demoradas, prosseguindo até a sentir mais descontraída, menos tensa. Acabou por devolver a escova à cómoda e depois massajou-lhe repetidamente os ombros com os dedos até a sentir retomar a sua postura.

– Melhor? – perguntou ele com um sorriso e beijando-a no topo da cabeça.

– Sim. – Mudou de posição no chão duro, ajoelhou-se ficando de frente para ele que continuou sentado e rodeou-lhe a cintura com os braços. – Não sei o que me deu esta noite – prosseguiu, apoiando a face no peito masculino no sítio onde podia sentir o bater do coração.

– Diria que passaste por uma série de acontecimentos perturbadores no último ano. Talvez esta noite, tudo isso esteja a mexer contigo.

– Talvez – anuiu, erguendo o rosto. – Sinto vergonha por deixar que me vejas assim.

– Não sintas. Cabe-me a culpa de uma boa parte da tua tristeza. Não facilitei propriamente a tua vida.

– É verdade, sir – sorriu Maggie. – Mas considero-o um problema que vale a pena suportar. E há muito que decidi não me arrepender sobre o meu tempo ao seu lado. Encontrá-lo significou tanto para mim, que me sentirei eternamente grata por nos termos conhecido.

A sinceridade daquelas palavras, a emoção refletida no olhar quase o aniquilou. Não merecia o afeto dela, a adoração mostrada, muito menos depois do que a obrigara a passar e do que lhe faria num futuro próximo.

– Oh, Maggie. Quem me dera poder ser um homem melhor para ti.

– Chiu… – exclamou ela, pousando os dedos nos lábios masculinos para o silenciar. – Quero dizer-te uma coisa antes que tente convencer-me do contrário.

– O quê?

– Amo-te, Adam. Sempre amei desde o dia em que te conheci e vou amar até ao dia em que morrer…

– Não me digas essas coisas, Maggie. Não mereço as tuas fortes emoções, garanto-te.

– Não me interessa o que pensas. Quero que conheças os meus sentimentos para que nunca te esqueças. Amo-te e sempre te amarei. Por favor, lembra-te disso nos próximos dias e meses.

Adam sentiu uma dor no coração ante as palavras dela e, embora sentisse o mesmo, não podia corresponder verbalmente. De nada valia dar-lhe a entender que nutria o mesmo afeto por ela.

– Isso soa a despedida. Entristece-me ouvir-te falar assim.

– Não quero parecer piegas, mas todas estas mudanças pesam muito sobre os meus ombros esta noite, como se uma onda gigantesca estivesse prestes a arrastar-me e jamais encontrasse o caminho de volta. Não quero perder a oportunidade de te dizer como me sinto. Amo-te e lamento que as coisas não tenham sido diferentes.

– Que coisas?

– O facto de não ser digna de ti – sussurrou.

– Digna de mim? É isso o que achas, Maggie?

– É o que sei, Adam. Toda a minha vida tem sido assim. Se ao menos o meu pai tivesse… – Interrompeu-se. De nada adiantava tomar por esse caminho.

– Se ao menos, o quê?

– Não interessa.

– Interessa, sim. O que há sobre o teu pai? Pensei que ele estava morto. – Sentiu-se repentinamente apavorado. Qualquer coisa terrível espreitava a ligação deles, pronta a atacar, qualquer coisa que não queria saber, mas não conseguiu evitar a pergunta: – Era alguém que pudesse ter conhecido?

Maggie levantou-se e dirigiu-se até junto da janela, onde começou a brincar com o fecho.

– Não quero falar sobre ele.

– Porquê?

– Porque não significa nada para mim.

– Disseste significa em vez de significava. Ele ainda está vivo?

– Para mim, não – insistiu, abanando a cabeça.

Nesse preciso momento, virou-se para ele e a luz de uma carruagem que passava lá fora iluminou-lhe perfeitamente o perfil. Se não fosse impossível, Adam diria que estava a olhar para Penelope Westmoreland. Sacudiu a cabeça para afugentar aquela imagem fantasmagórica. Não podia ser. Era simplesmente impossível.

– É Harold Westmoreland, não é?

A forma como a jovem descaiu os ombros indicou-lhe que adivinhara a verdade.

– Nunca o admitirei enquanto viver. A ninguém.

Adam sempre tinha ouvido boatos de que Westmoreland era pai de uma criança ilegítima, mas sempre pensara que se tratava de um menino. As pessoas sabiam certamente que se tratava de Maggie. Parecia inacreditável que ninguém se houvesse dado ao trabalho de lhe sussurrar ao ouvido essa coscuvilhice, quando ela se passeava pelo seu braço.

– Porque não me contaste?

– Que diferença teria feito?

Que diferença faria realmente? Sendo duque ou não, para um nobre, ela continuava a ser ilegítima e a amante que ele sustentava. Não mudaria nada.

