Meu Único Amor

Cheryl Holt · Capítulo 12 de 31

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Meu Único Amor

Capítulo 11

 

Charles Billington recostou-se no cabedal macio do sofá e passeou casualmente o olhar pela sala escura forrada a painéis do seu clube. Graças a Deus que o seu irmão mais velho, o conde, era suficientemente generoso para pagar as suas quotas. Charles nunca conseguiria pagá-las por conta própria e o irmão sentia-se feliz por dispensar a quantia que lhe permitia continuar a frequentar o local.

A inscrição era uma necessidade financeira, pois a base do rendimento de Charles provinha de contactos com os outros membros. Muitos dos seus contratos de retratista provinham dos homens que conhecia e trabalhava duramente para ganhar dinheiro, pintando com diligência as suas mulheres e filhas.

Como o sétimo de oito irmãos e o quinto filho, Charles tivera de fazer algo para se permitir uma habitação própria, dado que o seu estilo de vida e gostos em nada favoreciam continuar a viver na casa da mãe. Embora o irmão não se mostrasse muito entusiasmado pela forma como Charles sobrevivia, sentia-se feliz por Charles raramente precisar da sua ajuda.

Quanto a Charles, saía-se bastante bem com a sua arte. Não era muito famoso mas tinha qualidade e gostava da pintura e da liberdade que o rendimento lhe proporcionava. A sua mãe, Lavinia, que adorava a excentricidade dos artistas e era, por conseguinte, uma patrona das artes, sentia-se tão satisfeita por ter um na família que toda a gente era obrigada a partilhar essa felicidade.

O facto de ser membro do clube também trazia outros benefícios, pois Charles nunca parecia ter dinheiro suficiente e recusava ir ter com o irmão de chapéu na mão, estando, assim, sempre atento a outros processos criativos de ganhar umas libras extras. Outros membros do clube tinham-se mostrado de vez em quando interessados nos seus vários esquemas e empreendimentos e havia tanto dinheiro a circular entre eles que Charles se sentia feliz por ajudá-los a gastar. Nas alturas em que os negócios corriam mal, os homens mostravam-se reservados, demasiado orgulhosos e envergonhados para partilhar os seus prejuízos financeiros com outros.

Pelo menos foi o que acreditara no passado. Infelizmente, dessa vez fizera a escolha errada. Robert, o seu parceiro atual, sentou-se agitadamente ao lado dele e Charles já tinha que chegasse das suas birras. Apenas desejava realizar os seus negócios com a maior discrição e decoro e a sua paciência com o rapaz esgotou-se.

– O que queres que faça? – perguntou a Robert com um sorriso bastante simpático e que levara anos a aperfeiçoar. Conseguia falar sobre quase tudo, sem que os outros percebessem a sua verdadeira opinião sobre o tema atual de discussão.

– Estou farto desse ar superior! – exclamou Robert. – Preciso do meu dinheiro de volta e preciso dele agora.

Na qualidade de segundo filho de um barão menor, ele era um jovem interessante, com cabelo preto e olhos azul-claros. As faces denotavam sempre uma cor saudável, mas ficavam muito coradas quando se irritava, como era o caso.

– Superior, eu? Já te disse o que aconteceu. Também perdi dinheiro e sinto-me bastante tenso.

Robert queria que Charles lhe devolvesse o dinheiro que investira, mas Charles simplesmente não o tinha. Jamais repetiria o erro de aceitar dinheiro de um jovem tão sensível.

– Não permitirei que me ignores – retorquiu Robert, cada vez mais agitado. – Não admito isso.

– Não estou a ignorar-te, Robert. Só não sei como explicar-te as coisas para que entendas. Agora, ouve bem: o investimento não foi bem-sucedido. O dinheiro foi-se e não podemos recuperá-lo. Esclareci todos os riscos antes de começarmos e, portanto, não sei o que mais esperas de mim.

– Preciso absolutamente de ter o dinheiro de volta! Preciso!

Nesse momento, o alívio estampou-se no rosto de Charles ao avistar o seu primo James a entrar na sala. Constituía a perfeita desculpa para se escapar.

– Está ali o James. Desculpa, mas teremos de retomar a conversa noutra altura.

– Vês… isso é exatamente o tipo de coisa… – lamuriou-se Robert.

– Controla-te já! – silenciou-o Charles com um olhar fulminante. – Não deixarei que me envergonhes aqui, sobretudo na frente de um membro da minha família. Desculpa-me.

