Meu Único Amor
Capítulo 12
Maggie passeou o olhar pelo ambiente familiar do quarto da sua casa de infância. Muitas coisas estavam diferentes, mas muitas permaneciam as mesmas, como se Adam, nas suas renovações, soubesse exatamente o que ela desejaria guardar e o que deitar fora.
Lar, doce lar.
Melhor era impossível.
Antes de sair do bordel, Adam tinha enviado um mensageiro na frente, com instruções para o pequeno grupo de criados. Quando a sua carruagem parou à porta dela, os candeeiros estavam acesos, as lareiras flamejantes e um banho quente aguardava-a diante da pequena lareira do seu quarto.
Uma jovem, praticamente da idade dela e que se apresentou como Gail, era a sua criada pessoal. Despiu-a com eficiência e ajudou-a a entrar na água fumegante, o que foi muito bom. Os braços e as pernas de Maggie pareciam ter deixado de funcionar.
Gail lavou-lhe o corpo, em seguida o cabelo, que enxaguou e secou, passando a escova pelas longas extremidades que colocou sobre a borda da banheira para que pudessem secar diante do fogo. Só quando a criada achou que todos os vestígios do calvário haviam sido suficientemente lavados é que Maggie obteve permissão de mergulhar sozinha.
Suspirando de alívio, afundou-se na banheira fumegante e fechou os olhos para absorver melhor o prazer. Doíam-lhe todos os músculos do corpo, a cabeça latejava fortemente e ardia-lhe a face onde o homem chamado Harry a esbofeteara. O banho era exatamente o que precisava, mas o bem-estar proporcionado foi temporário, pois Adam apareceu uns minutos depois de Gail se ter ido embora.
Não haviam trocado uma palavra desde o abandono do bordel. A viagem na carruagem decorrera num ambiente tenso e o silêncio apenas fora quebrado por James e Charles, ao dirigirem-se ocasionalmente a Anne. Nenhuma das mulheres se entreolhara durante o percurso de regresso à casa de Mulberry Street, como se fossem duas crianças desobedientes apanhadas a praticar qualquer maldade terrível.
Era difícil saber o que Adam pensava enquanto se mantinha de pé, em silêncio, bebendo o conhaque em pequenos goles. Maggie supôs que devesse estar a refletir no futuro. Teria todo o direito de pô-las fora de manhã, livrando-se delas, mas sentia-se demasiado cansada para se preocupar com o que aconteceria a seguir.
Como estava cansada, Deus do céu! Cansada do trabalho duro, cansada da sua sorte, cansada de estar sozinha, sem ninguém a quem recorrer quando precisava de ajuda, cansada de tudo. Sabia-lhe tão bem estar de volta a casa onde se sentia sã e salva. Não queria sair dali nunca mais.
Adam esvaziou o copo e reparou que as mãos ainda lhe tremiam. A partir do momento em que ouvira o seu grito assustado quando percorria o corredor do bordel, soubera que era ela. Sem pensar um segundo para medir as consequências, tinha arrombado a porta. Vê-la nos braços daqueles dois canalhas tinha sido a coisa mais horrível que alguma vez testemunhara.
Conhecia o par: tratava-se de dois canalhas que viviam da caridade de parentes afastados, sempre com problemas devidos ao jogo e ao álcool. Tinha adorado o som de carne e de ossos triturados. Desde os vinte e dois anos que não participava numa boa briga numa taberna das docas, com James e Charles ao lado dele.
Maggie também estava a tremer, tinha uma nódoa negra na face onde um deles lhe batera e Deus sabe quantas outras lesões ocultava debaixo de água. Pálida e frágil, assemelhava-se a uma bonita boneca prestes a quebrar-se em mil pedaços.
Não sabia muito bem como fazer a pergunta, mas precisava de saber.
– Eles…? – A voz ecoou muito alto no quarto silencioso. Ela já estava corada da água quente e aquela pergunta contribuiu para lhe avermelhar mais o rosto.
