Meu Único Amor
Capítulo 2
Adam St. Clair retirou um copo de vinho da bandeja de um criado que ia a passar e tentou passar despercebido, o que era difícil dadas as circunstâncias. Ele era o solteiro marquês de Belmont e todas as mulheres presentes tentavam chamar-lhe a atenção. Jovens e velhas, altas e baixas, gordas e magras, vulgares e bonitas, todas esperavam que o seu olhar pousasse nelas e só nelas.
Não o ajudava o facto de ter sido agraciado com a alta estatura do pai, ombros largos, cabelo e olhos pretos. Ao longo dos seus vinte e nove anos, sempre ouvira dizer como era bonito, viril, primorosamente dotado e a sua beleza fazia com que as mulheres ainda o desejassem mais. Contudo, não se deixava iludir. Se fosse baixo e atarracado e com cara de sapo, as mulheres continuariam a procurá-lo, esperando conquistar um pouco da sua atenção.
Todas o desejavam e todas tinham segundas intenções. Algumas queriam partilhar o seu título, outras desejavam as bijutarias que o dinheiro pode comprar e havia as que pretendiam os benefícios de uma aliança com a família dele.
Infelizmente, ele não desejava nenhuma delas. Apenas queria conhecer uma rapariga disponível, uma jovem experiente que lhe oferecesse desinteressadamente a sua bondade e amizade, que gostasse dele pelo homem que era, descomprometido, mas a hipótese de tal coisa acontecer era quase nula. Em vez disso, encontrava-se em mais um estúpido baile, vestido com uma roupa desconfortável, comendo alimentos leves regados com um vinho aguado enquanto sorria e acenava com a cabeça até o rosto e o pescoço lhe doerem.
Era inacreditável a coscuvilhice sobre o seu iminente noivado. Seria aquele o ano em que escolheria alguém exterior à colheita da temporada das debutantes? Fizeram-se e perderam-se apostas à medida que os vários prazos chegavam e terminavam e ele não esboçava qualquer gesto para anunciar a sua escolha. Passou o Natal, o ano novo, o seu aniversário em fevereiro, os idos de março, a Páscoa e agora o primeiro de maio. Em todas essas datas, os salões de jogos enchiam-se de apostadores enquanto vários amigos e conhecidos tentavam adivinhar-lhe o pensamento. Deus do céu! Até o próprio Times entrara em campo, publicando uma caricatura deplorável de um cavalheiro que parecia correr freneticamente pelo meio de um labirinto intitulado «O Mercado de Casamento».
A pressão era insuportável, não só por causa do que qualquer dos presentes pensava ou dizia, mas devido ao prazo que impusera a si mesmo. Tencionava selecionar uma mulher até ao final do ano para que no seu trigésimo aniversário, no próximo fevereiro, estivesse a caminho do casamento. Ao vaguear os olhos pelo salão, recordou-se mais uma vez de como eram sombrias as suas perspetivas de encontrar alguém adequado.
Compreendia o seu dever para com o título, a sua família e o seu papel de um dos aristocratas mais ricos de Inglaterra quanto a casar e casar bem, mas não conseguia pura e simplesmente decidir-se. Ao longo dos últimos anos, enquanto a mãe discursava e membros da sociedade sustinham a respiração, observara uma série de jovens a desempenharem o seu papel de debutantes, esperando que uma delas lhe chamasse a atenção e facilitasse o doloroso processo de seleção.
Nenhuma delas o conseguiu.
A temporada de verão chegou mais uma vez e os três meses de festas e de bailes prolongaram-se infinitamente. Ele tinha-se convencido de que esse era o ano em que encontraria uma noiva à sua altura, mas, ao olhar à volta, não percebeu o que o levara a acreditar em tal coisa. Na realidade, o mundo deles era pequeno. Conhecia todas as famílias e as respetivas filhas e a tristeza residia em que todas aquelas jovens o entediavam de morte.
