Meu Único Amor
Capítulo 6
James atraiu Anne de encontro ao corpo e beijou-a fogosamente. Vagueou as mãos pelos seus cabelos, os ombros, os braços e as costas. Baixando-se mais, agarrou-lhe as nádegas com as duas mãos e, movendo-se ao mesmo ritmo que a língua, acariciou-lhe o monte para trás e para diante com a sua excitada virilidade.
Anne gemeu quando James a empurrou contra uma árvore próxima. Depois de terem passado a noite a dançar e agarrados, ela não podia negar o desejo que brotava entre ambos. Precisando tanto quanto ele do contacto, deliciou-se na sensação provocada pelo membro volumoso contra o seu corpo.
As mãos masculinas soltaram-lhe o traseiro e ergueram-se para baixar o corpete do vestido, libertando os seios. Esfregou os polegares sobre os mamilos inchados. Afastando os lábios dos dela, tentou controlar a respiração enquanto aumentava a pressão, fazendo-a contorcer o corpo.
– É bom, não é? – indagou com uma risada.
– Já lá vai muito tempo.
– Para mim também. – Na verdade, embora convivesse regularmente com prostitutas e outras mulheres de reputação duvidosa, não se lembrava de quando uma mulher lhe havia despertado tamanho desejo. Roçando-lhe os seios com os lábios, sussurrou: – Oh, minha bela Annie.
A Lua iluminou os cabelos castanhos e Anne percorreu-os com os dedos, adorando a textura. Enquanto ele lhe chupou um mamilo e depois o outro, atraiu-o mais de encontro ao corpo, desejando mais sem nunca se fartar.
Ele traçou um caminho de beijos pelos seios, o pescoço, o queixo, até lhe mordiscar ao de leve o lábio superior.
– Quero-te, Anne. Mas não aqui, não desta maneira. Volta comigo para a estalagem. Sobe ao meu quarto quando todos estiverem a dormir.
O pedido não a surpreendeu. Afinal, ela era uma consorte experiente e já o fora desde os quinze anos. O que ele lhe tinha proposto era tão fácil de aceitar, mas hesitou:
– Oh, James, não sei bem…
– Diz que sim – murmurou, continuando a pressionar-lhe os mamilos. – Diz que vens ter comigo. Deixa que te ame na minha cama durante toda a noite. Quero abraçar-te até ao amanhecer e assistiremos juntos ao nascer do Sol através da minha janela.
Anne estava dividida. Queria aquilo mais do que qualquer outra coisa, mas tinha a certeza absoluta de que não ia trazer-lhe nada de bom.
– Não posso – suspirou.
– Porquê, amor? És viúva e eu sou um homem adulto. Só nós o saberemos. – De súbito, pousou-lhe a mão no ventre. – Se a tua preocupação é um bebé, prometo que terei cuidado.
Anne sorriu, encantada por ele se preocupar com uma coisa daquelas. Lembrava-lhe tanto o seu amado Stephen, de quem sentia saudades a cada momento do dia.
– Não se trata disso, embora esse pensamento tenha sido gentil da tua parte.
– Então o que é? Sei que me desejas tanto como te desejo a ti.
– Bom. Acredito que desejarias fazer amor comigo mais do que uma vez.
Com uma risada lasciva, James agarrou-lhe na mão e pressionou-a contra o seu membro.
– Acho que posso garantir um fantástico desempenho de inúmeros prazeres. Uma vez contigo não será decididamente bastante.
– Não era a isso que me referia – disse Anne sem conseguir reprimir um sorriso, mas ignorando como explicar-lhe, sem se denunciar. – Agradas-me, James. Sou incapaz de pensar em fazer amor contigo uma noite e nunca mais voltar a desfrutar da tua companhia. Ficaria demasiado magoada.
Ao ouvir as palavras, James parou o movimento sexual das ancas, fitando-a intensamente.
– Não tem de ser apenas uma noite.
Anne estava certa de que ele se dispunha a dizer coisas que não tencionava cumprir, talvez promessas sussurradas de amor e de compromisso a fim de levá-la para o quarto. Pousou-lhe os dedos nos lábios para o silenciar.
– Por favor, não me digas nada que não seja verdade, James. Sei quem és e, portanto, compreendo quão limitado o nosso envolvimento teria de ser.
