Meu Único Amor

Cheryl Holt · Capítulo 18 de 31

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Meu Único Amor

Capítulo 17

 

O som de um riso masculino vindo do quarto de Anne fez com que Maggie parasse. Com Adam e James ausentes no campo, não conseguia imaginar quem estaria lá. James não, certamente. Percorreu o corredor em bicos de pés.

Anne estava nua, estendida na cama sobre um monte de almofadas e com um xaile de renda que mal lhe tapava as partes íntimas. Charles, com o cavalete montado e as tintas dispostas numa mesa próxima, encontrava-se ao lado dela, compondo-lhe artisticamente o cabelo sobre os ombros para que se encaracolasse mesmo acima dos seios.

– Que tal pareço? – riu Anne ao avistar Maggie de pé, na ombreira da porta.

– Escandalosa – respondeu, devolvendo o sorriso da amiga.

– Espero bem que sim – disse ela, com mais uma risada. – Não te acordámos, pois não?

– Não. Já me levantei há algum tempo. O que estás a fazer.

Charles virou-se para ela.

– Estamos a pintar um quadro malandro, jovem idiota, o que achas?

– Já percebi, mas porquê?

– Porque não? – ripostou Charles com um olhar pleno de ingenuidade e de bom humor.

Anne virou-se para poder ver Maggie enquanto ela lhe falava, mas Charles empurrou-a de volta ao lugar.

– Não te mexas. É mesmo assim que quero que estejas.

– Isso é o que James passa a vida a dizer-me – redarguiu Anne, fazendo com que Charles se contorcesse de riso.

Ele recuou até junto das tintas enquanto Anne tentava manter a posição, olhando de relance para Maggie.

– Será uma prenda de aniversário para James. Não te parece excessivo, pois não? – acrescentou com um olhar momentaneamente inquieto.

– Não – respondeu Maggie, sem jamais se cansar do fogo que brilhava nos olhos de Anne desde que se tinha ligado a James St. Clair. – Parece-me perfeito. James vai adorar.

Charles fitou-a do outro lado do cavalete.

– Gostarias que pintasse um teu para o Adam?

– Onde penduraria Adam uma coisa dessas?

– Ele é um marquês e isso significa que podia pendurá-lo onde quisesse. – Charles encolheu os ombros, provocando um sorriso em Maggie. Mergulhou o pincel e misturou duas cores, obtendo uma tonalidade rosa que correspondia ao rubor das faces de Anne. – Se não quiseres ser reconhecida, podemos esconder o rosto para que pareças uma mulher misteriosa. Os outros interrogar-se-ão sobre a tua identidade, mas Adam saberia sempre. – Ergueu sugestivamente as sobrancelhas.

Maggie sentiu um leve rubor afluir-lhe às faces, o que era surpreendente. Numa casa com duas amantes e os seus cavalheiros, a discussão sexual era norma, mas por vezes sentia-se pouco à vontade, como se tivesse entrado na vida de outra pessoa. Ignorava se estaria pronta para uma pose tão íntima.

Mesmo assim, Anne e Charles pareciam estar a divertir-se imensamente e seria maravilhoso dar qualquer coisa a Adam para que não a esquecesse. Não poderia posar para um retrato; ele jamais o penduraria na sua casa, pois teria de dar uma explicação à mulher. Contudo, talvez pudesse pendurar um nu artístico, pintado pelo primo, num dos seus aposentos privados.

– Vou pensar nisso.

– Depois informa-me – pediu Charles distraidamente, já concentrado no trabalho na tela. – Sou muito rápido, portanto, este ficará pronto daqui a uns dias, mas tenho outros compromissos, e seria obrigado a ocupar-me do teu, antes que eles regressem de Sussex.

– Já sinto saudades do James – declarou Anne, da cama, com um suspiro. – Achas mesmo que eles vão ficar as duas semanas?

– Bom, para Adam é uma obrigação – respondeu Charles. – Ele não poderia insultar as doze convidadas especiais, partindo mais cedo. Só essa ideia causaria uma apoplexia à minha tia Lucretia. Quanto a James, não sei. Ele não tem muito estômago para o que está a acontecer.

– Porquê? – inquiriu Maggie casualmente, sem estar de modo algum preparada para a resposta de Charles.

