Meu Único Amor

Cheryl Holt · Capítulo 4 de 31

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Meu Único Amor

Capítulo 3

 

Maggie fitou o oceano. As águas eram de um azul luminoso, refletindo o bonito céu de maio. Quase não se via uma nuvem a pairar e que estragasse a perfeição do dia encantador. O vento ainda não começara a soprar e uma suave brisa ondulava, afastando-lhe somente um pouco o cabelo das faces, mas chegando para resfriar o ar quente. Lá em baixo, uma pequena praia isolada brilhava, tentando-a a que enterrasse os pés na areia fria. Sem hesitar, começou a descer o trilho bem definido que levava à costa.

Tinha ido à praia algumas vezes, quando a mãe vivia um espaço entre as relações e necessitava de descansar das suas preocupações na cidade. Ficavam sempre na Tidewater Inn, o lugar onde Rose passara férias uma vez com Harold Westmoreland, o duque de Roswell. Embora a sua ligação com o duque tivesse acabado de uma forma horrível, continuara a gostar do local. Era lá que Rose encontrava aparentemente o conforto de que precisava durante as suas curtas estadas. Regressavam a Londres com a mãe cheia de ideias e de planos sobre como conseguiriam outro rendimento, sobre como encontraria outro amante.

Depois da morte de Rose, parecia apropriado que Maggie e Anne fizessem o mesmo, embora, agora que George estava decidido a correr com elas da casa, não pudesse deixar de achar que o dinheiro que tanto se tinham esforçado por poupar devesse ser usado para um fim mais prático. Como o aluguer de um mês num apartamento que fossem habitar.

Ao chegar ao fundo do trilho, afastou os pensamentos angustiantes. De qualquer maneira, o dinheiro estava gasto, a viagem de carruagem e a reserva da estalagem haviam sido pagas antecipadamente e, portanto, não seriam reembolsadas. Anne dissera que não valia a pena preocuparem-se e, como habitualmente, tinha razão. Além disso, não mereciam um pouco de descanso depois do que haviam suportado no ano anterior? Rose era a única família que Maggie e Anne tinham no mundo e a morte dela fora prolongada e dolorosa. Não era decerto indecoroso que tirassem uns dias para retomar o fôlego antes de passarem à fase seguinte das suas vidas.

Felizmente estava sozinha na praia. Erguendo os olhos para o trilho que acabara de descer, não avistou ninguém que a tivesse seguido. Na colina inclinada, onde a Tidewater Inn se encontrava oculta por árvores e rochas, não havia ninguém a observá-la de qualquer dos bancos. Mesmo que assim fosse, pouco lhe importaria.

Sabia-lhe tão bem estar liberta do sufocante traje de luto. O vestido verde-claro de algodão leve era fresco e confortável. Descalçou as sandálias e pousou-as em cima de uma rocha grande; depois, levantou a saia e deu um nó na bainha para que as pernas ficassem expostas até acima dos joelhos. A modéstia impediu-a de ir mais longe e, por esse motivo, conservou as meias de vidro.

Correu pela areia e soltou uma leve exclamação quando os dedos dos pés apanharam o rebentar de uma onda que depois recuou. A água oferecia um frio contraste com a amena temperatura do ar e gritou de surpresa e de alegria. A correnteza puxava-lhe os pés; ela recuou de um salto, calculou quando a espuma branca do mar voltaria a avançar ao seu encontro e depois correu na sua direção. Brincou ao toca-e-foge vezes seguidas, enquanto corria para a água e depois recuava e se punha a salvo. Ocasionalmente, o oceano apanhava-a, encharcando-lhe as pernas e a orla da saia.

Indiferente ao sol brilhante e ao efeito que teria na sua pálida compleição, desatou as fitas do chapéu e atirou-o para a areia, onde ele flutuou até ao chão. Com a cabeça descoberta, voltou até junto da água, usufruindo a carícia do vento que a despenteava e lhe punha a roupa em desalinho. Fechou os olhos e inclinou a cabeça para trás. De braços estendidos, rodopiou em pequenos círculos, ordenando que os fardos dos meses anteriores fossem engolidos pela maré vazante.