– De que estás a falar?
– Sei que não és James Carrington. És James St. Clair e o teu irmão é Adam St. Clair.
– Mas isso significa… – Olhou através das árvores na direção do celeiro, questionando-se imediatamente sobre se elas estariam a planear um esquema contra Adam.
Anne colocou a mão no peito dele.
– Não estejas tão preocupado. Não revelei a Maggie quem ele é.
– Porque não?
– Porque queria que ela vivesse o seu primeiro romance. Sentem-se muito atraídos um pelo outro e temi que, se ela conhecesse a verdadeira identidade de Adam, optaria por ignorá-lo.
Incrédulo, James ergueu uma sobrancelha com ar de mofa.
– Ao famoso marquês de Belmont? Absurdo.
– Não tanto. Ela foi tratada de uma forma bastante abominável por alguns dos vossos iguais – redarguiu, pensando no pai de Maggie, o duque de Roswell. – Acredita realmente que Adam é Aston Carrington, o assistente de um cavalheiro de Portsmouth. Se soubesse a verdade, não estou certa de que desejasse conhecê-lo melhor.
– Isso é novidade. Todas as mulheres de Londres atiram-se-lhe aos pés. Tem sido uma época muito cansativa.
– É por isso que estão aqui?
– Sim, fugimos como dois rapazinhos malcomportados e revelou-se a melhor das ideias. Há anos que não via Adam tão feliz nem tão descontraído.
– Também foi bom para a Maggie saber como pode ser estar com um homem. A mãe e eu tentámos explicar-lhe muitas vezes, mas é difícil compreender até que aconteça.
Anne estremeceu ligeiramente sob o ar frio da noite e James inclinou-se para a envolver nos braços, acariciando-lhe as costas.
– Fazem uma dupla estranha, Anne Porter. Não te preocupa que ela regresse a casa com o coração despedaçado?
– Ela é mais forte do que parece e sabe melhor que ninguém o que na realidade se passa.
– E o que se passa?
– Ele está simplesmente a divertir-se com ela até encontrar algo melhor com que se entreter – respondeu sem pestanejar.
James tinha dificuldade em negar.
– Achas que é o que estou a fazer contigo?
– É exatamente o que estás a fazer comigo. – Para minorar o aguilhão das palavras, pois não pretendera ser tão severa, ergueu-se e beijou-o ao de leve nos lábios. – Contudo, sejamos francos, por favor. É por isso que não posso deitar-me contigo. Desejaria mais do que alguma vez podias dar-me; sinto-o no íntimo e recuso começar algo que não podemos terminar.
– Mas, Annie, não sou o Adam. Posso estar com qualquer mulher que desejar. Não há nenhum motivo para que não te visite quando regressarmos a Londres.
– Há todos os motivos.
– Cita um.
Com muita suavidade, afastou os braços masculinos que a rodeavam e voltou a enfiar os seios no vestido. Sem dúvida que ele não desejaria continuar a vê-la quando soubesse que género de mulher era realmente e detestava ter de admiti-lo. Esperava que apenas ficasse com boas recordações a seu respeito quando se separassem no final das férias.
– Não te questionas sobre como sei quem és?
– Sim, na verdade. Não me lembro de alguma vez nos termos encontrado.
– Encontrámo-nos. Uma única vez. Foi num baile organizado pela tua tia Lavinia quando o teu primo Charles fez vinte e cinco anos. Estive presente com um grande amigo meu, Stephen Frasier…
– Já me lembro! – exclamou James. – Levavas um vestido verde-escuro de veludo. Com enfeites de ouro aqui e aqui – disse, passando-lhe a mão pelo peito e os ombros – e tinhas o cabelo mais comprido do que agora, apanhado ao alto. Estavas tão bonita. Senti ciúmes dele durante toda a noite – acrescentou, brincando com uma madeixa do cabelo dela. – Como conheceste o Stephen?
– Já disse que era um bom amigo. – Esperou que a declaração assentasse, mas não pareceu resultar, e prosseguiu: – Um muito, muito bom amigo.
– Eras companheira dele?
– Mais do que isso.
– Amante?
