Meu Único Amor

Cheryl Holt · Capítulo 20 de 31

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Meu Único Amor

Capítulo 19

 

O cabriolé transpôs os portões que separavam da rua a casa ameaçadora e o condutor parou no pátio curvo. O criado de Maggie, John, ergueu a mão e ajudou-a a avançar. Sorriu-lhe encorajadoramente quando ela respirou fundo e se dirigiu à porta da frente. Esperava que Adam estivesse no interior e a recebesse durante uns breves minutos.

Ele regressara da propriedade no campo e, na tarde anterior, tinha enviado um bilhete e vários buquês de flores de estufa. Depois de uma ausência de quase três semanas, tivera demasiado com que se ocupar para aparecer logo. O peso das suas responsabilidades era enorme. Maggie compreendia e não se importava sempre que as suas várias tarefas o detinham. Contudo, James e Anne iam casar-se dali a umas horas e, a menos que algo acontecesse rapidamente, Adam perderia o casamento do seu único irmão.

Maggie supunha que os irmãos se reconciliariam em qualquer momento futuro, mas se assim não fosse? Se a sua recusa em comparecer na cerimónia gerasse um cisma irremediável no relacionamento entre ambos? Adam e James eram homens orgulhosos e existia a hipótese de que a teimosia dos dois os obrigasse a tomar posições que jamais abandonariam.

Era errado da sua parte ter vindo ali, errado estar a bater à porta dele, mas não conseguira dominar-se. A menos que desse aquele passo, só teria oportunidade de falar com ele quando fosse demasiado tarde. Durante as horas agitadas da noite, enquanto dava voltas e mais voltas na cama, tentando decidir o que fazer, havia elaborado um plano. Limitar-se-ia a apresentar o seu cartão na porta principal e a ver o que aconteceria.

Se alguém questionasse o motivo da sua presença à porta de uma família tão conceituada, preparara uma mentira elaborada sobre o motivo por que precisava de falar com o marquês. Apresentar-se-ia como a viúva de um dos amigos dele, necessitada da sua pronta ajuda devido a um dilema financeiro de grande urgência. Parecia um ardil tão inocente como qualquer outro engendrado à última hora. Se Adam a receberia ou não, já era outra questão. Caso lhe virasse as costas, partiria sem muitos ressentimentos, consciente de que era impróprio da sua parte ter feito aquela visita.

Se o nome dela significava alguma coisa para o homem que abriu a porta, ele fez um bom trabalho de dissimulação. Agarrou no cartão e conduziu-a a um pequeno salão afastado da entrada principal, pegando no chapéu e na capa e pedindo-lhe que aguardasse enquanto ia saber se o marquês a receberia.

Ele saíra há muito tempo, o que lhe concedeu tempo de sobra para observar o que a rodeava. Era desconcertante estar sentada no salão luxuosamente mobilado, sabendo que Adam vivia ali, mas dormia ocasionalmente na sua modesta casa.

Como seria ter crescido num lugar daqueles? Reinava uma calma semelhante à de um mausoléu e tudo se apresentava impecavelmente limpo, polido e arrumado, dando a sensação de que ninguém vivia ali. Parecia-lhe um museu que visitara uma vez e onde era proibido tocar nos objetos ou mesmo observá-los de muito perto. Adam pouco falava da vida que levara naquela casa, mas James referiu-se-lhe ocasionalmente e ambos tinham tido uma existência solitária e isenta de afeto.

Maggie podia ter crescido como filha bastarda e de vez em quando fora necessário lutarem para sobreviver, mas nunca se sentira sozinha e nem por um segundo se interrogara sobre se a mãe a amava ou não. A casa era pequena e despretensiosa, quase miserável, comparada com esta, mas sempre transbordara de amor e de risos. Ao olhar em volta, avaliando a sua infância e a de Adam, não conseguiu evitar a ideia de que a dela fora sem dúvida melhor.

Vindo de longe, um único conjunto de passos ecoou no corredor, aproximando-se gradualmente, até o criado que tinha aberto a porta regressar com o anúncio surpreendente de que o marquês estava disponível e a receberia no Salão Azul. Maggie seguiu o homem ao longo de umas escadas, através de vários corredores sinuosos, até a introduzir num salão que era realmente azul. O papel de parede, os cortinados, a alcatifa e os quadros exibiam diversos tons de azul. A divisão era pequena e íntima, virada a leste para o deslumbrante sol da manhã que brilhava através das janelas impecavelmente limpas.