– Não – respondeu, baixando os olhos de vergonha. – Não, não tiveram tempo suficiente.
Aproximando-se da banheira, examinou-a. Os seios eram totalmente visíveis e a água embatia contra os mamilos róseos. Mais abaixo, conseguia divisar a sombra do monte de Vénus, o que despertou a sua virilidade. Raios! Ela tinha sido atacada, quase violada, atormentada, estava esgotada de cansaço, mas ele desejava-a. Seria sempre assim no que lhe dizia respeito.
– Porque te foste embora?
A pergunta queimara-lhe o interior durante dias e semanas a fio, impedindo-o de se concentrar e enervando-o.
– Tinha de ser.
Estava tão exausta que não concebia a ideia de discutir nada importante, mas supunha que ele não iria parar até obter as respostas pretendidas. Então, talvez pudesse fechar os olhos e isolar-se do mundo durante algumas horas.
– A ideia de partilhar a minha cama era assim tão horrível que preferiste trabalhar num bordel?
– É o que achas?
– Que mais devia achar?
– Não compreendes nada.
– Não, não compreendo. Olha para as tuas mãos. – Meteu a mão dele na água e puxou uma das dela para fora, pingando e molhada. Esfregando o polegar na palma, virou-a para cima e examinou a pele avermelhada. Dantes, as mãos dela eram macias e perfumadas. Agora, estavam ásperas e calejadas, com as unhas falhadas e quebradas. – O que te passou pela cabeça para fazeres algo tão imprudente? Preferias trabalhar como escrava? Ou correr risco de vida nas ruas? Ofereci-te tudo o que poderias desejar ou precisar, portanto, tens razão: não compreendo.
– O que me ofereceste? – O lábio inferior começou a tremer-lhe, mas prendeu-o com os dentes. Respirando fundo, acrescentou: – Algumas voltas rápidas? Uns vestidos e bijutarias?
– Não esqueças um teto sobre a cabeça e comida na mesa.
– Oh, sim. Não esqueçamos isso. E por quanto tempo? Um mês? Dois? Seis? Quais eram os teus planos para mim depois disso? Impingires-me a um dos teus amigos? Talvez casar-me com um dos teus criados?
Adam não tinha resposta. Quando a levara do baile naquela noite, não lhe restara tempo para ponderar no seu futuro. No mês anterior, dissera para si mesmo que por essas razões fizera muito bem em livrar-se dela.
– Trataste-me como a uma prostituta – continuou, precisando de expressar o seu desgosto em voz alta. –
Na minha própria casa, onde vivi toda a vida com a minha mãe. E disseste… disseste – acrescentou, engolindo um soluço – que se ficasse grávida te envergonharia. Os teus próprios filhos seriam uma vergonha aos teus olhos.
Todo o sangue afluiu ao rosto de Adam. De humilhação e arrependimento. Sabia que ela estava a dizer a verdade relativamente às suas palavras, mas reformulara as recordações dessa noite para fingir que nada se passara dessa maneira. Contudo, tinha sido assim e as suas palavras duras haviam-na enviado para as ruas, à procura de sustento e de abrigo.
– Não sei o que mais dizer, senão que lamento. – Estendeu a mão e pousou-a em cima da cabeça dela. – Sei que não há desculpa por deixar escapar essas palavras, mas nessa noite estava furioso e confuso e é a única explicação que consigo dar. Espero que me perdoes.
O seu pedido de desculpa foi comovente e gentil e Maggie tinha a certeza de que não o fizera muitas vezes na vida, mas, sob as camadas de fadiga e de vergonha, sentiu-se a arder de uma raiva profunda. Contra Adam. Contra o seu pai. Contra George Wilburton. Contra a mãe por ter morrido. Contra a sua meia-irmã Penelope, que tinha tanto e ela tão pouco.