Anne esboçou um breve aceno de cabeça e ele acrescentou:
– Agora lembro-me que tinha ouvido dizer que ele mantinha alguém. Mas o que te leva a pensar que tal me incomoda?
– Porque ele não foi o único. Envolvi-me pela primeira vez com um cavalheiro aos quinze anos. Existiram vários desde então.
Baixou os olhos para o chão, irritada consigo mesma por ter vergonha do seu percurso de vida. Fizera as únicas escolhas disponíveis na altura e não estava disposta a justificar-se ou desculpar-se por elas. Um homem na posição de James jamais entenderia.
– Estou a perceber – declarou num tom tenso, indignado por terem passado quase dois dias maravilhosos juntos e ela haver mentido sobre tudo. O facto de também ter mentido foi facilmente esquecido na sua apressada tentativa para se convencer de que ela não passava de uma prostituta bem paga. – Anne Porter é o teu nome verdadeiro?
– Sim. – Anne apercebeu-se pelo tom de voz que ele estava irritado, mas recusou sentir-se envergonhada pelo passado, sobretudo quando a levara a Stephen e ao grande amor que haviam partilhado. – Mas agora percebes porque não posso ir para a cama contigo.
– Na verdade, não. Parece ser esse o teu apelo de vida, erguer as saias a qualquer homem que tenha dinheiro suficiente para te tentar. – Sem saber o que lhe passara pela cabeça, pois não fazia simplesmente parte da sua natureza ser indelicado para uma mulher, sentia-se enfurecido com o pensamento de imaginá-la com outros homens, mesmo com alguém que conhecera e de quem gostara como Stephen Frasier. Desejava atacar e fê-lo. – A situação ficaria mais agradável se te pagasse?
Anne recuou como se a tivesse esbofeteado.
– Não te armes em canalha comigo, James St. Clair. Fui maltratada por gente superior da tua laia e não estou disposta a suportar. – Virou-se, compondo o vestido e o cabelo, ocultando as lágrimas do seu olhar avaliador. Depois de controlar as emoções, fitou-o novamente. – O que tencionava dizer era que não podia ir para a cama contigo porque acreditava que podia apaixonar-me por ti, se o fizesse. Vejo que estava enganada. Seria incapaz de desenvolver qualquer tipo de ternura por um idiota como tu.
Sem esperar por resposta, dirigiu-se ao pátio da propriedade.
– O que estás a fazer? – perguntou Adam ao irmão quando ele entrou no quarto através da porta de comunicação. Tinha a mala pronta e o jovem empregado do estábulo trouxera os cavalos até à porta lateral da estalagem. Era inútil atrasar a partida um instante mais que fosse.
– Estou a escrever um bilhete a Anne Porter.
– Para quê?
– Para me despedir.
– Pedi-te que não o fizesses – ripostou Adam que queria partir com o máximo de discrição.
– Eu sei, mas devo-lhe uma desculpa. Disse-lhe uma coisa horrível na noite passada.
– Interroguei-me sobre a tensão entre vocês durante o regresso a casa. Julguei que estavam a dar-se muito bem.
– Estávamos, mas depois portei-me como um perfeito idiota.
– Mesmo assim, James, de que serve isso? Nunca mais a verás.
– E daí? Sempre me orgulhei de ser um cavalheiro. Não posso ir embora sem lhe dizer que lamento e tenho vergonha de admitir que sou demasiado cobarde para a enfrentar – disse James, erguendo os olhos da mesa onde escrevia. – E tu? Vais-te embora sem deixares uma palavra a Maggie?
Adam encolheu os ombros, tentando parecer indiferente enquanto percorria com os dedos uma pequena estatueta pousada no parapeito da janela.
– O que poderia dizer-lhe?
– Que tal qualquer coisa que tornasse a tua despedida menos dura? Que foste obrigado a ir embora? Que lamentas partir tão rapidamente, mas tem mesmo de ser, e que adoraste conhecê-la?
– Não. Ela perguntaria o que me obrigava a ir embora e teria de inventar qualquer história. Já lhe menti o suficiente.
Olhando através da janela, fixou demoradamente as ondas azuis que se desfaziam lá em baixo, na praia. O que não daria para poder ficar até aos últimos dias de férias de Maggie, mas não podia. Haviam começado a surgir problemas na noite anterior depois de regressarem ao celeiro. Deixara-a sentada num banco enquanto tinha ido à procura de James e de Anne para saber se estavam prontos para ir embora.