 

Adam mantinha-se de pé no trilho e observava divertido. Quando saíra da estalagem uns minutos antes, a praia lá em baixo parecera deserta e pensou numa tarde tranquila, a passear sozinho. O desapontamento ao verificar que não estava sozinho foi de curta duração, pois sentiu-se intrigado e encantado com a jovem mulher que se divertia tão ingenuamente. A rapariga achava sem dúvida que ninguém a observava e, portanto, era o cúmulo da grosseria espiá-la daquela maneira, mas não se conteve.

Devia ter havido qualquer altura da sua vida em que também saboreara tão simples e totalmente um momento assim, tal como a jovem que tinha diante dos olhos, mas não se lembrava de quando isso podia haver ocorrido. Em criança, não tivera férias de verão alegres. Viajara com a mãe até às várias propriedades que possuíam no campo, mas as viagens nunca foram de lazer. Tudo se resumira a trabalho e estudos intermináveis. A mãe nunca achara apropriado que a criadagem o visse a brincar e, portanto, aguentara uma vida inteira sentado na sala de aulas, a ouvir professores, a fazer os trabalhos, aprendendo a gestão das vastas propriedades da família.

James, sem qualquer preocupação de título ou de reputação, passara a juventude a divertir-se e a causar problemas. Quando Adam se lembrava dos ciúmes que sentira na juventude quanto às liberdades do irmão mais novo, era surpreendente que tivessem sido capazes de cultivar uma amizade em adultos.

Como desejava saber a maneira de se juntar à jovem mulher na praia. De lhe agarrar na mão enquanto chapinhavam nas ondas. James saberia como; não hesitaria, mas Adam não conseguia imaginar-se a fazer algo tão frívolo.

Em vez disso, ficou a observar, deliciando-se com a indubitável alegria da jovem que corria lá em baixo e lhe oferecia uma visão encantadora. O vento aumentara e soltara-lhe os alfinetes do cabelo que pendeu numa maravilhosa cascata castanha-clara sobre as costas. A brisa brincou com o fino tecido do vestido simples, moldando-lhe o tronco, deixando muito pouco a nível de imaginação, ao ressaltar os seios fartos, os mamilos ainda mal percetíveis, a superfície lisa do estômago, o montículo do sexo, um pouco da coxa. Ela desnudou ousadamente a barriga das pernas e a exibição proporcionou-lhe um ar sedutor, como se tivesse acabado de desfrutar de uma brincadeira com o amante, ou talvez, o esperasse.

Adam não conseguia acreditar que aquele pensamento o excitara. James tinha sem dúvida razão. Passara decididamente muito tempo sem uma mulher.

Sacudindo a cabeça ante a sua estupidez, decidiu voltar noutra vez para não interromper o momento de solidão relaxante da mulher. Ao virar-se para ir embora, viu pelo canto do olho que ela tropeçava e caía. Parou quando ela dobrou a perna e observou a planta do pé. Mesmo à distância, viu o sangue começar a correr pela meia rasgada e a pingar na areia. Devia ter pisado uma concha ou qualquer objeto cortante.

Sem hesitar, desceu apressadamente os últimos degraus do trilho e saltou para a areia.

– Olá! – saudou, acenando, e, em seguida, fazendo uma pausa para não a assustar.

– Olá! – correspondeu ela num tom prudente.

Sabendo que nesse momento ela estaria preocupada com a sua vulnerabilidade, quis tranquilizá-la e assim ficou onde se encontrava.

– Parece que se feriu.

– Sim. Pisei qualquer coisa aguçada.

– Posso ajudar? – Ela hesitou. – Estou hospedado na estalagem ao cimo da colina. Talvez possa ser útil.

A referência à estalagem pareceu acalmar o medo que ela pudesse sentir quanto às suas intenções. Esboçou um sorriso deslumbrante.