Charles estava totalmente imbuído no trabalho e nem sequer pensou no reflexo que as suas observações podiam ter em Maggie e não moderou as palavras.

– Porque não há nada de mais patético do que estar sentado numa sala a observar todas as jovens a tentar disputar as atenções de Adam. As mães delas ainda são piores. É muito revoltante de muitas maneiras. Adam assemelha-se a um garanhão a ser leiloado e as raparigas são ofensivamente bajuladoras e repugnantemente insípidas. – Estremeceu de forma dramática. – Digamos que James sempre se considerou o mais sortudo dos dois por ter nascido em segundo lugar.

Maggie sentiu a garganta seca. Não tinha ideia do motivo por que Adam viajara para o campo, pois fizera questão de não perguntar, convencendo-se de que se tratava de negócios. Desde que não fosse diretamente confrontada com a evidência do seu casamento, podia fingir que tal não aconteceria, portanto, nunca o interrogava sobre a sua vida privada, mas, quando Charles mencionou doze convidadas, não conseguiu controlar a súbita vontade destrutiva de saber mais.

– Qual é o motivo da festa?

– A minha tia recebeu doze jovens e as respetivas famílias para passarem algum tempo com o Adam. Espera que o evento vá ajudá-lo no processo de seleção de uma mulher.

– Onde arranjou as doze pretendentes?

– São consideradas a nata da temporada de casadouras deste ano.

– Percebo. – Na realidade, queria ficar por ali, mas já que fora tão longe, não podia parar. – Achas que ele escolherá entre as doze?

– Suponho que há boas hipóteses.

– Porquê?

– Porque ele quer tomar uma decisão quando fizer trinta anos.

– Em fevereiro. Sim, já sabia.

– E uma das convidadas da festa é considerada a favorita pela maioria das pessoas.

– Penelope Westmoreland?

– Como sabias? – perguntou enquanto Maggie se apoiava à ombreira da porta. Nesse momento ergueu o rosto para a bonita jovem que parecia ter recebido uma facada no coração ante as suas palavras. – Maggie…?

Ela ergueu a mão para impedi-lo de correr para o seu lado. Uma coisa era interrogar-se secretamente sobre se Adam poderia casar com a sua irmã, mas outra diferente era a possibilidade saída da boca de alguém mais. Tentou esboçar um sorriso, mas não foi muito bem-sucedida.

– Acho que já tive a minha dose dessa discussão para um dia.

Anne deu-se conta da aflição de Maggie e perguntou:

– Estás bem?

– Sim, mas sabes bem como me é difícil ouvir falar destas coisas.

Charles sentiu vontade de dar um pontapé em si próprio.

– Sou mesmo idiota, Maggie! Não pensei um único segundo que as minhas palavras pudessem ofender-te. Por favor, desculpa-me.

– Está tudo bem – insistiu Maggie.

– Não acredito.

Anne olhou para Charles.

– É difícil para ela, Charles. Adam disse-lhe que a largaria depois de casar, por conseguinte os seus namoros e o casamento não são tópicos de que falemos muito.

– Ele não acha que fosse justo para a sua nova noiva ter-me como amante – disse Maggie a título de explicação. Concordava, mas como lhe doía pronunciar as palavras!

– Não precisas explicar-me o Adam, Maggie. Sei exatamente como ele é. – Aplicou mais tinta na tela, onde a figura de Anne já adquiria forma e parou o pincel a meio do gesto. – Sinto-me péssimo por trazer o assunto à baila. Não acredito que não te tenha dito o que ia fazer.

– Não é bem isso, Charles. Pedi-lhe que não partilhasse comigo detalhes íntimos da sua vida. Acho que é mais fácil assim.

Charles examinou-a com um olhar perspicaz.

– Gostas dele, não é verdade?

– Bastante. – «Amo-o, amo-o, amo-o…» A verdadeira resposta ecoava na sua cabeça e desejou poder gritar as suas emoções para o mundo inteiro.

– Então, tens um duro caminho pela frente – comentou Charles.

– Calculo, mas não mais duro que o de Adam. Ele também gosta de mim, portanto, será difícil para os dois.

– Deve estar a passar uns dias horríveis – murmurou mais para si do que para as duas mulheres. Desejando aliviar a tensão criada pelas suas palavras, fitou o céu numa simulação de prece. – Obrigado uma vez mais, Senhor, por não me teres feito herdeiro do meu pai.

