Meu Único Amor
Capítulo 26
Maggie ouviu baterem na porta da frente, mas não conseguiu simplesmente levantar-se para ir responder. Agora que só faltava um mês para o nascimento da criança, estava enorme e levantar-se sem ajuda constituía um empreendimento de monta.
– Appleby! – gritou ao criado de Charles, esperando que ele pudesse atender, até se lembrar de que ele tinha saído, acompanhando a sua criada pessoal em alguns recados.
A cozinheira estava ocupada na cozinha e, de qualquer maneira, não lhe passaria pela cabeça ir responder à porta. Charles saíra para uma entrevista com um novo cliente. Não havia mais ninguém. Voltaram a bater e ela esforçou-se por se pôr de pé.
– Já vou! Já vou! Calma! – murmurou bruscamente, dando voltas à fechadura que tinha de ficar sempre trancada, com receio de que «O Louco Robert», como haviam decidido chamar-lhe, decidisse instalar-se na sala de estar do andar de baixo. Já acontecera mais do que uma vez.
Ele tinha-os seguido até à casa de campo de Charles, onde haviam ficado três meses, e, em seguida, de regresso a Londres quando tinham vindo à cidade para uma exposição de alguns dos quadros de Charles. Depois de chegarem, a permanência fora alongada por vários motivos e agora corria o mês de junho que se revelava incómodo. Ninguém se lembrava de ter passado por um calor tão insuportável.
Robert nunca abandonou a sua vigília. No exterior da casa deles e da de Lavinia, cavalgando atrás da carruagem quando iam a qualquer lado. Maggie desconfiava de que ele seguia Charles até outros lugares, mas, se assim era, Charles nunca falou disso. Tentara tudo para se livrar da sombra dele, desde conversas constantes, a palavras duras, palavras compreensivas, pequenas quantias de dinheiro. Nada resultou. O pobre jovem estava simplesmente obcecado com Charles e, por qualquer motivo, Charles tivera a gentileza de não o partilhar com ela. Maggie não queria saber; apenas queria que Robert desaparecesse das suas vidas.
Quando abriu a porta, à espera de deparar com a patética criatura nos degraus e pensando em todos os nomes desagradáveis que lhe chamaria por tê-la obrigado a levantar-se numa tarde tão quente e húmida, pestanejou várias vezes e seguidamente perguntou, surpreendida:
– Annie? És mesmo tu?
Parecendo mais bonita do que nunca, Annie abriu os braços e Maggie acolheu-se neles.
– Maggie! Oh, Maggie!
– O que fazes aqui? – Conseguiu perguntar Maggie no meio de beijos e abraços.
– Chegámos ontem à noite. Tarde de mais para te visitar. E passei o dia inteiro a tentar localizar-te. – Anne recuou, examinando o físico abaulado de Maggie e depois passou-lhe a mão sobre o ventre pronunciado. Esboçou um grande sorriso lacrimejante e pronunciou num tom sarcástico: – Deixo-te uns meses sozinha e vê só o que acontece!
– Sinto-me tão feliz por estares aqui.
– Também eu – disse ela, voltando a abraçar Maggie com força. – Estás tão bonita.
– Sinto-me uma vaca – insistiu Maggie, provocando uma gargalhada em Anne quando deram as mãos e se encaminharam para a sala.
Depois de se sentarem, Maggie pediu:
– Conta-me tudo…
Anne obedeceu, começando pela noite de núpcias e passando à viagem por mar e à pequena vivenda que tinham alugado na costa do sul de Itália. Passou à comida, às flores, ao calor, à água. Tudo soava a um conto de fadas, um tempo mágico, pleno de amor e de romance.
Quanto mais Anne falava, mais Maggie se apercebia de que a amiga resplandecia. Era a única palavra suficientemente adequada para descrever o seu aspeto.
– Olha para ti! – comentou Maggie impulsivamente durante uma pausa na narrativa de Anne. – Pareces tão bem-amada e feliz.
– E é verdade Maggie. Sou mesmo. Acordo todas as manhãs com medo de abrir os olhos, receosa de estar a sonhar.