Adam estava sentado a uma mesa perto da janela. Atrás dele, podia ver os restos de um jardim com flores, que provavelmente denotava cores alegres no verão. Vestido casualmente com calças e uma camisa de linho, parecia-se como quando estava à vontade na casa dela. Maggie hesitou, sem saber que tipo de acolhimento que receberia, até ver o sorriso no rosto dele.

– Miss Brown, que agradável surpresa! – exclamou, levantando-se e atravessando a sala de mão estendida para a cumprimentar.

A jovem esboçou uma pequena vénia.

– Bom dia, Lorde Belmont. Lamento incomodá-lo tão cedo.

– Não incomoda nada. Venha, por favor. – Enfiando o braço no dela, conduziu-a até um pequeno sofá junto à lareira, mas Maggie permaneceu de pé ao seu lado. – Acabei de regressar de uma visita ao campo e estava a pôr em dia uma papelada. Quer tomar um chá na minha companhia?

– Não, obrigada, sir.

Adam fitou o criado e despediu-o com um gesto da mão.

– Encarrega-te de que não nos perturbem.

O homem saiu e a necessidade de um educado fingimento desapareceu, mas Maggie sentiu-se de súbito constrangida e tímida. Fitou-o nos olhos, mas apenas detetou bondade e uma pitada de riso. Adam ergueu o sobrolho interrogativamente e ela começou a desculpar-se:

– Lamento. Sei que não devia estar aqui.

– Não lamentes.

De facto, estava a pensar que ela parecia mais bonita do que se recordava e com o bonito vestido cor de lavanda e a forma como se movimentava parecia enquadrar-se totalmente onde pertencia. Abafou de novo a onda de pena por não poder transformar esse sonho em realidade.

– Espero que não estejas muito zangado por ter vindo aqui.

– Não, mas devo confessar que eras a última pessoa que esperava que me visitasse esta manhã.

– Precisava de falar contigo e não sabia como fazê-lo.

– Alguma coisa que não pudesse esperar até hoje à noite?

Maggie sacudiu a cabeça.

– Trata-se de James…

– Não quero falar sobre ele – retorquiu Adam, deixando-se cair no sofá e arrastando Maggie com um movimento tão suave e rápido que ela foi obrigada a juntar-se-lhe. – Quero falar sobre ti e em como sentiste a minha falta.

A jovem sorriu e beijou-lhe levemente os lábios.

– Senti a tua falta em cada segundo.

– Também eu, pequenina. Deixa que te mostre quanto.

Debateu-se com a saia dela, puxando-a para cima e colocando-lhe as pernas de modo a que os joelhos lhe rodeassem a cintura e ficasse bem apartada e pressionada contra ele. Sentira muito, mas mesmo muito a falta dela.

Adam estava obviamente disposto a fazer amor na pequena divisão, mas ela não. Sentia-se uma intrusa entre os luxuosos acessórios da casa e o facto de observá-lo tão à vontade no meio daquele esplendor deixava-a ainda mais desconfortável. Apoiou as mãos nas costas do sofá, de cotovelos esticados, fitando-o com uma expressão triste.

– Não, não podemos fazer isso!

– Porquê?

– E se entrar alguém?

– Ninguém entrará – garantiu, dando-lhe pequenas mordidelas no pescoço e preparando-se para chegar aos seios. Com um puxão do tecido, eles soltaram-se e Adam começou a rodar suavemente os mamilos, que logo endureceram. Não a olhou, mas fixou os seios, manipulando-os com as mãos e os dedos, avaliando o tamanho e a forma. – É a minha casa, Maggie. Posso fazer amor contigo, se quiser. Ninguém me impedirá.

Mesmo assim, ela hesitou, embora cada vez se tornasse mais difícil enquanto ele a acariciava.

– Não me parece certo.

– Parece sim. Parece mesmo certo.

A conversa terminou ali. Adam continuou a ocupar-se dos seios, chupando e saboreando, mordendo e titilando, até que Maggie começou a gemer, puxando-o para mais perto. Permaneceu nessa posição até ela estar pronta e igualmente desejosa de se lhe juntar. Ao penetrá-la, foi diferente das outras vezes. Algo quanto a fazê-lo na casa dele onde não tinha direito de estar, tornou a cena mais perversa e erótica e o prazer mais acentuado do que nunca.

Quando os estremecimentos da paixão diminuíram, Maggie ficou prostrada sobre o peito dele, parecendo uma completa devassa. Os ganchos estavam espalhados por todo o lado e o cabelo pendia totalmente emaranhado em torno do rosto e dos ombros. Tinha os seios e as coxas desnudas e os lábios inchados dos seus beijos. Ele ainda se mantinha parcialmente endurecido dentro dela e descansou em silêncio, respirando devagar enquanto lhe acariciava as costas. Maggie encostou a face ao ombro masculino, depositando um beijo ocasional no pescoço.

