Meu Único Amor
Capítulo 27
Maggie olhou para as mãos e depois levantou a orla da saia para examinar os pés de relance. O inchaço tinha diminuído bastante, mas, no mês anterior, mal se levantara. O resultado final era que parecia estar bem fisicamente, mas, a nível emocional, sentia-se por completo limitada. Após uma série de dias excecionalmente quentes e de um número igual de noites incómodas, a casa era demasiado desconfortável para caber em palavras. Não conseguiria respirar se permanecesse no interior por mais um segundo e sabia que tinha de sair ou enlouqueceria.
Pela primeira vez em duas semanas, James e Anne foram jantar noutro sítio, experimentando um novo restaurante antes de se dirigirem à sua casa no campo no dia seguinte. Embora Maggie desejasse que permanecessem até ao nascimento do bebé, compreendia a sua necessidade de saírem da cidade antes que o casamento de Adam se aproximasse mais. Felizmente, eles podiam ir embora. Ela estava presa até que o bebé nascesse e tivesse idade bastante para viajar. Graças a Charles e ao seu estilo de vida reservado, era capaz de aguentar o quotidiano como se nada de importante acontecesse no mundo exterior e, na maioria das vezes, conseguia afastar da mente a data do casamento iminente.
– Charles, vou esperar lá fora – disse em voz alta para o andar de cima.
– Desço já – respondeu ele.
Havia um bar na vizinhança a poucos quarteirões de distância. Tinham resolvido ir até lá a pé, desfrutar do fresco da noite, deixar que Maggie descansasse um pouco num dos bancos e em seguida regressar. Ela tinha a certeza de que o exercício lhe faria bem e necessitava desesperadamente de ar fresco. Abriu a porta, satisfeita por deparar com todo o movimento da ruazinha, depois de ter passado tanto tempo fechada no interior.
Havia muitas pessoas lá fora, tentando encontrar algum alívio das divisões aquecidas das casas. As sombras noturnas do dia de verão eram maravilhosas e ergueu o rosto, contemplando o cimo dos edifícios que a rodeavam. Algures, à distância, num sítio que não podia divisar, decerto ocorria um incrível pôr do Sol. À sua volta tudo se apresentava envolto em tons de púrpura e laranja.
Desejosa de ver se conseguiria vislumbrar qualquer pedaço do céu deslumbrante, arrastou o físico volumoso até à esquina, esperando alcançar uma visão mais ampla para lá da fieira de casas. Nem por um momento lhe ocorreu interrogar-se sobre se estaria segura. Aquela era uma vizinhança tranquila e simpática e Charles viria logo atrás dela.
A menos de seis metros, Robert saiu da ombreira de uma porta. Maggie revirou os olhos, frustrada. Tinham-se encontrado frente a frente em numerosas ocasiões. Pela maneira como o indivíduo os seguia, era impossível que tal não acontecesse. Maggie tentara mostrar-se delicada e afastara-se sempre com a sensação de que o jovem era solitário e confuso. Era inútil qualquer acesso de raiva. Charles já usara o método por várias vezes, sem resultado.
– Olá, Robert – cumprimentou. – Está uma noite fantástica, não acha?
Não obteve resposta. Embora no passado se tivesse mostrado sempre educado, nessa noite fitava-a com tamanha antipatia que ela se sentiu incomodada. Com um encolher de ombros resignado, tentou dar a volta junto dele. Robert colocou-se na sua frente, impedindo-lhe a passagem. Ela mudou-se para o lado oposto com o mesmo resultado. Uma terceira tentativa provou-se igualmente vã. Maggie emitiu um longo suspiro de frustração. Andar naquele seu estado já era bastante difícil sem ter de ultrapassar uma coisa daquelas.
– Oh, por amor de Deus! Deixe-me passar! – ordenou-lhe.
– Odeio-a – proferiu ele veementemente como resposta.
Maggie ergueu a cabeça e fitou o rosto bonito e juvenil. Robert respirava com dificuldade, tinha as faces muito coradas e os olhos emitiam um brilho raivoso e perturbador. Sentiu-se repentinamente com medo e recuou um passo, pensando regressar à casa. Nesse momento, Charles chamou-a por trás e ouviu os passos dele a aproximarem-se.