– Também vou ficar lá – confidenciou enquanto o fitava numa rápida tentativa de avaliação de caráter. Ele estava vestido casualmente com calções e botas, embora as roupas fossem de ótima qualidade e não conseguiu deixar de se interrogar sobre quem seria. Talvez se tratasse do secretário de qualquer cavalheiro ou algo do género e não de um desconhecido ameaçador, mas, fosse como fosse, parecia alguém capaz de ajudá-la com o seu dilema atual. – E, sim, acho que preciso de ajuda.

Adam deu mais um passo, e depois outro, movimentando-se pela areia. Quando ficou ao lado dela, pôs-se de joelhos, apoiando as mãos nas suas coxas. Vista de perto, era ainda mais bonita. O cabelo emitia uma miríade de luzes ressaltadas pelo brilho do sol e, ao sorrir, mostrava duas covinhas, uma de cada lado das faces. Tinha o nariz coberto de sardas, uma pele suave e pálida, o nariz levemente arrebitado e lábios de um rosa-avermelhado. Apertava o lábio inferior entre os dentes.

Embora aparentemente ainda não tivesse completado vinte anos, estava longe de se assemelhar às jovens com quem bebia chá em salões elegantes. Emanava uma personalidade calma e pacífica que parecia provir do íntimo, como se tivesse visto e passado por muitos momentos difíceis na sua curta vida, o que a tornara mais forte.

Era muito estranho, mas sentiu-se melhor só por estar na sua presença.

– Então… qual é a gravidade? – perguntou.

– Só olhei de relance – admitiu ela, corando. – Sinto-me uma idiota, mas não suporto ver sangue.

– Posso ver? – perguntou, apontando para o ferimento.

A jovem torceu o nariz e em seguida desviou o olhar, estendendo o pé na direção dele, enquanto pensava em como o momento se tornara rapidamente chocante. Encontrava-se sozinha numa praia deserta com um desconhecido que era, de longe, a criatura mais bonita com que alguma vez se deparara. Era alto, de ombros largos, ancas estreitas e pernas inacreditavelmente altas. Tinha o cabelo castanho-escuro, quase preto, um pouco mais comprido do que era apropriado e um pouco encaracolado sobre as costas.

Uma madeixa caía-lhe sobre a testa, oscilando entre duas grossas sobrancelhas, ressaltando as linhas austeras do rosto. Os olhos eram de um castanho acentuado, parecendo tão escuros como o cabelo à luz do dia e, quando os fitou pela primeira vez, percebeu que eram os olhos de um homem solitário. Havia rugas de preocupação nos cantos dos lábios, um ar de cansaço e de tristeza. Sabia, de alguma forma, que raramente sorria e não conseguiu impedir-se de pensar no motivo, nem de como ele seria devastadoramente bonito se o fizesse.

As mãos que agarraram no pé eram grandes e fortes, os dedos compridos e esguios, e ele envolveu-os no tornozelo, erguendo-lhe suavemente o pé, para que o calcanhar assentasse na sua coxa. Nunca um homem lhe tinha visto os pés e muito menos lhe tocara de uma forma tão íntima. Com as saias erguidas, as pernas apenas tapadas pelas meias de vidro, e apoiada nos cotovelos, sentiu-se totalmente devassa.

Se Anne pudesse vê-la naquele momento!

Ele deslizou a palma da mão ao longo da pele coberta pela meia de vidro e invadiu-a o estranho desejo de que lhe beijasse o pé. Exatamente na curvatura.

O próprio pensamento era tão chocante que emitiu uma onda de desejo anteriormente desconhecida e nunca experimentada ao longo das pernas até ao âmago da sua feminilidade. O toque da pele dele era quente e agradável e fez com que corasse novamente. Ficou contente por estar a olhar para o lado, passando assim despercebida.

Adam pousou o calcanhar dela na sua perna e tentou desesperadamente ignorar a posição íntima que surgira entre ambos. As pernas femininas faziam jus ao resto do corpo, longas e esguias, e invadiu-o o estranho pensamento de como seria tê-las à volta da cintura. Baixou os olhos para o pequeno pé que segurava na mão, apenas a uns escassos centímetros da virilha, e não conseguiu afastar a fantasia de que o pressionava onde mais desejava ser tocado. A imagem provocou-lhe uma ereção.