– Como está o James?
– Fantástico. Imagino que apareça dentro em pouco. Queria vir comigo, mas tinha umas coisas para resolver e eu sentia-me impaciente por te ver.
– Diria que o casamento se enquadra mesmo contigo.
– Muito – anuiu, mas avaliou Maggie com o seu habitual olhar crítico. – E tu? O casamento enquadra-se contigo?
– Claro que sim.
– Não pareces muito feliz.
– É difícil ser feliz quando se está tão grávida como eu – respondeu, tentando esboçar um sorriso alegre, o que falhou. Não se sentia feliz e Anne era demasiado perspicaz para engolir uma mentira.
– É filho do Adam? – perguntou meigamente.
– Sim – admitiu Maggie sem hesitar ao mesmo tempo que algumas lágrimas lhe corriam pelas faces e as enxugava.
– Foi o que pensei – disse Anne, assentindo com a cabeça. – O que aconteceu?
– Descobri que estava grávida e fiquei assustadíssima – respondeu Maggie com um encolher de ombros. – Não sabia o que fazer.
– Com os diabos! Queria ter estado aqui! Disseste-lhe?
– Não. Mas o Charles descobriu e convenceu-me de que casar com ele seria a melhor solução.
– Bom, sinto-me aliviada. Julguei que talvez Adam te tivesse expulsado, mal soubesse que estavas grávida. Se assim fosse, estava seriamente a pensar matá-lo. – Anne pegou-lhe na mão. – E Charles estava certo? Foi a melhor solução?
– Foi a melhor solução – anuiu, fazendo uma pausa e engolindo as lágrimas. Num estado de gravidez tão avançado tinha as emoções à flor da pele e tudo a fazia chorar. – Mas sinto-me tão desesperadamente infeliz!
– Não é por causa do Charles, pois não?
– De maneira nenhuma. Habituei-me a gostar muito do Charles. Ele é um homem maravilhoso. É bom, gentil e divertido. Só que… – Interrompeu-se sem conseguir acabar o pensamento tão traiçoeiro para o seu generoso marido.
– Desejavas partilhar esta fase da tua vida com o Adam?
Maggie suspirou de alívio frente à compreensão de Anne. Ao longo de todos aqueles meses, não tivera ninguém com quem falar sobre o seu horrível comportamento. Sentia-se ingrata, o que apenas servia para lhe aumentar a infelicidade. Como podia não se sentir feliz depois de todas as coisas maravilhosas que Charles tinha feito por ela? O que se passava com ela para que nunca visse o bem, mas apenas o mal? Ter o primeiro filho devia ser o melhor momento da sua vida, mas não ansiava por ele. Tudo lhe parecia errado sem ter Adam ao seu lado para compartilhar as memórias da gestação.
– Sim – anuiu. – Todos os dias desejo que ele estivesse aqui, o que apenas serve para demonstrar a minha estupidez.
– Porque dizes isso?
– Porque ele é um porco desprezível. Não merece um segundo do meu desgosto. – Levantou-se do sofá com grande dificuldade e Anne ajudou-a a equilibrar-se. – Sabias que vai casar no próximo mês?
– Constou-nos esta manhã. É verdade o que ouvi?
– Que é com a Penelope? Sim.
Anne parecia embaraçada.
– Alguma vez lhe falaste do parentesco que vos une?
Maggie assentiu com a cabeça.
– Durante todo o tempo em que estivemos ligados só lhe pedi duas coisas. A primeira foi que assistisse ao vosso casamento.
– Bem, todos vimos como correu.
– Sim. A segunda foi que não casasse com a minha irmã.
– Tens toda a razão – anuiu Anne com um suspiro. – Ele é um porco desprezível.
– Pior ainda. Não só vai casar com ela, mas vai fazê-lo depois de me jurar que nunca me magoaria ao fazer tal coisa. Agiu nas minhas costas e tive de saber a verdade da boca de Penelope quando nos cruzámos num provador da loja de Madame LeFarge. Em seguida, a mãe dele abordou-me na minha casa, pois queria ter a certeza de que eu ouvira a notícia. Lucretia foi ao ponto de me oferecer dinheiro para que desaparecesse.