Maggie obrigou-se a sorrir. Não podia ser – não o seria – infeliz. Tencionava aproveitar cada minuto do tempo que passassem juntos, sem lamentar o que poderia ter sido. O futuro estava decidido. Adam tinha as suas responsabilidades que não a incluíam. Nada podia mudar e, portanto, não valia a pena chorar e insistir no que poderia ter sido. O futuro viria, quer ela o desejasse ou não.

Depois de observar curiosamente durante algum tempo à medida que a figura de Anne assumia mais forma e mais cor, abandonou o par à sua tarefa. Lá em baixo, comeu um pequeno-almoço leve e em seguida agarrou na capa. Tinha encomendado algumas peças novas de lingerie para surpreender Adam quando ele voltasse e, na tarde anterior, recebera uma mensagem de que a costureira que empregava para as suas roupas íntimas queria que fosse fazer uma última prova.

O criado que Adam deixara na casa, John, assumia vários papéis e tarefas dependendo do que era necessário e servia de lacaio quando ela ou Anne saíam. Não tinham a sua carruagem pessoal. Maggie recusara que Adam fizesse a despesa de manter uma equipa extra para uso dela, dado que raramente necessitava disso. Era muito mais barato alugar uma carruagem quando tinham de ir a qualquer lado e, quando passou a ombreira da porta, John tinha o transporte à espera.

O criado ajudou-a a subir e depois juntou-se-lhe devido à insistência de Adam para que ela nunca se deslocasse sozinha. Mesmo que tivesse querido, nenhum dos membros do pessoal a deixaria. Tinham demasiado medo em despertar a raiva do marquês se permitissem que saísse sozinha e algo acontecesse. Sabendo por experiência própria como era difícil encontrar um trabalho remunerado, Maggie não tinha coragem de pôr os seus lugares em riscos e, por conseguinte, acedia tranquilamente às numerosas exigências que Adam lhes impunha. Fizera dúzias de viagens às compras na companhia de John e ele era um jovem tão calmo e educado que mal dava pela sua presença e não a incomodava. E via-se forçada a admitir que houve muitas vezes em que se sentiu mais segura por ele se encontrar ao lado dela.

O tempo que gastou a experimentar a roupa interior nova foi divertido. A mulher que criara as chocantes amostras de renda e de seda era extremamente desbocada e não se poupava a comentários lascivos sobre como as várias peças podiam ser usadas da forma mais eficaz. Maggie acolheu de bom grado as sugestões da mulher, embora estivesse um pouco corada quando saiu do estabelecimento.

Ia carregada de embrulhos ao sair para a rua movimentada, o que facilitou a manobra do desconhecido quando lhe agarrou no braço e a afastou do sítio onde John a aguardava com a carruagem.

– Ei! Você aí! – ouviu John gritar.

Os embrulhos espalharam-se no chão, o que apenas serviu para aumentar a confusão dos transeuntes e permitiu que o homem se escapasse com ela.

Antes que Maggie pudesse lutar ou falar, viu-se depositada numa carruagem que se encontrava a aguardar. A porta fechou-se com ruído e o grupo afastou-se, mal lhe dando tempo a agarrar nas compras. Endireitou-se, avistou uns sapatos de homem e, ao erguer o rosto, viu um par de pernas masculinas, colete, lenço e deparou com o rosto do pai, o duque de Roswell.

Ao longo dos anos, as poucas vezes que o tinha visto em lugares públicos fora sempre rapidamente e à distância. Era estranho observar o seu rosto tão de perto, pois nunca se dera conta de como se parecia com ele, sendo a única diferença causada pelo facto de ser mulher e dotada de traços mais suaves e delicados.

O porte também era o mesmo. O duque não deixava dúvidas quanto à sua posição no mundo simplesmente pela forma como falava e se movimentava. Embora Maggie nunca houvesse desfrutado dos benefícios desse estatuto, possuía uma graciosidade e um estilo semelhantes ao dele. Não restava dúvida de que eram pai e filha. Pareciam-se e agiam de forma demasiado semelhante para que assim não fosse.