Felizmente, a jovem estava distraída, olhando na direção da água, embora, mesmo que o tivesse fixado, decerto uma criatura tão inocente jamais perceberia os indícios de desejo que lhe despertava.

Forçando-se a uma concentração na tarefa, observou a planta do pé, que estava um desastre. O corte era profundo e grave, a meia tinha-se rasgado e embebido na ferida e toda a zona se apresentava cheia de areia, conchas e sangue seco. Devia doer-lhe muito e a situação ia piorar porque provavelmente necessitaria de ser cosida.

– O que acha? – inquiriu ela num tom rouco que lhe trouxe uma imagem de lençóis de seda e pequeno-almoço na cama.

Adam sacudiu a cabeça para afastar o pensamento. O que tinha aquela rapariga para lhe causar tal reação?

– Parece-me com bastante mau aspeto.

– A sério?

– Sim. Receio que necessite de uns pontos – respondeu, lamentando as palavras mal lhe saíram da boca.

Ela soltou uma exclamação, totalmente assustada com a perspetiva. Nunca tinha levado pontos e parecia-lhe uma coisa terrível.

– Tem a certeza?

– Bom, não – mentiu, sem querer assustá-la mais do que o fizera –, mas devemos ligar a ferida para estancar o sangue e depois subir a colina. Deve haver alguém na pousada ou na vila que possa examiná-la e proceder a uma melhor avaliação.

Ela desviou o rosto da água e fitou-o em vez de observar o pé. Os olhares cruzaram-se sem se afastarem e Maggie sentiu um forte desejo de pousar a palma da mão no rosto dele, dizer-lhe que tudo correria bem, embora não tivesse ideia do motivo por que lhe ocorrera esse pensamento. Algo na forma como se comportava transmitia a ideia de que carregava o peso do mundo sobre os ombros.

– Não tenho nada com que atar a ferida – disse ela.

– Nem eu, receio bem. Talvez possamos rasgar um bocado da combinação.

A jovem voltou a fixar os olhos na água e em seguida sussurrou:

– Não trago nenhuma.

A noção de que havia tão pouco a separar-lhes os corpos provocou uma nova onda de desejo nas suas virilhas. Ergueu o rosto para o céu.

– Ajuda-me, Senhor! – gemeu baixinho.

– O que disse? – retorquiu Maggie virando a cabeça e encontrando-o calmamente sentado, mas fitando-a como um gato olhando a presa antes de dar o salto.

– Disse que talvez pudesse ajudar-me, dando-me uma das suas meias.

– Está a sugerir que me dispa?

– Não, não – respondeu Adam corando ante as suas palavras, como se ela lhe tivesse lido o pensamento. Nada lhe agradaria mais do que ver aquela beleza totalmente nua, mas estava disposto a contentar-se com um pouco da perna à mostra. – Na verdade, a meia do seu pé ferido está embebida no corte e, à medida que o sangue seca, uma parte cola-se à ferida, o que ainda tornará mais dolorosa a remoção quanto mais esperarmos. Pensei que talvez pudéssemos tirá-la agora e depois usá-la para ligar o corte.

Maggie fez uma pausa, decidindo que a ideia era credível.

– Acho que tem razão. Devíamos fazer isso. Vire a cabeça. – Adam moveu-se um pouco. – Mais. E nada de espreitar!

Ele obedeceu e virou-se um pouco mais, demasiado longe para poder ver algo de interessante, mas suficientemente perto para sentir o que ela fazia. Os seus pensamentos eram pura agonia.

Quase como se fosse a mão dele a subir pela perna para desapertar a liga, sentiu a saia a cair, revelando uma sedosa extensão da parte interna da coxa. Seria macia e quente. Ele cheiraria um pouco do almíscar. Aproximar-se-ia mais, depositaria um beijo na pele suave, voltaria a beijá-la, mais e mais acima, até…

– Ai! – Maggie arrancou-o ao devaneio lascivo a que se entregara. Puxara a meia para baixo à volta do tornozelo e tentava afastá-la do corte.

