Meu Único Amor

Cheryl Holt · Capítulo 24 de 31

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Meu Único Amor

Capítulo 23

 

Na casa de Maggie reinava sempre a maior atividade de manhã enquanto o pessoal se ocupava das respetivas tarefas, mas por qualquer motivo pairava um enorme silêncio pelo qual ficou agradecida. Caso se sentisse melhor, podia ter-se interrogado sobre se os criados estariam a par dos enjoos matinais de que sofria devido ao seu estado e se manteriam o silêncio por saberem que ela não estava bem. Mas no presente estado, sentia-se mal de mais para notar ou importar-se que assim fosse.

Sentada na frente do toucador, pressionou um pano fresco nos lábios. A sensação de vómito com que havia lutado na última hora parecia ter passado tão rapidamente como surgira. Tinha o vestido posto e apertado, mas o seu aspeto era muito pouco apresentável. Estava cheia de olheiras e com o cabelo todo emaranhado. Se tinha havido uma altura em que precisava de pintura, era aquela. Caso contrário, parecia pálida e doente.

A longa noite com Charles tinha deixado marcas. Estava exausta não só pela tensão da sua ida ao teatro, mas pelas horas de conversa após terem chegado a casa. Quando ele se tinha ido embora, avançara aos tropeções até ao quarto, julgando que cairia num sono profundo, mas não conseguira descansar. A mente funcionava a um ritmo frenético enquanto analisava a proposta de Charles de todos os ângulos. Não detetou qualquer faceta negativa, além da raiva que acordaria em Adam.

Não sabia porque se importaria ele, mas tinha essa certeza. Aos olhos dele, pertencia-lhe e ele era o tipo de homem que gostaria de decidir quando acabar o relacionamento e o que seria dela nessa altura. Não imaginava o que destinara a seu respeito para quando se separassem, pois apenas tinham falado disso brevemente e em raras ocasiões. A visão do futuro dela não incluiria decerto o casamento com o seu primo e melhor amigo.

Felizmente, Adam ia deixá-la em paz por alguns dias. O teatro da noite anterior, reuniões durante todo o dia, outro compromisso social nessa noite! Um homem da posição dele que acabara de resolver casar, teria muitos compromissos que o manteriam ocupado e, assim, era desnecessário preocupar-se com a eventualidade de ele aparecer enquanto ponderava no que fazer.

Lá em baixo soou uma pancada na porta da frente, o que a surpreendeu pois não imaginava quem poderia fazer-lhe uma visita tão cedo. Uns minutos mais tarde, no preciso momento em que acabava de dar um pouco de cor às faces, ouviu os passos leves de Gail subindo as escadas apressadamente.

– Sim?

Fez sinal à criada para que entrasse e aguardou enquanto ela fechava a porta com firmeza.

– Tem uma visita, Miss Maggie.

– A esta hora? – As faces ruborizadas de Gail e o seu estranho e nervoso comportamento alertaram os sentidos de Maggie. – Quem é?

– Lady St. Clair – respondeu Gail, entregando-lhe o cartão da dama. – A viúva marquesa de Belmont.

O nome da visita foi tão chocante que a sua mente recusou aceitar a identidade da mulher. Olhou demoradamente para o cartão impresso, passando o polegar repetidas vezes sobre o nome até que, por fim, conseguiu perguntar:

– Quem disseste que era?

– Lucretia St. Clair – respondeu Gail, acrescentando a título de explicação: – A mãe do marquês.

A mão que segurava o cartão começou a tremer. O que poderia desejar a mulher?

Consciente da sua perturbação, Gail informou num tom calmo:

– Mandei preparar chá e bolos e disse à marquesa que não tardaria a descer. A menos que não queira visitas? – pronunciou, hesitante.

Maggie suspirou. Certamente nada de bom resultaria do encontro, mas não podia negar-se a receber a mulher, agora que ela se encontrava na sala de estar do andar de baixo. Respirando fundo, virou-se para se olhar ao espelho mais uma vez.

– Vou recebê-la. – O leve toque de pintura nas faces tinha operado maravilhas e por isso parecia simples mas elegante, embora o cabelo continuasse emaranhado.

Com um olhar por cima do ombro, perguntou:

– Podes ajudar-me com o cabelo? Basta uma escovadela rápida.

– Certamente, miss – anuiu Gail, começando a ocupar-se do cabelo.

Quando acabou, Gail desculpou-se baixinho:

– Lamento que a tenhamos recebido, sem lhe pedir licença. A criada que foi atender à porta ficou tão nervosa que nem pensou em recusar.

– Não, ela fez bem. – Com um último olhar para a imagem refletida no espelho, Maggie levantou-se e rodou lentamente para que Gail a inspecionasse. – Que tal estou?