– Maggie? Trouxe-te um xaile para o caso de estar mais frio quando voltarmos.
Com os olhos arregalados de medo, ela virou-se e olhou-o por cima do ombro. Até Charles se aproximar, Robert mantivera-se a coberto da vista dele. Seguiu-se um silêncio constrangedor.
– Estás bem? – perguntou Charles meigamente.
– Sim – respondeu ela. – Ele parece muito perturbado com qualquer coisa. Talvez seja melhor irmos para dentro.
– Tens razão. Depois venho cá fora e lido pessoalmente com ele – anuiu, dando-lhe o braço. – As minhas desculpas…
Começaram a encaminhar-se para a residência, mas a ordem brusca de Robert deteve-os.
– Não. Não se mexam.
Ao dar meia volta, Maggie abriu muito os olhos, horrorizada. Robert segurava uma pistola. Parecia uma arma muito pesada, pois a mão dele tremia e o cano comprido balançava muito, mas a extremidade encontrava-se diretamente apontada ao seu abdómen. Por instinto, ela tapou o bebé com as mãos num gesto protetor.
– Robert! – exclamou Charles num tom ríspido. – O que estás a fazer? Enlouqueceste de todo?
Robert mantinha o olhar fixo em Maggie.
– Odeio-te. Tudo isto é culpa tua.
Mais tarde, muito mais tarde, quando Maggie conseguia suportar a recordação, os momentos seguintes repetiam-se na sua mente com uma lentidão agonizante. Todo o movimento da rua parou. As pessoas calaram-se, as crianças deixaram de brincar e os cavalos não relinchavam. Uma voz distante penetrou o silêncio:
– Céus! Olhem! Esse homem está armado! – Todos se viraram na direção do estranho trio, paralisado. A pistola surgiu. O dedo de Robert dobrou-se no gatilho, firmando o cano.
– Não! – rugiu Charles.
Foi a última palavra que pronunciou. Robert disparou no preciso instante em que Charles saltou na frente dela, a fim de afastá-la para que Robert não pudesse feri-la nem ao bebé. Foi atingido no meio do peito e caiu por terra como um monte de trapos.
Muitas vezes ao longo da vida relembraria aquela visão terrível em sonhos, gritando no sono ao ouvir o derradeiro grito de Charles que causava sempre o final do sonho e tudo voltava ao normal.
Gerou-se um pandemónio na rua. Confusão e gritos, fuga dos espetadores. Alguém estava a gritar. Uma mulher. Gritos e um choro interminável. Quem era a mulher que gritava?
Nas suas recordações, ficava sempre surpreendida ao perceber que tinha sido ela própria. Gritando de choque e horror, ajoelhada ao lado do marido, enquanto o sangue lhe brotava do peito, ensopando a camisa até escorrer para a calçada, formando uma poça enorme.
A arma de Robert, que continha uma única bala, estava vazia. Ele nem sequer tentou fugir, mas atirou a arma de ataque para a calçada onde ela deslizou para baixo de uma carroça. Vários homens agarraram-no enquanto outros correram a chamar um cirurgião e um polícia. O cirurgião chegou tarde de mais e foi desnecessário. O polícia, juntamente com outros colegas, levou Robert.
Maggie permaneceu na rua, embalando o marido morto nos braços. Os vizinhos sussurravam entre eles, interrogando-se sobre o que fazer, mas nenhum se atreveu a interromper aquela cena dilacerante para lhe pedir que se afastasse do homem que cometera um ato tão heroico e ela permaneceu ao lado dele, acariciando-lhe o cabelo e murmurando palavras meigas enquanto acabava o dia e começava a noite.
Por fim, Anne apareceu e levou-a para dentro.
Adam permanecia na frente do salão de baile, perto do fundo das escadas. Os convidados de honra formavam uma fila para receber os recém-chegados à sumptuosa festa que se prolongaria até ao amanhecer. Era a primeira de muitas que levariam ao dia do casamento dali a duas semanas.