Enquanto caminhava por entre a multidão, fora de encontro a um convidado do casamento que conhecia, um rico comerciante que se encarregava de alguns dos negócios de transporte por barco da família St. Clair. O homem estava acompanhado de duas filhas solteiras e Adam teve, obviamente, de suportar as apresentações. Quando se foi embora de braço dado com Maggie, sentiu o zumbido da multidão, dado a sua identidade ter passado rapidamente de boca em boca.
Nessa manhã, quando Adam desceu para comer na sala de jantar da estalagem, o escudeiro local estava presente com a sobrinha a reboque. Seguiram-se mais apresentações e um convite para tomar o pequeno-almoço na companhia do grupo do escudeiro, o que lhe foi impossível recusar por delicadeza. Consequentemente passara quase uma hora a ser bombardeado sobre as qualidades da sobrinha do indivíduo.
Os seus sentimentos por Maggie eram confusos e estranhos, mas de uma coisa tinha a certeza: não queria magoá-la. Se estivesse sentada ao lado dele e ouvisse tratarem-no pelo seu verdadeiro nome ou título, o que iria pensar? Como reagiria se, durante os dois últimos dias da sua estada, encontrassem um pai afetuoso que desejava apresentar a filha? Que explicação daria Adam sobre o que estava a acontecer? O que diria Maggie se fosse subitamente confrontada com a fria e dura realidade de que ele lhe mentira a respeito de tudo?
Era indubitavelmente melhor deixá-la regressar a Londres e à vida que levava lá com as suas recordações e sentimentos intactos. Era o desejo de uma sua parte egoísta, o de saber que Maggie sempre o recordaria carinhosamente. Tratava-se de uma saída de cobarde, mas não conseguia pensar numa maneira melhor de colocar ponto final no assunto.
– Ela é terrivelmente jovem, Adam – vincou James. – Não achas que ficará magoada se desapareceres sem uma palavra de despedida?
– A despedida magoá-la-á mais.
– Mas não gostarias de vê-la novamente? Pensei que talvez pudesses explicar-lhe a verdadeira situação, pedir-lhe desculpa. Depois, podias continuar a vê-la em Londres.
– Com que finalidade?
James sacudiu a cabeça ante a estupidez do irmão.
– Simplesmente porque te faria feliz. Precisas de um motivo melhor?
– És um romântico, James. Sabes bem que, em boa consciência, não poderia inundá-la de atenções. Ela possui sem dúvida a beleza e o porte para se enquadrar na alta sociedade, mas é inocente. Se aparecesse em público de braço dado comigo, seria engolida pelo vendaval de atenções que me segue. As mulheres do nosso círculo iriam comê-la viva e no fim acabaria por ser humilhada. Nunca poderia oferecer-lhe um envolvimento emocional sério, que é o que ela deseja. E o que merece.
– Já lhe perguntaste o que ela quer? Talvez goste de ti o suficiente para lidar com algumas coisas más e assim desfrutar de algumas boas.
Adam tinha pensado nisso, mas não se atreveu a perguntar-lhe.
– Ela é jovem, James. Demasiado jovem para saber o que quer ou avaliar as circunstâncias com realismo. Poderia pensar na eventualidade de um romance inocente, mas sabes que isso seria impossível com alguém como ela. Na presente situação, já se imagina semiapaixonada por mim. – Adam não ousou admitir, nem para si mesmo, que também ele nutria esse mesmo sentimento por ela. – E não posso fazer algo que piore a situação. Já me aproveitei o suficiente da sua ingenuidade.
– Então, torna-a tua amante. Conserva-a ao teu lado.
– Sabes que nunca faria uma coisa dessas à nossa mãe ou à minha futura noiva.
– Pior para ti.
Adam permaneceu em silêncio.
– Vamos embora. Quero estar longe daqui, antes que me ponham a filha de mais alguém na frente.
Anne respondeu à pancada na porta do quarto que ela e Maggie partilhavam. Deparou com um dos filhos do dono da estalagem que trazia um bilhete selado na mão. Com um sorriso delicado, aceitou a missiva e fechou a porta.
