Meu Único Amor

Cheryl Holt · Capítulo 25 de 31

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Meu Único Amor

Capítulo 24

 

Maggie abriu os olhos e piscou-os várias vezes devido aos ténues raios de sol do final da tarde que entravam pela janela. Precisou de um momento para se orientar. Nas últimas duas semanas tinha passado a noite em tantas camas diferentes, em tantos quartos diferentes, que era difícil recordar-se onde estava.

Gradualmente foi tomando consciência. A casa de Lavinia Billington. Era isso mesmo. A casa da mãe de Charles, em Londres. Tinham parado lá mal haviam regressado à cidade, mesmo a tempo da refeição do meio-dia. Duas das irmãs de Charles estavam de visita. Charles, com a sua tendência para o drama, não demorara a provocar agitação, anunciando aos quatro ventos o que eles tinham feito. Seguiu-se de imediato um caudal de lágrimas e exclamações e a mãe deitara-se freneticamente ao trabalho. Negou-se a escutar as suas delicadas objeções e Charles limitou-se a encolher os ombros enquanto a observavam a começar a planear anúncios e festas, que insistiram veementemente não desejarem.

A viagem até Gretna Green decorrera rapidamente e sem incidentes. O tempo colaborara. Embora tivesse feito um frio horrível durante toda a viagem, o céu permaneceu azul e as estradas secas e firmes. Passaram um período agradável. Charles era um companheiro de viagem interessante e educado, encarregando-se das disposições necessárias e zelando pelo conforto dela.

Havia muita coisa sobre a viagem e o seu novo casamento que se assemelhava a um sonho vivido por outra pessoa, mas ela estava verdadeiramente casada e ao que tudo indicava com um homem bom e generoso que cuidaria da sua vida e da do seu filho. A maioria das mulheres não tinha tanta sorte e sentiu o habitual aguilhão de culpabilidade por não se sentir mais feliz, o que indubitavelmente deveria acontecer. Na verdade, sentia-se devastada, tanto física como emocionalmente. Tinha saudades de Adam, da sua casa, de Anne e da sua antiga vida. A nova vida, que lhe fora imposta pela gravidez e pelo casamento apressado, havia chegado demasiado rapidamente, sem aviso, e não se tratava de algo que optasse por acolher ou abraçar.

Suspirou profundamente.

As coisas acabariam por se resolver. Era o que Charles repetia constantemente e, sem dúvida, tinha razão. Ambos precisavam de mais tempo. Tempo para se conhecerem melhor um ao outro. Tempo para estabelecerem planos. Tempo para se habituarem ao que tinham feito. Tempo para iniciarem uma rotina como duas pessoas normais e casadas.

Foi esse pensamento que a levou a sentar-se na beira da cama. Lavinia recebera-a de braços abertos, como Charles dissera que aconteceria, embora, pouco depois de eles terem chegado, ficasse a saber que seria novamente avó. Tinham-se sentado a almoçar; Maggie estava faminta como era habitual nos últimos dias, mas depois de comer uma lauta refeição, fora invadida por uma onda de enjoo e tivera de correr para a casa de banho.

Lavinia não era idiota, dado ter dado à luz oito filhos e, quando Maggie regressara à mesa, já Charles a havia informado sobre o bebé. Nem mesmo a notícia da gravidez iminente de Maggie destruíra a excitação de Lavinia quanto ao noivado de Charles. Nesse mesmo momento estava no andar de baixo a planear uma miríade de jantares e de saraus para apresentar a sua nova nora aos amigos e à família.

Maggie não tinha desejo de conhecer nenhum deles. Apenas queria que a deixassem em paz. A fim de evitarem os festejos que Lavinia estava a planear a toda a pressa, precisavam de ir para a casa de campo de Charles assim que possível. Maggie esperava ser capaz de persuadir Charles a levá-la dali, antes que Lavinia conseguisse expô-los aos olhares públicos. A própria ideia causava-lhe o maior nervosismo, o que lhe parecia desaconselhável para ela e para o bebé.