Harold Westmoreland mantinha-se junto da família: mulher, filho e filha – a infeliz e futura noiva Penelope. Lucretia estava de pé, do outro lado. Se não oferecessem uma imagem tão patética, teria soltado uma gargalhada ante o ridículo da situação. Desde a sua briga com Penny na semana anterior, tinha-a visto duas vezes. Ela não lhe falara em nenhuma delas e ele nem sequer tentara apresentar desculpas.
Harold tinha-o puxado de lado no clube para o informar de que Penny tinha andado a bramar e vociferar a semana inteira que não se casaria com Adam St. Clair. Ele mencionara o facto, não por querer saber o que Adam fizera para causar aquele descalabro, mas para garantir a Adam que o casamento iria em frente segundo o planeado. Cansado de ouvir o rosário de queixas de Penny, o duque tinha optado por mantê-la fechada nos seus aposentos durante as horas que passava em casa para não ter de aguentar mais birras.
Penny sentia-se infeliz, mas também era demasiado educada para o demonstrar. Parecia deslumbrante com o vestido e as joias, semelhante a uma princesa de um conto de fadas. Quando os outros podiam ouvi-la, conversava, ria, namoriscava com Adam. Mal se afastavam, calava-se e o veneno escoava-se para os familiares que se encontravam próximos, nenhum dos quais tinha ilusões quando ao casal supostamente feliz.
Adam desejava poder nutrir um pouco de ternura no coração por ela, mas parecia impossível. Sempre que a fitava, via Maggie. Sobretudo, daquele ângulo. De perfil pareciam, bem… irmãs. Que estupidez havia cometido. O que quer que agora lhe acontecesse era sem dúvida merecido pela confusão que provocara na vida de todos.
A música estava prestes a começar e o casal de noivos teria de abrir o baile. A dança seria sem dúvida extremamente dolorosa. Penny manteria um sorriso no rosto, os olhos fixos no seu peitilho e nenhum dos espetadores teria de se aperceber da sua irritação. Se possuísse um pingo de cavalheirismo, faria algo para lhe minorar a tristeza, mas infelizmente não ligava o bastante aos sentimentos dela ou aos seus para retificar a situação.
Olhou de relance para o relógio. Caramba! Ainda era cedo. A excruciante noite nunca mais terminaria e as próximas duas semanas de festas quentes e abafadas estendiam-se na sua frente como a estrada para o inferno. Alargou o colarinho e virou-se um pouco. Harold tinha colocado vários criados por trás da fila de receção, agitando sem cessar leques enormes para tentar refrescá-los. O leve movimento soube-lhe bem na face.
Ao voltar-se, viu que o mordomo de Harold entrara no salão de baile e sussurrava ao ouvido do duque.
Harold ergueu as sobrancelhas.
– Tens a certeza? – A forma como olhou para Adam provocou-lhe um calafrio na espinha. O mordomo sussurrou algo mais e Harold respondeu: – Sim, sim. Está bem. Tratarei do assunto.
O criado afastou-se e Harold virou-se para os que se encontravam em seu redor.
– Adam, Lucretia. Preciso de falar com os dois. Vamos para um sítio onde possamos ter um pouco de privacidade.
– O que se passa, Harold? – quis saber Adam, mas este ignorou a pergunta com um gesto.
Com Penny e o resto da família na sua peugada, conduziu-os através da multidão ao longo das escadas e, enquanto as subiam, Adam teve a certeza de ouvir um sussurro de notícias perigosas espalhando-se pelo meio dos convidados. No topo, Harold levou-os pelo corredor até uma pequena sala de estar e fechou a porta quando todos estavam no interior.
Parecendo um pouco abalado quando se virou para enfrentá-los, anunciou:
– Acabei de receber informações angustiantes. Achei que deviam sabê-las imediatamente.
O coração de Adam batia acelerado.
– O que se passa?
– Parece que o seu primo, Charles Billington, foi morto ao princípio da noite.
– O quê? – exclamaram todos, ofegantes.
– Como? – balbuciou Adam.
– Foi assassinado. Na rua em frente da sua casa por qualquer homem armado. Com um tiro no peito.
A revelação silenciou-os. O assassínio era algo muito raro. E o facto de acontecer mesmo em frente da casa de um homem! Para onde caminhava o mundo?
Harold fitou Adam, exigindo a sua atenção.
