Meu Único Amor
Capítulo 22
Devido aos enjoos causados pela gravidez e pela tensão do dia, Maggie tentou forçar-se a engolir uma ceia leve. Bebeu sobretudo um pouco de água enquanto se vestia para ir ao teatro.
Tinha de ver com os seus próprios olhos.
Adam assistiria com a família Westmoreland. O seu pai e a mulher dele estariam presentes. Muitos dos seus amigos e conhecidos estariam presentes. Mais importante ainda, Adam estaria lá com Penny ao seu lado.
Maggie precisava vê-los juntos. Precisava vê-los a conversar e a trocar carícias. Observá-los rodeados de toda a riqueza e privilégio que o seu estatuto social lhes proporcionava. Ser esbofeteada pela prova de como não fazia parte da vida de Adam, por mais que o seu coração teimoso recusasse acreditar ou aceitar a decisão dele. Só enfrentando a horrível situação de olhos bem abertos é que poderia apreender verdadeiramente o impacto do que Adam se preparava para causar nas vidas de todos.
Não querendo que ninguém soubesse que ela ia sair, disse a Gail que tencionava recolher aos seus aposentos e não desejava ser incomodada. Quando os sons ao fundo das escadas acalmaram, tirou a capa com capuz do armário e depois escapuliu-se pela porta principal e percorreu rapidamente alguns quarteirões até conseguir fazer sinal a uma carruagem. Ainda era bastante cedo e havia pessoas por perto, o que tornava a experiência demasiado arriscada, mas necessitava de fazer a caminhada sozinha. Pela primeira vez, não queria a companhia do seu criado.
No teatro, a fila de pessoas que aguardavam para comprar bilhete era muito comprida. Chovia abundantemente e, quando entrou no teatro, tinha a roupa exterior toda molhada e tremia de frio. Contudo, o frio dissipou-se rapidamente quando se juntou à multidão de gente na plateia, tão apertada que ela mal conseguia mexer-se. A multidão era rude e violenta, aguardando impacientemente o começo da peça.
Maggie mal reparava, de tão concentrada que estava a vasculhar a parte superior com olhar. Numa ocasião anterior, Adam tinha indicado vários camarotes e os seus ocupantes e por isso sabia qual pertencia ao pai dela e aguardou nervosamente que se enchesse. Eventualmente, o reposteiro apartou-se para dar entrada ao duque com a mulher pelo braço. Sentaram-se no momento em que o reposteiro voltou a abrir-se e se lhes juntaram outras pessoas que Maggie desconhecia. Por fim, surgiram Adam e Penny, com a jovem a dar-lhe o braço numa atitude de posse. Pareciam um príncipe e uma princesa saídos de um conto de fadas com o seu vestuário requintado, a bela aparência e joias reluzentes. Adam ajudou-a a sentar-se no momento exato em que os atores pisaram o palco.
Todos os espetadores focaram as atenções na ação da peça. Todos à exceção de Maggie, que seguia um tipo diferente de ação que se desenrolava sobre a sua cabeça. Adam desviou as atenções do palco para Penny. Esta falava-lhe constantemente ao ouvido. Por vezes, dizia algo que lhe prendia a atenção e sussurravam juntos por alguns momentos, com as cabeças unidas.
Penny parecia ir aproximando impercetivelmente o corpo para mais perto dele. A certa altura, disse algo que o fez rir e presenteá-la com um dos seus raros sorrisos. Penny foi lesta a reagir, inclinando-se ainda mais, até dar a sensação de que encostara por completo os seios ao braço dele. A ser verdade, ele não fez nada para os afastar.
Os lábios deles pairavam a centímetros de distância e Maggie aguardou ofegante o casto beijo que estava certa de que ocorreria na fila de trás do camarote envolto na penumbra. Quando Adam se afastou e voltou a prestar atenção à peça, Maggie lutou por respirar, como se tivesse sido salva de um afogamento.
Presa da maior agonia, Maggie tentou acalmar-se, recordando a primeira noite em que Adam a trouxera ali. Tinham vindo muitas vezes depois dessa primeira vez, mas Maggie lembrava-se sempre com carinho dessa ida inicial. Adam estivera tão elegante; Maggie estivera tão bonita. Se ele tivesse qualquer preocupação antes de chegarem sobre como ela se comportaria, abandonara-a por completo à saída. Nessa noite, ela brilhara ao lado dele como um diamante puro, orgulhosa de saber intimamente que era a deslumbrante filha do duque de Roswell e de Rose Brown, que fora uma das mulheres mais bonitas da sua época.