Olhando-se no espelho, fez uma careta ao verificar como estava pálida e abatida. Tinha ouvido algures que a maioria das mulheres grávidas resplandecia de saúde e de bem-estar. Ela não fazia parte desse número e, na verdade, parecia e sentia-se pior a cada dia que passava. Desejando apenas calma e privacidade, enquanto lutava para recuperar alguma energia e paz de espírito, precisava de sair imediatamente de Londres.

Deu uma escovadela rápida no cabelo e desceu as escadas à procura de Charles.

 

Adam desceu da carruagem e contemplou a fachada da casa da sua tia Lavinia. Transbordava de atividade e, melhor ainda, a carruagem de Charles estava estacionada na entrada. Subiu apressadamente os degraus e bateu à porta, esperando com impaciência que alguém viesse atender.

Os últimos quinze dias tinham sido os piores da sua vida enquanto aguardava uma palavra de Maggie. Não havia qualquer indício do seu paradeiro, exceto que tinha saído com Charles na tarde do seu desaparecimento e nunca mais voltara. Adam tinha a certeza absoluta de que Charles sabia onde ela se encontrava. O sacana estava provavelmente envolvido em qualquer tentativa insensata de ajudá-la a manter-se escondida.

Lavinia era uma das poucas pessoas que não tinha ido para o campo durante a época natalícia e a casa dela foi apenas um dos locais onde ele passara diariamente nas suas tentativas para localizar Maggie. Na primeira visita, Lavinia tinha insistido em que nem sabia que Charles se fora embora e muito menos para onde, e, em cada uma das visitas seguintes, vira-se obrigada a comunicar a desanimadora notícia de que não ouvira uma só palavra do filho.

Bom, ele estava de volta nesse dia. A carruagem era a prova.

Adam bateu novamente à porta e Hodson, o mordomo de longa data de Lavinia, abriu e em seguida recuou para lhe dar passagem. Ele nunca usara formalidades com a tia e era sempre bem-vindo.

– Master Charles está? – perguntou casualmente ao mordomo enquanto descalçava as luvas.

– Sim, regressou esta manhã – respondeu o mordomo, por norma indiferente, com um sorriso fora de comum.

Antes que Adam pudesse refletir no que isso poderia significar, Lavinia começou a descer as escadas. Baixa e robusta, com o cabelo grisalho apanhado na nuca, era quase o dobro da mãe dele, à exceção de que sempre conseguira parecer diferente, o que se devia, segundo julgava, às personalidades totalmente opostas de ambas. À medida que ia descendo, Adam reparou que o seu rosto geralmente feliz estava vermelho e coberto de lágrimas. Levou um lenço aos olhos, mas o movimento não conseguiu ocultar as pequenas linhas de riso à volta dos olhos. Tratava-se visivelmente de lágrimas de felicidade.

– Adam… oh, Adam. Sinto-me tão contente por teres aparecido – disse emocionada ao avistá-lo ao fundo das escadas. – Charles voltou.

– Sim, eu vi.

– As notícias… – pronunciou mais para si do que para ele. – Notícias tão boas…

Adam recuou e pegou-lhe na mão.

– Tia Vinnie, o que a pôs nesse estado?

– Meu patife! Como se não soubesses! – exclamou, chorando ainda mais. – Teres-me escondido uma coisa tão maravilhosa! Aposto que estiveste sempre a par do que se passava, não é verdade? Foi por isso que andaste sempre a visitar-me, aguardando o regresso deles. Sempre soubeste!

– Sabia o quê? – perguntou, mas ela não parecia ouvi-lo e uma espiral de medo incontrolável começou a dominá-lo.

– E ela é tão adorável. Oh, não podia sentir-me mais feliz… – Avançaram para a sala de estar onde Lavinia recebia as visitas. – Vou chamar o Charles – acrescentou com um sorriso, dando-lhe uma palmadinha na mão, como se ele ainda fosse uma criança. – Tens de ficar para jantar. Hoje é apenas para a família, mas organizarei uma festa grandiosa, mal seja possível…

Com aquelas palavras desapareceu pelo corredor, totalmente absorta por qualquer que fosse a espantosa notícia que Charles aparentemente trouxera para casa.