– Estava a apanhar o ar da noite. Com a mulher. Ela encontrava-se ao lado dele quando tudo aconteceu.
Os murmúrios dos outros que não conheciam todas as nuances da situação ocultaram a silenciosa troca de mensagens visuais entre Adam e Harold.
– Maggie? – perguntou Adam, horrorizado. – Ela… ela está bem?
– Sim. Saiu ilesa, mas ficou extremamente perturbada. Parece que ele morreu nos seus braços. – A afirmação provocou outra vaga de protestos dos presentes na sala. Embora não conhecessem a jovem viúva, aquilo era algo demasiado terrível de imaginar.
Harold prosseguiu sem erguer a voz:
– Levaram o Charles para casa da sua tia Vinnie. James e a mulher também se encontram lá, juntamente com a viúva de Charles.
Adam estava excessivamente atordoado para usar da palavra. Charles estava morto? Assassinado? Maggie sozinha e em sofrimento? O filho deles! E o bebé? A criança estaria bem? Tinha de saber, mas não podia perguntar a Harold. Não diante dos presentes ali reunidos.
– Tenho de ir até junto deles – disse num fio de voz.
– Achei que poderia desejá-lo – concordou Harold. – Já mandei que trouxessem a sua carruagem.
– O quê? – gaguejou Penny, virando-se para Adam. – Não podes ir embora. O baile só acabará daqui a várias horas. Não o suportarei, digo-te! Nem pensar!
– Por amor de Deus, Penny! – repreendeu o pai. – Cala-te.
– Nem pensar! – sibilou ela. – Depois de tudo o que aturei! E agora, ele acha que pode escapar-se a meio do meu baile. O que dirão as pessoas? O que vão pensar?
A última frase arrancou Adam ao seu estado de choque.
– Com os diabos, quem se importa com o que eles digam ou pensem?
– Eu importo-me.
– Pois eu não, e nem acredito que achas que devamos ficar aqui a conversar e a beber ponche depois de uma coisa destas ter acontecido ao meu melhor amigo.
– Ele já não é o teu melhor amigo! Não gosta de nós, lembras-te? – retorquiu, estreitando os olhos de raiva. – É por causa dela, não é? Estás só a usar isto como desculpa para ires vê-la.
– Não entendes nada de nada? – explodiu Adam, levantando os braços, exasperado. – Sobre a vida? Sobre as pessoas?
– Entendo que preferes passar a noite a consolar a jovem viúva enlutada do que ficares ao meu lado, onde é o teu lugar. Como podes estragar a minha festa de uma forma tão desprezível?!
– Tenho de sair daqui – gemeu Adam, virando-se na direção da porta.
– Não te atrevas a sair! – ordenou Penelope. – Proíbo que o faças!
Abanando a cabeça com tristeza, Adam olhou para Harold.
– Encarregue-se do assunto por mim.
– Vá! Vá! – incitou Harold com um gesto da mão. – Apresentarei as suas desculpas a quem achar necessário. A maioria das pessoas compreenderá o que motivou a sua ausência.
O tom de voz e a ênfase vincaram que Penelope não se inseria nesse grupo e que estava a falhar por essa razão.
Adam dirigiu-se rapidamente à porta, mas, antes que pudesse abri-la, a mãe pousou-lhe uma mão no braço.
– Mãe, não tenho tempo para isso – disse cada vez mais irritado.
Lucretia inclinou-se para ele e sussurrou:
– Não te atrevas a abandonar esta festa. Como podes pensar em humilhar a Penelope desta maneira? Como podes fazer-lhe isso ou a mim?
– Pare com isso.
– Alguém tem de te chamar à razão.
– Mãe – começou, respirando fundo e tentando manter a calma. – Charles era seu sobrinho e Vinnie é sua irmã. Era o seu filho preferido. Isso não significa nada aos seus olhos?
– Neste momento, não. Temos outras responsabilidades mais prementes.
– Não. Não temos nada mais importante do que oferecer a Vinnie o apoio de que ela precisa agora.
– Não basta que um dos membros da nossa família esteja presente, envolvido nessa confusão escandalosa? – retorquiu, apertando-lhe o braço com o máximo de força que conseguiu. – Também precisas de te meteres?