– Caramba! – exclamou Anne, sacudindo a cabeça. – Não admira que tenhas fugido com Charles. Também eu o faria.
– Certo. Só que depois, quando voltámos da Escócia, Adam mostrou-se totalmente arrependido pela maneira como me tratara, professando um grande amor por mim e dizendo que o seu coração mudara e queria casar comigo, sem se importar com o que as pessoas pudessem pensar ou dizer. – Maggie passou a mão entre os seios, tentando massajar o seu coração partido. – Foi o momento mais horrível de toda a minha vida.
– Ele deve ter-te amado muito, Maggie, para te fazer uma proposta dessas – opinou Anne, esperando que essa perceção lhe reduzisse um pouco a dor. – James sempre insistiu que o Adam te amava, mas não conseguia admiti-lo para ele ou para ti. – O que lhe respondeste?
– O que podia responder? Charles e eu já tínhamos casado.
– Que situação horrível! – compadeceu-se Anne. – Quem me dera ter estado aqui. Talvez arranjasse uma forma de evitar tudo isto.
– Não podias ter alterado nada – ripostou Maggie, esboçando um aceno distraído. – Ele ficou noivo de Penny no dia em que soube que me tinha casado. E vê isto.
Enquanto falavam, vasculhara a secretária à procura do dossiê escondido no fundo da gaveta. Tirou-o para fora e estendeu-o a Anne. Ninguém tinha visto o conteúdo, nem mesmo Charles.
– O que é isso? – inquiriu Anne, perscrutando os vários itens, mas Maggie viu pelo seu olhar perturbado que ela sabia.
– Alguém está a enviá-los. Começa pelas primeiras coscuvilhices publicadas sobre o noivado dele. Passa ao anúncio oficial do seu noivado e em seguida a todas as notícias sobre eles que saíram depois.
– De onde vieram? Quem está a fazer isso?
– Tem de ser o Adam. Quem mais o faria? Sempre que ele e Penelope estão juntos e sai a notícia nos jornais, ou vão a um evento ou participam em qualquer coisa, recorta o artigo, ou guarda o convite e envia-mo. É como se quisesse continuar a magoar-me repetidamente com as notícias.
– Isso é simplesmente a coisa mais medonha que já ouvi. Mostraste isso ao Charles?
– O que podia ele fazer?
Anne fechou o dossiê e devolveu-o a Maggie.
– Sabes uma coisa? Esta manhã, passei pela nossa antiga casa, à espera de te encontrar. A tua criada, Gail, continuava a trabalhar lá e estava morta por coscuvilhar. Disse que agora Adam passa lá a maior parte do tempo.
– Estás a brincar! Ele odiava a casa. Sempre insistiu que se encontrava abaixo da sua posição.
– Eu sei, mas parece que a transformou numa espécie de refúgio privado onde pode ser ele próprio durante largos períodos de tempo. Gail diz que nunca mais voltou a ser o mesmo desde o dia em que te foste embora.
– O que achas que se passa com ele? Ela disse?
Qualquer resposta que Anne poderia dar teria de esperar até outra altura, pois, nesse momento, James e Charles chegaram ao mesmo tempo vindos do exterior. Os dois homens irromperam pela casa juntos, no meio de abraços e palavras de boas-vindas. Maggie aninhou-se a um canto, enquanto as suas três pessoas favoritas no mundo riam e falavam. Era simplesmente impossível estar na mesma sala com o trio sem ter um sorriso no rosto. Pela primeira vez desde há muito tempo, alguma da tristeza que tanto lhe pesava no coração começou a dissipar-se.
Penelope encontrava-se no terraço das traseiras da mansão a contemplar os jardins. O luar fundia-se com as tochas acesas e conseguia divisar uma grande quantidade de pessoas a passear pelos caminhos. Estava simplesmente calor demasiado para permanecer dentro de casa e, ali fora, soprava uma ligeira brisa vinda do rio que ajudava a arrefecer a pele quente. Abanou o rosto com o leque para se refrescar. Ninguém se apercebeu quando se afastou para o lado, ocultando-se nas sombras.