Adam parecia estranhamente quieto. Mais triste do que saciado, terrivelmente melancólico. Maggie aconchegou-se mais, consciente de que a estadia no campo não fora agradável e suspeitando que a briga com James era uma pesada sobrecarga.

– Quem me dera que tivesses ido comigo para o campo – observou baixinho. – Gostaria de te ver no meu quarto, lá. Com o sol a brilhar nos cabelos, como agora.

– Também gostaria – anuiu Maggie, embora soubesse que isso nunca aconteceria e fechando os olhos para dissimular a surpresa sentida.

Adam nunca falava daquela maneira, nunca dizia nada sobre o desejo de que ela se enquadrasse na sua vida real e, por seu lado, Maggie tinha o cuidado de não expressar tais pensamentos porque mencioná-los apenas tornaria a sua situação muito mais dolorosa.

– E quem me dera que estivesses sempre aqui – prosseguiu Adam. – Esta é a minha divisão favorita de manhã. Gostaria de fazer amor contigo aqui, sempre que me apetecesse.

O peito dela ergueu-se com uma leve risada.

– Isso decerto daria motivo de falatório aos criados.

– Daria mesmo, não era?

Enquanto Adam soltava uma gargalhada, ocorreu-lhe uma súbita visão, a de Adam fazendo amor com a mulher naquele lugar. Geralmente, nas suas mais perversas fantasias, a mulher parecia-se muito com Penelope. Dessa vez não foi diferente; sentiu a presença da meia-irmã como se ela os observasse do outro lado da sala.

Quebrou aquele momento de intimidade e afastou-se, sentando-se o máximo que lhe era permitido.

– Preciso de me ir embora dentro em pouco.

Adam soltou um fundo suspiro, desejando que ela pudesse ficar o dia todo. Para sempre. Mas apenas conseguiu dizer:

– Sim, acho que sim.

Maggie tomou-lhe o rosto entre as mãos, beijando-o ternamente.

– O casamento é daqui a duas horas, Adam. Por favor, diz que irás comigo.

Fechando os olhos como se lhe custasse encarar o mundo, ele encostou a cabeça para trás e balançou-a na beira do sofá.

– Oh, Maggie, não me peças isso.

– Por favor, Adam. Sei que isso significaria muito para James.

– Não posso, pequenina – recusou meigamente.

Maggie inclinou-se para voltar a abraçá-lo, mas ele continuou a desviar o olhar.

– Se não podes fazê-lo pelo James, fá-lo por mim.

O pedido dela levou-o finalmente a encará-la.

– Sabes que faria tudo no mundo por ti. Tudo. Mas não posso fazer isso.

Maggie queria enraivecer-se, mas foi incapaz. A angústia que aquela decisão lhe causava era tão visível que a magoava só de presenciá-la. Desprendeu-se e ficou de pé, ajeitando o corpete e as saias. Tinha o cabelo todo emaranhado e sabia que seria impossível voltar a prendê-lo com os ganchos depois de Adam o haver revoluteado. Virou-se para um pequeno espelho pendurado na parede, endireitando as madeixas como podia. Adam observou-a em silêncio, até que voltou a enfrentá-lo.

– Detestas assim tanto a Anne? – perguntou.

– A Anne não tem nada a ver com isso – insistiu, abanando a cabeça.

– Diria que tem tudo a ver com isso.

– Não é ela. Só que…

– Claro que é ela – interrompeu Maggie. – Não insultes a minha inteligência.

Adam estendeu o braço, mas ela não correspondeu ao gesto. Recusando o afastamento, pegou-lhe na mão e entrelaçou os dedos de ambos.

– Não é ela como pessoa, Maggie. É a sua posição, o que representa. Não é uma mulher adequada para James e ele sabe-o.

– Discordo. James acha-a perfeita e diria que isso é tudo o que importa.

– Não, Maggie. Isso não é tudo o que importa.

Pela milésima vez na sua vida, sentiu a picada cruel da injustiça que governava as suas vidas. Afastou a mão dele.

– Anne é a melhor pessoa que conheço e não me interessa quem são os pais de James, qual a riqueza da tua família ou onde remonta a tua linhagem. Não me interessa. Ela é digna de James em todos os sentidos. Não consegues perceber?

– Não, lamento mas não consigo – Adam levantou-se, mais cansado do que irritado, ajeitando as calças e a camisa. – Poupa-me a discussões, Maggie. Passei os piores dias da minha vida. Já basta o que basta para que também tu te enfureças comigo.