Baixou os olhos para a água e sussurrou:
– Mereço alguém melhor.
Adam ergueu um dos cantos da boca num sorriso. Nunca tinha sido tão insultado nem colocado no devido lugar em toda a sua vida, mas era difícil ficar enraivecido quando merecia cada palavra.
– Tens razão – concordou. – Mereces alguém muito melhor do que eu. Mas, por agora, sou tudo o que tens. Vais deixar que cuide de ti?
– Não sei. Estou tão cansada.
– Promete-me apenas que ficarás aqui. Que ficarás onde sei que te encontras segura. – Ajoelhou-se junto à banheira, voltou a retirar-lhe uma das mãos de dentro de água e apertou-a. – Vamos resolver tudo, Maggie. Juro-te.
A jovem sentia-se demasiado cansada para pensar, discutir ou ir embora. Demasiado cansada para fazer algo que não fosse simplesmente ficar. Esboçou um aceno de concordância e deixou que a couraça se quebrasse. Uma lágrima escorreu-lhe pela face, seguida de outra. Antes que pudesse controlar-se, as lágrimas fluíram em torrente, caindo na água.
– Oh, pequenina… não faças isso… não chores – incitou suavemente. – Aquele pedido só fez com que chorasse ainda mais. Sem saber o que fazer, pôs-lhe um braço à volta do ombro. Com um puxão atraiu-a a si. Ela resistiu por um momento, e, em seguida, necessitada de conforto, virou-se e os braços dele encheram-se com uma mulher molhada, ardente e nua. Acariciou-lhe as costas macias, sussurrando: – Tudo correrá bem, prometo. Limita-te a descansar e deixa tudo ao meu cargo.
Por fim, as lágrimas pararam. Adam descobriu um pano dentro de água, torceu-o e esfregou-lhe a face. Não falaram; a troca de palavras parecia inútil. De qualquer maneira, Maggie estava demasiado cansada para qualquer diálogo.
Gail meteu a cabeça na porta, erguendo uma sobrancelha para o marquês, numa pergunta silenciosa. Ele acenou-lhe e ela entrou, dirigindo-se à banheira, segurando uma toalha grande e macia.
– Vamos meter-te na cama, pequenina – disse Adam meigamente.
Maggie dificilmente poderia contestar e ele pegou-lhe nas duas mãos e ajudou-a a levantar-se.
Gail enxugou-a com rapidez e eficiência antes que a pele arrefecesse, depois enfiou-lhe uma camisa de algodão branco pelos ombros e alisou-a. Era uma peça de roupa simples, macia e cómoda, com borboletinhas bordadas no corpete, e uma fita rosa formando um arco perfeito no pescoço. Assim vestida, Maggie parecia bonita, jovem e acabada de sair do banho. Muito semelhante a uma virgem na noite de núpcias. Gail puxou a roupa da cama para trás e Adam ajudou Maggie a sentar-se. Em seguida, os dois aconchegaram-na e ela adormeceu, mal pousou a cabeça na almofada.
Adam virou-se para Gail.
– É tudo por esta noite. Informo-te quando estivermos prontos para tomar o pequeno-almoço. Talvez seja tarde. Diz ao cozinheiro.
– Com certeza, milorde – anuiu num tom calmo. Embora fosse jovem, trabalhara a maior parte da vida na casa dele. Se pensava algo sobre o que havia testemunhado durante a noite, ou sobre o facto de ele estar prestes a passar a noite no quarto de Maggie, teve o bom senso de não deixar transparecer o mínimo indício no rosto. – E a banheira, milorde? Mando-a tirar?
– Não te preocupes. Alguém pode vir buscá-la de manhã. Não quero acordá-la.
Com um último sorriso apropriado ao seu novo cargo, fez uma pequena vénia e saiu.