– Encantadora – respondeu Gail sem hesitar ao mesmo tempo que endireitava um laço nas costas.

Maggie estendeu a mão e Gail pegou-lhe, apertando-a com força para lhe dar apoio moral.

– Vai correr tudo bem – insistiu. – Muito bem.

Maggie desceu as escadas com um passo gracioso, impedindo que alguém se apercebesse do bater acelerado do coração. Parou junto à porta da sala de estar, avaliando a mulher mais velha que estava sentada na larga poltrona de abas no extremo da divisão, como se estivesse na tribuna. Não se levantou quando Maggie entrou e Maggie não a brindou com a cortesia de uma vénia.

– Achei chegado o momento de termos uma conversa – começou Lucretia, dispensando o fingimento de que se tratava de uma visita social. – Não se vai sentar?

O gesto arrogante com que apontou a cadeira na sua frente irritou profundamente Maggie. Em primeiro lugar, a mulher tivera a desfaçatez de aparecer e agora comportava-se como se a casa lhe pertencesse. Quais eram as restrições sociais de falar sem rodeios com a mãe do homem a quem se dispensavam favores sexuais?, interrogou-se Maggie.

«Não podem ser muito diferentes de brigar em público com a noiva dele.» O pensamento surgiu-lhe do nada e mal conseguiu suster uma risada ante o ridículo da situação.

– Prefiro ficar de pé. Estou certa de que não tenciona prolongar muito esta conversa. Nem eu – acrescentou Maggie, tentando à sua maneira tomar um pouco as rédeas do encontro. – Diga, por favor, o que veio dizer e pronto.

– Muito bem. – Sem querer aparentemente sentir-se em desvantagem pelo facto de Maggie optar por ficar de pé, Lucretia também se levantou. – Várias pessoas chamaram-me a atenção para o seu relacionamento com o meu filho.

Maggie fitou-a com indiferença, sem confirmar ou negar o que ela acabara de dizer e por conseguinte Lucretia prosseguiu:

– Parece que ele sente alguma ternura por si. Testemunhei com os meus próprios olhos quando teve a audácia de ir a minha casa.

– Lamento – reagiu Maggie, tentando parecer inocente. – Não me recordo de ter estado em sua casa. Onde mora exatamente?

– Na casa de campo da nossa família em Mayfair.

– Oh, nesse caso devo desculpar-me pelo meu erro. Julgava que a casa que visitei pertencia a Adam, não à mãe dele.

– Cuidado com a língua, menina. Essa atitude pode ajudá-la a levar por diante a sua perversidade com os outros, mas comigo não resulta. – Lucretia respirou fundo e endireitou os ombros, disposta a lutar. O efeito intimidaria uma pessoa de classe inferior à de Maggie. Lucretia sabia decididamente como usar o seu nome e a sua posição, a fim de colocar os simples mortais no seu lugar. – Sei tudo a seu respeito. Sei o que está a tentar fazer.

– E o que é exatamente?

Embora a resposta não lhe interessasse, Maggie não conseguiu deixar de perguntar. Alguma coisa tinha enfurecido a mulher e Maggie imaginou que não teria paz até Lucretia desabafar.

– Desde que o James casou com a prostituta sua amiga…

– Basta! Esta é a minha casa e não sou obrigada a aturar esse tipo de linguagem de ninguém. Gail! – chamou por cima do ombro e a criada apareceu à porta. – Lady St. Clair vai-se embora. Indica-lhe o caminho.

Com um olhar cáustico, Lucretia suspendeu qualquer atitude que a criada pudesse levar por diante.

– Da última vez que me foi dado observar, Abigail, ainda trabalhavas para a família St. Clair. Neste momento, farias bem em recordar esse facto. Desaparece imediatamente.

Maggie assentiu com a cabeça para Gail.

– Podes deixar-nos, Gail. Eu mesma vou acompanhá-la à porta.

Gail desapareceu num abrir e fechar de olhos, sem desejar obviamente ver-se arrastada para um confronto de forças que podiam torná-la alvo da ira de Lucretia mais tarde. Maggie rodou para longe da viúva e dirigiu-se à entrada, abrindo a porta e indicando a saída com um sorriso falso no rosto. Lucretia deitou-lhe um olhar fulminante da sala, mas não se mexeu e por isso Maggie disse:

– Adeus, minha senhora. A sua presença deixou de ser bem-vinda.

Lucretia hesitou por instantes, interrogando-se sobre como é que aquele pedaço de gente se atrevia a expulsá-la, mas recusou sair até a sua missão estar cumprida. Meteu a mão na bolsa de onde tirou um envelope e aproximou-se de Maggie, que se manteve firme.

– A sua presença na vida do meu filho está a criar problemas a outras pessoas e não vou tolerá-lo.

– Que problema poderia estar a causar a outros?