A maioria era indubitavelmente bastante bonita, mas tinham sido educadas para apenas manter o ar entre as orelhas. Mal sabiam ler e escrever e muito menos manter uma conversa inteligente. Nem sombra de pensamentos profundos, longas discussões filosóficas, ou debates acalorados, e, que Deus as livrasse, de manifestações emotivas. Tudo se limitava a sorrisos intermináveis e diálogos educados até por vezes sentir vontade de gritar. Assentar com uma daquelas jovens idiotas era impensável. Contudo, não lhe restava escolha.
Era do conhecimento geral. Nem sequer podia virar as costas sem que uma mãe, uma tia, um pai ou um amigo lhe pusesse uma jovem debaixo do nariz. O que não daria para abandonar tudo e fugir para viver a sua vida como uma pessoa anónima. Decerto haveria um lugar, talvez uma ilha tropical onde pudesse simplesmente ser ele mesmo.
James, o seu irmão mais novo, arrancou-o àquele triste devaneio.
– Olha, Adam, é o teu dia de sorte. O duque de Roswell, o grande Harold Westmoreland em pessoa, acabou de chegar na companhia da sua bonita filha Penelope – comentou com uma risada ao mesmo tempo que Adam estremecia. – Parece que te encontraram.
Adam gemeu. Não podia ir onde quer que fosse, sem que eles aparecessem uns minutos depois.
– Achas que têm alguém a seguir-me para descobrirem todos os meus movimentos?
James, aos vinte e sete anos, com dois anos menos do que o irmão, era talvez a única pessoa no mundo que compreendia as pressões inacreditáveis exercidas sobre Adam. Enquanto alguns homens se irritavam com o estatuto de irmãos mais novos, James lembrava-se de agradecer a Deus, pelo menos uma vez ao dia, por lhe ter poupado o fardo de um título.
– Encara isso deste ângulo. Pelo menos, vais abandonar a festa cedo. Em seguida, podemos desfrutar do resto da noite.
– É fácil para ti falares assim. Não é em ti que Penelope está de olho – resmungou Adam entre dentes.
– És mesmo um homem de muita sorte – comentou James com uma risada sem o mínimo intuito.
O duque e a sua comitiva encaminharam-se para os degraus do salão e a sua filha Penelope de dezoito anos perscrutou furtivamente a multidão, tentando vislumbrar Adam. Quase sem se aperceber da própria reação, ele recuou um passo e ganhou alguma proteção e algum tempo atrás das folhas de uma planta colocada num vaso.
– Cobarde! – sussurrou James pelo canto da boca.
– Com bom motivo – respondeu no mesmo tom. – Imaginas-me algemado àquela pequena harpia durante o resto da vida?
– Tremo só de pensar nisso – disse James, passeando um olhar casual pelo salão. – Olha! Ali está a pequenita Arnold!
Era uma miúda linda. E doce, também, o que constituía uma refrescante mudança de ritmo das mulheres que encontravam nestas reuniões da alta sociedade. James tinha-lhe falado várias vezes, mas, à semelhança do que acontecia com as mulheres por quem se sentia atraído, a mãe dela afugentava-o sempre, antes que conseguisse pronunciar mais do que umas palavras de boas-vindas. Ninguém queria um segundo filho a fazer andar a cabeça à roda das filhas enquanto o primogénito estivesse disponível.
– Parece que ela perdeu temporariamente a mãe – observou Adam. – Talvez devesses aproveitar para a levantares até às nuvens enquanto tens oportunidade.
– Ainda bem que trouxe a vassoura. Apetece-me fazer uma pequena varredela – riu James ao mesmo tempo que se esgueirava habilmente pelo meio da multidão até junto da jovem.