Maggie mostrou-se excepcional nessa noite e em todas as outras em que o acompanhara a vários lugares e eventos. Contudo, agora, enquanto o observava a coberto das sombras, junto ao poço da orquestra, a dor tornou-se demasiada. Ver o amante, o seu amigo, na companhia do seu pai e da sua irmã! Saber que nunca se juntaria a ele ali! Que nunca seria aceite no ambiente deles! Independentemente de quanto amava Adam ou se importava com o seu bem-estar, por mais que desejasse ficar ao seu lado e cuidar dele em todos os dias da sua vida, independentemente do sangue azul que corria em parte das suas veias, era uma estranha e sempre assim permaneceria.
Uma vez, quando era uma menina e fora às compras com a mãe, tinha visto um garoto da rua junto à montra de uma pastelaria, a olhar para os doces do interior. O desejo estampado no rosto era tal que doía só de o ver. Agora, Maggie sabia exatamente o que o garoto tinha sentido.
Sofrera a vida inteira por ser uma bastarda e sabia como fora difícil. Agora, o seu próprio filho, gerado por um dos homens mais ricos e importantes da aristocracia, seria forçado a lutar contra esses mesmos estigmas enquanto os filhos que Penny lhe desse teriam tudo o que uma criança poderia desejar.
Era tão injusto.
Adam nunca tinha dito que a amava nem dera qualquer indício de que assim fosse. Quando muito, tratara-a como uma espécie de animal de estimação. Com a sua ingenuidade e inocência, tinha confundido bondade com amor e convencera-se de que não podia pronunciar palavras de amor simplesmente porque ele tinha dificuldade em dizê-las.
Como fora idiota durante todo aquele tempo! Na verdade, com base em tudo o que testemunhava, ele nunca havia nutrido sentimentos verdadeiros a seu respeito. Nem amor, devoção ou respeito. Nem sequer amizade. Os cães da sua propriedade eram provavelmente capazes de partilhar mais do seu afeto do que ela.
De súbito, o calor da sala a abarrotar e o fedor de demasiados corpos transpirados e sujos sufocou-a. Começou a formar-se uma enorme onda de vómitos no estômago e a refeição ligeira que tinha comido no início da noite assemelhava-se a uma bola de chumbo prestes a explodir. Se não saísse imediatamente, ia passar uma vergonha no meio da assistência.
– Desculpe, desculpe – sussurrou enquanto se punha a abrir caminho aos empurrões e às cotoveladas até ao fim da fila.
As pessoas resmungaram, mas deixaram-na passar parecendo sentir a sua pressa em ir embora. Ela tinha de fugir dali. Se ao menos conseguisse chegar ao ar fresco da rua! Viu as portas na frente e atravessou-as como uma flecha até ao hall de entrada, lembrando-se de tapar a cabeça com o capuz antes de se expor às luzes mais intensas. Havia várias pessoas que podiam reconhecê-la e não queria esbarrar em qualquer delas.
Baixando a cabeça, tateou às cegas o caminho até à entrada principal e quase desmaiou de alívio quando conseguiu transpô-la. Tropeçou e um homem que ia a entrar no teatro deu um salto para a ajudar, equilibrando-a ao colocar a mão no antebraço antes que ela caísse no passeio. Os movimentos desajeitados fizeram com que o capuz lhe destapasse a testa.
– Desculpe, sir – pediu, tentando delicadamente manter a distância.
– Sente-se bem, miss?
A voz era familiar e não resistiu à tentação de olhar de relance para o desconhecido. Viu-se na frente do rosto chocado de Charles Billington.
– Maggie? És tu? O que aconteceu?
– Nada, Charles. Simplesmente, não me sinto bem. – Tentou novamente afastar-se, sem sucesso. – Preciso de ir andando.
– Espera – pressionou, recusando largar-lhe o braço. – Acho que o Adam está lá dentro. Queres que vá chamá-lo?
– Não! – opôs-se com mais veemência do que desejava, mas ao ver a reação dele, acrescentou num tom mais suave: – Não. Não preciso da ajuda dele.
– Ele não sabe que estás aqui, pois não?
– E prefiro que não saiba – respondeu, abanando a cabeça.