– O que é isso? – perguntou Maggie do outro lado do quarto, onde praticava o andar de um lado para o outro, coxeando e apoiada na bengala que Aston lhe dera de presente.
Anne franziu a testa quando quebrou o selo com o polegar e deparou com a assinatura rabiscada a negro na parte inferior.
– É do James – respondeu. Com essa breve explicação, atirou-o, sem o ler, para cima da pequena secretária.
Maggie observou-a com uma expressão crítica. Anne mantivera-se extremamente silenciosa desde que haviam abandonado o baile e Maggie preocupara-se em deixá-la cismar sobre o que quer que tivesse acontecido. Não era preciso ser um génio para saber que se relacionava com James.
– Não estás um pouco curiosa? – inquiriu suavemente.
– Não. Não tenho a mínima vontade de ouvir algo que o homem tenha a dizer.
Maggie assentiu pensativamente com a cabeça.
– Pois eu morro de desejo de saber o que ele escreveu. Importas-te?
Anne não respondeu e dirigiu-se silenciosamente até à janela, onde permaneceu enquanto Maggie perscrutava o conteúdo do curto bilhete.
– Ele diz que lamenta muito e que teve um comportamento abominável – informou, olhando para o canto oposto do quarto na direção dos ombros rígidos de Anne, mas não obteve qualquer informação. – Pede perdão e espera que se alguma vez te voltar a encontrar consigas dizer que lhe perdoaste.
– Nem em sonhos – murmurou ela.
– Ele parecia tão simpático, Annie. O que fez?
– Nada, à exceção de revelar a sua verdadeira personalidade. É uma cobra desprezível. – O pensamento de que ele tentara desculpar-se com um miserável bilhete quase fez com que se descontrolasse. – O que mais escreveu esse filho da mãe?
– Diz… que eles voltaram para… Londres.
– Boa viagem para ambos – resmungou Anne entre dentes. – Já temos suficientes problemas sem que gente da sua laia se intrometa nas nossas vidas.
– Julguei que eram de…
– Portsmouth? – Anne olhou por cima do ombro para o rosto confuso e estupefacto de Maggie. – Não. São de Londres.
– Mas porque iriam mentir sobre uma coisa dessas?
– Porque nos consideram tão abaixo da sua elevada posição – respondeu num tom amargo – que não queriam que soubéssemos quem são.
– Julguei que eram Aston e James Carrington.
Anne suspirou e sentou-se na cama. Tencionara dar a notícia a Maggie suavemente e não que ela a soubesse daquela maneira. Talvez depois de as férias terem terminado e de o seu primeiro amor haver partido há muito. A última coisa que Anne queria era despejar toda a sua raiva em Maggie, mas ainda se sentia tão irritada pelo comportamento de James que precisou de um esforço extra para se acalmar.
Fez sinal à amiga para que se sentasse na cadeira ao lado da cama e Maggie obedeceu.
– Eles são Adam St. Clair e o seu irmão mais novo, James. Adam é o…
– O marquês de Belmont? – interrompeu-a Maggie. – Esse tal Adam St. Clair?
– Receio bem que sim.
– Tens a certeza?
– Sim.
– Há quanto tempo o sabes?
– Bom. Senti-me curiosa no primeiro dia quando Adam te levou lá para cima após teres ferido o pé; parecia-me tão familiar. Contudo, soube quando conheci James. Ele tinha sido colega de escola de Stephen e encontrei-o uma vez numa festa.
– Porque não disseste nada?
– Porque tu e o Adam começaram logo a entender-se muito bem. Queria que te divertisses. Achei que, se soubesses a sua verdadeira origem, não lhe darias atenção. Desculpa – acrescentou, estendendo a mão a Maggie. – Lamento. Pensei que era importante manter o segredo deles.
Maggie queria zangar-se com Anne, mas não conseguiu. Anne tentava sempre fazer tudo pelo melhor, a ponto de ter comprometido o próprio futuro ao permanecer junto de Rose para cuidar dela até ao final. Maggie inclinou-se para diante e aceitou a mão de Anne, dando-lhe um aperto de encorajamento.
– Não estou zangada. Pelo menos, não contigo. – Releu o bilhete e também se sentiu prestes a explodir, como acontecera a Anne. – Esses canalhas! Divertindo-se connosco e depois fugindo de noite como dois ladrões! Porque teriam agido dessa maneira?