James namoriscou escandalosamente enquanto Adam observava, pensando em como James era uma versão mais elegante e bem cuidada de si mesmo. Tinha a boa aparência dos St. Clair, embora o cabelo fosse de um ruivo mais acastanhado. Ao ver os dois irmãos juntos, muitas pessoas tinham sido ouvidas a comentar que haviam herdado todas as facetas da personalidade do pai. Adam ficara com o seu lado duro, cruel e insensível, enquanto James tinha sido agraciado com a sua natureza despreocupada, generosa e divertida.
Como resultado, James saía-se decididamente bem com as mulheres; nenhuma conseguia resistir-lhe. Adam invejava-lhe a graciosidade e amaldiçoara mais do que uma vez o destino, que o tornara primogénito. Como seria bom ser capaz de conhecer uma jovem, pedir-lhe para dançar, desfrutar de um almoço, ou levá-la a passear no parque, sem que toda a cidade de Londres especulasse sobre o facto.
Suspirou quando a mãe da jovem surgiu como uma tempestade e a desviou das atenções de James. Infelizmente, quando James se voltou a juntar a Adam, mãe e filha encontravam-se a pouca distância, do outro lado do vaso com o feto, sem se aperceberem da presença dos irmãos St. Clair, que escutaram assim todo o diálogo.
– Não vais falar novamente com ele – ralhou a mãe.
– Mãe, ele é muito terno.
– Mas não é o marquês.
– Eu sei.
– Então, não o encorajes. Deves concentrar toda a energia no mais velho dos dois.
– Por amor de Deus, mãe. O marquês não está interessado em mim e nunca estará. Consegue meter isso na cabeça?
– Estará, se soubermos jogar as cartas. Agora – os irmãos ouviram o movimento dos pés e o farfalhar dos vestidos enquanto as duas se afastavam – ouvi dizer que St. Clair não demorará a aproximar-se da mesa do bufê. Vamos procurar um sítio estratégico para nos colocarmos na fila logo atrás dele…
Adam fitou James pelo canto do olho, interrogando-se sobre quantas vezes se repetira aquela cena. Sem dúvida, demasiadas. A única vantagem que Adam via no casamento era a de que James poderia finalmente encontrar uma mulher por conta própria, sem ser ofuscado pelo irmão mais velho.
As duas faces ruborizadas de James indicavam a Adam que ele estava furioso. Fora isso, parecia exteriormente calmo enquanto bebia o vinho em pequenos goles.
– Lamento – disse Adam.
– O quê?
– Não… não sei. Lamento apenas – respondeu esvaziando o copo de um trago e tirando outro da bandeja de um empregado que ia a passar. – Odeio isso! Odeio-a a ela e à maldita da mãe – murmurou num tom violento. – Só espero que ela venha a casar com um marinheiro.
– Um ferreiro! – sugeriu James.
– Um lavrador!
– Sim! E que tenha dez pirralhos barulhentos!
– Todos eles vesgos e estúpidos!
– E só a mãe para cuidar deles.
– Touché. – Adam sorriu e tocou na borda do copo de James num brinde, feliz por ver que a troca de gracejos o fizera recuperar o bom humor.
Do outro lado da sala, Adam avistou o seu primo, Charles Billington, a falar com um desconhecido de cabelo preto. Mesmo à distância, era visível que estavam a trocar palavras acaloradas.
Embora as mães fossem irmãs, Charles em pouco se assemelhava aos seus dois primos St. Clair. Tinha herdado os traços Billington e, portanto, era vários centímetros mais baixo do que os dois irmãos, um indivíduo magro, com boa aparência, cabelo loiro e olhos azuis. Com vinte e oito anos, tornara-se um grande amigo deles, sendo quase considerado um terceiro irmão.
– Olha o Charlie – indicou Adam com o copo.
James seguiu-lhe o olhar.
– Talvez devêssemos seguir-lhe o exemplo e afastarmo-nos das regras da sociedade aristocrata. Talvez dessa maneira nos víssemos livres de todos esses problemas femininos.
– Vale a pena pensar nisso.