– Deixe-me fazer isso – ordenou.

Inclinou-se para diante, libertando terna e cuidadosamente o pedaço de tecido colado à pele. Acabou por conseguir e fê-lo escorregar pelos dedos dos pés, levando muito mais tempo do que o necessário. enquanto saboreava a parte da perna exposta. A barriga da perna era macia e esguia, coberta com uma leve penugem loira. Tinha uns pés pequenos e delicados.

Com a meia rendada na mão, foi incapaz de resistir a percorrê-la pelos dedos. O tecido ainda estava quente pelo contacto com a pele. Desprendia um pouco do seu cheiro e teve de resistir à tentação de encostar a meia à face. Mudou-lhe a posição do pé entre as coxas para o estabilizar. Ela ficava mais confortável, mas era mais doloroso para ele, dado que os dedos do pé pairavam uns escassos centímetros acima do local onde ele desejava verdadeiramente que estivessem.

– Vai doer! – avisou.

– Está bem – disse ela.

– Tentarei não magoar – prometeu Adam, sem conseguir acreditar até que ponto aquela inocente troca de palavras engendrou um momento muito diferente e decididamente carnal.

Começou lentamente, ligando-lhe o pé, sem deixar de notar a fina qualidade da meia de renda. A jovem devia ter dinheiro para ser dona de uma roupa interior de tanta qualidade. Não foi a primeira vez que se interrogou de quem se tratava. Um frémito de emoção percorreu-o ao decidir que era possível que ela fosse a filha de um nobre que fora escondida no campo – uma jovem que nunca tinha conhecido. Embora conhecendo a sua sorte com as mulheres, era sem dúvida mais provável que fosse a filha de um comerciante rico.

Maggie notou a forma como ele reparava na sua meia de vidro rendada. A sua mãe, que nunca poupava no essencial, usava sempre a roupa interior da melhor qualidade, insistindo em que uma mulher da sua posição nunca sabia quando seria necessário despir-se a qualquer momento. Dado que seduzir era a sua profissão, gastava sempre uma boa parte do seu parco rendimento nas mais belas sedas italianas e rendas belgas.

Quando Rose tinha morrido, Maggie começara a usar alguns desses exóticos itens, gostando do seu toque na pele. Certamente a rainha não usava roupa interior de tão fina qualidade.

– Que desperdício de belas rendas! – lastimou Adam, examinando a mancha de sangue e o rasgão no fundo.

Maggie não conseguiu pensar em nenhuma maneira delicada de trocar impressões sobre a sua roupa íntima. Em vez disso, conseguiu perguntar:

– Já acabou?

– Quase. – Usando as duas extremidades da meia, deu um nó seguro na parte superior do pé. – Está muito apertado?

– Não. Sinto-me bem. – Balançou ligeiramente o pé e em seguida fez uma careta de dor. – Talvez nem tanto – acrescentou. – Mas a ligadura está ótima. Obrigada.

Incapaz de resistir, pousou a mão na parte de trás do tornozelo dela e acariciou a barriga da perna até onde se atreveu. Verificou, surpreendido, que ela não protestou com a sua incrível violação das boas maneiras, e foi subindo quase até ao joelho, adorando a pele macia, e o calor que ela irradiava.

Maggie não conseguiu erguer os olhos de onde ele a massajava em pequenos círculos, mesmo abaixo e atrás do joelho. O gesto emitiu uma onda de prazer que percorreu a parte traseira das coxas, continuando pela espinha até os cabelos parecerem arrepiar-se. Forçou-se a procurar o olhar dele. Adam inclinara-se sobre ela, com o rosto a uns escassos centímetros de distância, e fitava-a com tanta intensidade que ela começou a sentir borboletas no estômago. De súbito, invadiu-a a sensação de que ele desejava beijá-la, o que era sem dúvida ridículo.