Aos quarenta e cinco anos, o duque era um homem incrivelmente bonito, com o cabelo loiro pontilhado de branco e algumas rugas à volta da boca e dos olhos. E que olhos! De um azul profundo, intenso e avassalador e fitando-a com um terrível escrutínio. Maggie conseguiu suster a respiração ofegante.

– Ainda bem que sabes quem sou! – disse o duque ao ver que ela o reconhecia. – Fico satisfeito por podermos dispensar formalidades.

– Deixe-me sair! – disse Maggie com um salto na direção da porta, pronta a pular para a rua se fosse necessário, mas ele prendeu-a firmemente pelo pulso.

– Seria terrivelmente insensato magoares-te devido a um esforço inútil. Se saltasses lá para fora, um dos meus homens agarrava-te e trazia-te de volta.

– O que pretende?

– Falar contigo.

– Mas eu não quero.

– Tenho de confessar que lamento haver sido obrigado a recorrer a táticas tão baixas para nos unir, mas recusaste o meu convite de há umas semanas e Adam conservou-te tão presa ao lado dele que só agora me foi dada a oportunidade de te conhecer. – O duque bateu ao de leve e pensativamente com um dedo nos lábios. – Pergunto a mim mesmo o que ele pensaria se soubesse que eras minha filha. Gostaria muito de ter uma resposta para isso. Talvez lho diga quando ele regressar.

– Não fará isso.

– Ah, não? – retorquiu com um sorriso malicioso. – Sou teu pai, o que me dá direito a fazer o que me apetecer no que te diz respeito.

– Não é meu pai. O meu pai está morto.

– Os dois sabemos que isso não é verdade, não sabemos? – Inclinando-se para a frente, agarrou-lhe no queixo e ela tentou soltar-se, mas ele limitou-se a prendê-la com mais força. Virou-lhe o rosto de um lado para o outro, como que à procura de defeitos. – Acredito que és ainda mais bonita do que a tua mãe.

Aquelas palavras deram-lhe a força necessária para lhe empurrar a mão.

– Não se atreva a falar sobre ela.

– Ah… e vejo que também herdaste a sua natureza apaixonada – sorriu, pensando que ela era realmente interessante. – Pelo que tenho ouvido, também herdaste muito da minha personalidade.

– Espero bem que não. Longe de mim querer parecer-me consigo.

– Mas pareces-te, minha querida, quer te agrade ou não.

– O que o faz pensar que sabe tanto a meu respeito?

– Nunca tive dificuldade em manter-me a par da tua vida. Havia sempre conhecidos que me diziam que tinham visto a tua mãe. Ou a ti. Além disso, em algumas ocasiões mandei os meus homens recolherem os dados necessários. Sempre me mantive muito bem informado ao longo dos anos.

– Então sabia que precisávamos de ajuda.

– Por norma.

– Porque nunca nos ajudou?

– Não queria.

– Porquê? Era assim tão orgulhoso ou detestava-nos tão intensamente?

– Não. Estava apenas a dar à tua mãe uma longa e dura lição.

– Que lição?

– A de que lamentaria o dia em que recusou a minha proposta.

– Fez-lhe uma proposta?

Aquela era uma parte da história deles que Maggie desconhecia e que não desejava saber naquele momento. Sobretudo dos lábios dele.

– Claro. Porque tipo de homem me tomas?

Ao longo dos anos, haviam-lhe ocorrido centenas de maneiras de descrever a pessoa desprezível que o considerava e teve de morder a língua para não responder. Em vez disso, perguntou:

– Disse que estava a dar uma lição à minha mãe ao ignorar-nos. Que lição nos dava?

– A ti, nenhuma. Não fazias parte do jogo.

– Entendo – respondeu amargamente, desejando apenas livrar-se da companhia dele o mais rapidamente possível. – Sinto-me feliz por a minha mãe nunca me ter permitido que acalentasse qualquer ilusão sobre os seus verdadeiros sentimentos para com a sua filha primogénita.

– Não encares isso a peito.

– Como devo encarar?

O duque esboçou um aceno com a mão.

– Apenas quis dizer que a luta era entre a tua mãe e eu. Não estavas envolvida.

– Como poderia não estar envolvida se fui a causa? – Com mais emoção do que pretendia mostrar, acrescentou: – Sobretudo quando afetou toda a minha vida?

– Todas as dificuldades por que passaram foram opção dela.