Sem permitir que o jovem argumentasse, levantou-se e atravessou a sala na direção do bar, onde James já engolira o conteúdo âmbar do copo.

– Um jovem encantador! – sussurrou James, olhando discretamente para Robert.

– Acredita, primo, que as aparências enganam. – Estendendo o copo para que voltassem a enchê-lo, também sorveu a bebida de um trago.

– Será que noto algum desagrado?

– Uma sinfonia completa.

– Nesse caso, diria que cheguei na altura exata.

– Na altura exata para quê? – perguntou Charles.

– A verdade é que me encontro numa missão desesperada de caridade e és a pessoa indicada para me ajudar.

Charles soltou uma risada, interrogando-se sobre que esquema James tinha em mente. Havia indubitavelmente centenas de que haviam desfrutado juntos. Estava disposto ao que quer que fosse que o afastasse da presença de Robert.

– Sou todo ouvidos.

– Vamos raptar o Adam.

Tinham-no capturado várias vezes ao longo dos anos, sempre que sentiam que ele precisava de ser resgatado dos fardos das suas responsabilidades.

– De onde?

– De um sarau do duque. Quando saiu de casa, parecia um homem prestes a subir à forca.

– Esta semana, Penelope ainda não conseguiu prendê-lo, pois não?

– Ainda não.

– Graças a Deus – murmurou Charles.

– Mas ele passa demasiado tempo com ela, se queres a minha opinião. Pensei que devíamos agitar um pouco as coisas.

– Não duvido que ela tenha um ataque de raiva se o arrastarmos connosco.

– Pelo menos, assim o esperamos.

– Posso perguntar para onde vamos levá-lo?

– Um bordel. – Os dois homens abandonaram o bar e dirigiram-se às escadas para recuperar as capas, a caminho da carruagem de James. – É um lugar novo. Abre esta noite.

– Sim, já tinha ouvido falar. Estão a oferecer algumas diversões interessantes. Pelo menos foi o que me disseram.

– Exatamente o que o Adam precisa.

– Ele está danado, não está?

– Com o coração partido, diria.

– O quê? – surpreendeu-se Charles, sem saber se ouvira bem. Era difícil imaginar Adam consternado com algo… ou alguém. – Estás a brincar.

– Não, não estou. Lembras-te da rapariga de que te falei?

– A que conheceram nas férias?

– Sim. Ele voltou a encontrá-la e deu-se ao trabalho de torná-la sua amante.

Charles arregalou os olhos ao imaginar Adam a fazer algo tão contrário à sua personalidade.

– Quero mesmo conhecer essa mulher.

– Não vais conseguir. Ela recusou a proposta.

– Impossível!

– É verdade. Em seguida, desapareceu sem deixar rasto. – «E Anne também», quase acrescentou, mas mordeu a língua. Era inútil meter por esse caminho. – Desde então tem estado absolutamente insuportável.

– E estás a pensar aliviar-lhe o stresse… digamos?

– Isso ainda é o menos. Nos últimos dias quase não tenho conseguido aguentá-lo.

– Que seja o bordel, então.

 

– O que achas? – quis saber James, passeando o olhar pelo quarto privado e luxuosamente decorado do bordel. A dona, que tinha sido atriz na juventude, era uma mulher com quem James confraternizara ao longo dos anos e, quando ela decidira inaugurar um negócio, tinha recebido um convite.

Ante a pergunta de James, Adam acompanhou o olhar do irmão, examinando o que o rodeava. Tendo em conta alguns dos lugares para onde James e Charles o haviam arrastado ao longo dos anos, aquele era bastante simpático. No começo, ficara irritado quando lhe desvendaram para onde se dirigiam, mas as boas-vindas privadas e a decoração confortável tinham-no ajudado a descontrair. Fazia exatamente um mês que Maggie desaparecera e não tivera qualquer alívio sexual desde a breve noite de paixão que vivera nos braços dela. Umas horas de atividade sexual seriam uma diversão agradável.

Mesmo assim, negava-se a que os seus dois raptores soubessem que tinha aprovado.

– Acho que serve.

– Madame Barbara diz que podemos estar com quantas raparigas quisermos.

– Muito amável da sua parte.

– Primeiro, vai enviar a sua mais bonita e experiente colaboradora para começarmos da melhor maneira. Quer que passemos palavra aos nossos amigos de como nos divertimos.