– Claro que sim. Charles era meu amigo.
– Era teu amigo. Nunca te perdoarei se nos fizeres isso.
– Muito bem – anuiu calmamente o que lhe provocou um suspiro. – Boa noite.
Sem olhar para trás, abandonou a sala e abriu caminho até à porta. Os convidados apartaram-se enquanto ele se precipitava para o exterior, dado a coscuvilhice já se haver espalhado.
Quando a carruagem parou com estrondo na frente da casa de Lavinia, Adam tremia de emoção. Que desperdício aqueles últimos meses! Passara-os zangado com James, com Maggie, com Charles. Albergara uma enorme animosidade em relação a Anne e agora isto! A tragédia levava a que tudo o mais parecesse tão banal. Todas as brigas e todos os ciúmes. Os silêncios e as separações. Para quê? Para que as últimas palavras que dirigira a Charles tivessem sido de ódio e de rancor?
Confrontado com a magnitude do que acontecera, mal conseguia recordar-se do motivo por que tinha discutido com qualquer deles. Tudo parecia tão insignificante.
Sentiu os olhos cheios de lágrimas ao recordar a amizade e a alegria que Charles trouxera diariamente à sua vida, onde existia tão pouco dessas sensações. A própria ideia de que não voltariam a ver-se, de que nunca poderia desculpar-se por aquele último encontro, de que nunca poderia agradecer-lhe por tomar conta de Maggie e do bebé…
Os arrependimentos cresciam a um ritmo tão rápido que mal conseguia anotá-los. Tudo o que desejava agora era ver James e Anne, fazer as pazes. Em seguida, ver Maggie. Falar com ela e abraçá-la. Verificar com os seus próprios olhos que ela estava bem. Descobrir o que ela precisava, como poderia ajudar.
Desceu da carruagem. Algumas luzes brilhavam no interior e havia mais alguns veículos na entrada circular. Subiu os degraus a correr e bateu bruscamente à porta. Hodson atendeu logo, vestido impecavelmente como de costume, o que poderia ser engraçado tendo em conta que a noite ia a meio, mas o homem estivera sem dúvida a chorar.
– Boa noite, Lorde Belmont – saudou com voz trémula.
– Olá, Hodson. Acabei de saber a horrível notícia e tive de vir.
Deu um passo para entrar e em seguida apercebeu-se de que Hodson se mantinha no centro da ombreira, bloqueando-lhe a entrada. Pela primeira vez na vida, Adam sentiu-se chocado ao perceber que não era bem-vindo na casa da tia. Em qualquer outra das suas visitas, o mordomo limitar-se-ia a abrir a porta e a dar-lhe passagem sem hesitar. Dessa vez, não detetou boas-vindas nos seus olhos ou na sua atitude.
– Posso entrar? – perguntou Adam finalmente.
– Desculpe, milorde, mas a sua tia entregou-me uma lista de quem deve ter permissão para visitar neste horrível momento.
Seguiu-se uma longa pausa enquanto Hodson esperava que o resto da mensagem assentasse. Havia uma lista e o nome de Adam não constava da mesma.
– Talvez tenha sido um descuido, Hodson. Por favor, quero apresentar condolências aos membros da minha família.
– Sinto muito, sir. Por favor, volte a tentar amanhã. Talvez Lady Billington esteja disposta a recebê-lo nessa altura.
A porta começou a fechar-se na sua cara, mas Adam estendeu o braço e apoiou-o contra a madeira.
– Hodson! Por favor!
– Quem está aí, Hodson? – A voz masculina ouviu-se por trás do mordomo e Hodson descontraiu-se visivelmente quando se virou e olhou por cima do ombro. – É o seu irmão, sir.
James aproximou-se da ombreira da porta, tomando o lugar do mordomo.
– Obrigado, Hodson. Eu trato do assunto.
Hodson afastou-se nos bicos dos pés e deixou os dois irmãos face a face, num silêncio constrangedor.
– Olá, James – cumprimentou finalmente Adam.
– O que desejas?
– Acabei de saber a notícia. Vim ver o que podia fazer.
– Diria que já fizeste muita coisa – resfolegou James.
– Por favor, James. Não é altura para discutirmos.