Com o casamento a umas meras semanas de distância, a sua vida era agora muito mais livre, o que constituía um benefício do casamento iminente. Um dos poucos que divisava. Se quisesse dar um passeio sozinha, podia fazê-lo. Se quisesse passear pelos jardins, ninguém podia detê-la. Se quisesse enroscar-se num banco, trocando beijos roubados no escuro com o noivo, ninguém iria castigá-la.
Uma risada amarga escapou-lhe da garganta. Como se isso pudesse acontecer! Nos seis meses de noivado, Adam tinha-a beijado exatamente duas vezes e as duas resumiram-se a um beijo ao de leve na face, como se fosse um irmão ou um primo. Embora soubesse que aquele abraço casto seria o único apropriado que receberia antes de casar, não conseguia evitar desejar que Adam a tomasse nos braços e a levantasse do chão num momento de paixão desenfreada.
Sabia que isso podia acontecer. Escondera mais do que um romance de amor debaixo da cama ao longo dos anos. Nesse momento, ele devia mostrar-se febril, aguardando com visível impaciência a união conjugal, mas continuou a tratá-la com a mesma fria indiferença que sempre havia mostrado. Na verdade, conferia-lhe um tratamento muito semelhante ao que o pai dava à mãe! Com um inabalável respeito e delicadeza, mas sem qualquer emoção genuína.
Por vezes, embora nunca o confessasse a ninguém, parecia que Adam nem sequer gostava dela e muito menos a amava. Embora compreendesse todos os motivos que levavam a uma união como a deles, no seu jovem coração de dezoito anos era impossível abafar o desejo de um grande amour com o noivo.
Como era possível que não a amasse?, interrogara-se mil vezes. Ela era a mais bonita, a mais encantadora e a mais requintada de todas as jovens que haviam sido debutantes nesse ano – ou em qualquer ano recente de que se lembrasse. O seu dote acarretava uma fortuna inimaginável, a sua posição como filha de um duque era a mais elevada de qualquer outra rapariga e, no entanto…
Adam tratava-a como se fosse apenas uma escolha entre muitas. Como se nada de especial o tivesse levado a selecioná-la. O canalha nem mesmo se havia proposto. Uma vez, há muito tempo, mostrara-lhe indícios desse seu desejo e ele olhara-a como se tivesse enlouquecido. Jamais lhe perdoaria que a privasse desse tão desejado momento romântico.
Luzes tremularam nas suas costas, enquanto mais pessoas saíam do salão de baile a abarrotar para os degraus em busca de ar fresco, e não conseguiu evitar virar-se e examinar o interior. O baile do pai, que aconteceria na semana seguinte, iria arrasar este. Ninguém seria capaz de organizar um baile tão cuidado como os Westmoreland. O baile de noivado seria meramente o primeiro de muitos, um prelúdio a duas semanas de festejos que culminariam no casamento. Tinha um vestido novo para cada noite, os mais fantásticos, elaborados e modernos existentes em qualquer lugar. A mãe trouxera um cabeleireiro especial de Paris a fim de a pentear para cada ocasião. As joias mais preciosas da família haviam saído dos cofres para que as usasse.
Sentia-se tão infeliz!
No caminho por baixo, duas mulheres passeavam, cochichando e rindo. Estava demasiado escuro para que as reconhecesse e as vozes não lhe eram familiares. Tinham parado mesmo por baixo dela e por isso não conseguiu deixar de ouvir quando uma delas disse:
– Só me constou esta tarde. O irmão dele, James, regressou de Londres.
Penelope apurou o ouvido. Também lhe constara o mesmo.
A outra mulher respondeu:
– Interrogo-me sobre o que vão fazer. Se o convidarem para o casamento, terão de convidar a mulher e não imagino a Penelope a permitir que ela compareça.