Várias bandejas com comida e bebida já se encontravam dispostas em torno da sala, como se Lavinia planeasse receber muitas visitas ao longo do resto do dia. Dado haver saltado a refeição do meio-dia, Adam serviu-se de vários aperitivos, tão distraído que nem reparava no que metia na boca.

Dali a momentos, ouviu passos no corredor, mas eram leves e apressados. Passos de mulher, diria. A figura parou na ombreira da porta e ele ergueu o rosto, esperando deparar com uma das suas primas. Olhou e voltou a olhar. Pestanejou duas vezes, interrogando-se sobre se os olhos não estariam a pregar-lhe uma partida.

– Maggie?

– Adam?

Ela teve de focar os olhos para se convencer de que a presença dele era real e não uma ilusão. Por que motivo viera ali tão pouco tempo depois de eles terem chegado?

«Oh, meu Deus! Não posso enfrentá-lo sozinha!», pensou, dando um passo receoso para trás.

– O que fazes aqui?

– Andava à tua procura. Na verdade, andava à procura de Charles. – Sorriu, avançando um passo na direção dela que voltou a recuar, saindo para o corredor. – Onde estiveste? – perguntou. – Procurei-te por toda a parte.

– Preciso de encontrar o Charles… – Invadiu-a o pânico, enquanto procurava Charles, uma criada, Lavinia, qualquer pessoa que pudesse servir de barreira entre eles.

– A tia Vinnie foi agora mesmo buscá-lo. Vem cá.

Deu mais um passo e quando ela olhou novamente para o fundo do corredor, pegou-lhe no braço e puxou-a para a sala, conduzindo-a até um dos pequenos sofás, onde foram obrigados a sentar-se tão de perto que as coxas se tocaram. Adam deslizou a mão para a dela e manteve-a agarrada firmemente, porque tinha a certeza de que ela fugiria se a soltasse. Ela tremia e parecia pálida e abatida como se estivesse doente. Quando virou os bonitos olhos cor de violeta na sua direção, havia um brilho de lágrimas.

– O que se passa, pequenina? Sentes-te bem?

– Oh, Adam…

Ao fitá-lo de perto, podia ver que as últimas semanas haviam sido tão duras para ele como tinham sido para ela. Parecia tão infeliz como ela se sentia.

– Conta-me o que se passa – pediu ele. – As mãos dela estavam geladas e tentou aquecê-las entre as suas. Dado parecer que ela tinha perdido a fala, tentou preencher o silêncio desconfortável. – Sei o que aconteceu com a minha mãe e com a Penelope. Sei que ambas te ofenderam e lamento muito. Juro que isso não voltará a repetir-se. – O silêncio manteve-se e acrescentou: – Sentes raiva de mim?

– De ti? Não, Deus do céu!

Tentou soltar as mãos, mas ele agarrou-as com firmeza.

– Sei que te sentes magoada pela forma como te tratei e estás no teu perfeito direito. Tenho pensado muito… desde que descobri o que a minha mãe te fez. – Ela baixou os olhos para as mãos unidas e ele ergueu uma delas e levantou-lhe o queixo para que o fitasse quando lhe confessou: – Amo-te, Maggie. Não sei por que motivo fui incapaz de to dizer antes. Amo-te mais do que a tudo na vida.

Dessa vez, ela conseguiu libertar as mãos. Pondo-se em pé de um salto, esfregou os ouvidos como se ouvir as palavras dele lhe fizesse mal.

– Não me digas uma coisa dessas.

– Porque não? É verdade.

– Mas isso não significa nada.

– Significa tudo. Significa que te quero comigo para sempre. Não posso viver sem ti.

– O quê? – retorquiu, sufocada.