– Não, acho que não – anuiu James num tom mais calmo.
– Queria ver a tia Vinnie. E a Maggie, se for possível.
James abanou a cabeça.
– Elas não estão a receber visitas. Talvez possas tentar novamente daqui a uns dias.
– Posso ver o Charles?
– O agente funerário ainda está aqui – respondeu ele como forma de recusar o pedido.
Adam questionou-se sobre o momento impróprio de formular o que se seguiria, mas tinha de saber.
– Constou-me que a Maggie testemunhou todo o episódio. – James limitou-se a encolher os ombros, reconhecendo a evidência. – Como está a aguentar-se?
– Como seria de esperar.
– E a criança? O bebé está bem?
– O bebé está bem, tanto quanto sei.
Adam assentiu a cabeça, aliviado.
– Preciso de vê-la, James. Por favor.
– Não, Adam. Agora, não.
– Então, quando?
James passou a mão pelo cabelo num gesto frustrado.
– Volta para a tua festa – respondeu, começando a fechar a porta.
– James, por favor… – Adam não fez qualquer esforço para deter a torrente de lágrimas que lhe caíam pelas faces. – Pelo menos, dizes-lhe que estive aqui? Diz-lhe… – engoliu em seco para desfazer o nó que se formara na garganta – … diz-lhe que, se precisar de alguma coisa, seja o que for, deve entrar imediatamente em contacto comigo. Vais dizer-lhe?
– Vou, mas não vejo que isso possa fazer qualquer diferença. – Descaiu os ombros sob o peso emocional da longa noite. Recuou, incapaz de suportar a angústia espelhada no rosto do irmão. – Vai, Adam. Volta para onde pertences.
James fechou a porta com um estalido suave e Adam ficou só no alpendre iluminado, abanando a cabeça ao perceber que queria ir para onde pertencia, mas sentindo-se como se já não pertencesse a nenhum lugar. Precisava de passar as próximas horas com amigos e familiares que lhe oferecessem compreensão e conforto, mas não existia ninguém na sua vida capaz de consolá-lo naquela hora tão triste. Envolto em dor e emoção, avançou aos tropeções para a carruagem.
* * *
Maggie mantinha-se sentada na cadeira que tinha colocado ao lado do caixão. Já derramara todas as lágrimas e agora não sentia nada. Estava dormente, de olhos secos, desprovida de emoção. Havia uma tal noção de irrealidade sobre o que tinha acontecido que se sentia qual espetadora, testemunhando acontecimentos terríveis ocorridos com outra pessoa.
Esfregou o fundo das costas e ajeitou-se na cadeira. Nas últimas horas começara a sentir muitas dores nesse sítio e continuava a dizer a si própria que se tratava apenas da tensão causada por tudo o que acontecera. Nesse momento foi acometida por uma dor aguda como se o corpo tentasse provar-lhe que era idiota ou mentirosa. Respirou fundo e depois exalou lentamente o ar enquanto o suor lhe cobria a testa. Que dia para se sentir tão mal!
Um relógio soou em qualquer lugar e apercebeu-se de que Charles estava morto há quase trinta e seis horas. Maggie mal havia saído do lado dele durante todo esse tempo. Era incapaz de suportar a ideia de que ele estava sozinho na salinha com reposteiros. Não tinha comido nem dormido, mantendo-se sentada em silêncio ao lado dele. Vigiando. Fazendo companhia. Algumas pessoas vieram apresentar condolências e não conseguiria dizer de quem se tratava ou que comentários haviam feito. O competente pessoal de Lavinia mantivera uma vigilância apertada sobre quem era admitido na casa, apenas desejando que todos tivessem uns dias tranquilos para assimilarem a morte de Charles.
Dali a pouco, viriam os homens e levá-lo-iam para sempre. Devia ir ao andar de cima e mudar de roupa para o funeral, mas não conseguia deixá-lo por um segundo. Aquele bom homem, que lhe tinha salvado a vida, não só na noite em que fora assassinado, mas muito antes, merecia que ficasse todos os minutos ao seu lado até terem de separar-se para sempre.
– Oh, Charlie – sussurrou, pousando a mão sobre a madeira macia. – O que farei sem ti?