– Ele informou-me que escolheu uma esposa.

Lucretia examinou-a atentamente, à espera de uma reação, e Maggie sentiu-se muito feliz por já conhecer o desenrolar dos eventos. A informação não constituía uma novidade e podia lidar à vontade com a mesma.

– Já estou a par.

– Então compreende que só trará dor de cabeça à rapariga e à família dela, se permanecer.

Maggie não fazia tenção de contar à mulher que nunca tinha planeado ficar, nem que lho pedissem.

– Diria que tudo o que ocorre entre mim e o Adam é da nossa conta e certamente não da sua ou de qualquer outra pessoa.

– É aí que se engana. – Lucretia estendeu o envelope e Maggie aceitou-o. – Chegou a altura de terminar o seu relacionamento com o meu filho, mas tenho a certeza de que precisará de financiamento para levar a cabo a separação. Entregue esse documento ao meu banqueiro na quarta-feira e ele encarregar-se-á de que seja remunerada pelos seus problemas.

A mulher tinha uma ousadia inacreditável e Maggie sacudiu a cabeça, admirada.

– Se aceitar o seu dinheiro, quais são as condições?

– Terá de assinar documentos em que concorda separar-se de Adam imediatamente. Sairá de Londres para nunca mais voltar. Nunca mais verá nem contactará o Adam seja qual for o motivo.

Maggie abriu o envelope e ergueu uma sobrancelha ao verificar de relance a quantia que Lucretia designara.

– Deve estar muito desejosa de me ver pelas costas.

– É verdade. – Tentando compor uma expressão mais generosa, mas falhando rotundamente, acrescentou: – É jovem e possivelmente julga-se apaixonada pelo Adam. Garanto-lhe que ele não corresponde aos seus sentimentos…

Após a cena que testemunhara no camarote do duque no teatro, Maggie dificilmente poderia contra-argumentar e manteve-se em silêncio enquanto Lucretia prosseguia:

– Ou talvez esteja a fazer isso pela emoção de estar ligada a um homem famoso. Talvez esteja simplesmente em causa o que a riqueza dele pode proporcionar. Ignoro o que motiva uma pessoa como você e os meus contactos também o ignoram. Contudo, isso não me importa?

– O que lhe importa?

– Vê-la pelas costas antes que perturbe ainda mais a nossa vida. Não se iluda. Não passa de uma prostituta de luxo. Nunca será outra coisa, por mais desesperadamente que tente agarrar-se ao mundo do meu filho. Não pertence à sua vida. Jamais poderá esperar enquadrar-se nela.

– Está certa disso, não está?

– Mais do que alguma vez estive em relação ao que quer que seja. O Adam vai casar com um elemento da família Westmoreland. Com a única filha do duque de Roswell… – Maggie dificilmente conseguiu não estremecer ante a afirmação, mas jamais permitiria que aquela mulher cruel soubesse quão perto estivera de atingi-la no seu ponto fraco. – É uma jovem adorável com uma educação impecável e uma posição social com que você somente pode fantasiar. Há anos que as duas famílias aguardam essa união e não permitirei que seja destruída por alguém da sua laia. – Lucretia examinou-a de alto abaixo em busca de defeitos e obviamente sem os encontrar. – Saiba usar proveitosamente esse dinheiro para construir uma nova vida que seja mais adequada à sua posição.

– Precisa mesmo de ser mais elaborada nos seus insultos – retorquiu Maggie, abanando a cabeça. – Não tem muito jeito para os atirar. E já os aguentei o suficiente para um dia. Agora, se me dá licença…

– Não permitirei que me expulse.

– Demasiado tarde. Já o tinha feito.

Maggie saiu para a rua, recusando ficar mais um minuto que fosse dentro de casa com a mulher, mas, na impossibilidade de transportá-la fisicamente, ignorava como obrigá-la a ir embora. A atitude revelou-se estratégica. Lucretia seguiu-a até ao exterior e Maggie deslizou por trás dela e ocupou a entrada da porta, impedindo qualquer tentativa que ela pudesse fazer para entrar novamente.

– Não se esqueça – advertiu Lucretia – de que a ordem de pagamento só é válida até ao meio-dia de quarta-feira. Nessa altura, já deve ter partido.

– E se optar por ficar?

– Nesse caso, terá de haver-se comigo e acredite que não me parece que queira arriscar.

Maggie recuou até dentro de casa e bateu com a porta na cara da mulher, rodando a chave na fechadura com um movimento determinado que não escapou aos ouvidos de Lucretia. Permaneceu em silêncio e imóvel, mal respirando, até ouvir os passos de Lucretia a afastarem-se. Seguiram-se os ruídos que ela fez ao subir para a carruagem e depois o tilintar dos guizos e o som dos cascos dos cavalos, enquanto o condutor os incitava rua abaixo. Só então Maggie se mexeu, escorregando ao longo da porta.