Charles era um retratista popular que conseguia ganhar bastante bem a vida pintando interpretações de beldades da sociedade. Complementava-a ocasionalmente através de transações questionáveis que eles preferiam ignorar. Como artista, eram-lhe permitidas muitas excentricidades, e na qualidade de sétimo filho de oito – os quatro mais velhos eram rapazes – não se preocupava com as aparências e a liberdade de que desfrutava fazia com que aterrasse sempre em qualquer tipo de confusão.
A sua curta vivência como soldado, que acabara cedo devido a um ferimento grave e a uma prolongada recuperação, poderia ter reduzido o seu desejo de aventuras nefastas, mas isso não acontecera. Aparentemente, não resistia à atração por qualquer tipo de pessoa ou de empreendimento duvidosos.
Os irmãos observaram em silêncio até a discussão terminar e o outro indivíduo se afastar com um ar furioso e ofendido. Charles avançou ao encontro dos primos como se não fosse nada com ele. Adam não podia deixar de admirar a sua desenvoltura por entre os olhares de que foi alvo na sua passagem.
– Problemas no paraíso? – inquiriu James com um sorriso.
– Apenas um pequeno desentendimento sobre algumas libras – explicou Charles com um suspiro cansado. – Talvez devesse gastar mais as minhas energias a andar atrás de mulheres. Era decerto menos cansativo.
– Não me parece que o Adam esteja de acordo contigo – riu James.
– Também acho – concordou Charles ao mesmo tempo que percorria as imediações com o olhar e avistava todas as jovens que fingiam não dar pela proximidade de Adam. – Então, o que estavam os dois a fazer escondidos atrás da planta, brindando e rindo?
– Estamos a discutir a nossa sorte com as mulheres – respondeu Adam.
– Bem – explodiu Charles. – Vocês deviam converter-se ao catolicismo para poderem entrar numa dessas ordens religiosas e livrarem-se de preocupações. Constou-me que há um bonito mosteiro nos arredores de Bath.
– Seria uma sorte – brincou Adam ao ver o cabelo branco do duque a brilhar num intervalo no meio da multidão. Penelope não podia estar longe.
James deu-lhe uma cotovelada fraterna.
– Podias muito bem ir desfrutar da música. Se continuares escondido aqui, vão pensar que estás a tentar evitá-los.
– Mas estou a tentar evitá-los – replicou Adam.
– Ora, ora. Não podemos deixar que perturbes os Westmoreland pois não? – repreendeu Charles. – Podias ferir os sentimentos da pobre Penelope.
– Duvido. Ela não os tem! – troçou James.
– Oooh. Um golpe baixo!
Quando a comitiva do duque se aproximou, dirigindo-se a Adam, Charles virou as costas para se afastar.
– Vais abandonar-nos? – perguntou James.
– Desculpa, mas esta noite não tenho estômago para bajulações – respondeu Charles, que foi engolido pela multidão, deixando os dois irmãos novamente sós.
Aguardaram em silêncio durante vários minutos até o duque se encontrar apenas a poucos passos de distância. Penelope mantinha-se pendurada no braço do pai, aceitando, com um aceno real de cabeça, as vénias e cortesias que sentia que lhe eram devidas.
James bebeu um largo trago do vinho.
– Prepara-te!
– Estou preparado – respondeu Adam com uma visível falta de entusiasmo.
O grupo em torno do duque envolveu-os como uma névoa. James sorriu e conversou sem problemas enquanto Adam se mantinha ao lado dele em silêncio e vigilante. Fizeram as esperadas vénias sobre a mão de Penelope. Ela era uma jovem bonita, com o cabelo loiro-palha herdado do pai a emoldurar-lhe perfeitamente o rosto em forma de coração. Tinha as faces e os lábios de um tom rosado e os olhos eram de um azul maravilhoso, ressaltado pelos enfeites azuis do vestido branco virginal. Era demasiado forte para o gosto de Adam, mas o peso extra enchia-lhe os braços, os seios e o rosto, dando-lhe o ar de uma linda boneca de porcelana.