– Desculpa. Também não quero brigar. – Como sempre, as palavras ternas vindas da sua boca assemelhavam-se a magia, pois sabia quanto lhe custava pronunciá-las. Forçou-se a abandonar a postura de desafio e abrigou-se nos seus braços, apoiando as mãos na cintura masculina e erguendo a face com uma expressão de súplica. – É assim tão errado que James seja feliz? Mesmo que não concordes com a escolha da noiva, não podias ficar um pouco satisfeito por Anne o alegrar tanto?

– Não posso fazer o que me pedes, Maggie. É como se me pedisses para acreditar que o céu é verde ou que o oceano é vermelho. A atitude de James vai contra tudo o que sempre acreditei. Vai contra tudo o que me ensinaram.

– Talvez te tivessem ensinado mal.

– Talvez – concordou relutantemente, após um longo silêncio –, mas não posso mudar o homem que sou.

– Todos podem mudar, se for algo que desejem o suficiente.

– Eu, não. Não a este respeito.

– Nesse caso, lamento muito por ti. E pelo James. – «E por mim», acrescentou silenciosamente.

Adam passou a mão pelo cabelo num gesto de frustração.

– Quem me dera levar-te a entender.

– Quem me dera fazer o mesmo em relação a ti.

Maggie olhou para o relógio pousado na cornija sobre a lareira. O tempo passara tão rapidamente. Mal teria tempo de correr para casa e trocar de roupa antes de se dirigir a toda a pressa para a pequena capela onde se realizaria a cerimónia.

– Tenho de ir – disse.

– Claro.

– Podes chamar alguém para me indicar o caminho? Não tenho a certeza de conseguir encontrar a saída.

Adam sorriu ante o comentário.

– Eu levo-te lá a baixo.

A oferta surpreendeu-a. Não conseguia imaginar que ele desejasse que alguém os visse juntos nos corredores.

– Não é necessário.

– Eu quero, Maggie.

A jovem agarrou-lhe no braço e percorreram a enorme casa, com os passos ecoando nos corredores vazios. Durante o trajeto, Maggie tentou absorver ao máximo as cores e o estilo para que pudesse evocar imagens exatas de Adam nos anos vindouros.

À porta, ele voltou a surpreendê-la, acompanhando-a ao exterior e ajudando-a a subir para a carruagem que a esperava. Mantiveram-se muito tempo de mãos dadas, sem quererem quebrar o contacto.

Por fim, Adam recuou.

– É melhor ires andando. Assim, dificilmente conseguirás chegar a tempo.

– Eu sei – sorriu, ultrapassando o transtorno que os perturbara. Ele parecia tão triste e tão sozinho, que era insuportável deixá-lo, mas tinha de fazê-lo. Aquele não era o seu lugar. Mesmo assim, não conseguiu resistir a pousar-lhe afetuosamente a mão na face. – Sabes onde se realiza a cerimónia?

– Sim – respondeu, agarrando-lhe na mão e beijando a palma. – Recebi um convite.

– Se mudares de ideia à última hora, serás bem recebido. Sabes isso, não sabes?

– Não vou mudar.

Maggie assentiu com a cabeça. A esperança não morria. Até ao final da cerimónia e do beijo do casal feliz, rezaria para que ele aparecesse.

– Há alguma mensagem que queres que dê a James?

Adam percorreu a paisagem com o olhar durante muito tempo e depois respondeu:

– Não. Nada. Vemo-nos esta noite.

Recuou e o coche arrancou. Maggie olhou por cima do ombro, acenando uma vez e depois negou-se a olhar novamente. A visão de Adam, de pé, solitário e perdido, era demasiado perturbadora para contemplar num dia que somente devia ser preenchido de alegria. Olhou em frente, rumo ao casamento dos seus dois amigos.

 

Lucretia St. Clair quase não tinha reparado na carruagem parada no pátio da frente. Quando interrogou casualmente uma criada, ela mencionou que Adam recebera uma visita e que a carruagem aguardava para a transportar. O facto de a criada mencionar que se tratava de uma mulher despertara-lhe momentaneamente o interesse, mas não por muito tempo. Adam tinha sempre muitas visitas durante o dia, por questões de negócios ou sociais. Não o vigiou. Era raro que uma mulher sozinha visitasse o filho, mas não prestou atenção.

Assim, foi com um incrível interesse e um visível fascínio que ficou a observar quando o filho deu o passo sem precedentes de acompanhar a mulher pelo corredor e até lá fora. Era tão raro fazer uma coisa daquelas que não conseguiu impedir-se de espreitar pela janela para ver de quem se tratava.

