Meu Único Amor

Cheryl Holt · Capítulo 17 de 31

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Meu Único Amor

Capítulo 16

 

 

Adam instalou-se no macio assento de cabedal da sua carruagem, passando distraidamente a mão pelo mesmo enquanto observava os reluzentes acessórios de cobre. Era o mais belo exemplo de transporte pessoal que o dinheiro podia comprar. Nenhuma despesa ou luxo haviam sido poupados pelos fabricantes que o tinham equipado para o marquês de Belmont. Parecia nitidamente deslocada na rua estreita diante da casinha de Maggie.

Os cavalos relincharam e a carruagem oscilou ligeiramente quando um dos cocheiros se deslocou na frente. Os animais e os homens ficaram a aguardar que ele desse o sinal de partida, mas foi incapaz. Algo lhe segredava que, se partisse naquele momento, seria pela última vez. Maggie estava magoada, o seu orgulho bastante ferido pelas palavras duras que ele pronunciara e, quando regressasse do campo, teria ido embora ou não voltaria a falar-lhe.

Era estranho como uma jovenzinha conseguia perturbá-lo daquela maneira. Fora muito sensata nas acusações que lhe dirigira; ele estava habituado a estalar os dedos e a ver toda a gente a obedecer aos seus desejos. Era assim que o seu mundo funcionava. Parecia ser ela a única que não lhe dava essa interpretação e se sentia no pleno direito para lhe falar como entendesse.

– Mereceste – murmurou em voz alta e os sons foram de imediato abafados pelo espesso tecido de veludo que forrava várias partes do interior. Se ela o tivesse esbofeteado, também teria merecido.

Nada do que haviam gritado um ao outro mudava o que sentia em relação a Grace Stuart e aos seus três filhos. Tinha razão em desprezar a mulher e a sua prole bastarda. Tinha mesmo, caramba, independentemente do que Maggie pudesse dizer ou sentir sobre isso. Ela não sabia e jamais compreenderia o que a relação da mulher com Aston os fizera passar.

Até mesmo conhecidos superficiais haviam comentado a injustiça e a humilhação que Aston St. Clair causara à mulher e aos filhos legítimos ao dar o nome aos três filhos de Grace e ao incluí-los como beneficiários no seu testamento. Deixara a Grace dinheiro suficiente para lhe permitir que se movimentasse na alta sociedade. Adam encontrava-a em todo o tipo de sítios: no teatro, nas corridas, em bailes e em festas.

Sim, as amantes faziam parte da sua vida e da época, mas as malditas mulheres sempre conheceram e aceitaram a sua posição. Não se intrometiam na família legítima, recebendo o amor, afeto e dinheiro que não lhes pertenciam. Grace Stuart não tinha sensatez – nem vergonha.

Adam encostou a cabeça contra a parede da carruagem e gemeu. Mas se tinha razão sobre tudo aquilo e mais ainda, porque se sentia tão infeliz?

Não necessitou de repetir a pergunta. Maggie era a única pessoa no mundo inteiro que lhe trouxera um raio de sol à sua vida patética. De nada valia fingir que era diferente. As últimas semanas, quando conseguira vir ter com ela à noite, haviam sido as melhores da sua vida. Na sua qualidade de homem sempre ocupado, o tempo livre junto dela em nada se assemelhava ao que desejaria, mas o pouco que conseguia era uma pura dádiva. Adorável, generosa e gentil, nunca fazia exigências, não lhe colocava qualquer obstáculo no caminho, nem lhe criava tensão. Limitava-se a estar presente, sorridente e feliz, entregando-se totalmente e assim confortando o coração e a mente de um homem muito mais velho e desgastado que provavelmente não merecia a sua terna consideração.

Agora que tinha passado algumas semanas felizes ao lado dela, não conseguia imaginar-se a regressar à vida enfadonha que levava antes de ela surgir. Apesar de todo o seu dinheiro, das joias e das propriedades, ela era a única preciosidade que possuía.

Era errado negar a si próprio a única coisa que realmente desejava?

Era isso o que o pai sentia por Grace?

O pensamento traiçoeiro surgiu sem ser convidado e, por um breve momento, uma recordação do pai há muito esquecida acorreu-lhe à mente. Nessa época, Adam era um adolescente com cerca de dezasseis anos e assistia a uma das suas primeiras festas como adulto. Tinha apanhado o pai a beijar Grace num corredor escuro, onde supostamente ninguém deveria estar. Há mais de uma década que estavam juntos, mas ele beijava-a como se tivessem acabado de descobrir a paixão. Adam nunca contara a ninguém o que vira nessa noite, nem sequer a James, e passara a odiar o pai e Grace Stuart em cada um dos dias que se seguiram.