– Que bom vê-lo esta noite, Adam – disse com uma voz ofegante, brindando-o com o seu melhor sorriso.
Penelope conhecia-o desde criança e os pais de ambos tinham sido bons amigos, portanto, sempre se sentira à vontade para o tratar pelo nome próprio, uma coisa que adorava fazer, dado que a colocava à frente do jogo com muitas das outras que disputavam a sua mão. As rivais ficavam profundamente irritadas com o facto de Penelope e o marquês se tratarem pelo primeiro nome.
– O prazer é recíproco. Está a gostar do baile? – perguntou, desejando levá-la a pensar que ele não lhe tinha prestado a atenção bastante para notar a sua entrada triunfal.
– Acabámos de chegar. E ainda nem sequer preenchi o meu cartão de dança – respondeu ao mesmo tempo que lho estendia com a certeza de que ele não podia recusar.
– Nesse caso, permita-me que seja o primeiro a inscrever-me.
Tinha de dar a mão à palmatória, pois encurralara-o bem. Agora, não podia esquivar-se a dançar com ela.
– Espero uma quadrilha, sir, e nada menos.
Penelope e o pai tinham discutido acaloradamente sobre se ela deveria ou não valsar com St. Clair. A jovem achava que, se forçasse uma maior proximidade física, talvez fosse mais bem-sucedida a cativar a atenção dele. Mas, por fim, haviam posto a hipótese de lado. A quadrilha era uma boa segunda opção, pois embora ele não a prendesse nos braços, a dança prolongar-se-ia quase por meia hora e poderia manter-se sempre ao lado dele enquanto executavam os intrincados passos.
– Terei todo o prazer – acedeu Adam, reprimindo o desejo de ranger os dentes ante a quantidade de tempo que teria de passar à conversa com a jovem durante a longa dança que ela pedira.
O duque afastou a comitiva, não sem que antes murmurasse ao ouvido de Adam e brindando James com um olhar brusco:
– Vá ter comigo à biblioteca dentro de quinze minutos. Preciso de discutir um assunto consigo, em privado.
Dado que Adam fazia questão em ignorar as diretivas do duque, chegou dez minutos atrasado, consciente de como esse pequeno desrespeito o irritaria. Era raro curvar-se à vontade de alguém, mesmo à de um homem tão poderoso como o duque de Roswell. Embora Harold Westmoreland se situasse hierarquicamente acima dele, os dois possuíam fortunas e propriedades de grandeza semelhante e Adam poderia traçar a linhagem a uma distância de três gerações mais antigas. Além disso, o indivíduo tinha apenas quarenta e poucos anos e dificilmente poderia usar a idade a seu favor. Para grande pesar do duque, Adam não se rojaria aos seus pés, como os demais faziam sempre que lhes dava ordens.
Ao entrar na sala forrada de livros, Adam quase sentiu vontade de rir pela forma como Harold tinha encenado a reunião. Deslocara uma grande poltrona para o fundo e colocara-se entre duas estátuas esculpidas. Sorvia um conhaque em pequenos goles e o efeito tornava-o decididamente um aristocrata.
Recusando aceitar as regras do jogo do duque, Adam optou por uma cadeira lateral e sentou-se fora da linha de visão do indivíduo, obrigando-o a rodar um pouco a cadeira para que os olhares se encontrassem.
– Diga, Harold? – perguntou Adam, depois de ter resolvido mais a seu modo. – De que se trata?
– Pensei que gostasse de saber que recebi mais uma proposta de casamento para Penelope.
– Parabéns. Quando é o feliz acontecimento?