– Não acredito – ripostou Maggie, abanando a cabeça.

– Pouco me interessa que acredites ou não, mas entende isto: ofereci-lhe um pequeno fundo fiduciário e a posse da vossa casa. Não era muito, mas nessa altura ainda não havia recebido o título e o meu dinheiro era muito limitado.

Negando-se a acreditar nele, interrogou-se mesmo assim sobre se alguma parte seria verdade. Porque lhe mentiria sobre uma coisa daquelas passado tanto tempo?

– O que aconteceu?

– Atirou-me a proposta à cara. Disse que me amava – pronunciou a palavra amor num tom duro, como se fosse algum epíteto imundo – que queria que ficasse com ela e te reconhecesse como filha.

– Ela amava-o. Sempre o amou.

– E daí? O que ela queria estava completamente fora de questão. Mandei-a embora e nunca olhei para trás. Ela insistiu em que conseguiria seguir caminho sem a minha ajuda. Deixei que o fizesse.

– Ela era muito jovem! – gritou praticamente Maggie, tão frustrada se sentia. – Muito mais do que eu sou agora. Como poderia saber o que era melhor quando o seu coração estava tão preso?

– Foi o pior erro que cometeu, o de deixar que as emoções se apoderassem dela. Disse-lhe desde o início que não me amasse. Ela não obedeceu.

– É uma coisa que algumas pessoas são incapazes de controlar.

– De qualquer maneira, a continuidade da sua vida foi inteiramente de sua responsabilidade. Deixou que o orgulho destruísse as vossas vidas. Espero que sejas mais racional nas tuas negociações com St. Clair quando ele te largar. És minha filha, portanto, espero que tenhas herdado uma parte da minha astúcia e senso comum.

– Disse e repito que não me pareço nada consigo.

O duque ignorou o comentário, sem voltar a argumentar.

– Ele está a pensar manter-te depois de casar?

Maggie conservou-se em silêncio durante algum tempo, interrogando-se sobre onde aquela conversa a levaria. Finalmente, respondeu:

– A minha relação com o Adam não é da sua conta.

– É o que pensas. – Meteu a mão no bolso do colete e verificou as horas, dando a sensação a Maggie de que o seu primeiro encontro com a filha estava a demorar mais tempo do que tinha previsto ou desejado. Colocou-a à defesa quando perguntou num tom demasiado casual: – Por falar em Adam, ele vai declarar-se a uma das doze quando regressar do campo?

– Como hei de saber?

O duque inclinou-se e deu-lhe uma palmadinha no joelho.

– Vamos ser francos, de acordo? Sei tudo sobre a tua relação com o Adam.

– Não, não sabe, se acha que ele me iria confidenciar uma coisa dessas.

O duque deitou-lhe um olhar especulativo. Com base nos poucos relatos que conseguira obter, Adam adorava a jovem. Decerto conversavam muito, dentro e fora da cama.

– Porque não?

– Não tenho vontade de conhecer os planos dele e pedi-lhe que não os partilhasse comigo. Portanto, se é esse o motivo por que me sequestrou na rua, sinto-me deliciada por lhe dizer que desperdiçou totalmente o seu precioso tempo.

Estendeu a mão para a porta, esperando conseguir ver-se livre dele.

– Ainda não terminámos. Senta-te. – Agarrou-lhe no pulso e voltou a empurrá-la contra o coxim. – Tenho uma proposta a fazer-te.

– Não duvido.

– Quero que Adam peça em casamento a minha filha Penelope, o mais depressa possível.

– Pobre Penny! – lamentou Maggie num tom sarcástico. – Ela está tão desesperada como parece?

– Nem pensar. Ela é a debutante mais procurada este ano.

– Ah, sim? Então, como se encontrava numa casa de banho num baile, a puxar o corpete mais para baixo, a fim de desnudar os seios? Entretanto, choramingava o tempo todo porque Adam nunca olha para ela, nem consegue chamar-lhe a atenção por mais que tente. E agora raptou-me para a ajudar a conquistar os favores dele. Considero sem dúvida essa postura como desesperada da vossa parte.

O duque negou-se a reagir a um sentimento tão ridículo, embora anotasse mentalmente para dar algumas boas chicotadas a Penelope quando ela regressasse do campo. Que rapariga idiota! A portar-se assim em lugares públicos com o risco de ser ouvida por alguém. Apelou a todo o autocontrolo.