Talvez não fosse tão despropositado. Anne jurou que se apaixonara por Stephen mal se tinham conhecido e insistiu que tais coisas eram possíveis. Maggie afastou esses devaneios, interrogando-se sobre o que aquele encantador cavalheiro pensaria se adivinhasse as suas ideias eróticas. Beijá-la era provavelmente a última coisa que tinha em mente.

– Violeta – sussurrou ele.

– O quê?

– Os seus olhos. São violeta. Estava a pensar.

O coração de Maggie saltou-lhe no peito. A mãe protegera-a de avanços ousados e por isso tinha muito pouca experiência a nível de homens, sobretudo com alguém tão elegante como o desconhecido ajoelhado na sua frente.

Sem saber que resposta dar, engoliu em seco e disse:

– Não sei se consigo pôr-me de pé.

– Permita que a ajude a equilibrar-se.

Adam estendeu uma das mãos, em seguida rodeou-lhe a cintura com a outra, adorando a desculpa proporcionada para lhe tocar de uma forma mais íntima. Inclinou-se sobre as ancas, depois ergueu-se e levantou-a com ele. Por um breve instante, ela balançou e ele acolheu-a, com o corpo estendido ao longo do seu. Sentia cada centímetro da jovem, os seios fartos, o ventre liso, o montículo suave do sexo. Com todas as fibras do ser, teve de resistir a passar a mão da cintura para as nádegas femininas, pressionando-a contra a sua ereção.

Quebrou o contacto entre ambos, sem querer que ela suspeitasse da sua excitação.

– Não se apoie no pé – avisou.

– Não o farei.

Maggie ergueu o rosto para os seus belos olhos – uns olhos orlados de longas pestanas negras ainda mais compridas do que as dela. Que ligação estava a sentir com ele? Sabia que era correspondida. Embora sem experiência, não ignorava as artes da sedução. Naquele breve momento de contacto físico, tinha a certeza de que ele ficara excitado. Sentia-se ansiosa por regressar à estalagem e falar com Anne.

Tocou cautelosamente com o pé no chão, percebendo que não podia andar, mesmo que quisesse. Ergueu os olhos para a falésia, virou-se para ele e suspirou:

– Como conseguirei chegar lá acima?

Se a pergunta tivesse sido colocada por uma das mulheres que namoriscava com ele nos salões londrinos, abanaria a cabeça ante o truque óbvio. Aquela jovem era tão falha de maldade, mostrava-se tão preocupada, que ficou entusiasmado com a oportunidade de desempenhar o papel de cavaleiro de armadura reluzente.

– Minha bela donzela. Terei simplesmente de ajudá-la.

Juntou o gesto às palavras e ergueu-a nos braços.

– O que está a fazer? – perguntou ela, ofegante, enquanto um dos braços dele balançava atrás dos seus joelhos e o outro lhe segurava a nuca.

– Vou levá-la até lá acima.

– E o meu chapéu? E os meus sapatos?

– Mandarei alguém vir buscá-los. – Ao ver que ela se preparava para ripostar, acrescentou num sussurro: – Envolva-me o pescoço com os braços. – Ela hesitou e ele disse num tom convincente: – Não se preocupe. Prometo que não a deixarei cair.

A possibilidade de que a deixasse era a última coisa que tinha em mente. O olhar com que a brindava fazia com que parecesse diabólico. O patife era demasiado encantador para seu próprio bem.

Obedecendo ao pedido, ela moveu-se um pouco e colocou os braços nos seus ombros. A posição empurrou um dos seios contra o peito masculino e, quando Adam começou a andar na direção do trilho da praia, cada flexão dos músculos causava uma maravilhosa fricção contra o mamilo da jovem. Maggie nunca tivera uma sensação idêntica que lhe provocou um formigueiro no estômago. Teve de lutar contra todos os reflexos do corpo que lhe pediam para se arquear contra ele como um gato a espreguiçar-se.