– Ouviste bem. Quero-te ao meu lado. Não me importa o que os outros possam dizer. Não me importa o que possam achar. Tive muito tempo para pensar enquanto estiveste longe e percebi o que realmente queria. Quero-te. Vamos atirar para trás das costas o que quer que disse ou fiz, o que quer que os outros disseram ou fizeram que te levou a fugir. Vamos começar de novo.

– Estás a falar a sério – constatou, tapando a boca com um olhar aterrorizado e virando-lhe as costas. – Oh, meu Deus! Estás a falar a sério…

– Claro que estou. Conheces-me o suficiente para saber que jamais brincaria com uma coisa dessas. Queres casar comigo?

Casamento? Ele queria casar com ela? Agora? Depois de ela ter impossibilitado que alguma vez ficassem juntos? Começou a tremer violentamente e teve de se distanciar dele, avançando, por conseguinte, para o extremo oposto da sala. Adam não parava de falar e as suas palavras, destinadas a expressar amor e adoração, assemelhavam-se a punhais afiados que se espetavam nos seus pontos mais vulneráveis.

– Para com isso, Adam. Por favor, para. Estás a magoar-me.

– Como? – Levantou-se e foi colocar-se ao lado dela, pousando as mãos nos seus ombros e virando-a para que o olhasse de frente. – Como é que estou a magoar-te?

– Não faças isso. Por favor – suplicou, fitando o peito dele, incapaz de enfrentá-lo. Ele não deveria importar-se com o que lhe acontecesse! Tinha dito que não o faria, que nunca mudaria de opinião, nem casaria com uma mulher como ela. Depois de tudo o que acontecera nas últimas semanas, aquilo era simplesmente impossível de aguentar.

A voz de Charles soou da ombreira da porta:

– Maggie? Estás bem?

– Oh, Charles…

Salvação! Segurança! Parecia tão absurdo que a procurasse em Charles e não em Adam. O mundo inteiro desintegrara-se, o próprio chão parecia ter-se inclinado e mal conseguiu avançar até junto dele. Charles acenou-lhe com a mão como se fosse uma tábua de salvação e ela agarrou-a tão firmemente quanto conseguiu. Ele puxou-a e abraçaram-se com as cabeças muito juntas.

– Acabei de descobrir que ele estava aqui através da minha mãe. Já lhe disseste? – sussurrou Charles.

– Não, não consegui. Oh, Charles, que coisa horrível. Preciso de sair daqui…

– Vai andando – disse ele, apertando-lhe a mão. – Resolverei o assunto. Falaremos quando ele se for embora.

– Está bem. Obrigada. – Olhou por cima do ombro com o coração despedaçado ante o desespero refletido no rosto de Adam. Tanta coisa que precisava de ser dita, mas as palavras morreram no silêncio. – Lamento, Adam. Lamento muito.

Adam ficou imóvel. A voz dela soava tão carregada de emoção e a tristeza enchia de tal forma a sala que Adam sentiu os olhos cheios de lágrimas. Quando ela saiu rapidamente, o coração batia com tanta força que se interrogou sobre se Charles conseguiria ouvi-lo naquele silêncio absoluto. Fitou o primo, recusando iniciar a conversa que explicaria o que se aproximava.

– Sinto-me feliz com a tua presença – disse Charles suavemente enquanto se dirigia à porta e a fechava com firmeza. – Tencionava ir visitar-te hoje, depois de estar tudo definido com a minha mãe e as minhas irmãs.

– Porquê?

– Bem, sobretudo porque não queria que soubesses a notícia por outra pessoa.

Ele não queria saber a resposta, mas sabia que tinha de perguntar.

– Que notícia?

– Acho que não há nenhuma maneira gentil de dizer isso, portanto, aqui vai – decidiu, brincando nervosamente com um guardanapo. – Maggie e eu casámo-nos na semana passada.

Adam sentiu os joelhos a tremer e teve de agarrar-se às costas da cadeira para se equilibrar.

– O que disseste?

– Casámo-nos.

– Impossível – reagiu num tom desesperado.

– É verdade, Adam. Podia pedir desculpa, mas não me sinto nessa posição. Achei simplesmente que devíamos falar para resolvermos alguns problemas complicados.