Todo o sangue afluiu ao rosto de Harold. Chegara ao extremo da sua sagacidade para tentar descobrir como apanhar Adam St. Clair numa cilada. À exceção de casar Penelope com um estrangeiro – algo que recusava fazer –, não conseguia encontrar um marido suficientemente nobre. Adam era o único inglês, atualmente à procura de mulher, que ele conseguia suportar pessoalmente e dono do título e da fortuna necessários para se ligar à família Westmoreland.
Penelope reclamava a união e enraivecia-se de dia para dia pelo facto de Adam recusar pedir-lhe a mão. Tinha tentado de tudo em que podia pensar, salvo comprometer-se. Harold recusava insistir para que ela descesse tão baixo.
– Ouça bem – retorquiu, tentando conter a irritação, mas sem resultado. – Quero que saiba que estou farto da sua postura.
– Mas que postura? – replicou Adam, adorando conseguir irritá-lo daquela maneira.
– Sabe muito bem a que me refiro. Estou meio decidido a aceitar a proposta. Decerto ia servir-lhe de lição perder a oportunidade de a ter.
– Então aceite, Harold. Não me interessa.
– O que diabo se passa consigo?
– Já lhe disse antes e repito: não me decidi. Penelope é uma menina querida – cerrou os dentes ao pronunciar a mentira – e, se lhe encontrar um par adequado, deve aceitar. Não faz sentido esperar por mim.
– O que o leva a hesitar tanto?
Adam encolheu os ombros. Não estava disposto a discutir a situação com Harold Westmoreland. James e Charles eram as duas únicas pessoas que mereciam a sua confiança sobre o assunto. Se contasse alguma coisa ao duque, ele encontraria uma maneira de usá-la como incentivo.
– Ainda não tomei uma decisão. É tão simples quanto isso.
– Não é não, porque está a brincar com os sentimentos da minha filha.
Na verdade, a Harold não lhe interessava o que Penelope desejava. Só o que ele desejava tinha importância.
– Harold, os dois sabemos que não fiz uma única coisa para encorajá-la. Se ela tem projetos a meu respeito, e a deixa pensar que estão a ser bem-sucedidos, nesse caso diria que a culpa é sua. E não minha.
– O que tem ela que o impede de se decidir? É muito jovem e ninguém melhor do que eu sabe como por vezes pode ser terrivelmente exigente, mas crescerá com o casamento. É o que acontece a todas e, portanto, não vejo como pode pensar em arranjar uma união melhor. Não percebo simplesmente o que deseja.
– Não tem nada a ver com Penelope. – Como odiava aquela situação! A ténue linha que Harold o obrigava a ultrapassar era insuportável. Não podia pura e simplesmente insultar a jovem, nem queria parecer um tímido idiota romântico à procura de compatibilidade e conveniência, mas tinha de dar qualquer desculpa. – Pretendo manter-me casado durante várias décadas e estou apenas a tentar ter a certeza de que consigo tolerar quem escolher.
– Deus do céu, Adam. No escuro, são todas iguais.
– Não é o escuro que me preocupa. É a manhã seguinte, do outro lado da mesa do pequeno-almoço.
– Então arranje uma amante – sugeriu Harold com uma risada aguda. – Passe as manhãs com ela. O seu pai fez isso durante anos. Não vejo porque é um problema tão grande!
Harold não via obviamente o problema. Estivera ligado a uma série de bonitas mulheres, umas atrás das outras, durante quase três décadas. A sua amante de momento encontrava-se no salão e fitava-o a uma distância discreta. Ele voltaria para se lhe juntar mais tarde, depois de acompanhar a família a casa. Como todos os homens da sua posição, não ligava aos seus atos.
Contudo, ele não vivera no lar St. Clair nem assistira à tremenda infelicidade que a amante do seu pai havia causado. Aston St. Clair apaixonara-se loucamente aos vinte e poucos anos e tinha sustentado essa mulher durante toda a sua vida. Tivera três filhos bastardos com ela e atrevera-se a providenciar o destino de todos após a sua morte, deixando-lhes uma bela casa, fundos fiduciários e, mais importante ainda, a legitimidade. Ao passo que James insistia que não se importava, Adam e a mãe mal conseguiam suportar a humilhação.