– São esse tipo de pessoas. Há muitos homens da classe deles que são verdadeiros cavalheiros, mas para cada um existe uma dúzia de canalhas.
– Mas os dois pareciam tão sinceros.
– Claro que sim. São mestres em dizerem uma coisa e pensarem outra. Não conhecem outra forma de vida. Pensa no teu pai e no que ele fez a Rose.
Os sentimentos de Maggie entraram em conflito e não conseguia decidir se estava mais triste ou irritada. Embora soubesse que estava destinada a ficar com o coração despedaçado dali a dois dias quando ela e Anne partissem para Londres, pensara que isso se deveria às saudades de Aston – não, Adam. Não esperava… aquela… aquela deceção e intriga.
Virou e revirou o bilhete de James na mão.
– Do que estás à procura? – inquiriu Anne.
– Pensei que talvez… – Sentiu-se envergonhada por levar Anne a perceber até que ponto era ingénua. Acreditara em tudo o que Adam lhe tinha contado. – … Bem, talvez tivesse acrescentado uma nota ou algo para mim. Mas não o fez – concluiu, ruborizada.
Fora tudo uma mentira. Inocente como era, desejava convencer-se de que apenas a sua origem e o nome haviam sido forjados; de que o apego emocional que sentira por ele tinha sido real. Todavia, sabia que tudo era falso, cada pedaço, até mesmo o pseudo afeto. Como devia ter rido com as suas tolas declarações românticas!
– Lamento, Maggie – disse Anne. – Nunca quis que tudo acabasse assim.
– Eu sei. Só que… Céus! E pensar que estive quase a dormir com o indivíduo.
– A sério?
– Sim. Na noite passada. Praticamente atirei-me a ele.
– Porque não foste até ao fim?
Anne ficara tão consternada quando eles haviam chegado a casa depois do baile que Maggie não tivera oportunidade de discutir os acontecimentos da noite. Fitou Anne com um olhar triste.
– Ele rejeitou-me.
– Talvez, no fundo, ainda exista um resquício de consciência sob aquele duro exterior.
– Duvido. Ele deve ter o seu tipo de mulher. O que faria com alguém como eu? A ideia de uma virgem inexperiente provavelmente aborrecê-lo-ia de morte.
De súbito, os olhos encheram-se-lhe de lágrimas. Conhecê-lo significara algo para ela. O facto de não haver sido correspondida era a pior humilhação possível.
– Sei que agora te sentes confusa e magoada. – Anne levantou-se da cama e dirigiu-se à cadeira, ajoelhando-se ao lado dela. – Contudo, recebeste uma boa lição.
– Sim, é verdade. Agora, odiarei todos os homens para sempre.
– Nada disso, pateta – riu Anne. – Precisas de fazer as escolhas certas. O homem certo aparecerá. Apenas tens de pôr de lado todos os canalhas antes de o encontrares.
– Sinto-me tão infeliz.
– Eu sei, mas vai passar. Dá tempo ao tempo. Entretanto, só nos restam dois dias das nossas férias e recuso permitir que eles os estraguem. O que gostarias de fazer hoje?
– Não tinha pensado nisso. Dás-me uns minutos?
– Claro. – Anne deu-lhe uma palmadinha no joelho e levantou-se. – Acabei de me lembrar… Preciso de fazer a nossa reserva para o jantar. Vou descer e volto já.
Maggie esboçou-lhe um leve sorriso enquanto Anne saiu do quarto e apreciou a oportunidade de ficar só. Examinou novamente a carta de James e em seguida avançou a coxear até à janela e olhou para fora. O sol brilhava intensamente. As ondas, azuis e convidativas, quebravam-se lá em baixo, mas ela quase nem reparou. O dia parecia-lhe cinzento e triste.
Beijou as pontas dos dedos e acenou-os na direção da estrada que nesse preciso momento devolvia Adam à sua vida real em Londres.
– Sentirei a tua falta. Todos os dias e para sempre – jurou.
Depois virou-se e compôs um sorriso nos lábios. Quando Anne regressasse ao quarto, decidira parecer feliz para que a amiga não soubesse até que ponto o seu coração estava despedaçado.