– O teu segredo está a salvo comigo – prometeu galantemente. – Contudo, insisto em levar-te a casa.
– Não é necessário. Consigo encontrar o caminho.
A sensação de vómito tornou-se mais violenta e receava estar prestes a passar uma vergonha, sujando os sapatos de Charles.
Ele desceu-lhe o capuz até aos ombros.
– Devo dizer que estás com muito mau aspeto. Permite que te instale na minha carruagem e vais sentir-te melhor quando estiveres sentada.
Devido à intensidade do trânsito, o condutor ainda não se tinha afastado da frente do teatro. Antes que ela pudesse protestar mais, encontravam-se junto à porta da carruagem e um cocheiro ajudou-a a subir e a entrar.
– Obrigada – conseguiu murmurar num fio de voz enquanto Charles se sentava na sua frente. Fechou os olhos e apoiou a cabeça ao encosto de veludo.
– Pareces prestes a vomitar.
O comentário provocou-lhe um leve sorriso. Charles nunca fora um seguidor das regras de cortesia.
– Devo confessar que já me senti melhor – retorquiu.
Nesse preciso momento, a carruagem arrancou com um solavanco. À medida que os cavalos faziam soar os cascos a descer a rua movimentada, parando e avançando novamente por entre o aglomerado de veículos, ela sentia cada movimento. Nunca se tinha apercebido até então que a carruagem balançava de uma forma tão irritante e enjoativa. Começou a respirar fundo e devagar.
– Vais conseguir chegar a casa? – perguntou Charles.
– Espero que sim. – Um solavanco particularmente brusco da carruagem levou-a a mudar de opinião. – Podemos parar?
– Claro.
Antes que o condutor pudesse parar os cavalos, ela deu um salto pela porta e o cocheiro quase não conseguia agarrar-lhe o braço, impedindo que caísse no meio da rua. Um beco escuro e fétido estendia-se na sua frente, protegendo-a dos olhares curiosos de transeuntes. Correu para a escuridão e encontrou um alívio abençoado ao vomitar repetidamente até não ter mais nada no estômago.
Trémula e sentindo-se num estado deplorável, estendeu o braço e apoiou-se a uma parede imunda. Passados uns minutos, retomou a compostura suficiente para regressar à carruagem. À luz da rua, avistou Charles de vigia, concedendo-lhe privacidade e mantendo-a a salvo de quaisquer vadios que pudessem estar à espreita.
– Melhor? – perguntou, oferecendo-lhe o braço e o lenço.
– Muito melhor – respondeu, aceitando as duas ofertas e endireitando-se.
– Vamos levar-te a casa.
Sem esperar pelo cocheiro, ajudou-a a entrar na carruagem.
Maggie voltou a apoiar a cabeça no encosto, fechando os olhos. Através das pálpebras semicerradas, viu-o a observá-la com uma expressão impenetrável. Que se interrogasse à vontade! Tudo o que desejava nesse momento era paz e ficar sozinha para refletir na atitude a tomar, mas não seria assim.
– De quanto tempo estás? – inquiriu Charles suavemente.
Pelo espaço de um segundo, pensou em negar a gravidez, em insistir que ele estava enganado. No entanto, ao fitar os seus olhos carinhosos e preocupados, concluiu que não podia mentir-lhe. Seria um alívio tão grande poder partilhar aquele terrível segredo com outra pessoa. Talvez o simples ato de o contar, fosse capaz de libertá-la um pouco do fardo.
Com um suspiro e um encolher de ombros, admitiu:
– Entre dois e três meses, segundo os meus cálculos.
– O Adam sabe?
– Não – respondeu, baixando os olhos e abanando a cabeça.
– Nem sequer desconfia?
– Não lhe dei qualquer indício. Ele jamais compreenderia.
Se esperava que o primo discordasse, estava enganada.
– Não, imagino que não – opinou Charles.
Maggie pôs-se de lado no assento, premindo o rosto contra o cabedal e fechando os olhos com o máximo de força, o bastante para eliminar o resto do mundo.
Ao chegar a casa, e apesar das suas tentativas para mandar Charles embora, ele não se deixou convencer facilmente. Insistiu em acompanhá-la até dentro de casa, acomodou-a no pequeno sofá da salinha e ordenou à criada que trouxesse um tabuleiro com água e bolachas. Aguardando em silêncio até a mulher ter saído, dirigiu-se à porta e fechou-a com força nas costas dela. Quando puxou uma cadeira e se sentou mesmo na frente dela, os nervos de Maggie estavam praticamente no limite.