Adam transportou-a com facilidade; ela era muito leve. Apertou-a mais e com mais força do que o necessário, adorando a sensação do seio contra o seu peito e da anca ajeitada contra o seu ventre. Enquanto subiam até ao topo da pequena colina, permitiu-se divagar sobre como ela ficaria sem roupa: linda, esguia, com seios de mamilos rosados, uma cintura fina, quadris curvilíneos. E todo o belo cabelo castanho-claro tombando em cascata sobre os ombros e pelas costas.

Alcançou, pesaroso, o topo do penhasco e os relvados bem cuidados da pequena pousada, sem saber se teria uma desculpa para voltar a ver a jovem depois de a entregar aos cuidados de outras pessoas. Um jardineiro avistou-os imediatamente e, depois de ter recebido rápidas instruções, correu para a sala principal da estalagem. Quando Adam entrou com a jovem nos braços, o dono já se encontrava a aguardar ao lado de uma cadeira. Adam sentou-se com ela ao colo.

– A jovem fez um corte no pé – disse ao proprietário. – Há um cirurgião na zona?

– Não, sir, mas a minha mulher faz curativos e é muito competente, se permite que lho diga.

Antes que Adam tivesse tempo para a mandar chamar, ela entrou na sala. Era uma mulher baixa e robusta que se ajoelhou na frente deles.

– Como fez isso, Miss Brown? – perguntou, erguendo o rosto para a jovem.

– Pisei uma concha ou qualquer coisa assim na praia. Este amável cavalheiro… – Hesitou, fitando-o. – Desculpe, mas nem sequer sei como se chama.

– Aston Carrington – mentiu Adam sem hesitar, usando o nome falso sob o qual se tinha registado com James.

– Como está, Mister Carrington? O meu nome é Magdalina Brown.

– Muito prazer em conhecê-la, Miss Brown.

Maggie sorriu-lhe e em seguida desviou o rosto para a proprietária da estalagem.

– Mister Carrington teve a gentileza de ligar o corte e ajudar-me na subida do trilho.

– Vamos lá examiná-la. – A mulher expôs cuidadosamente o ferimento, dando estalidos com a língua enquanto o observava. – Oh, arranjou aqui um bonito trabalho!

– Precisará de ser cozido? – perguntou Adam.

– Só de uns pontinhos – respondeu, dando uma palmadinha no joelho de Maggie. – Espere um momento, querida. Vamos limpar e tratar disso num abrir e fechar de olhos.

Maggie gemeu ante as palavras da mulher e Adam apertou-a com mais força. A mulher saiu da sala e voltou rapidamente, munida de uma pequena mala de primeiros socorros, toalhas, água, uma bacia e ligaduras.

– Beba isto, querida – disse, estendendo um copo a Maggie.

– O que é isso? – perguntou ela, torcendo o nariz ante o cheiro, embora soubesse muito bem do que se tratava. Era impossível ter passado o ano anterior à cabeceira de uma moribunda sem o saber.

– Apenas um pouco de láudano.

Maggie hesitou e Adam pegou no copo e levou-o aos lábios dela.

– É para seu bem, Miss Brown.

Incapaz de recusar quando ele a olhava daquela maneira, ela engoliu rapidamente o líquido.

– Que sabor horrível! – exclamou com um arrepio.

Por qualquer motivo inexplicável, ele sentiu um impulso irresistível de a confortar. Optando por não resistir, sussurrou:

– Está a ser muito corajosa!

– Não me sinto nada corajosa, mas sim apavorada.

– Continue a olhar para mim. Vamos passar por isso juntos – disse ao mesmo tempo que lhe pegava na mão, apertando-a.

Com a toalha na mão, a dona da estalagem ajoelhou-se na frente de Maggie, limpou a ferida e em seguida preparou a agulha e a linha. Ergueu os olhos para Adam e abanou a cabeça, indicando que estava pronta.

– Vou precisar que a agarre bem e não deixe que se mexa.