– Porque não me deixam simplesmente em paz? – interrogou-se com amargura. Porque não deixavam que Adam fosse feliz? Porque não podiam deixá-la em paz? Maggie nunca lhes fizera nada à exceção de tentar proporcionar a Adam alguns meses de alegria. O que havia de tão errado nisso?

Maggie estava tão perto de se ir embora por decisão própria que podiam dizer que já havia partido. Todos – o seu pai, a meia-irmã, a mãe de Adam, o próprio Adam – absolutamente todos iam conseguir o que desejavam sem qualquer necessidade de continuarem a interferir na vida de Maggie.

Subindo as escadas devagar e cuidadosamente, dirigiu-se ao quarto. Após as brigas com gente como Penelope e Lucretia, a sua energia desaparecera. Já não possuía a vontade ou a determinação de continuar a fingir que tinha uma relação sólida com Adam. Na verdade, considerando a sua resolução de desposar Penny, já não queria ter qualquer tipo de relação com ele.

Oh, como aquele pensamento a magoava. Nunca mais ver Adam. Nunca mais lhe tocar, nem deitar-se com ele. Nunca mais lhe falar, nem acalmar o seu coração cansado após um longo e moroso dia. Enquanto aqueles pensamentos indesejáveis lhe atravessavam a mente, abanou a cabeça sem acreditar na sua própria estupidez. As suas emoções dispersas, que pareciam ter feito horas extraordinárias naqueles dias, estavam a impedi-la de pensar com clareza. Continuava a ignorar um fator essencial e prioritário: Adam não a queria; nunca a quisera e deixara isso bem claro desde o início.

E agora, o que lhe restava?

Se ficasse, a resposta era clara: mais dor de cabeça, mais pressão, mais tristeza. E mal a gravidez começasse a tornar-se visível, apenas mais vergonha e humilhação. Toda aquela gritaria e berros já haviam chegado antes que alguém fizesse ideia de que estava grávida. Imagine-se como seriam as pressões quando se soubesse!

Baixou os olhos e reparou que continuava a agarrar a ordem de pagamento passada por Lucretia. Talvez a mulher tivesse razão. Devia aceitar o dinheiro e ir embora, sair das vidas daquelas pessoas horríveis e poderosas, encontrar um sítio calmo onde pudesse lamber as feridas, dar à luz o filho e construir uma nova vida. Contudo, se pegasse no dinheiro e fugisse, teria de fazê-lo sozinha. Completamente sozinha. Não conseguia suportar a ideia da existência solitária que a aguardava, caso lutasse para criar a criança sozinha. A tarefa parecia demasiado assustadora.

Gradualmente, como se a luz brilhasse após um longo período de escuridão, começou a perceber que só havia uma coisa a fazer.

Regressou à sala de estar até à pequena escrivaninha que mantinha perto da janela da frente. Consultou o relógio e verificou que eram quase onze horas. Tinha muito tempo. Escreveu em primeiro lugar o bilhete para Charles e no preciso momento em que acabou de soprar a tinta, chamou o lacaio para que fosse entregá-lo a casa dele. Chegaria ao meio-dia com muitos minutos de sobra.

Escreveu o outro a Adam, sem pensar muito no que queria dizer. Afinal, se ponderasse durante muitas horas, jamais conseguiria encontrar as palavras para transmitir quanto tinha significado para ela e a dor que sentia devido à sua traição. Não havia motivo para mencionar nada daquilo. Ele só precisava de saber que ela partira para que não se interrogasse sobre se lhe acontecera qualquer coisa. Embora se sentisse magoada e furiosa, foi suficientemente gentil para não o preocupar sem necessidade.

«És mesmo idiota», murmurou para si mesma. Provavelmente nem sequer daria pela sua falta. Na verdade, talvez ficasse satisfeito por ela o ter deixado de livre vontade, poupando-o à complicada tarefa emocional de mandá-la embora.

Adam

Com o anúncio do teu casamento a uma distância de dias, acho que é melhor se partir. Sei

que falámos sobre a minha permanência até ao verão, mas não posso fazê-lo. Afastar-me é melhor para todos os implicados, como estou certa de que concordarás após teres tido tempo para refletir. Jamais desejaria causar-te qualquer dor de cabeça inútil a ti ou a Penelope. Muitas felicidades para o teu futuro. Espero que a minha irmã te faça feliz.

 

Não era nada disso o que esperava. Esperava que ele fosse infeliz e se arrependesse durante todos os dias da sua vida por fazer algo tão idiota, mas não queria que a achasse mesquinha e amarga na hora da separação.