– Como é que ele nunca te reconheceu? – Percebeu que era uma pergunta idiota, mal a formulou, e acrescentou: – Ou, pelo menos, ajudou-te?

– A minha mãe pediu-lhe ajuda algumas vezes quando estávamos desesperadas, mas ele recusou sempre. Agora, não lhe pediria. Mesmo que ele oferecesse, não aceitaria ajuda.

A implicação do que tinha acabado de saber só agora começava a fazer-se sentir. Toda a questão era chocante e um absurdo, mas não conseguia esquecê-la.

– Isso faz de Penelope a tua irmã…

– Não é a curiosidade mais interessante que ouviste? – retorquiu, erguendo um dos cantos da boca.

– O que te queria ele no outro dia quando te abordou na rua?

– Chegou-te aos ouvidos, não foi? – Soltou um suspiro resignado e deixou a janela para se ir colocar ao lado dele. – Disse que tenho de convencer-te a casares com ela. Caso contrário, reivindicará a paternidade e forçar-me-á a casar na primeira oportunidade. Se o ajudar, deixar-me-á ficar como tua amante enquanto quiseres manter-me. Não é maravilhoso? – concluiu com um arremedo de sorriso.

– Bastardo! – resmungou ele, inclinando-se para a frente e apoiando o queixo nas mãos.

– Não é um bastardo, Adam. Apenas os gera.

– Isso não tem graça.

– Nem era para ter.

– Ele sempre se portou tão abominavelmente?

– Não sei. Foi a primeira e a única vez que tive o prazer de falar com ele.

– O vosso primeiro encontro, e é tudo o que tinha a dizer?

– Sim. Ele é realmente o homem mais desprezível do mundo.

– Alguma vez conheceste a tua meia-irmã?

– Encontrei-a uma vez. Num baile, tive a infelicidade de me ver junto dela por momentos numa casa de banho.

– Depois de já estarmos juntos?

– Foi no início da nossa ligação. – Uma pontada de amargura levou-a a acrescentar: – Estava a derramar perfume nos mamilos com a esperança de que reparasses nos seios dela. Deu resultado?

– Não sejas rude.

– Desculpa, mas não consigo ser de outra maneira no que lhe diz respeito. Porque deve ela ter tudo, incluindo tu, quando não posso ter nada? E isso simplesmente porque a minha mãe era jovem e tola e amava Westmoreland além do imaginável. Porque tive de sofrer por isso durante todos os dias da minha vida, sobretudo agora quando finalmente existe algo que desejo acima de tudo?

– O quê?

– A ti, idiota. O que te parece? – Levou a mão cansada à testa e friccionou as têmporas para aliviar a intensa dor de cabeça que começava a formar-se. – Sei que jurei que jamais discutiria o teu casamento, mas devo dizer que me matarás se casares com a minha irmã. Se o fizeres, preferia que me enterrasses simplesmente um punhal no coração, acabando com tudo.

Adam conseguia perceber tudo agora pela inclinação da cabeça e a pressão dos ombros. Sempre imaginara que ela devia ter algum sangue nobre a correr-lhe nas veias. Não existia qualquer outra explicação para explicar o porte real que denotava num momento como aquele em que tinha o coração despedaçado.

Sentiu-se repentinamente invadido por um cansaço semelhante ao de Maggie. Casar com Penelope, um ato que havia ponderado demorada e repetidamente tornara-se uma impossibilidade absoluta. Jamais iria ferir Maggie de uma forma tão desprezível.

Vincara muitas vezes a Harold que não receberia ordens. Advertira-o regularmente para que não tentasse algo tão estúpido como manipulá-lo de forma a tomar uma decisão. O homem estava, sem dúvida, a ficar desesperado e perdera a fé nas capacidades de sedução de Penny. Bom, o duque lançara o último trunfo demasiado cedo e perdera tudo.

Adam esboçou a Maggie um sorriso terno que se destinava a mostrar tudo o que sentia por ela e não conseguia expressar por palavras. Estendendo a mão, que ela aceitou, atraiu-a ao colo e pousou um suave beijo em cada uma das suas pálpebras, jurando em seguida:

– Nunca te faria uma coisa dessas.

– Obrigada.

– Falarei com o teu pai sobre o encontro que tiveste com ele.

– Não tens de…

– Insisto. Não quero que volte a magoar-te. – Tomou-lhe os lábios num beijo demorado cheio de promessas e de paixão. – Sei que o teu criado está aqui. Há mais alguém em casa?

– Julgo que a maioria do pessoal já regressou.

– Vamos pedir um banho para ti e um jantar tardio. O que te parece?

– Excelente.

– Muito bem. Vamos encontrar alguma paz e satisfação no final deste dia terrível, nem que levemos a noite inteira.