– És meu primo e o meu melhor amigo. Casaste com a única mulher que me interessa no mundo inteiro e achas que podemos ter alguns problemas complicados para resolver? – Lutou para controlar a respiração, tomado de uma raiva e indignação tão grandes que mal conseguia falar. – Que atencioso da tua parte! Vamos então discutir o primeiro item da tua lista.

– Claro – murmurou Charles num tom afável, tentando acalmar um pouco a situação. – Para começar, a Maggie não quer que os vossos caminhos se cruzem durante os próximos meses e anos e parece-me uma boa ideia. Temos de encontrar uma maneira de facilitar-lhe a decisão.

– Ela não quer voltar a ver-me?

A imprudência da atitude da jovem só nesse momento começava a assentar e apercebeu-se do tom infantil da sua voz, mas não conseguia simplesmente acreditar que ela desejasse tal coisa.

– Adam, ela não quer magoar-te, mas sabes que uma rutura definitiva é a única solução. É o melhor.

– O melhor para quem? Amo-a e queria casar com ela. Não acredito que tenha feito algo tão deplorável.

Charles brindou-o com um olhar isento de emoção.

– Muito francamente, ela não achava que te importasses com o que quer que fizesse. E estando tu prestes a casar, também partilhei essa opinião.

– Não me importar? Com ela? Com tudo isto? – Esboçou um gesto supérfluo, indicando o casamento e tudo o que o mesmo implicava. De súbito, sentiu dificuldade em respirar. – Sempre fui teu amigo. Como pudeste fazer-me uma coisa destas?

– Tinha os meus motivos.

– Não podia haver um motivo suficientemente aceitável para justificar o que fizeste. Podia matar-te.

– Porquê? Porque estás irritado? – Ao ver que Adam não respondia, prosseguiu: – Na minha opinião, estou apenas a remediar a confusão que provocaste na vida desta rapariga. Devias agradecer-me em vez de me ameaçares.

– Ofereci-lhe tudo. – Adam tentou insistir, embora soubesse que expressava uma mentira, pois a verdade é que praticamente não lhe oferecera nada.

– Não. Ofereceste-lhe umas voltinhas. Na cama dela, se bem te lembras, não na tua. Acho que ela não era suficientemente digna para partilhar a cama do grande marquês de Belmont.

– Que comentário desprezível!

– Porquê? Não é exatamente o que sentes? Exatamente o que sempre sentiste?

– Talvez no passado, mas deixei de pensar dessa maneira.

– Que conveniente! – exclamou Charles com uma pequena gargalhada. – Acho muitíssimo interessante que tenhas adotado essa grande mudança quando ela já não está disponível. Bem, por uma vez na vida, cabe-te aceitar o facto de que não podes ter tudo o que queres.

Adam ignorou o comentário ofensivo, desejando somente que Charles percebesse como era um parceiro inadequado para Maggie.

– Ela precisa de um marido a sério. Alguém que possa dar-lhe filhos.

– Vou dar-lhe filhos, se ela os quiser – mentiu, pensando no filho de Adam que já se desenvolvia no ventre de Maggie.

– Tu? – retorquiu Adam ironicamente. – Com a tua lesão?

– Tenho-me sentido melhor ultimamente – voltou a mentir. – Ela é bonita e muito meiga. – Extremamente sensível ante o insulto à sua virilidade, espicaçou Adam por sua vez. – Se ela precisar de cama, tenho a certeza de que estarei à altura do desafio.

Frente àquela rude observação, Adam explodiu:

– Não passas de um vigarista impotente. Como te atreves a pensar tocar-lhe com as tuas mãos imundas?

Vendo tudo vermelho à sua volta, Charles respondeu:

– Se decidir tocar-lhe, será com mais do que com as minhas mãos imundas.

– Canalha! – explodiu Adam com um frémito de raiva.