Adam tirou lentamente a roupa, demorando-se em cada peça, adiando o momento em que deslizaria para debaixo dos cobertores. Provavelmente devia portar-se como um cavalheiro. Devia sair do quarto, abandonar a casa, ir para a dele. Contudo, o âmago da questão residia em que não era capaz de se afastar. Pela primeira vez na vida, desejava abraçar, acalmar e cuidar de outra pessoa. Coisas que nunca até esse momento fizera por uma mulher.
Estendeu-se ao lado dela, deslizando um dos braços por baixo da cabeça e rodeando-lhe a cintura com o outro. Como se tivesse estado a aguardá-lo, Maggie mexeu-se, pressionou as nádegas contra a sua virilha, dobrando as pernas e colocando-se na posição de colher. Roçando-lhe os cabelos, Adam deliciou-se com o perfume e o toque feminino enquanto se interrogava e deixava arrebatar pelas sensações despertas pelo simples ato de abraçá-la.
Anne sentou-se no banquinho diante do toucador do seu antigo quarto. Embora o verão fosse adiantado, a noite estava fria e normalmente estaria gelada nesse momento. Que apetecível mudança ter carvão em abundância para o pequeno fogão. As chamas ardiam vivamente na lareira, acesa pelos criados antes da sua chegada, e estava sentada quase nua, vestida apenas com uma fina camisa de noite, sentindo a pele ainda quente devido ao banho fumegante que acabara de tomar. O calor era um luxo inacreditável.
Estava indubitavelmente preparada para o descanso de que usufruiria por ter alguém a cuidar dela durante algum tempo. Mas até quando?
«E agora?», pensou.
James tinha dito que ela podia ficar, mas não dava muito crédito às promessas dele. Os cavalheiros ingleses com quem convivera ao longo dos anos passavam o tempo a gabar-se da sua honra e do valor da palavra que, a seu ver, não valiam muito quando as apostas eram elevadas. Haviam-lhe feito juras para depois as quebrarem mais vezes do que poderia contar.
Soou uma pancada na porta e julgou tratar-se de uma das criadas que vinha verificar como ela estava, antes de apagar as luzes para se deitar. Era estranho dispor novamente de pessoas por perto depois de ter passado tanto tempo sem a presença delas, mas também era bom. Era bom sentir-se cuidada. A criada que a servira e a ajudara a tomar banho, escovou-lhe o cabelo, colocou a roupa de dormir em cima da cama e Anne deixara-a ocupar-se de tudo, nada mais desejando do que repousar e pensar.
– Entra – disse baixinho.
A porta abriu-se e fechou-se e Anne olhou por cima do ombro e ficou perplexa ao deparar com James. Julgara que ele se fora embora há muito tempo na companhia de Charles, que partira logo a seguir a ela e Maggie terem regressado a casa.
– Julguei que tinhas ido embora com o teu primo.
– Não. Primeiro queria desejar uma boa noite. – De súbito, parecia tímido. – Posso entrar um momento?
Anne assentiu com a cabeça e fez um gesto na direção da cama. Era um quarto pequeno e não havia mais nenhum lugar para ele se sentar. James empoleirou-se na beira, ela virou-se para o fitar. Os joelhos de ambos distavam uns meros centímetros. Ponderou em deixá-lo ficar sentado até ele arranjar coragem de dizer o que quer que tivesse vindo dizer, mas ele parecia tão pouco à vontade que decidiu mostrar-se piedosa.
– O que se passa?
– Estava apenas a pensar… Perdoaste-me? Pelo que aconteceu entre nós durante as férias, quero dizer?
– São águas passadas, James – respondeu com um gesto desdenhoso da mão. – Além disso, é difícil ficar zangada, quando tudo o que disseste a meu respeito é verdade. Sou uma prostituta. E sempre o fui desde que os meus pais morreram, quando tinha quinze anos. Ganhei mais dinheiro umas vezes do que outras, mas continuo a ser uma prostituta.