Todos os dias da sua vida, a mãe de Adam, Lucretia, tinha sido forçada a viver com a vergonha de saber que o marido a achava desinteressante em todos os aspetos. A fenda que a amante de Aston abrira no casamento deles levou-a a endurecer até se tornar atualmente uma mulher amarga e solitária. Não passava um dia sem que Lucretia acautelasse Adam quanto ao desgosto que causaria à sua futura família se alguma vez fizesse tal coisa à sua própria mulher.
Não, Adam St. Clair jamais teria uma amante. Casaria e manter-se-ia fiel aos seus votos, por mais que isso lhe custasse. Era o que tornava a sua escolha tão difícil, mas jamais admitiria tal coisa a Harold Westmoreland.
Levantou-se com um ar entediado.
– Há mais alguma coisa?
– Vou conceder-lhe mais um mês para pedir a mão dela.
– Então ficará a aguardar em vão – retorquiu Adam. Abandonou a sala com um brusco aceno de cabeça, voltando rapidamente à multidão, sem dar tempo a que o duque o seguisse e o abordasse novamente. Verificou, aliviado, que James o esperava no mesmo sítio onde o tinha deixado.
– Ia perguntar-te como correu – disse James com um sorriso irónico –, mas o teu olhar assassino impede que o faça.
– Filho da mãe – murmurou Adam. – A interrogar-me como se fosse um padre.
– Foi assim tão mau?
– Alguma vez tiveste vontade de desaparecer? – retorquiu o irmão, perscrutando a multidão deslumbrante. – Sair simplesmente daqui? Para qualquer lugar onde ninguém te conhecesse nem esperasse nada de ti?
Do outro lado do salão, James observou a jovem Arnold que dirigia um sorriso conquistador a Adam.
– Sim. Passo a vida a desejá-lo.
– Então, vamos embora. Só nós dois. Viajaremos anonimamente para qualquer lado. Fingiremos que somos trabalhadores do campo ou algo do género. Vamos beber, jogar, levar mulheres para a cama e divertir-nos.
– Que ideia positivamente escandalosa, Adam – comentou James. – Contudo, a temporada começou agora e a mãe teria uma apoplexia se desaparecesses subitamente.
– Não me importa o que a mãe pensaria.
James fitou o irmão com um novo interesse.
– Estás mesmo a falar a sério?
– Sem dúvida. Sinto que vou enlouquecer se não fugir a tudo isto apenas durante uns tempos.
James sorriu, agradado com aquele impulso. Adam nunca fazia nada sem premeditação. Gastara toda a vida a estudar, a trabalhar e o peso das suas responsabilidades nunca diminuiu.
Adorando a oportunidade de troçar do irmão por um segundo, James comentou:
– Sinto o dever de mencionar o desgosto que todas as meninas e as respetivas mães vão sofrer, se não te encontrarem para te atormentar.
– Tenho a certeza de que conseguirão sobreviver à minha ausência por uns dias.
– Então, vamos fazê-lo. Onde gostarias de ir? Tens alguma ideia?
Adam fechou os olhos por um momento, ponderando em todas as hipotéticas direções que podiam tomar.
– Vamos apenas para o campo. Talvez acabemos ao longo da costa.
– Há anos que não vamos até lá, pois não?
– Não – concordou Adam. – E chegou a altura de voltarmos.
– Uma ótima escolha. Quando queres partir?
– Que tal agora mesmo?
– Estou pronto, se também estiveres.
Nesse preciso momento, a orquestra começou a tocar alguns acordes da próxima música e Adam fez uma careta.
– Oh, não!
– Diria que a tua repentina fuga foi à vida! – exclamou James a rir e dando-lhe uma palmada nas costas. – Parece indubitavelmente uma quadrilha.
– Que tal daqui a trinta minutos?