O incidente analisado em retrospetiva por olhos mais sábios e experientes parecia diferente. Mais carinhoso, mais trágico, menos carregado de mágoa e de traição. Embora jamais perdoasse ao pai, possuía maturidade suficiente para compreender que aquela ligação talvez tivesse sido mais importante do que acreditara.

Aston desfrutara de Grace durante todos os anos de vida, tivera a sorte de morrer nos seus braços enquanto Adam apenas tencionava manter Maggie até se casar. Dado que poderia tê-la mais uns meses face à situação, qual o objetivo de deixá-la? Com o casamento a pairar sobre a sua cabeça, cada dia com ela era precioso. Porquê mandá-la embora? A ideia não fazia qualquer sentido.

Com um suspiro, desceu da carruagem e pôs o pé na rua. O orgulho era um xarope difícil de engolir e raramente pedia desculpa a quem quer que fosse, mas era o que faria a Maggie. Quando regressasse da esgotante viagem, dedicada à procura de uma mulher na sua propriedade rural, precisaria de que ela estivesse à sua espera de braços abertos. Valia a pena rebaixar-se para conquistar o seu perdão.

 

Maggie estava sentada em frente do toucador, demasiado atordoada para se mexer. O que acontecera de errado?

Não tinha plena certeza, mas jamais poderia ter antecipado que aquele dia que pensava que seria tão cheio de alegria e de amor, pudesse terminar de uma forma tão terrível. Adam era um aristocrata – sem a mínima dúvida –, mas não tinha o direito de julgá-la ou tratá-la mal pelo que o pai dele fizera. O amor da mãe pelo duque fora uma grande paixão, a única da sua vida e ele atirara-lhe isso à cara. Maggie negava-se a ser denegrida pelas atitudes desprezíveis de Adam St. Clair ou de qualquer outra pessoa.

Haviam trocado umas breves palavras sobre o pai dela e Maggie contou a Adam a história que contava a toda a gente. Disse-lhe que o pai estava morto, o que era verdade aos olhos dela. Nunca tinha existido como uma pessoa real, mas apenas como uma figura vaga e indistinta pintada em tonalidades várias pela mãe, dependendo de sentir ou não boas recordações em determinado dia.

Agora que Adam sabia a verdade, se ainda criticava daquela forma o seu nascimento, era preferível acabar tudo imediatamente, pois Maggie não aguentaria qualquer desprezo nesse ponto, o que significava que nada de bom poderia advir se continuassem juntos. Oh, mas como sentia o coração despedaçado com a ideia do fim! O facto de ele poder livrar-se dela por uma coisa que, aos seus olhos, era tão insignificante, constituía o pior dos insultos.

Uma pancada na porta fê-la virar a cabeça. Gail entrou com um olhar preocupado.

– Precisa de alguma coisa, Miss Maggie?

– Não, mas podes dizer à cozinheira que Lorde Belmont teve de ir embora? Lamento que lhe tenhamos arruinado os planos de um jantar especial. Por favor, pede desculpa em meu nome.

– Com certeza – anuiu a criada com um aceno de cabeça. – Posso fazer alguma coisa?

Maggie detestou ver o olhar de piedade no rosto da serviçal que não conseguira deixar de ouvir a discussão entre eles.

– Não. Estou bem. Lamento que o marquês te tenha tratado bruscamente.

– Não se preocupe, miss. Não tem importância. Ele por vezes tem muita coisa em que pensar.

– Agradeço a tua compreensão – disse tentando em vão esboçar um sorriso. – Chamo-te se necessitar de ajuda. Gostaria de ficar sozinha algum tempo.

– Com certeza. Basta tocar a campainha se precisar de mim.

Depois de Gail fechar a porta, Maggie dirigiu-se à lareira e puxou um dos tijolos, revelando o seu pequeno esconderijo. No interior, havia uma caixa de madeira. Retirou-a para fora, levou-a até à cama, despejou o conteúdo em cima do colchão e em seguida deitou-se ao lado do seu pequeno tesouro.

Mesmo sem contar, sabia quanto dinheiro estava ali. Quarenta libras. Fez montinhos com os soberanos e as coroas, adorando o toque pesado do ouro e da prata, e contou-os várias vezes para se tranquilizar. Não era muito dinheiro, mas era real, sólido e pertencia-lhe. Estava tão embebida a pensar na sua pequena fortuna e quantas semanas lhe duraria, que não ouviu a porta a abrir-se. A voz de Adam paralisou-a.

– O que tens aí?

Não pretendia assustá-la, mas ela parecia pronta a fugir pela janela.

Sem saber muito bem o que fazer ou dizer, Maggie hesitou e em seguida saltou da cama, meteu rapidamente as moedas dentro da caixa e fechou a tampa. Ele não iria decerto tirar-lha!