– Não olhe – disse ele a Maggie. Encostou-lhe delicadamente o rosto à curva do seu pescoço, onde sentia a respiração quente pulsando na sua pele. – Estarei aqui consigo.

– Obrigada. – Quando a dona da estalagem espetou a agulha e deu o primeiro ponto, Maggie respirou fundo e susteve a respiração. – Isto dói – disse baixinho para que só ele pudesse ouvir.

– Eu sei, pequenina, mas não tarda a acabar. Surpreso e estupefacto pela emoção que sentia pela jovem, depositou-lhe um beijo ao de leve no cabelo e apertou-a com força nos braços, segurando-a como se pudesse absorver a dor. Nunca em toda a sua longa vida se lembrava de ter desejado confortar alguém daquela maneira. Era uma nova e maravilhosa experiência.

A dona da estalagem revelou-se eficiente e deu os seis pontos e ligou a ferida, antes que os dois dessem pelo que se passara.

– Vamos levá-la para a cama – disse a Maggie com um sorriso. – Qual é o quarto?

– O número cinco. À esquerda, no cimo das escadas.

A dona da estalagem foi à frente e deu uma pancada leve na porta do quarto. Anne abriu a porta e surpreendeu-se quando a mulher recuou para dar passagem a Maggie, transportada nos braços de um dos homens mais bonitos que Anne alguma vez tinha visto.

– Oh, céus! O que aconteceu? – inquiriu ao ver a ligadura no pé de Maggie.

– Uma coisa ridícula – disse Maggie com um gesto destinado a afastar preocupações.

Adam pousou-a na cama enquanto Anne ajeitava as almofadas.

– Ela pisou qualquer coisa pontiaguda lá em baixo, na praia – esclareceu.

– Aston salvou-me – disse Maggie com um sorriso e usando o seu nome próprio. Já a sentir os efeitos do láudano, tinha esquecido as regras da etiqueta.

– Aston Carrington – mentiu novamente ao apresentar-se a Anne. – Encontrava-me casualmente por perto, depois de ela se cortar.

– Anne Porter – disse Anne, correspondendo ao sorriso e examinando-o atentamente. O indivíduo parecia-lhe muito familiar e estava a tentar situá-lo mentalmente, mas teve o cuidado de não dar essa ideia. – Obrigada, sir. Maggie é a minha melhor amiga. Não imagina o quanto lhe agradeço tê-la ajudado.

– O prazer foi meu – redarguiu ele. – Maggie estava sob o efeito do láudano e ele fez um gesto para que Anne se afastasse da cama. A sua curiosidade levou a melhor e perguntou: – Os pais dela estão hospedados aqui?

– Não, sir. Não tem pais. Sou toda a família que ela tem no mundo.

– Entendo. – Contudo, não entendia e a resposta apenas serviu para lhe espicaçar mais a curiosidade. – A dona da estalagem deu-lhe seis pontos e uma dose de láudano. Ela precisa de descansar e de não se levantar durante alguns dias.

– Que deceção! – suspirou Anne. – Só estamos aqui para umas curtas férias. Temo que isso vá arruinar em grande parte a sua diversão.

– Se precisar de alguma coisa, o meu irmão e eu estamos no quarto número dez.

– Não me esquecerei e mais uma vez obrigada. Agradeço tudo o que fez.

Em seguida, e sem que lhe ocorresse uma razão para ficar mais tempo – afinal, ele e Maggie eram dois estranhos – aproximou-se da cama e disse-lhe baixinho:

– Virei vê-la amanhã de manhã.

– Gostaria – respondeu ela com um sorriso satisfeito.

Sem se conter, inclinou-se para a frente e beijou-a ao de leve na testa.

– Descanse bem, pequenina.

Envergonhado e confuso devido aos sentimentos de ternura que o coração albergava, despediu-se de Anne e saiu.

Anne fechou a porta atrás dele e ergueu as sobrancelhas, surpreendida, enquanto se ocupava a fazer com que Maggie se sentisse confortável, embora a amiga já tivesse adormecido.

– Então, minha menina – sussurrou –, o que encontraste por ti própria?