A criatura que o filho levava pelo braço não era uma mulher mas pouco mais do que uma menina, esbelta, petite, e extremamente bonita com um vestido lavanda e o cabelo castanho-claro tombando em cascata pelos ombros. Lucretia não ficou surpreendida por ver Adam na companhia de uma bela mulher, pois estava sempre rodeado delas. Surpreendeu-a, sim, a emoção visível entre os dois. O seu geralmente estoico e silencioso Adam mostrava-se totalmente cativado pela jovem mulher. Era óbvio, mesmo do sítio onde Lucretia se encontrava discretamente, no interior da casa.

Observou a cena como a pior espécie de voyeur.

A forma como Adam a ajudou a subir para a carruagem. A forma como falavam de cabeças unidas e os olhos buscando-se com intimidade. A forma como a jovem lhe tocou na face com um gesto amoroso e familiar e como Adam lhe correspondeu, beijando a mão.

A respiração de Lucretia tornou-se ofegante.

Durante os vinte e nove anos de vida de Adam, nunca o tinha visto mostrar qualquer emoção em público, mas somente em raras ocasiões e em privado. Educara-o bem nesse aspeto. E agora fazia uma figura daquelas com uma amostra de menina que Lucretia nunca conhecera. Pela maneira como se entreolhavam, parecia que nutriam sentimentos profundos um pelo outro! Quase como se pudessem estar apaixonados!

A perceção causou-lhe arrepios na espinha. Os boatos que ouvira entre o pessoal e a calma advertência de um conhecido, acorreram-lhe à mente. Troçara de tudo isso. Até esse momento. Mas certamente… não teria coragem para receber a sua prostituta na casa deles? A ideia era ridícula. Ainda assim…

Manteve-se no seu posto, durante todo o tempo. Adam permaneceu na entrada, observando a rua muito depois de a carruagem ter desaparecido. Por fim, voltou-se para entrar em casa. Lucretia respirou fundo e dirigiu-se à porta da frente, assumindo a pose altiva e o comportamento arrogante que sempre usava quando se dirigia aos criados ou aos filhos.

Adam estava tão angustiado pelo que quer que tivesse discutido com a jovem que passou por ela no hall de entrada sem a ver, totalmente distraído e com o intuito de subir as escadas e regressar aos seus aposentos privados.

– Adam! – chamou num tom brusco que o fez estacar. – Bom dia.

– Bom dia, mãe.

– Tivemos uma visita tão cedo? Não foram más notícias, espero?

– Não, mãe. É apenas uma amiga. Do James.

Lucretia estreitou os olhos. Tinha a certeza de que a rapariga não era amiga de James. Adam estava a mentir.

– Não me recordo de a ter visto antes. Como se chama?

– Miss Magdalina Brown.

– O que queria?

Adam examinou-a atentamente. A mãe decerto não o interrogaria sobre as suas ligações amorosas, mas sentia-se triste e furioso e queria descarregar em alguém pela brecha que o separava de James, nesse momento tão grande que não conseguia imaginar conserto. Por qualquer motivo, queria culpar Lucretia e a sua maldita visão do mundo que lhe incutira desde o dia do seu nascimento.

– Quer realmente saber? – perguntou, irritado.

– Sim – respondeu com mais hesitação do que pretendia. O filho tinha uma expressão desconhecida que a assustava.

– Queria saber se eu iria ao casamento.

– Que atrevimento! – sibilou Lucretia. – Espero que a tenhas posto no lugar. – Adam limitou-se a olhar, preocupando-a ainda mais. – Disseste-lhe obviamente que não irias.

– Não se preocupe, mãe. Vinquei que não tenho tenção de fazê-lo. O seu filho mais novo nunca me perdoará. Espero que isso a deixe feliz, pois a mim muito me entristece. Eu, pelo menos, sempre o amei.

Depois daquele comentário, virou as costas e continuou a subir as escadas.

Lucretia sentiu vontade de o chamar. De dizer que James tinha exatamente o que merecia e nada mais. Que nunca fora um filho exemplar, nunca entendera os papéis que a obrigação e a família desempenhavam nas suas vidas e que escolhera cortar os laços com os seus únicos parentes ao cometer um ato tão terrível e vergonhoso.

No entanto, por uma vez na vida, teve a prudência de se conter, receando a reação que Adam poderia mostrar às suas palavras. Em vez disso, foi à procura da governanta para discutir o jantar que tencionava dar na noite seguinte.