– Não é nada! – respondeu, virando-se para o fitar.

– Deixa-me ver – reagiu, estendendo a mão com aqueles seus modos autoritários que impediam uma pessoa de desobedecer.

Maggie estendeu a caixa, ele pegou-lhe, examinou rapidamente o conteúdo e devolveu-lha. O silêncio era insuportável e, embora não soubesse exatamente o motivo, pois não havia feito nada de mal, sentiu necessidade de se explicar.

– É apenas algum dinheiro que tenho poupado.

– Podes pedir-me se precisares de alguma coisa.

– Eu sei. Só que… – Corou e deu a volta junto dele para ir guardar a caixa longe da sua vista, numa gaveta. Voltaria a colocá-la no esconderijo quando ele se fosse embora. – Tens sido muito generoso. Não quero pedir-te dinheiro.

– Onde arranjaste isso?

– Vendendo roupas antigas da minha mãe e várias coisas. – Deu meia volta e acrescentou: – Não o roubei, se é isso o que estás a pensar.

– Nunca me passou pela cabeça que o pudesses ter feito – disse e esboçou um gesto na direção da cama. – Podemos sentar-nos um momento?

Adam era muito hábil na arte de fazer com que as suas ordens soassem a pedidos. Maggie ocupou a cadeira ao lado da cama, enquanto ele ficava na sua frente, sentado na beira do colchão. O silêncio voltou a tornar-se opressivo.

– É para quando me mandares embora – disse ela finalmente num tom calmo.

– Com essa quantia não irás longe.

– É melhor do que da última vez, quando não tinha nada.

Adam nunca passara tanto tempo junto de um plebeu, como fizera com Maggie. Embora as suas abastadas posses o tornassem responsável pelo bem-estar de milhares de pessoas, tinha muitas hierarquias de gestores e agentes entre ele e os que trabalhavam por sua conta e assim conhecia muito pouco das suas vidas. Não conseguiria imaginar o que seria caminhar pelas ruas de Londres com quarenta libras no bolso, sobretudo quando se era mulher e com opções tão limitadas.

– Achas mesmo que te poria na rua?

– Na realidade, ignoro se o farias ou não.

– Fico magoado por me teres em tão baixa conta – disse, batendo ao de leve na coxa. – Vem cá.

Maggie transpôs a pequena distância entre a cadeira e a cama e pousou as nádegas na coxa musculosa. Adam rodeou-lhe a cintura com os braços para a segurar, quando ela perguntou:

– O que fazes aqui?

– Voltei para pedir desculpa – respondeu, beijando-lhe ao de leve um dos lados do pescoço. – Fui um perfeito idiota e espero que aceites as minhas desculpas.

«Por qual dos teus inúmeros insultos?», esteve prestes a perguntar, mas não o fez. Ele não era um homem a quem se pedisse que explicasse as suas palavras ou atitudes. O facto de ter engolido o orgulho e voltado ao quarto dela constituía um gesto incrível da sua parte, algo que não poderia atirar-lhe em cara.

– Aceito – disse, erguendo os olhos ao encontro dos dele e pousando a mão numa das faces. Ele agarrou-a e pousou um terno beijo no centro.

– Obrigado.

Maggie não tivera muito tempo para pensar nas palavras horríveis que ele pronunciara sobre o seu pai e Grace Stuart e, por conseguinte, ela própria, mas sabia que precisavam de falar e esclarecer as coisas ou jamais atirariam a questão para trás das costas.

– Adam, porque me sustentas? Se é algo tão contra os teus princípios, como decidiste fazê-lo?

– Não pude conter-me, Maggie, sabes bem. A partir do momento em que te conheci, desejei-te como nunca desejei nada na vida.

– Mas se estás tão preocupado com o meu passado e a minha condição, talvez seja melhor ir-me embora agora. Não quero despedaçar-te o coração.

– Oh, Maggie – sussurrou ele, atraindo-a mais e beijando-a no cimo da cabeça. – Quem me dera poder explicar-te como é a minha vida, como são os meus dias e as minhas noites. Conhecer-te é a única coisa que me dá qualquer alegria.

– Que coisa maravilhosa de se dizer – suspirou a jovem.

Era o mais próximo que ele conseguira chegar de proferir uma declaração amorosa e escutar aquelas palavras fizeram com que o coração de Maggie batesse mais depressa.

– É a pura verdade, o que me leva a pensar se estarei completamente louco quando reflito na maneira como te trato. – Afastou-se para poder encará-la. – Depois do que te disse antes, não te censuraria em nada se me deixasses para nunca mais voltares.

– Não te deixarei, tonto. Precisas de mim.