Deteve-se um longo momento a pensar em Lucretia e na sua oferta do maldito dinheiro. Embora soubesse que era melhor esquecer e manter em segredo a atitude da mulher, não conseguia fazê-lo. O comportamento de Lucretia fora demasiado ultrajante e as suas palavras tinham-na magoado profundamente.

Voltou a mergulhar a caneta na tinta.

Por favor, diz à tua mãe que tomei as minhas próprias disposições. Pode guardar o dinheiro

dela. Não o desejo nem preciso dele e senti-me gravemente ofendida com a proposta.

Quando a tinta secou, colocou o bilhete no mesmo envelope juntamente com a ordem de pagamento de Lucretia, escreveu o nome dele na parte da frente, em seguida colou a dobra, esperando manter os olhares curiosos dos criados longe dele enquanto possível. Se a sorte estivesse do seu lado, já teria percorrido a maior parte do caminho até à Escócia antes que alguém o encontrasse no quarto dela.

Com um suspiro e um último olhar melancólico em torno da sua casa de infância, subiu ao andar de cima para preparar um saco e estar pronta quando a carruagem de Charles chegasse.

 

Adam sentou-se num canto tranquilo do seu clube, com uma bebida que sorvia em pequenos goles. Apreciava-a àquela hora da tarde. Havia poucos cavalheiros presentes e não a multidão que chegaria mais tarde para jogar ou tomar uma bebida rápida entre compromissos sociais, embora os vários saraus nessa época do ano não fossem numerosos. A maioria das pessoas encontrava-se nas suas propriedades no campo, preparando-se para celebrar as festividades natalícias.

Era onde Adam deveria estar, mas não conseguiu suportar a ideia de ir. James continuava em lua de mel e nos corredores da enorme mansão da propriedade apenas soariam os seus passos. Maggie não poderia acompanhá-lo e dado o pouco tempo que restava para a relação deles, não estava disposto a afastar-se para longe. Além disso, seria o único Natal que passariam juntos. Surpreendentemente, queria torná-lo memorável não só para ela, mas para ele também.

Sabia que estava a lançar o caos nas vidas de algumas pessoas com a sua decisão de permanecer em Londres. A própria mãe, que recusara ir para o campo sem ele, estava muito desanimada ao ver-se obrigada a esgaravatar até ao fundo do barril social para arranjar um número de convidados suficiente para o jantar de Natal. Várias famílias também haviam optado permanecer na cidade com ele, a exemplo dos Westmoreland que tinham filhas casadouras. Todos queriam as suas queridas por perto na eventualidade de o marquês precisar de companhia para ir ao teatro ou de um confortável passeio de carruagem no inverno através do parque.

Bom, Mary Roberts encarregar-se-ia rapidamente de pôr termo a esse disparate. Passara algumas tardes e noites com ela e serviria para o efeito pretendido. Era uma lamentável apreciação, mas acurada. Ela serviria. Todos ficariam obviamente curiosos quando ele se propusesse, pois Mary Roberts era uma escolha improvável, dado não ser extremamente bonita ou extremamente rica como algumas das outras. Contudo, possuía uma excelente ancestralidade e o dote era justo. Não o irritava, sabia manter uma conversa agradável e mostrava-se sempre disponível para satisfazer os seus desejos.

Se o facto de a sua opção poder enfurecer algumas pessoas – sobretudo a sua própria mãe, bem como Penelope e Harold – constituía um elemento de suma importância, optou por não examinar as suas razões com muito cuidado. Não era uma atitude válida para a escolha de uma noiva, mas indubitavelmente determinante. Dez conhecidas diferentes haviam-se encarregado de que ficasse a saber da pequena altercação entre Penny e Maggie na loja da modista. Penny seria incapaz de mencioná-la, mas Maggie iria fazê-lo? As odiosas palavras lançadas pela sua rancorosa meia-irmã deviam tê-la atingido profundamente, mas Maggie pagara-se na mesma moeda e sentia-se orgulhoso dela.

Um brilho melancólico refletiu-se no olhar. Desejou que todos desaparecessem para que pudesse ter um mês tranquilo e solitário de celebração com Maggie. Era tudo o que realmente queria: estar com ela. Apalpou a caixinha que tinha no bolso do casaco, sorrindo ao imaginar a expressão que ela faria ao ver o anel que lhe comprara como presente natalício. Não era grande nem extravagante como as joias que as mulheres do seu círculo esperariam receber de um homem como ele. Contudo, Maggie diferenciava-se de todas as outras. Desejaria algo de bom gosto mas elegante e assim ele comprara o anel especificamente com isso em mente. A pequena ametista circundada por pequenos diamantes chamara-lhe imediatamente a atenção. Quando o brilho certo incidia sobre a pedra púrpura, adquiria a cor exata dos olhos dela.