– Não é essa a minha opinião a teu respeito.
– Agradeço a gentileza, mas os factos falam por si.
James estendeu o braço e agarrou-lhe na mão.
– Charles disse que Stephen te tinha deixado algum dinheiro. O que lhe fizeste?
– Bem, ele garantiu-me sempre que cuidara do meu futuro, portanto, quando morreu, fui ter com o irmão e ele respondeu que Stephen não o fizera. Acrescentou que se tentasse negá-lo, ele diria que algumas das joias da mulher haviam desaparecido e que eu as roubara.
– Céus! Conheço o Frasier. Não consigo acreditar que tenha feito uma coisa dessas.
– É o que aconteceu – redarguiu Anne, soltando a mão. – Pouco me importa que acredites ou não.
– Entendeste mal, Anne. Apenas pretendi dizer que não acreditava que ele te fizesse algo tão desprezível, sobretudo quando era tão óbvio que Stephen gostava tanto de ti.
– Também gostava dele. – Anne engoliu em seco, sem vontade nem capacidade para continuar a discutir Stephen por mais tempo. Os olhos encheram-se-lhe de lágrimas enquanto admitia: – A vida tem sido difícil desde então. Se Rose e Maggie não me tivessem acolhido, não sei qual seria o meu destino.
– Ou talvez saibas – retorquiu ele suavemente e Anne ergueu o rosto para o fitar, ambos conscientes de quanto ela tivera de descer na tentativa de se aguentar.
– Sim – concordou num tom fatigado. – Talvez saiba. É um mundo difícil lá fora. Para pessoas como eu.
– Sei disso. Muito mais do que provavelmente possas julgar. A amante do meu pai é minha amiga. Ouvi algumas histórias terríveis da boca dela. Sobre mulheres, na maioria amigas dela, e sobre as coisas que lhes aconteceram.
Tratava-se de uma confissão interessante, sobretudo vinda de alguém como ele. Normalmente, os cavalheiros da sua classe só pensavam neles próprios.
– Fico contente por saber que não me julgas muito duramente – disse.
– Não te julgo de forma alguma, minha querida. Na verdade, senti saudades tuas – declarou com um encolher de ombros atrevido.
– Mentira.
– É verdade – insistiu James. – Senti-me um perfeito idiota quando nos separámos e nunca mais deixei de pensar em ti desde que voltei. Interrogava-me constantemente se conseguiria descobrir-te caso me empenhasse a fundo, mas fui demasiado cobarde para o fazer. Achei que poderia bater à tua porta e apenas receber em troca um soco nas orelhas e uma ordem de despacho.
– Provavelmente pensaria nisso. Acho que deixei de ter paciência para idiotices, à medida que me torno mais velha.
– É uma das coisas que tanto aprecio em ti. Na verdade, desde a última vez que te vi, tive muito tempo para pensar e há muitas coisas a teu respeito que me cativam totalmente. É esse o motivo por que desejava falar contigo.
– Sobre o quê?
– Tenho uma proposta a fazer.
Anne revirou os olhos.
– Vamos lá ouvi-la.
– Bem, pensei… ah… talvez… – Aclarou a garganta. – Talvez pudesse convencer-te a tornares-te minha amante.
– Como?
– Minha amante – repetiu com um sorriso de orelha a orelha. – Nunca tive uma antes, mas se vou fazer uma coisa dessas, gostaria que fosse contigo.
Anne percebeu que abrira a boca e fechou-a rapidamente. Julgara que ele ia pedir-lhe uma volta rápida como recompensa por tê-la trazido a casa. Nem nos sonhos mais ousados imaginara uma coisa assim.
– Se estás a brincar comigo, peço-te que não o faças.
– Nunca falei mais a sério. Não tenho de forma alguma a riqueza do meu irmão, mas possuo um rendimento bastante elevado, se te preocupa como poderia desenvencilhar-me.