– Ela deseja casar com ele, mas também o desejo e vais zelar para que isso aconteça.

Maggie interrogou-se sobre se estaria a viver qualquer terrível pesadelo. Foi mesmo ao ponto de beliscar o braço para se assegurar de que não estava a sonhar. Infelizmente, estava bem desperta.

– Nem daqui a mil anos.

– É o que vamos ver.

– Nada do que pudesse dizer ou fazer me levaria a atraiçoar Adam ou ajudar a conquistá-lo para Penny.

– Estás segura?

– Mais do que alguma vez estive na vida.

– Bem, então pondera nisto e tenho a certeza de que verás os benefícios de mudares de ideias.

– Ponderar no quê?

– Se recusares ajudar, tenciono declarar publicamente a minha paternidade.

– Que motivo o levaria a fazer uma coisa dessas tão tardiamente?

– Acredito que o prazer que obtém de ti o impede de tomar uma decisão pela qual estou cansado de esperar. Quero-te fora do caminho e quero vê-lo casado com Penelope. Se concordares ajudar, permitirei que fiques ao lado dele durante o tempo que quiser manter-te. Se não o fizeres, reclamarei a paternidade, farei com que os tribunais me nomeiem teu tutor e farei com que cases quinze dias após a decisão. – Ficou satisfeito ao detetar a expressão chocada no rosto da jovem, mas interpretou-a mal. Julgando tratar-se de medo, pressionou a sua ilusória vantagem. – Nunca mais voltarás a ver o teu precioso Adam St. Clair.

Espantada, Maggie só conseguiu abanar a cabeça. O seu reconhecimento de paternidade era o que desejara toda a vida. Quando era pequena tinha sonhado e rezado para que o fizesse. Contudo, nunca imaginara que o mesmo nascesse daquela maneira. O facto de ele sugerir… incentivar tal coisa… pensar por um momento que ela era o tipo de pessoa capaz de adotar um comportamento tão desprezível… era indescritível.

Ela dissera que ela herdara muitas das suas qualidades. Talvez fosse verdade, pois a raiva que lhe correu subitamente nas veias era algo que ignorava possuir.

– Desprezo-o e negarei até ao último suspiro que seja meu pai. Quando a Adam… – Viu-se obrigada a respirar fundo para controlar o fôlego. – Ao contrário de si, jamais trairia a confiança de alguém, sobretudo, tratando-se de uma pessoa de quem gosto enormemente.

O duque estava furioso. Ninguém o desafiava. Na verdade, aquela era uma ocorrência tão estranha e rara que não conseguiu pensar na resposta adequada. Pela primeira vez na vida, ficou sem palavras.

– Se não fizeres isso, eu… eu…

– A pior coisa que podia fazer-me, já a fez. Recusou ajudar a minha mãe quando ela estava a morrer. O pior já aconteceu por suas mãos e sobrevivi. O que podia fazer-me ainda mais grave seria matar-me, mas juro que preferia morrer do que atraiçoar Adam.

De súbito, a carruagem ficou presa no trânsito e parou bruscamente. Maggie aproveitou a oportunidade e levantou-se para sair. O duque estendeu novamente a mão para agarrá-la, mas o olhar imperioso que ela lhe lançou deteve-o.

– Vou fazer com que te arrependas tanto – ameaçou. – Amaldiçoarás o dia em que nos conhecemos.

– Já amaldiçoo, mas talvez não seja eu a ter de preocupar-me. Planeio contar ao Adam tudo o que me disse. Mal tenha essa possibilidade. – Desceu para a rua e tropeçou pois não havia ninguém que a ajudasse. – Veremos como a sua querida Penelope se sai depois disso! – acrescentou, batendo com a porta e escapando-se pelo meio da multidão antes que um dos seus homens pudesse impedi-la.

O duque recostou-se no assento, esfregando as têmporas. Aparentemente tinha menosprezado a jovem. Não só era bonita e inteligente, mas também leal, firme, determinada e arguta. Uma lutadora. Uma vencedora. Na generalidade, um ser magnífico de quem qualquer pai se orgulharia em ter como filha.

Que pena nunca poder ter sido mais do que uma filha ilegítima.