– Deus do céu! – exclamou Adam. – Num abrir e fechar de olhos a nossa visita vai ser o tema de conversa da cidade.

– Já estou a ouvir – concordou Charles, acrescentando com uma má imitação de uma voz feminina: – O marquês de Belmont é um dos nossos clientes mais satisfeitos.

– Raios! – praguejou Adam, abanando a cabeça. – Vou-me embora.

– Não, não vais – opôs-se James com um olhar irritado. – Vais estar com todas as raparigas que for preciso para arrancares de vez Maggie Brown do teu sistema. Estou farto do comportamento que tens adotado.

– Que comportamento?

– Tens sido um perfeito idiota. Sei que falo em nome dos que contactaram contigo no último mês ao dizer que estamos todos pelos cabelos.

Era verdade. Adam mostrara-se mal-humorado, rude, grosseiro e mesmo cruel desde a noite em que soubera que Maggie tinha desaparecido. O seu comportamento piorara de tal maneira que até a mãe tinha notado e ela era tão egocêntrica que o facto de lhe ter chamado a atenção provava que a questão se encontrava fora da sua alçada.

– Se umas cambalhotas com algumas bonitas raparigas não te soltarem, não sei o que te soltará – vincou ainda James.

Nesse preciso momento abriu-se a porta do corredor para dar entrada a uma única mulher. Charles era o único que se encontrava de frente para a porta e, na sombra, não conseguiu ver-lhe o rosto, mas percebeu pelo balançar do fino roupão que não se tratava de uma criada.

– Acho que chegaram os refrescos – brincou.

Ao ouvir o comentário, a mulher soltou uma risada rouca.

– Constou-me que o cavalheiro estava com fome – retorquiu.

James e Adam partilhavam um macio sofá. Aproximando-se mais, a mulher deu uma volta por trás deles, passando-lhes um dedo pelos ombros. Por fim, chegou-se à frente do enorme sofá e ficou visível.

Se alguém estivesse a observar a cena, teria dificuldade em concluir qual dos indivíduos ficara mais surpreendido. Charles, Adam e James, todos a conheciam. E ela também os conhecia.

– Anne? – perguntaram Charles e James ao mesmo tempo.

– Miss Porter? – pronunciou Adam, incrédulo.

– Oh, meu Deus…! – exclamou Anne, levando as pontas dos dedos aos lábios.

James interrompeu o momento de tensão, levantando-se bruscamente.

– És mesmo tu, Anne?

– Sim, sou eu – confirmou, descaindo os ombros.

– O que fazes aqui?

– Estou a trabalhar – respondeu com um encolher de ombros, como se isso explicasse tudo.

– Aqui?

– Porque não? – redarguiu, tentando que a voz não lhe tremesse.

Pairou um silêncio insuportável sobre o quarto, tornando Anne dolorosamente consciente de que estava quase nua e de que os três homens a examinavam com vários níveis de surpresa e de indignação. Tinha apenas meias de vidro e chinelos com um roupão por cima e a parte da frente estava completamente exposta para avaliação, desde o rego dos seios ao montículo de pelos escuros entre as pernas. Puxou freneticamente as bandas do roupão, mas considerando que o tecido era bastante transparente, o movimento em pouco minorou a situação.

James, que de início ficara hipnotizado ao vê-la, levou um momento a perceber que ela estava nua. Em seguida, despiu o casaco e enfiou-lhe os braços nas mangas.

– Tapa-te – disse.

– Obrigada – sussurrou, baixando os olhos para o chão. Demasiado envergonhada para o fitar, desviou o rosto para Charles, que a avaliava com uma expressão bondosa, mas experiente. As lágrimas subiram-lhe aos olhos. – Desculpem, mas acho que não consigo fazer isto. Vou pedir à Barbara que mande outra pessoa.

Virou-se para sair, mas James rodeou-lhe a cintura com o braço e agarrou-a com firmeza antes que ela pudesse escapar-se. Encostou-lhe a face ao seu peito e roçou-lhe os cabelos, ao mesmo tempo que lhe percorria as costas de cima a baixo, como se estivesse a acalmar um cavalo nervoso.

– Cher, não vou deixar que fiques aqui – disse suavemente. – Quero que saias connosco – acrescentou, olhando para Charles para que ele confirmasse a sua decisão.