Foi a única coisa em que conseguira pensar durante a vigília. As pessoas tinham tentado convencê-la a sair dali, a descansar e a comer, mas não foi capaz. Apenas podia sentar-se ali ao lado do marido, esperando que ele descobrisse uma forma de lhe enviar uma mensagem sobre o que deveria fazer agora.
Charles dissera que tomaria disposições para que ela e o bebé nunca passassem dificuldades, mas não sabia se o fizera. Tinham estado juntos tão pouco tempo e Charles andara sempre tão ocupado com a sua pintura e outros negócios que não imaginava se teria tratado da papelada necessária. Mesmo que ele houvesse preparado o futuro de ambos, sentia uma enorme culpabilidade quando se questionava sobre aceitar qualquer ajuda.
Ela era uma impostora. Como sua mulher e como sua amiga, totalmente indigna de quaisquer sinais de carinho por parte dele.
O pensamento focou-se em Adam, que casaria com outra mulher dali a uns dias. Como desejava que ele estivesse agora ao seu lado, segurando-lhe na mão e falando-lhe com aqueles seus modos pacientes. Estaria calmo e controlado e teria muitas respostas para as suas perguntas sobre o que lhe aconteceria no futuro.
Mais do que tudo no mundo, desejava que a levasse para o seu lar, a casinha onde havia sido tão pacientemente educada por Rose Brown. Podiam sentar-se na sua velha cama e Maggie conseguiria dizer-lhe o que era incapaz de dizer a mais ninguém. Que era ela a causa da morte de Charles. Que se não tivesse casado com Charles, ele ainda poderia estar vivo. Que supostamente era ela que devia ter morrido. Que era a pessoa que Robert queria fora do caminho. E, se tivesse morrido, como era suposto, quem sentiria a sua falta?
Em vez disso, era Charles, dono de uma família unida e com amigos leais, quem estava morto. Pobre Charles, cujo único grande erro na vida fora casar-se com ela. Tinha morrido sem nunca encontrar amor nem felicidade, porque ela estava demasiado perdida para conseguir dar-lhos. A culpa e o remorso eram os seus amargos companheiros e, se Adam estivesse presente, poderia arrancá-los do seu íntimo, mostrar-lhos e deixar que os espantasse.
Outra dor atravessou-lhe as costas quando uma porta se abriu atrás dela e soaram passos. Recusando deixar que alguém visse que se sentia tão mal, respirou fundo e aguentou até a dor começar a diminuir.
Anne puxou uma cadeira e sentou-se. Já tinha vestido a roupa para o funeral e estava pálida e tensa.
– Maggie? Chegou a altura, querida. Precisamos que vás lá para cima.
– Não quero deixá-lo – protestou com um gesto na direção do marido.
– Eu sei, mas precisamos de te preparar. E também precisas de comer alguma coisa e de descansares, se puderes. Vai ser um dia longo, quente e stressante e necessitas de manter a força.
– Quem ficará com o Charles? Não quero deixá-lo aqui sem ninguém que olhe por ele.
– O James está vestido. Ele disse que vem para baixo durante algum tempo.
– Contanto que prometas que o Charles não ficará sozinho.
– Prometo.
Maggie acabou por concordar. Podia confiar em que James continuaria a vigília. Enquanto se levantava com as pernas a tremer e Anne ficou ao lado dela, Maggie reparou no envelope que a amiga segurava na mão.
– O que é isso?
– É para ti.
– Para mim? De quem?
– Do Adam – respondeu Anne com um suspiro.
– Ele esteve aqui?
– Sim. Passou por aqui várias vezes.
– Não consigo imaginar porquê.
– Queria ver-te, mas ignorávamos se estarias nessa disposição. James disse-lhe que te contactasse daqui a uns dias. Deixou-te isso – disse, estendendo-lhe o papel.
– Vou lê-lo mais tarde – retorquiu, detetando o olhar curioso de Anne.
Enfiou-o no bolso, sem quebrar o lacre. Nesse momento, foi invadida por mais uma dor e apenas desejava afastar-se da amiga para lhe ocultar o crescente desconforto. Segurando firmemente a mão de Anne, dirigiu-se às escadas, a fim de se vestir para o funeral.