Vagueando distraidamente o olhar pela sala, imaginou um momento extraído de um número indeterminado de anos no futuro. Vê-la-ia a atravessar a rua, descendo de uma carruagem. Mais velha, mas mais bonita e os olhos de ambos encontrar-se-iam num reconhecimento silencioso. Ela esboçaria um pequeno aceno com um sorriso e… o anel continuaria no seu dedo, o último pedaço de si que ela transportaria eternamente.

Endireitou-se de um salto. Supostamente, a imagem devia corresponder a uma fantasia destinada a causar um sorriso e uma gargalhada, mas não foi assim. Havia um vazio doloroso no seu peito e esfregou a mão no centro. Era isso o que realmente desejava? Ter um encontro casual com ela dali a alguns anos? Reconhecê-la simplesmente como uma antiga amante, talvez casada, talvez usada indevidamente por outro?

A dor aumentou de intensidade.

Necessitado de uma outra visão, fechou os olhos e deixou-se arrastar novamente pela imaginação. Ah… ali estava ela, deitada de costas sobre uma pilha de almofadas, na cama dele na casa de família em Sussex, com a luz do Sol entrando pela janela. Estava nua, à exceção do anel cor de violeta, com o ventre inchado de um filho dele. Passou a mão sobre o ventre protuberante, inclinou os lábios e beijou a carne quente. Os dois riram e o bebé deu um pontapé…

Estremeceu e abriu os olhos sobressaltado. A dor à volta do coração tornara-se insuportável. De repente, sentiu-se tão mal que pensou que ia vomitar. Tinha a testa coberta de suor e limpou-a com o lenço. Cautelosamente, bebeu um pequeno gole da bebida, precisando acalmar o pânico crescente que ameaçava apoderar-se dele. Estava tão perturbado que só se deu conta da presença do criado quando o homem ficou mesmo na sua frente.

– Desculpe incomodá-lo, Lorde Belmont, mas um dos seus criados está lá em baixo e precisa de falar consigo. Diz que é um assunto da máxima urgência.

– Obrigado – agradeceu Adam, pondo-se de pé e equilibrando-se nas pernas trémulas.

James!, foi o seu primeiro pensamento. Algo tinha acontecido a James na sua lua de mel aventureira. Sentiu o coração acelerado. Em todos os seus anos de adulto, nunca havia sido procurado por um criado. Sem dúvida qualquer coisa de terrível se passara. Tentando ocultar o nervosismo de olhares indiscretos, dirigiu-se à parte da frente do edifício.

A visão do lacaio da casa de Maggie aumentou a sua perplexidade e alarme. Respirou fundo e perguntou:

– O que aconteceu?

O jovem fitou-o nos olhos e respondeu sem hesitar:

– Parece que Miss Brown desapareceu, milorde.

– Quando?

– Ontem à tarde – esclareceu e recuou de imediato, como se achasse que Adam podia atingi-lo devido à afirmação. – Mas só nos apercebemos esta manhã.

– Porque achas que ela desapareceu? – inquiriu, embora ao pronunciar as palavras, soubesse que ela devia ter partido. Caso contrário, um criado não viria à sua procura.

– Bem, ela disse a Miss Gail, ou seja, à criada dela, milorde, que ia sair à noite na companhia do seu primo, Master Billington.

Adam assentiu com a cabeça. Não tinha qualquer problema com isso. Sabia que eram amigos e Charles era um bom acompanhante para as noites em que ele não podia cumprir essa missão.

– E mais?

– Ela disse que chegaria tarde e ordenou que não esperássemos a pé – continuou, engolindo em seco nervosamente. – Quando Miss Gail subiu ao seu quarto esta manhã, ela não tinha regressado.

– Já experimentaste ir a casa de Charles?

– Foi a primeira coisa que fiz, sir.

– E?

– O criado informou que ele tinha saído da cidade. Não sabia para onde, nem quando estaria de volta.

Seguiu-se uma longa pausa enquanto Adam ponderava na resposta. Por fim, perguntou:

– Porque não vieste ter comigo imediatamente?

– Perdão, milorde, mas passei o dia a procurá-lo em todos os sítios. Finalmente descobri-o aqui. Miss Gail encontrou isso no quarto de Miss Brown – acrescentou, estendendo-lhe um envelope.

Adam fitou-o como se fosse uma cobra venenosa prestes a morder-lhe a mão. O que quer que contivesse era a resposta a esse enigma, mas sabia indubitavelmente que não desejava ficar a par do conteúdo.

– Obrigado – disse, aceitando-o finalmente com uma mão e batendo-lhe ao de leve com a outra.

Sentiu um ruído nos ouvidos e tudo escureceu na sua frente à exceção do retângulo cor de marfim do pergaminho de onde não conseguia desviar os olhos. Como se lembrava perfeitamente da última vez que ela lhe escrevera um bilhete daqueles! Comunicara-lhe que se ia embora e partira na sua louca aventura com Anne. Que idiotice fizera agora e porquê?