A ideia de Charles na cama com Maggie era a mais infame das traições, o pior dos insultos. Antes de tomar consciência do que fazia, cerrou o punho e disparou a mão direita. Charles não esperara a reação e recebeu o golpe em cheio na face esquerda. A cabeça descaiu-lhe para trás e foi de encontro a uma mesinha, deitando por terra chávenas e peças de porcelana que se estilhaçaram. Com a rapidez de um felino, estava de pé e disposto a responder na mesma moeda, o que fez no preciso momento em que ouviram o grito indignado vindo da ombreira da porta.

– Então, rapazes! O que é que… – Lavinia precipitou-se na sala com Hodson e vários criados nos calcanhares que logo se apressaram a separar os dois lutadores.

Ambos respiravam com dificuldade, sangravam e apresentavam nódoas negras e tinham as roupas rasgadas. Continuaram a lutar, mesmo com os braços imobilizados atrás das costas. Lavinia meteu-se entre os dois, apoiando a palma da mão no peito de cada um.

– Garanto que vocês parecem não ter amadurecido em nada desde os dez anos. A lutarem na minha sala como miúdos da rua! – Avaliou o filho com o olhar e disse: – Fica aqui! – Em seguida, dirigiu-se a Hodson, que continuava a agarrar Adam com mão firme: – Por favor, acompanha Lorde Belmont à porta.

O olhar que lançou a Adam indicou-lhe que não ia tolerar qualquer recusa. Ele soltou o braço de Hodson e saiu da sala para o hall de entrada, limpando o lábio ensanguentado com o antebraço. Ouviu os passos irritados de Lavinia atrás de si. Era uma mulher baixa, mas implacável quando a contrariavam.

Uma criada segurava à porta, dado todos os criados terem sido chamados para ajudar a pôr termo à altercação na sala de estar. Estendeu-lhe as coisas dele e Adam dobrou a capa sobre o braço. Lavinia parecia muito disposta a agarrá-lo e a pô-lo fora.

Embora soubesse que ela esperava que se afastasse e teria de obedecer, não conseguia que os pés se movessem. Sentia como se tivesse o coração estilhaçado em mil pedaços. A amizade de uma vida com Charles estava completamente afetada. A sua relação com Maggie terminara da maneira mais horrível. Tinha a certeza absoluta de que, se partisse nesse momento, nunca mais lhe seria dada uma segunda oportunidade de falar com ela, mas não havia qualquer maneira de pedir para a ver.

Sentindo-se quase a romper em lágrimas, fixou a tia com um olhar suplicante:

– Lamento muito, tia Vinnie.

– Acredito em ti, Adam, mas estou tão furiosa contigo neste momento que quero que te vás embora. Podes vir apresentar as tuas desculpas noutro dia quando todos estivermos mais calmos.

– Não queria que nada disto tivesse acontecido.

– Tenho a certeza de que o Charles também não queria. As suas emoções devem estar à flor da pele. Aconteceu-lhe tanta coisa ao mesmo tempo, com o seu casamento com Maggie e o novo bebé a caminho…

Aves calaram-se. Relógios pararam. Rodas de carruagem deixaram de girar. Bocas silenciaram-se. Pessoas estacaram. O próprio tempo pareceu parar.

Com uma calma de morte, Adam perguntou:

– O que disse?

Nessa altura, passos no corredor fizeram-no virar a cabeça. Avistou Maggie, de pé, com um raio de sol a iluminá-la através de uma janela. Desejou atacá-la, golpeá-la com palavras e as mãos. Uma vaga de fúria, maior do que sabia poder existir dentro de um homem, começou a formar-se e entendeu pela primeira vez como uma pessoa podia enraivecer-se o bastante para cometer um assassínio.

– É verdade? – sibilou.

– Adam… – Estendeu a mão num gesto de súplica.

– É verdade? – gritou ele.

Maggie encolheu-se. Nunca tinha querido que ele pudesse descobrir assim. Desejando acima de tudo poder mentir, mas sabendo que não podia fazê-lo sobre esse assunto, assentiu com a cabeça.

– Sim.

– Nunca te perdoarei por isso enquanto viver.