– Sim, preciso. Muito, muito – disse, beijando-a ao de leve nos lábios e depois abraçando-a com força. – Oh, Maggie, hoje o fardo da minha vida pesa-me tanto!

– Então, deixa-me aliviar as tuas preocupações. É para isso que aqui estou.

Maggie estava pronta para o ajudar a despir-se e confortá-lo da melhor maneira que sabia, mas Adam parecia decidido a tirar um peso do peito.

– Casaria contigo num segundo se pudesse. Sabes isso, não sabes?

– Não, não sabia. – Precisando colocar alguma distância entre eles, levantou-se e dirigiu-se à janela, observando as pessoas que passavam lá em baixo. – E queria que não voltasses a dizer-me isso. Torna tudo muito mais difícil.

– Desculpa. Só preciso que entendas porque estou tão angustiado por vezes. Não quero descarregar sobre ti.

– Então porque o fazes? – redarguiu, olhando por cima do ombro.

– Porque não há mais ninguém que me aguente quando estou nesse estado.

– Vou tomar isso como um elogio.

– E deves. Posso mostrar-te o meu lado pior e continuas a preocupar-te comigo. Isso é muito importante. – Apoiou os cotovelos sobre os joelhos e descansou a cabeça entre as mãos. – Não quero casar com outra mulher, Maggie…

– Mas tens de fazê-lo – disse ela, terminando o pensamento em seu lugar.

– É verdade, mas as mulheres que conheço são todas tão desinteressantes. Não sinto nada por nenhuma delas. O meu coração uniu-se ao teu desde a primeira vez que te vi. Conhecendo-te como te conheço torna as minhas escolhas mais…

Por mais que soubesse que devia escutar e apoiá-lo em tudo o que ele quisesse discutir, aquilo ultrapassava os limites.

– Adam – interrompeu –, por favor, não suporto ouvir mais nada sobre isso. Percebo que estejas triste e com vontade de desabafar, mas não consigo ouvir-te falar desse tema.

– Mas preciso que entendas como me sinto confuso. Antes de te conhecer, todo o processo se revelara uma tarefa dificílima, e agora…agora não consigo ponderar em seguir em frente e vejo-me obrigado. – Esfregou a mão sobre o coração como se a própria ideia o magoasse fisicamente. – Está a destruir-me.

Ao ser confrontada tão visivelmente com a sua angústia, Maggie foi incapaz de permanecer do outro lado do quarto. Aproximou-se e parou na sua frente, enfiando a mão sob a dele, massajando-lhe o centro do peito, como ele estivera a fazer.

– Lamento que te sintas tão magoado. Não quero isso.

Passou-lhe meigamente os dedos pelo cabelo enquanto ele colocava o rosto no ventre dela e confessava:

– Não posso manter-te, Maggie. Depois do casamento será simplesmente impossível. Sei que te disse isso antes de uma forma mais terrível e por conseguinte vou dizê-lo mais suavemente. Quando me casar terei de deixar-te ir, mas poderei fazer isso? Preferia cortar o braço direito a viver sem ti.

– Seja como for, não quero ficar ao teu lado depois de casares. – Ele ficou visivelmente surpreendido e ergueu o olhar na sua direção. – Sinto uma grande ternura por ti e não consigo pensar como poderia suportar partilhar-te com outra, sendo ela tua legítima mulher ou não.

Os seus sentimentos iam muito além da ternura, estando em causa um profundo e eterno amor, mas nunca lho diria. De que valeria? Ele não precisava de mais um fardo. A longo prazo, isso só tornaria as coisas mais difíceis do que já eram.

Adam sacudiu a cabeça com uma expressão consternada.

– Nunca pensei que isto fosse tão difícil.

– O que posso fazer para que te sintas melhor?

Não se atreveu a pedir-lhe qualquer conforto para si, pois tinha plena consciência de que o seu coração ficaria eternamente despedaçado quando ele se afastasse.

– Não faço a mínima ideia – respondeu, beijando-lhe ternamente o ventre. – De momento, tudo o que sei é que depois de termos discutido, fiquei sentado na carruagem sem conseguir ir embora. Sabia que, se deixasse as coisas como estavam entre nós, terias desaparecido quando voltasse do campo. A ideia de regressar a Londres e não te ter à minha espera era insuportável.

– Tudo acabará por se resolver, Adam. Tenho a certeza. – Ajoelhou-se entre as pernas dele e rodeou-lhe a cintura com os braços. – Entretanto, precisamos de aproveitar cada dia.

– Sim, concordo. – Inalou profundamente o odor do cabelo e da pele que tanto amava. – Vamos tentar recomeçar esta noite?

– Ia sugerir o mesmo. Deixa-me só informar a cozinheira de que, afinal, ficaste para jantar.