– Ele tem razão, Anne – disse Charles, assentindo com a cabeça. Conhecera-a há uns anos, quando ela era amante do amigo de ambos Stephen Frasier. Depois da morte de Stephen, nunca mais soubera qual fora o seu destino. Pensar que acabara naquele local! – Não podemos deixar que continue aqui!

– Mas está tudo bem. A sério – retorquiu, tentando parecer mais positiva do que se sentia. – É uma boa situação.

Na verdade, esperava que assim fosse. Contudo, aquela era a sua primeira noite e os três os seus primeiros clientes, portanto, quem poderia afirmar se as promessas de Barbara viriam a concretizar-se?

– Não pode afirmar uma coisa dessas – redarguiu Charles num tom de conforto. – O que diria Stephen se soubesse que estava a trabalhar num lugar destes?

A menção do nome de Stephen associada ao que se preparara para fazer era demasiado e começou a chorar em silêncio.

– Não tenho outro sítio para onde ir – sussurrou, baixando os olhos.

James, esmagado por aquela comovente confissão, inclinou-se e beijou-a na face.

– Vamos encontrar um sítio.

Até essa altura, Adam tinha-se mantido em silêncio, observando a troca de palavras. Por fim, levantou-se, juntando-se aos outros e perguntou num tom ríspido:

– Onde está a Maggie?

– Calma, Adam – advertiu James.

– Onde está ela? – Adam ignorou o irmão, concentrando-se totalmente em Anne. Ela fitou-o com os olhos cheios de lágrimas, mas, antes que pudesse responder-lhe, ele ergueu a mão para a deter. – Antes de responder, deixe-me avisá-la que, se me disser que ela está a atender alguém num desses quartos, não garanto que possa responsabilizar-me pelos meus atos.

– As coisas não são o que parecem.

– Miss Porter, estamos num bordel. Creio que tudo é exatamente o que penso.

– Ela está aqui, mas a trabalhar como criada. Nada mais.

– Onde?

– Provavelmente no andar de cima. Ou talvez esteja lá em baixo, na lavandaria. Pode ter de perguntar a alguém.

Adam desviou o olhar furioso de Anne para James.

– Leva Miss Porter para a carruagem. Vou procurar a Maggie e encontramo-nos lá.

Anne abanou a cabeça, interrogando-se porque ficava o indivíduo tão furioso sempre que se tratava de Maggie.

– Duvido que ela saia consigo.

– É o que veremos.

 

Maggie bateu à porta do quarto de Monique. Uma vez, a segunda, e ainda uma terceira, como lhe tinham ensinado. Não obteve resposta. Entrou bruscamente no quarto particular da prostituta, carregada de água fresca e de toalhas. Com uma eficiência aprendida recentemente, começou a arrumar, preparando a visita do próximo cliente de Monique. A mulher não armara grande confusão com o cliente anterior, portanto, não havia muito que fazer. A colcha nem sequer estava mexida, o que a levou a interrogar-se sobre qual fora a exigência do cavalheiro.

De vez em quando, questionava-se sobre o que aconteceria nos quartos luxuosamente decorados, mas tentava não pensar demasiado nisso. Não colhia nada de bom, pois o que quer que Monique acabasse por fazer aproximava-se bastante do que Anne teria de fazer no quarto dela, no piso inferior. Maggie pedira especificamente para trabalhar numa zona diferente do bordel para não ter de se cruzar com Anne nessas ocasiões.

Viram-se muitas vezes durante os dias que antecederam a grande inauguração, mas Maggie sabia que isso mudaria assim que o negócio arrancasse. O bordel tinha uma hierarquia definida e Maggie, na sua categoria de copeira, encontrava-se indubitavelmente no degrau mais baixo. Os horários de ambas também seriam um pouco diferentes. Maggie trabalharia sem parar, lavando roupa durante o dia e encarregando-se do serviço de quartos à noite. As prostitutas, que eram consideradas como pertencendo ao escalão superior dos funcionários, trabalhariam toda a noite e descansariam de dia, levantando-se ao final da tarde, apenas para cuidar do cabelo, da pele e preparar a lingerie para a noite seguinte de clientes.

Com um último olhar em redor do quarto de Monique, Maggie decidiu que estava tudo em ordem. Queria começar com o pé direito, mostrando-se extremamente meticulosa quanto às necessidades de cada mulher, pois sabia melhor do que ninguém como era difícil encontrar um emprego e queria conservar este, independentemente de já estar desgastada com o trabalho. Imaginava como se sentiria dali a algumas semanas ou meses depois de manter o ritmo extenuante.