– Não, não foi isso. Estou apenas surpreendida. Depois desta noite, não consigo imaginar porque desejarias ter-me.
James estava tão emocionado por tê-la encontrado novamente que mal conseguia conter a excitação. Voltou a pegar-lhe na mão e murmurou:
– Disse que não te julgo, Anne. Estou a falar a sério.
Deus do céu! Ele parecia tão sincero, como se atribuísse significado a cada palavra! O coração começou a bater-lhe com força ante as possíveis consequências; no entanto, já não era uma menina assustada e inexperiente. Se isso acontecesse, ela teria de saber todos os pormenores de antemão, antes de concordar.
– Quais seriam as condições? – inquiriu cautelosamente.
– Essa é mais uma coisa que aprecio em ti – comentou com uma risada. – A tua franqueza.
– Imagino que te vá desgastar; à medida que me fores conhecendo.
– Duvido. Acho-a muito revigorante – disse, batendo ao de leve com um dedo nos lábios. – Bom, vejamos… Providenciaria todas as tuas necessidades.
– Define «necessidades».
– A tua casa própria ou também podes ficar aqui com a Maggie se te sentires mais confortável. Dinheiro, roupa, acessórios. Proporcionaria tudo o que precisasses.
– Por quanto tempo?
– Enquanto nos aguentarmos um ao outro? – Anne torceu o nariz e ele prosseguiu: – Já sei! Vou criar um fundo fiduciário em teu nome para que possas governar-te quando nos separarmos.
Anne já ouvira aquela mesma deixa antes e, na qualidade de mulher mais jovem e mais ingénua, acreditara. Mas agora não, quando tanta coisa dependia do que realmente ia fazer.
– Como sei que cumprirás a promessa? – indagou.
– É o problema nesse tipo de compromissos, não é? – disse, franzindo um pouco o sobrolho enquanto refletia. – Já sei. Vou elaborá-lo com um administrador que o vai gerir até ao momento em que disseres que precisas dele. Ordenarei ao meu advogado que trate dos papéis amanhã. És tu que escolherás o fundo. Tomarei disposições para que depois da transação finalizada, eu deixe de ter controlo sobre o dinheiro. O teu administrador fará os investimentos e encarregar-se-á de tudo até ao dia em que precisares do dinheiro. – Respirou fundo e deixou sair o ar, como se tivesse acabado de fazer uma longa corrida. – Que tal?
– O que teria de fazer em troca para ganhar o meu sustento? – quis saber Anne, ainda cética.
– Essa é a parte fácil. Serás minha amiga e minha companheira. Cuidarás de mim, encher-me-ás de carinho e deixarás que faça o mesmo por ti. E, sempre que te deitares comigo, mostrarás todo o afeto e alegria que conseguires reunir.
Susteve a respiração, pensando que talvez tivesse proposto o acordo mais importante da sua vida e interrogando-se sobre o que faria se ela o rejeitasse.
– Deixa-me ver se entendi bem – redarguiu Anne no tom mais severo possível. – Dás-me tudo o que sempre desejei e, em troca, tenho de dar-te paixão, amizade e felicidade.
– Isso praticamente resume tudo.
– O acordo é duro, St. Clair, mas acho que me rendi.
– Aceitas? – inquiriu timidamente.
– Sim, aceito, idiota! – Sorriu, achando que ele ficava adorável quando a olhava daquela maneira, com o seu próprio sorriso pleno de desejo e de malícia. – Gostarias de provar a mercadoria?
– Bem, estava à espera de que o sugerisses.
Com um movimento fluido, Anne deixou cair o roupão e saltou para o colo dele, enroscando as pernas em torno da cintura masculina, ao mesmo tempo que lhe cobria os lábios com um beijo violento e desesperado. – Não te arrependerás disso um único dia da tua vida.
– Nunca imaginei que o fizesse – reagiu James, virando-a de costas e assumindo o controlo.