Charles prendeu-lhe as mãos geladas entre as dele e esfregou-as com força.
– Alguma vez falaste com o Adam sobre a possibilidade de um bebé?
– Sim, no começo da nossa ligação. Ele disse-me que não podia deixar que isso acontecesse.
– Ele sempre achou que podia dar ordens às pessoas como se fosse um deus – resmungou Charles entre dentes. – Talvez haja um outro Deus a encarregar-se de lhe mostrar quem realmente manda, hein?
– Talvez – anuiu Maggie, inclinando-se para a frente e apertando as mãos que prendiam as suas. – Não lhe contei porque tenho um medo enorme de como poderá reagir. Disse que me expulsaria imediatamente se isso alguma vez acontecesse. Que não me permitiria que envergonhasse a sua família.
– Isso soa mesmo ao Adam – suspirou Charles. – Como é idiota em relação a muitas coisas!
– Mas foi no início do nosso relacionamento. Muita coisa mudou desde essa altura. Achas… achas que continua a pensar da mesma maneira?
Charles pareceu disposto a aliviar-lhe o espírito com uma mentira, mas por fim decidiu que só a verdade teria cabimento.
– Conheci o Adam toda a minha vida. Sou provavelmente o seu melhor amigo, partindo, obviamente, do princípio de que ele na realidade tem amigos. E devo dizer com toda a sinceridade que tenho a certeza de que quis dizer cada palavra.
– Compreendo.
Qualquer esperança que pudesse albergar no íntimo desapareceu ao ouvir Charles confirmar os seus piores receios. O rosto esmoreceu e os olhos encheram-se-lhe de lágrimas.
Charles pegou no lenço que ela continuava a amarrotar entre as mãos unidas e enxugou-lhe os olhos.
– Lamento. Provavelmente, não deveria ser tão brusco, mas duvido que te fosse útil de alguma maneira incentivar falsas esperanças.
– Está tudo bem. Apenas esperava que dissesses outra coisa.
– Foi a educação que ele recebeu, entendes? O pai era um homem extremamente egoísta que mostrou pouca consideração pela família e pela mãe de Adam… bem, é uma mulher muito fria, muito dura. Alterou toda a visão que Adam tinha do mundo até ele não ver mais nada na frente, salvo o dever e a responsabilidade.
– Lamento muito por ele.
– Não lamentes – insistiu Charles, surpreendendo-a. – Ele é um homem adulto e está a viver a vida que escolheu.
– Tentei ser tão cuidadosa – murmurou Maggie, passando a mão pela testa. Deixou-se cair para trás no sofá, formulando a pergunta retórica que durante semanas a fio lhe invadira os pensamentos e os sonhos: – O que hei de fazer?
Examinaram o dilema sob todos os ângulos, discutindo Adam e a sua rígida e obstinada natureza. Consideraram as opções dela que pareciam poucas e inadequadas. Todas a deixavam sozinha com uma criança bastarda nos braços. Dado poder discutir a situação, Maggie tinha os nervos e as emoções à flor da pele e por conseguinte passou-lhe despercebido o olhar de reflexão que se instaurou gradualmente no rosto de Charles, à medida que a noite passava.
– Tenho uma ideia – disse ele no meio de um dos seus prolongados silêncios.
– Bom, já ouviste todas as minhas. A tua não pode certamente ser pior.
Charles dirigiu-se à bandeja que a criada lhes tinha deixado e voltou a encher o copo de vinho, bebendo um longo trago antes de continuar:
– Talvez aches muito chocante, mas promete que vais ouvir-me.
– Prometo – anuiu sem que por um único instante deduzisse o que o homem poderia dizer-lhe de tão chocante.
– Que tal se te casasses comigo?
Maggie ficou boquiaberta.
– É impossível que estejas a falar a sério.
– Ah, mas estou. Ouve-me. – Deslocou-se até ao canto oposto da salinha, como se necessitasse de colocar uma grande distância entre eles, antes de se atrever a perguntar: – Sabes muita coisa sobre mim?
– De facto, não – admitiu Maggie. – Sei que és primo do Adam, que és muito próximo dele e do James. Foste um grande amigo de James e de Anne quando eles decidiram casar. Respeitei-te muito por isso. Também te mostraste sempre muito gentil para mim e sinto-me grata por isso – acrescentou num tom cuidadoso e neutro.