Penny fizera essa mesma pergunta a si própria. Ouvira dizer que a mulher de James era uma espécie de prostituta. Só se atrevera a abordar a questão com Adam uma vez e ele respondera que James não constituía um tópico de discussão. Falara num tom de voz tão ameaçador que não tinha tentado obter mais informações.
A primeira mulher prosseguiu:
– Sim, mas já ouvi dizer que o marquês está com problemas para arranjar padrinho. Se o irmão recusar, também não pode pedir ao seu primo Charles que ocupe o lugar de James.
Soaram grandes gargalhadas quando a outra retorquiu:
– Não gostarias de ter estado na casa de Lavinia nesse dia do inverno passado? Imagina os dois a brigarem na sala de estar sobre quem casaria com uma vulgar prostituta!
«O quê?» A sobrancelha de Penelope ergueu-se quase até à linha do couro cabeludo. Adam a lutar com Charles? Por causa de uma mulher? Adam dissera que não queria Charles nem ninguém da sua família no casamento e ela não fizera perguntas porque não gostava de Charles. Na sua companhia, achava sempre que fazia troça dela por qualquer motivo que desconhecia. Agora, ao ouvir tudo aquilo, achava demasiado.
– No entanto, diria que Charles ficou com a melhor parte – comentou uma das mulheres. – A amante desprezada do marquês é muito bonita. E muito graciosa, ao que me constou.
Penelope estremeceu. Então, a mulher de quem estavam a falar era aquela horrorosa Maggie. Penelope sabia que ela desaparecera das suas vidas, mas pensava que fora o seu pai que forçara Adam a livrar-se dela a instâncias de Penelope. Como era idiota!
– Sim, já a vi por várias vezes. No outro dia, foi uma delas. No seu avançado estado de gravidez está absolutamente radiosa.
Grávida? Um profundo sentimento de pavor começou a instaurar-se.
– Imagina: depois de perder o seu grande amor para o primo, St. Clair fica com Penelope, o pobre.
– Mas ele anda a consolar-se bastante bem. Na noite passada esteve a jantar com uma dessas atrizes que corteja. Espera só até a Penelope ouvir dizer o que St. Clair tem feito com algumas!
As duas soltaram risadas maliciosas e a angústia de Penelope foi tão grande que sentiu como se o coração pudesse saltar-lhe do peito.
– Já te contei o que ouvi sobre o bebé que o primo Charles supostamente gerou com a ex-amante de St. Clair?
– Não. O que foi?
Seguiram-se cochichos que eram obviamente demasiado escandalosos para que o par os proferisse em voz alta. Penny apoiou-se contra a balaustrada, tentando ouvir ou ver. Os sussurros terminaram bruscamente e uma das mulheres comentou:
– Mas isso é demasiado delicioso para ser verdade! É ele o pai, não é? Achas que ele a casou intencionalmente com o Charles?
«Quem? Quem é o pai?» Penelope teve de se controlar para não gritar a pergunta.
– É possível. Ouviste obviamente dizer como a mulher de Charles está relacionada com toda a gente? – As mulheres começaram a afastar-se e as vozes distanciavam-se a cada passo. – Ela e Penelope…
O resto da conversa perdeu-se na noite.
«O que é que ela me é?», perguntou Penelope ao céu escuro. Oh, aquilo era o horror dos horrores! Andaria toda a gente a falar dela pelas costas? Deliciavam-se com aquelas odiosas coscuvilhices? O seu casamento iminente, o momento romântico com que sonhara toda a vida era simplesmente forragem para uma bisbilhotice perversa ateada por Adam?
Iria pôr termo ao que quer que ele tivesse feito! Não estava disposta a ser alvo de uma troça tão malévola em vésperas do seu dia glorioso. Com uma firme determinação e uma raiva que só alguém que sempre obtivera tudo na vida poderia entender, regressou ofegante ao salão de baile, resolvida a enfrentar o seu rebelde noivo. Não seria motivo de chacota! De forma alguma!