Um barulho vindo de longe chamou-lhe a atenção. Teve de forçar-se a olhar, de decidir para quem olhava. Ah, sim, o lacaio.

– O que disseste?

– A sua mãe passou lá por casa ontem de manhã.

– A minha mãe?

– Sim, para falar com Miss Maggie. Miss Gail contou que discutiram com bastante violência.

– Sobre o quê?

– Gail não conseguiu ouvir, pois a sua mãe mandara-a embora, mas depois Miss Maggie ficou muito perturbada e em seguida saiu na companhia de Master Billington.

A sua mãe? A sua maldita mãe tinha sabido da existência de Maggie e procurara-a? Tinha brigado com ela? Após a discussão pública de Maggie com Penelope, não conseguia imaginar o que de pior poderia acontecer.

O lacaio retomara a palavra, os empregados do clube assistiam a tudo e Adam limitava-se a permanecer no mesmo sítio mudo e quedo. Esfregou a testa e tentou obter o controlo da situação.

– O quê? – perguntou novamente.

– O que quer que faça, milorde?

– Volta para casa dela e espera-me lá. Aparecerei mais tarde para falar com Gail e com a outra criada.

– Sim, sir.

O porteiro, que tinha previsto problemas devido ao aparecimento do criado do marquês, mandara chamar a sua carruagem que já estava a aguardar. Adam apressou-se a pegar no chapéu e na capa e instalou-se a salvo no interior, antes de quebrar o selo de lacre da carta. Teve de examinar as palavras inúmeras vezes antes que fizessem sentido.

– Deus do céu! O que fizeste? – pronunciou em voz alta, mas sem ter a certeza de estar a falar sobre Maggie ou sobre a sua mãe. Decidiu entender-se primeiro com a mãe. – Leva-me a casa o mais rapidamente possível – ordenou ao condutor.

Muitos minutos depois, entrou em casa com um passo muito mais moderado do que julgara possível. Acalmara-se ao máximo, tentando extinguir aquela onda inicial de apreensão que o invadira no clube.

Uma vez no interior, dirigiu-se à biblioteca e bebeu um uísque duplo, uma bebida que normalmente evitava, mas precisava de sentir na garganta o fogo que o mesmo proporcionava. O tremor das mãos parou gradualmente e chamou o mordomo que não tardou a aparecer.

– Onde está a minha mãe?

– Lá em cima, sir. Nos seus aposentos, creio, a vestir-se para o sarau desta noite.

– Temos convidados? – Com os diabos! Esquecera-se por completo!

– Sim, milorde. Devem começar a chegar dentro de uma hora.

Seria incapaz de conviver. Não nessa noite, não depois do que acontecera.

– Preciso de falar com a minha mãe. Vai buscá-la.

– Lady St. Clair pediu para não ser incomodada.

– Seja como for, vai buscá-la. Vinca bem que exijo a sua presença imediatamente. Não me interessa o que está a fazer.

O mordomo inclinou-se respeitosamente e saiu. Adam sorveu lentamente mais um uísque, tentando acalmar-se ainda mais enquanto esperava. A convocação fora suficientemente brusca e invulgar para saber que não teria de esperar muito e, na verdade, assim aconteceu. Lucretia, envolta num felpudo roupão, com o cabelo grisalho solto, e o rosto sem pintura, mostrava cada marca dos seus cinquenta anos quando irrompeu pela biblioteca, qual cisne pronto a atacar.

– Não faço ideia do que te leva a pensar que podes chamar-me como se fosse uma plebeia. O que te passou pela cabeça? Os convidados vão chegar daqui a minutos.

– Precisava dizer-lhe que não vou estar presente.

– Isso não podia esperar até me ter vestido?

– Não.

Pela primeira vez, pareceu reparar no seu semblante, o que sabiamente a levou a hesitar.

– Mas a Penelope e o pai estarão aqui. Convidei-os especialmente por tua causa.

– Há algum motivo para me importar que Penelope vá estar presente? – inquiriu num tom tenso.

– Bem, simplesmente pensei…

– Pensou o quê? – Iniciou-se um silêncio que se prolongou, tornando-se terrivelmente incómodo e ele aguardou até a mãe se contorcer. – Quando mencionei que tinha escolhido a minha noiva, pensou talvez que me decidira pela Penny?

A mãe humedeceu nervosamente o lábio.

– Claro que sim. Com quem mais te casarias? É o melhor e o único partido para os dois. Não aceitarei outra decisão.

– Contou aos outros que me tinha decidido pela Penny?

– Jamais usurparia um momento tão grandioso à família da jovem. O anúncio será naturalmente feito pelos Westmoreland.