– Quero dizer-te uma coisa a meu respeito. Algo que apenas meia dúzia de pessoas sabe.
Corou ligeiramente, envergonhado por admitir o que quer que fosse.
Maggie aguardou e em seguida disse:
– Podes contar-me. Guardarei os teus segredos.
Aquela pequena declaração pareceu satisfazê-lo.
– Sabias que fui soldado durante um curto período?
– Sim, já me tinha constado.
– Lutei no continente. Fui gravemente ferido.
– Sim, também me lembro de ouvir isso.
– Danifiquei sobretudo as pernas e as costas. Fiquei com bastantes cicatrizes e, portanto, não ofereço uma visão muito agradável quando me dispo. – Virou-se para a janela e fitou o escuro da noite enquanto acrescentava: – Infelizmente, uma parte do meu ferimento foi bastante pessoal.
– Pessoal? – repetiu ela. – Acho que não entendo.
– Nunca poderei ter filhos. Fui atingido de alguma forma… por dentro. Já não consigo sentir desejo e fiquei sem muita sensibilidade na parte inferior das costas e numa parte da coxa…
– Não fazia ideia.
– Pois não – redarguiu ele, baixando a cabeça, como que envergonhado. – Como te disse, não há muitas pessoas que estejam a par do assunto.
– O Adam sabe?
– Sim e o James também. E alguns dos meus médicos que juraram segredo. Mais ninguém. – Dirigiu-se novamente à mesa e serviu-se de mais vinho, que bebeu lentamente. – Não falo no assunto. Trata-se de uma coisa que nenhum cavalheiro gostaria de confessar. É algo muito efeminado para acontecer a um homem.
– Imagino – anuiu Maggie com absoluta compreensão.
– Nesse caso – prosseguiu Charles, encontrando finalmente coragem para voltar a olhá-la de frente –, dado não poder ter filhos, é óbvio que jamais poderia pedir casamento a uma mulher. Seria injusto. Contudo, a minha mãe atormenta-me constantemente quanto a ter netos e a situação piorou de tal maneira que quase não suporto ir visitá-la. – Encolheu os ombros como se tivesse acabado de encontrar a solução para corrigir todos os males do mundo. – Podíamos casar e reivindicaria a criança como se fosse minha.
– Jamais poderia casar contigo.
– Porque dizes isso? Sou um excelente partido. Possuo terras. Tenho um rendimento garantido através de um fundo fiduciário e do meu trabalho, portanto, nunca te faltaria nada nem ao bebé. Criei uma reputação sólida com a minha pintura e a criança beneficiaria do meu nome e das relações da minha família. Muitas mulheres casam por muito menos.
– Mas as pessoas conhecem-te. Decerto, algumas suspeitariam…
– Ninguém saberá – interrompeu-a, abanando a cabeça. – Além disso, a criança irá provavelmente parecer-se o suficiente comigo para enganar alguém com estupidez bastante para duvidar.
– Por que razão farias isso por mim? – quis saber Maggie, fitando-o interrogativamente. – Parece que seria eu a lucrar todos os benefícios.
– É aí que te enganas.
– O que poderias lucrar?
– O fim da especulação sobre a minha vida pessoal. Paz de espírito. O fim do tormento imposto pela minha mãe e pelas minhas irmãs, que, acredita, valeria muito. – Aproximou-se mais, aparentemente encorajado pelo facto de ela não haver recusado de imediato. – Devo confessar que isso constituiria uma solução para um problema que me tem afligido há algum tempo. Um homem da minha posição tem o dever de casar, mas não posso. Já nem sequer falo com as mulheres porque não quero alimentar falsas esperanças a ninguém. E… – acrescentou quase num sussurro – … tenho dificuldade em desfrutar de qualquer tipo de companhia feminina agora que não posso… não posso…
– Então, se avançássemos com a ideia, não precisarias dos meus serviços conjugais?
– Não. Seria simplesmente um casamento de conveniência com benefícios para ambos…
– Fazes com que pareça tão calculado.
– Todos os casamentos são calculados de acordo com os ganhos e as perdas em causa. Só vejo benefícios para ambos.
– Pensei que o teu pai era conde. Não estás vinculado a qualquer das restrições que se aplicam a Adam?