Demorou uma hora a localizá-lo. Tinha-se enfiado numa salinha de leitura ao fundo de um corredor deserto, onde conseguira encontrar uma pequena brisa. A única janela estava aberta de par em par e ele sentara-se encostado ao caixilho, desfrutando o ar. Bebia qualquer líquido escuro e, caso ela lhe pudesse ter visto o olhar, certamente se mostraria mais prudente, mas o brilho da única luz acesa era demasiado fraco para lhe permitir essa avaliação.
– Onde estiveste? – perguntou, irritada. – Procurei-te por todo o lado.
– Olá, Penelope – saudou, bebendo um trago do conteúdo do corpo e observando-a sobre a borda. – Não sabia que necessitava da tua permissão antes de abandonar o salão de baile.
A jovem ignorou a provocação e seguiu corajosamente em frente.
– Preciso de falar contigo. Sobre vários assuntos da máxima importância.
– Avança. Nunca nada te impediu antes.
Incitou-a com um gesto e cruzou os braços sobre o peito, à espera.
– James está de regresso da sua lua de mel.
– Sim, ouvi dizer.
– Não quero tê-lo nem àquela… àquela mulher com quem ele casou no meu casamento.
– Não te preocupes – retorquiu com uma gargalhada. – Não viriam nem que lhes pedíssemos.
A frase paralisou-a.
A ideia de que alguém optaria por não assistir ao seu casamento era ridícula. Caramba! Era o evento social da temporada! As pessoas lutavam por convites.
– O que queres dizer? – inquiriu, franzindo o sobrolho.
– Quero dizer, minha querida, que eles não gostam de nenhum de nós.
– Bem!
A afirmação desconcertou-a, pois não conseguia simplesmente imaginar que alguém não gostasse dela.
– Querias mais alguma coisa?
– Sim, na verdade. – Apercebendo-se de que estava a perder alguma da coragem de que necessitava para a luta, recompôs-se mentalmente e prosseguiu: – Não querias o Charles no casamento e estava a interrogar-me… Quer dizer, ouvi uma coisa… – Aquilo era mais difícil do que imaginara. Não tinha a mínima formação para discutir assuntos tão íntimos e escandalosos com um homem. – As pessoas andam a falar e… bom… quero que o meu casamento seja especial e se ele e a mulher aparecessem…
– Não te preocupes – ripostou Adam num tom brusco. – Não vão aparecer. Também não gostam de nós.
– Porquê? Aconteceu alguma coisa entre ti e o Charles?
Pronto! Dissera as palavras!
– Tivemos um desentendimento.
– Por que motivo?
Pela primeira vez, o comportamento para com ela pareceu suavizar-se um pouco. Abandonou a postura irritada.
– É tarde e há várias horas que deixei de me divertir. Acho que talvez devamos ir embora.
– Quem é a mulher de Charles? – Adam manteve-se estoicamente silencioso e ela obrigou-se a formular a pergunta que tanto a tinha assustado quando ouvira as mulheres a conversar lá fora. – Que grau de parentesco tem contigo? E comigo? – explodiu, furiosa ao ver que ele permanecia calado.
– Basta! – ordenou, engolindo o resto da bebida. – Vamos embora, Penny.
– Não vou até responderes às minhas perguntas. As pessoas andam a falar sobre mim. Sobre nós. Não o suportarei!
– Sempre o fizeram. Apenas não prestaste atenção.
– Mas não desta maneira – sibilou. – Quem são as atrizes que cortejas?
Adam ergueu uma sobrancelha.
– Esse não é um tópico apropriado para uma discussão entre nós e não quero que fales mais dele.
Céus! Parecia o pai a ralhar-lhe. O pensamento enfureceu-a ainda mais.
– Não o permitirei, estás a ouvir? Não permitirei que passes tempo com prostitutas e atrizes enquanto as pessoas se riem nas minhas costas!
Adam afastou-se da janela e inclinou-se sobre ela.
– Sei que o teu pai te educou com uma incrível tolerância, mas tens de aprender uma coisa a meu respeito: não serei tão tolerante. A minha vida privada é isso mesmo. Privada. Não me interrogarás sobre ela, nem tentarás meter-te nos meus assuntos. Fiz-me entender?