O salário era mínimo e, portanto, nunca seria capaz de economizar algum dinheiro, mas, pelo menos, tinha comida e cama, embora o quarto que partilhava no sótão deixasse muito a desejar. A exígua divisão começara por estar limpa e arrumada, mas com uma dúzia de jovens a habitá-lo, era impossível mantê-lo assim. Não havia privacidade.

Já lhe tinham roubado alguns dos seus magros pertences, o que logo destruiu quaisquer ilusões que pudesse acalentar quanto a estabelecer amizades com as companheiras. Até então nada era como imaginara e o otimismo que pudesse ter tido em relação ao futuro, esfumara-se há muito.

Dois tipos de passos soaram no corredor. Nenhum deles se parecia com os de uma mulher e Maggie já tinha sido avisada frequentemente pelas outras raparigas para nunca ser apanhada no andar de cima por um homem desacompanhado. Naquele caso pareciam ser dois. Antes que tivesse tempo de se interrogar sobre o que estavam a fazer ali, dado que pessoas do sexo masculino supostamente não tinham permissão de vaguear pelas salas do andar de baixo desacompanhados, um dos homens entrou no quarto de Monique.

Olhou rapidamente em volta, enquanto Maggie se mantinha quieta e calada encostada à parede do fundo, esperando manter-se invisível na penumbra. Mesmo do canto oposto do quarto, chegava-lhe o cheiro forte a álcool. Os homens estavam bebidos.

– Ela está aí? – perguntou o que ficara no corredor.

– Não, aquela cabra. Quando a encontrar… – Parou ao pousar os olhos em Maggie. – Bem, bem, o que temos aqui?

Tentando agir como se tudo estivesse normal, baixou a cabeça, parecendo constrangida.

– Desculpe, sir. Não sabia que a Monique tinha um visitante à espera. Vou dizer-lhe que está aqui – disse, avançando para a porta, com a esperança de fugir rapidamente.

O homem agarrou-lhe o braço.

– Não me parece que tenhamos de esperar pela Monique. – Entrou no quarto, puxando-lhe as nádegas contra a sua parte da frente e imobilizando-lhe os braços atrás das costas. – O que achas, Harry?

– Que podemos desfrutar da Monique noutra altura – respondeu Harry estendendo a mão e passando-a pela face de Maggie, em seguida pelo pescoço, até lhe tocar nos seios.

A jovem ouviu o estalido da fechadura nas suas costas. Tentou distanciar-se do toque desagradável, mas o amigo de Harry segurava-a com muita força. O aperto doloroso expôs totalmente o peito a Harry, que estava de pé, diante dela. Ambos riram e, pelo olhar que trocaram, percebeu que uma coisa terrível estava para acontecer. Sentia-se assustada, mais do que alguma vez na vida, mas recusou mostrá-lo.

– Por favor, sir – implorou. – Se não voltar ao trabalho, perderei o emprego.

– Pensa nisto como sendo uma promoção – disse Harry, ao mesmo tempo que lhe punha as mãos na cintura e ela começava a debater-se.

– Não passo de uma jovem, de uma virgem – mentiu, percebendo imediatamente que cometera um erro, pois a confissão apenas servira para os excitar mais.

– Ouviste isso, George? – Harry soltou uma risada perversa. – O raio de uma virgem. Deve ser a nossa noite de sorte.

– Uma virgem? Num bordel? Imagina só!

A madame avisara-a de que não lutasse se uma coisa daquelas acontecesse. Na altura, Maggie quase não prestara atenção, sem lhe passar pela cabeça que algo de tão horrível pudesse ocorrer. Embora a mulher tivesse provavelmente dado o conselho com boa intenção, não estava de forma alguma disposta a deixar que os homens levassem a sua avante, sem lhes dar luta.

Soltando um dos braços, balançou o punho com a máxima força que conseguiu e acertou num dos lados da cabeça de Harry, o suficiente para lhe chamar a atenção. Os olhos do indivíduo fulminaram-na de raiva.

– Com que então, minha gatinha, gostas à força, não é? Também eu. Agarra-a bem – ordenou, fitando George.

– Quero ser o primeiro a estar com ela.

– Não, não. Esse privilégio é todo meu. – Levou os dedos às calças e Maggie começou aos pontapés, quase lhe acertando nas partes vitais. Parecendo mais irritado do que qualquer outra coisa, agarrou-lhe nos tornozelos, prendendo um deles que usou como alavanca para lhe apartar as pernas.