– Naturalmente – repetiu Adam, fitando-a com uma expressão cética. Como ela mentia mal! Nessa altura, já tinha contado com toda a probabilidade a metade de Londres. Atirou o envelope para cima da secretária que os separava. – Julgo que isso lhe pertence.

Lucretia arregalou os olhos ao reconhecer o envelope. Adam detetou o visível estremecimento, mas ela encobriu-o de imediato. Com a sua habitual altivez, estendeu a mão e verificou o conteúdo.

– Afinal, a rapariga não é apenas uma prostituta – declarou maliciosamente –, é também uma idiota. Se fosse ajuizada, teria levantado o dinheiro.

Adam estreitou os olhos, avaliando-a. Sentiu-se como se a contemplasse verdadeiramente pela primeira vez. Que mulher dura e amarga era a sua mãe! Recordou com mordaz clareza todas as palavras ásperas que James expressara a seu respeito.

– Disse-lhe que me ia casar com Penny?

– E se tivesse dito?

– Disse? – gritou, sobressaltando-a.

– Estava a prestar-lhe um favor. Ela merecia saber que Penelope era o padrão pelo qual estava a ser avaliada e que todos lhe encontrariam falhas. Apenas lhe salientei as realidades da vida.

– Que gentileza da sua parte! – comentou sarcasticamente, pondo-se de pé. – Estou meio decidido a casar-me com ela só para a irritar por causa disto.

– Com aquela vagabunda? – retorquiu Lucretia, ofegante.

– Devo avisá-la de que está a pisar gelo quebradiço, mãe. Para variar, talvez não fosse má ideia moderar um pouco a língua.

– Não és o teu pai nem tão-pouco o teu irmão. Jamais farias uma coisa tão vil ao nome da família.

– Não?

Lucretia aclarou a garganta, recusando intimidar-se.

– Podes ter perdido completamente o juízo, mas eu ainda estou na plena posse das minhas faculdades. A rapariga não passou de uma diversão e há muito que a ligação acabou. O resto da tua vida está apenas no começo e seria um insulto à tua noiva iniciares um relacionamento com ela, enquanto convivias no teu tempo privado com uma prostituta paga.

– Aparentemente não está a ouvir-me. Quer esteja ou não com a Maggie – ou qualquer outra mulher –, não é da sua conta.

– É sim e sempre o será enquanto insistires em agir como uma criança mimada. Tens de fazer o teu dever. Não me contentarei com menos.

– O meu maldito dever – explodiu num tom cortante. – Isso decerto aquecerá a minha cama à noite, não é verdade, mãe? – A sua raiva ante as palavras dela, a assertividade, o desprezo que mostrava por Maggie eram tão grandes que mal conseguiu dominar-se. Num tom baixo e cheio de ódio jurou: – Se alguma vez voltar a envolver-se nos meus assuntos pessoais, vou bani-la para o campo durante o resto dos seus dias.

– Não te atreverias.

– Gostaria de me testar? – desafiou, engolindo um último e longo trago do uísque e fitando-a por cima da borda do copo.

– O que te passou pela cabeça para achares que tens o direito de me falar tão vilmente? Não o admitirei, podes crer.

– E eu digo-lhe, pela última vez, que não admitirei qualquer interferência sua ou de outra pessoa na minha vida pessoal, mãe. Saia da minha frente.

– Não permitirei que me mandes embora como a uma serviçal.

– Vá – gritou Adam, pondo-a em fuga com um restolhar de veludo.

Quando ficou sozinho, sentiu-se melhor. Liberto. Sim, era isso mesmo! Imaginando-se a fazer o mesmo que James fizera. Casando…por amor. Sim, casando por amor, amizade e afeto. Que a mãe e os amigos dela fossem para o diabo! E se o fizesse? Seria capaz? Maggie aceitá-lo-ia depois da forma como a tinha tratado? Muito depois de os passos de Lucretia terem deixado de ecoar nos corredores, permaneceu de pé, incapaz de se mexer devido a todos os perigosos pensamentos que lhe acorriam em cascata à mente.

Amava Maggie e não queria passar um único momento da sua vida ao lado de outra pessoa. Só de pensar nisso sentiu-se livre, excitado, feliz. O mundo apresentou-se subitamente cheio de possibilidades.

E se, para variar, fizesse simplesmente o que muito bem lhe apetecesse? E se casasse com Maggie e mandasse todos os outros para o diabo? Ia contra tudo o que lhe tinham ensinado, contra tudo em que acreditara. Conseguiria ir em frente?

Sim.

Tinha de encontrá-la. Nada mais lhe importava. Tinha de encontrá-la, pedir-lhe desculpa por Penny, a sua mãe, e todas as coisas estúpidas e ofensivas que lhe dissera. Em seguida, tinha de se casar com ela o mais rapidamente possível.