– Ainda amas essa horrorosa Maggie? É por isso que não me ligas?
– Vou procurar a tua mãe – disse Adam com um suspiro – e iremos embora.
Dado ter chegado tão longe, parecia incapaz de ficar por ali.
– Ela está grávida de ti? – sussurrou.
Embora Adam não lhe respondesse, a silenciosa e maldita verdade espalhou-se pela divisão e ela detetou subitamente muitas coisas com uma impressionante nitidez.
Ele não a amava. Nunca a tinha amado nem a amaria. Todos os seus sonhos de uma vida a respeito de amor e de paixão não passavam de fantasias de adolescente. Aquele frio e duro homem seria seu marido e ela passaria pela vida solitária e estéril que a mãe suportara durante todos os dias da sua existência enquanto o pai se gratificava com uma corrente de mulheres.
– Não vou seguir em frente – anunciou, recuando. – Não me casarei contigo. Vou falar com o meu pai. Agora.
Enraivecendo-a ainda mais, Adam limitou-se a encolher os ombros.
– Faz o que tens a fazer. Pouco me importa.
Muito depois de dever ter sido capaz de ouvi-la, imaginou os seus passos furiosos desaparecendo pelo corredor. Encostou-se ao caixilho, voltando a aproveitar a brisa fresca da noite enquanto contava os dias que faltavam para o casamento. Vinte e um. Vinte e um dias.
Então, as pessoas andavam a bisbilhotar? E Penelope tinha ouvido finalmente várias das histórias. Bem, só podiam beneficiá-la. Talvez crescesse um pouco. Com alguma sorte, viria a compreender algo sobre a vida e os desgostos das pessoas que a rodeavam. Talvez aprendesse que às vezes se deve ter cuidado com o que se deseja porque se pode obtê-lo. Como o casamento com um sacana como ele próprio.
Um ano antes, embora há anos que Harold andasse a insinuá-lo, ela tentara lançar-lhe o isco e agora tinha-o, quer o quisesse ou não. Adam estava certo de que o casamento se realizaria. Penelope bem podia fazer beicinho e lamuriar-se ao pai até à exaustão, mas Harold estava empenhado na união e não havia nada que ela pudesse fazer para mudar o rumo dos acontecimentos. Iriam casar dali a três semanas.
Por um momento pensou em voltar a encher o copo, mas recuou. Já havia ultrapassado o limite do razoável. Se estivesse um pouco mais sóbrio, não a teria tratado tão bruscamente, mas tudo nela lhe bulia com os nervos e, embora conseguisse lidar com ela quando estava sóbrio, semibebido era outra coisa.
Nos últimos dois meses, sempre que estavam juntos, ela só falava nos vestidos que levaria às grandes festas antes do casamento. Como podia alguém ser tão egocêntrico e tão entediante era algo que lhe ocupava o pensamento durante as longas horas em que a ignorara por completo. Também tinha passado muito tempo a calcular o acréscimo de riqueza e de bens que estava prestes a receber quando casassem. Era atualmente o seu único consolo.
Já se escoara muito tempo desde a altura em que a vingança contra Maggie lhe importava. A raiva que se impusera devido ao casamento dela com Charles desaparecera rapidamente, dando lugar a um oco sentimento de traição. Por fim, restou apenas a solidão, um profundo e doloroso sentimento de perda relativo a ela e a como a sua vida fora antes. De facto, não só a perdera, mas também o seu primeiro filho e igualmente James e Charles. Tinha ficado com a mãe, Penny e Harold, bem como a vida superficial e idiota a que se resumia o quotidiano deles. Tentara preencher o vazio com várias mulheres, mas foi um desperdício de tempo. Nada ajudou.
A brisa agitou-lhe o cabelo e fechou os olhos, inalando bem fundo o cheiro às rosas de verão que desabrochavam no exterior. Imaginou o irmão e o primo na companhia das suas adoráveis e fogosas mulheres. Sentados juntos algures, talvez na casa de Charles, rindo e conversando enquanto se deleitavam com uma boa refeição. Maggie estaria sorridente e feliz.