– Tenho sete irmãos, Maggie. Sou o quinto filho. O meu irmão assumiu o título há anos e a mulher já lhe deu três filhos. – Voltou a sentar-se na cadeira em frente dela. – Confia em mim. Ninguém se importará com quem eu case. Apenas querem que o faça.
A sua linha de raciocínio e as respostas a todas as suas perguntas pareciam fazer sentido. Charles elaborou um discurso em que tudo poderia funcionar sem problemas, o que era assustador. Nem conseguia acreditar quando ouviu a sua própria voz a inquirir:
– Se concordar, não estou a dizer que o faça, ouve bem, quando desejarias fazê-lo?
– Quanto mais cedo melhor, diria, tendo em conta… – Fez um gesto na direção do ventre dela.
Maggie assentiu com a cabeça.
– Como agiríamos?
– Estava a pensar numa viagem rápida para Gretna Green.
– Fugir para a Escócia? – arquejou Maggie ante a ideia chocante.
– Sem qualquer desrespeito – acrescentou de imediato.
– Não me referia a isso. Só que me parece tão drástico. Não seria mais fácil realizá-lo aqui na cidade?
– Conseguiria obter uma licença especial, mas receio que se espalhe a palavra se o fizer. É algo muito fácil de acontecer. A minha mãe descobriria os nossos planos e desejaria adiar as coisas para transformar o casamento num evento grandioso…
– E não podemos adiar a data sem lhe explicar o motivo.
– Exato.
– Ou sem que Adam possa descobrir.
– Que importância tem isso?
– Não sei bem. Ele podia tentar deter-me apenas por mera teimosia.
– É verdade.
– Ainda que não saiba porque havia de importar-se? Afinal, ele decidiu casar-se com Penelope Westmoreland…
Charles estremeceu e conteve uma praga.
– Nesse caso, acho que o casamento seria a melhor solução para vocês os dois. Terias quem cuidasse de ti e ele ficaria sem responsabilidades antes que a data do casamento se aproximasse. – Pegou-lhe de novo nas mãos, apertando-as com força. – Vamos fazê-lo. O que dizes?
– Não sei, Charles, não sei… – Uma violenta dor de cabeça começava a formar-se-lhe por trás dos olhos. – Fazes com que tudo pareça tão simples.
– Seria simples.
– E quanto a nós os dois? Mal nos conhecemos.
– Somos amigos. Gostamos um do outro. É mais do que muitos casais podem afirmar.
– E o bebé? Não desejaria que ele fosse criado por um pai indiferente. – Levantou o rosto com uma expressão suplicante. – Pensas mesmo que conseguirias ter qualquer afeto pelo filho de outro homem?
– Não é como se fosse filho de um estranho, Maggie. O bebé é do meu primo e algum do meu próprio sangue corre nas suas veias.
– Nunca mais quereria ver o Adam. – Céus! Falava como se estivesse disposta a ir em frente! – Nem a Penelope. Nem ouvir falar da vida deles ou dos seus filhos.
– Compreendo.
– Poderia ser a causa de uma situação horrível entre vocês os dois. Entre as vossas famílias.
– Deixa que seja eu a preocupar-me com isso.
– Como poderia evitar o círculo que vocês frequentam? Se nos casássemos, não vejo qualquer hipótese.
– Sou dono de uma pequena casa no campo junto das propriedades da minha família. Podias ficar lá durante o ano inteiro. Eu só precisaria de vir a Londres esporadicamente por causa dos meus compromissos relativos à pintura, mas não terias necessidade de me acompanhar.
Maggie recostou-se com força no sofá. Era uma boa ideia. Para ela e para o bebé. A criança não nasceria ilegítima, mas em vez disso faria parte de uma família grande e respeitada. O pai seria um cavalheiro de renome. O que mais poderia pedir?
A proposta de Charles oferecia uma solução para todos os problemas da sua vida, mas, se desse esse passo tão drástico, não haveria recuo. Seria um punhal espetado no coração do seu relacionamento com Adam. Ele jamais lhe perdoaria.
E importava-se após a decisão que ele tomara de casar com Penelope?
Ergueu o rosto, com um olhar penetrante.
– Deixa-me pensar no assunto. E também devias fazê-lo. É muito tarde e talvez sintas de maneira diferente à luz do dia.
– Não mudarei de opinião – garantiu ele, abanando a cabeça.
– Enviarei um bilhete amanhã ao meio-dia.
– Se a resposta for afirmativa, acho que devemos partir imediatamente para a Escócia.
– Concordo.