Gregory manteve-lhe os braços imobilizados atrás das costas, enquanto Harry se movia entre as pernas dela, colocando-as à volta da sua cintura. Maggie gritou a plenos pulmões e ele esbofeteou-a com força, o suficiente para a levar a ver estrelas e ela nada mais desejava do que afundar-se no chão e enroscar-se numa bola, mas não houve tempo.

A sensação de uma mão a avançar pela parte de dentro da sua coxa trouxe-a de volta à realidade. A orla da saia foi erguida até à cintura e uma mão tateou, lutando por se enfiar por dentro dos culotes, tentando tocá-la onde apenas Adam lhe tocara até então. Apertou as pernas com força, na esperança de impedir o que se seguiria.

No início, estava tão imersa no momento que não percebeu o que estava a acontecer. Ouviram-se pancadas fortes na porta, depois um estrondo seguido de um ruído surdo e de pontapés. Alguém emitiu um grito horrível quando um golpe lhe acertou e viu-se liberta e caindo no chão. Desorientada e confusa, tentou rastejar, mas dois braços musculosos envolveram-na, antes que pudesse escapar. Começou novamente a lutar, dando pontapés e gritando.

– Para! Para com isso, Maggie! – repetiu a voz várias vezes.

– Não – insistiu, revoltada, tentando libertar-se dos braços que a prendiam.

– Maggie, sou eu, o Adam. Está tudo bem.

O nome de Adam, pronunciado de uma forma tão firme e calma, foi a única coisa capaz de atravessar o pânico e trazê-la de volta à realidade. Deixou imediatamente de lutar e desfaleceu contra ele. Todo o corpo lhe tremia. Atrás dele, conseguiu ver os dois atacantes caídos por terra. Os dois estavam a gemer. George tinha a cara feita num bolo ensanguentado e aparentemente o nariz estava partido.

– Oh, meu Deus!... – Levando os dedos aos lábios, fitou os olhos escuros de Adam, uns olhos tão familiares e amados. – As outras raparigas disseram-me que não lutasse, mas tinha de fazê-lo. Não podia deixar que eles…

– Chiu! Está tudo bem. Não tentes falar.

– Acho que vou vomitar.

Face ao aviso, Adam mudou-a de posição e ela vomitou várias vezes em cima do tapete quando ouviu passos apressados no corredor.

– Lorde Belmont? – Era a voz da dona do bordel. – O que aconteceu?

As palavras de Adam soaram abafadas aos seus ouvidos latejantes. Era qualquer coisa sobre ataque e canalhas. Maggie olhou em volta e avistou dois homens corpulentos que arrastavam Harry e George para fora do quarto. Mal se foram embora, Adam ergueu-a e sentou-a em cima da cama, onde ela se equilibrou na beira. Apenas o braço dele agarrando-lhe o cotovelo com firmeza impediu que deslizasse para o chão.

– Esta mulher é minha amiga – disse à dona do bordel num tom que não admitia réplica. – Ela vai sair comigo.

A dona do bordel olhou para um e para outro e, embora momentaneamente desse a sensação de que iria protestar ou queixar-se, ficou muito séria ao perceber que não valia a pena questionar qualquer ação que o marquês resolvesse levar a cabo.

– Muito bem.

– Traga-lhe uma capa e mande embalar as coisas dela. Alguém virá buscá-las.

A mulher foi-se embora e ele baixou os olhos para Maggie com uma expressão indecifrável.

– Lamento muito – retorquiu Maggie. Eram palavras inadequadas e pronunciadas num fio de voz, mas tremia demasiado para pensar em algo melhor.

– Merecias que te deixasse aqui – disse ele por entre dentes, enterrando-lhe os dedos nos ombros. – De entre todas as ideias estúpidas, idiotas, perigosas… – Faltou-lhe o ar ao mesmo tempo que o medo e a raiva cediam lugar a uma onda de gratidão por ter conseguido chegar a tempo de salvá-la.

Precisando senti-la a salvo e perto dele, colocou-a de pé e envolveu-a nos braços. Embalou-a com suavidade enquanto lhe beijava o cabelo e sussurrava:

– Vai ficar tudo bem, agora vai ficar tudo bem. – Repetiu a frase vezes sem conta até o tremor abrandar. – Deixa-me cuidar de ti. Deixa-me cuidar de tudo.