Céus! Pensar nela era tão doloroso que afastou a sua imagem, revivendo a sua fantasia favorita, trazendo-a de casa de Charles para a dele. Para a sua casa no campo, para a sua cama, onde sempre a tinha imaginado deitada nua na cama sob o sol da manhã. O anel com a ametista que lhe tinha comprado como presente de Natal e trazia sempre no bolso, brilharia no dedo dela. Teria o ventre inchado com o seu filho e ele inclinar-se-ia, depositando um beijo suave no volumoso abdómen no preciso momento em que o bebé dava um pontapé…
Calmamente deixou que o sonho se esvaísse.
Depois, sozinho e sem que o vissem, deixou o baile e regressou ao seu santuário privado na casinha de Maggie.
Robert mantinha-se encolhido nas sombras do outro lado da rua onde se situava a casa de Charles. A noite de junho apresentava-se excessivamente quente e todos mantinham as janelas abertas, tentando encontrar um pouco de conforto após o dia escaldante. A luz de velas brilhava num dos quartos do andar superior e chegava-lhe aos ouvidos o som de conversas e de riso, embora não conseguisse distinguir nenhuma das palavras.
Charles estava lá, juntamente com o seu primo James e as mulheres de ambos. Desde a semana anterior que jantavam juntos todas as noites, a partir do momento em que James tinha regressado da sua lua de mel. Com a gravidez numa fase tão avançada, a mulher de Charles raramente saía e por isso ficavam em casa e recebiam vários convidados à noite. Havia sempre uma série de amigos à volta de Charles. Ele era uma daquelas pessoas por quem toda a gente se sentia de imediato atraída.
Dantes, Robert fora uma dessas pessoas. Ele tinha sido convidado para os jantares e as festas. Ele tinha partilhado o riso e o convívio. Ele recebera a amizade e o respeito de Charles e de todos os seus amigos. Movimentar-se no círculo de Charles fizera com que se sentisse inteligente, espirituoso e requintado e ansiava por regressar a esses dias inebriantes quando se achara totalmente integrado.
Quando Charles lhe ofereceu a possibilidade de investir dinheiro em alguns dos seus empreendimentos, tinha agarrado a oportunidade, desejando parecer mundano e versado aos olhos de Charles. Tinha ganho algumas libras no primeiro empreendimento e mais algumas no segundo e ainda mais no terceiro. Parecera tão fácil e quando a hipótese de maiores proventos lhe surgiu pela frente, aceitou rapidamente e com entusiasmo. O único problema residia em não ter acesso aos tipos de fundos que Charles solicitava para a comparticipação e assim tinha arriscado com dinheiro que não lhe pertencia.
Robert precisava absolutamente de recuperá-lo! As últimas e mais insistentes ameaças do pai haviam surgido e Robert ignorava como encontrar uma solução. Ao longo de todo o processo, tentara persuadir Charles a salvá-lo da loucura cometida, mas Charles tinha-se negado a recompor as coisas.
Ao contemplar o mundo através da conturbada perceção da realidade, Robert tinha a sensação de que todos os problemas haviam começado quando Charles conhecera a mulher. Tudo tinha corrido sobre rodas até essa altura. Charles esforçara-se por arranjar dinheiro a fim de recompensar o que Robert tinha perdido, mas a mulher parecia tê-lo enfeitiçado através da rápida amizade entre ambos e do casamento ainda mais rápido.
Os seus belos vestidos, as joias, a casa no campo, as festas com amigos – Robert tinha a certeza de que tudo isso estava a ser financiado, da forma mais luxuosa, com fundos que há muito lhe deviam ter sido devolvidos.
Agora, o bebé estava prestes a nascer e Charles teria muitos mais motivos para gastar dinheiro com a família. Robert percebeu com consternada nitidez que todas as oportunidades de que pudesse dispor para resolver a sua situação acabariam mal a criança nascesse. Com o rodar dos dias, estava cada vez mais convencido de que, se a mulher de Charles desaparecesse das suas vidas, tudo regressaria à normalidade.
Alguma coisa tinha de ser feita e depressa.